
Quais dos
filhos não se lembrariam daquele pequeno ônibus onde ela, juntamente com eles,
deixou a pequena cidade de Morrinhos, em busca de um novo lar, de uma vida
melhor na Capital. Pela estrada de chão, esburacada, o ônibus seguia célere
deixando para trás uma poeira fina que se esparramava com o auxílio do vento,
apagando imagens de um passado como se nela tivesse sido impregnada a borracha
do tempo, e lá dentro, sacudidos pela trepidação, outros passageiros também
sonhavam com um mundo melhor, mas, receosos de não conseguirem alcançarem os
seus intentos seguiam silenciosos. Pela fresta da janela passava o vento que
acariciava o seu rosto triste, mas não impedia que sua mente contabilizasse os
quilômetros emplacados estrada afora, e de forma sutil, seus olhos ainda tinham
a sensibilidade de contemplar a natureza, cujos vales, serras e montes iam
passando velozmente à medida que o veículo seguia rumo ao seu destino. O seu
semblante jovem transpirava dor e saudade do esposo que falecera de forma trágica,
no entanto, mesmo assim, soube manusear as rédeas do destino, frear e
puxar o cabresto que construiu usando cordas de ternura que acostava aos
filhos, para, no momento certo, poder puxar, exigir ou se recusar, até de forma
obstinada, qualquer coisa que lhe contrariasse ou entristecia seu coração.
Naquele
ônibus, antes de afundar no seu mar de sonhos Carolina sabia que mais adiante,
mesmo sem teto, não poderia se curvar diante das adversidades que surgiriam,
pois teria que sustentar e agasalhar nove filhos, talvez, fazendo
faxinas em residências ou usando os carrinhos da vida para buscar peças de
roupas em bairros distantes, lavá-las no tanque da integridade e pendurá-las no
varal da vida sob um sol escaldante. Tempo em que talvez não tenha
contabilizado; tempo que lhe consumiu o corpo e fez aparecer
os primeiros cabelos brancos protagonizados por este
mesmo tempo.
Carolina
viu os seus filhos crescerem imbuídos de responsabilidade, honestidade,
dignidade e respeito ao ser humano. Carolina que mesmo doente se preocupava com
tudo, cuidava de todos com esmero e carinho, servindo-se de modelo para seus
filhos, netos, bisnetos e tataranetos, fazendo-os entender que o amor faz gerar
sorrisos e que amar significava querer mais e mais de uma pessoa. Ela foi
assim: sempre procurou ensinar corretamente, de forma que todos pudessem
compreender os seus próprios sentimentos, quando na verdade, poucos
compreendiam e, muitas vezes, lhe pedia aquilo que não podia dar.
Ontem, 15
de novembro, quando se completou cinco anos de sua “passagem” para outra
dimensão, ela continua pulverizando sobre todos que a rodeavam, o amor e
virtudes. Foi com ela o sorriso angelical; foi com ela o jeito simples de fazer
crochê e tapetes que eram montados com retalhos de tecidos multicoloridos; foi
com ela a vontade férrea de viver; foi com ela a batuta que regeu, como um
maestro, a vida de cada um de seus filhos, tudo embalado pela sinfonia de sua
própria vida. Mãe Carolina, seus filhos reconhecem que você deixou um legado de
carinho, amor ao próximo e virtuosidade, por isso é que todos a consideram uma
guerreira. Mãe desculpe por escrever este texto como se eu fosse um
escriba, todavia, o fiz assim para poder registrar nos anais da história a sua
vida e ao final dizer-lhe: Mãe Carolina, você foi uma guerreira, amparou os
seus filhos, me transformou num homem justo, ensinou-me o caminho da retidão e
a defender os injustiçados. Caros leitores, ao finalizar, eu não poderia deixar
colocar uma frase que vi num calendário: “Há muita dor que precisa ser curada,
há muito choro sufocado, há muita injustiça para ser vencida. Em
tudo isso, a certeza de que só Deus é a resposta. Deus não explica a dor, mas,
na cruz, ressuscita a esperança e o amor”
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