
Antes de Mirella aparecer naquela manhã de primavera, ele estava contando os meses para deixar a pequena cidade de Pomares, mas agora era diferente: Mirella estava ali à sua frente, ao lado do portão, deslumbrante, com o sorriso solto, envolta por uma densa neblina, mas, ainda dava para ver seus lábios, finos, sem batom. A jovem o olhava e ele retribuía ao mesmo tempo em que desviava os olhos. Ela chegou a sorrir enquanto fitava e ele quase chorou diante da invalidez que o impedia da aproximação. Era uma imagem impactante. Mas, ele já sentia que havia algo entre eles, uma atração que não conseguia explicar. Precisava se aproximar, tocar-lhe às mãos, entender o que estava acontecendo, se tudo aquilo era real ou se coisas surreais estavam sendo geradas pela sua fértil imaginação. Mas, para se aproximar, teria que enfrentar o seu próprio medo e a timidez que travava seus passos e o emudecia; Carol, a empregada, supersticiosa, ao vê-lo estático junto à porta compreendia o seu sentimento. Sabia que desde a morte de sua mãe trancava-se no quarto para manusear o computador e vagar pelo mundo virtual à busca de um elo perdido e que, se o encontrasse, talvez mudasse o seu comportamento e o modo de ser.
Será que havia algum segredo, um tipo de segredo que não deveria ficar oculto por muito tempo, estocado num lugar qualquer, próximo a um rio, a um lago, a um jardim florido, num espaço qualquer, terrestre ou sideral, um tipo de segredo que poderia mudar a sua vida? Ah, havia sim, poderia, mas, infelizmente, não conseguia decifrar...
O portão se abriu e mal pode esperar para convidá-la a sair de Pomares, uma cidadezinha pacata construída longe de tudo e no meio do nada. Ele morava com seu pai e a empregada Carol, que agia mais como se fosse sua madrasta. O pior, é que ela lia vários livros no afã de escapar da realidade e ter sonhos estranhos como os de Bizuca, como os daquele jovem que sempre aparecia rente a sua janela, um jovem pelo qual ela se dizia apaixonada, só que, jamais conseguiu tocá-lo, como acontecia entre Mirella e Bizuca Cortez. Neste ponto estavam empatados. Eram apenas sonhos.

O sentido de toda essa introdução é falar um pouco sobre a timidez e, como membro assumido dessa espécie humana, venho aqui, sem pestanejar, de peito aberto e no afã de revelar aos meus irmãos de infortúnio, como aprendi a burlar em alguns momentos essa perversa e rigorosa timidez. O tímido para existir precisa trapacear sua própria condição e ao navegar sobre o mar de suas incertezas poderá até se tornar um náufrago de si mesmo, não obstante saber que a parte mais emocionante de sua vida acontece no espaço da sua imaginação. Ali, nos recantos verdes onde ele depositava diariamente seus sonhos e daqueles que conseguem sonhar sonhos imaginários, os tímidos se tornam Reis, arrebatadores de corações. Foi andando nesse mundo onírico e utópico, passando por caminhos pincelados pela natureza, sem pedras, sem pó e espinhos é que me senti capaz de ir ao encontro de alguém que certo dia me fixou os olhos. Eu chegava cheio de ginga, fazia charme, versejava palavras sem nexo, decorava-as, pensava antes de falar e até ousava cantar, para, finalmente, conseguir sugar de seus lábios o néctar das flores e matar um desejo ancestral.
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