Amigo leitor (a)

Amigo leitor (a). Quando lemos um livro, ou qualquer texto, publicados ou não, que são sinônimos do prazer, por mais simples que forem, sejam reais ou surreais, nos permite exercitar a nossa memória, ampliar nossos conhecimentos e nos faz sentir as mais diversas emoções, por isso, sensibilizado, agradeço a sua visita ao meu Blog, na esperança de que tenha gostado pelos menos de um ou que alguns tenha tocado o seu coração. Noutros, espero que tenha sido um personagem principal e encontrado alguma história que se identificasse com a sua. PARA ABRIR QUALQUER CRÔNICA OU ARTIGO ABAIXO É SÓ CLICAR SOBRE O TÍTULO OU NA PALAVRA "MAIS INFORMAÇÕES. Abraço,Vanderlan

Detrás da sombra de nossos sonhos.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Tempos idos os pais não se preocupavam se o seu filho poderia sair sossegado à noite, assistir filmes e shows musicais; andar sem medo pelas calçadas, pois naquele tempo não existiam pivetes, assaltantes, usuários de drogas e traficantes. Não se importavam com a filha que ia a pé ou de ônibus até a escola ou outro destino qualquer?! Naquele tempo, ao lado de uma agitação que era considerada como normal tudo se passava sem grandes sobressaltos. A televisão que era em preto e branco, não mostrava cenas horripilantes como hoje e são repetidas sem a anuência do telespectador, tudo em nome da mídia. Adultos e adolescentes caminhavam pelas ruas de madrugada, sem medo de serem felizes, cantavam para as estrelas e nem ouviam os roncos de motores, buzinas ou latidos de cães. A cidade era pacata. Hoje tudo é diferente. E para pior, é claro. Podemos enumerar uma série de vantagens, mas na certeza de que o sol hoje não brilhará como antes. As fumaças que saem das queimadas, chaminés, veículos, sobem aos céus e tapam-lhe os seus olhos flamejantes. O céu, que outrora se apresentava estupidamente azul, claro e limpo, hoje se encontra coberto de poeira e gases carbônicos, produzindo o efeito estufa que o deixa ruborizado. As nuvens, nem se fala, quando caem, trazem borrascas inesperadas e incontidas.

Ainda me lembro dos dias em que passeava nos parques, provando deliciosas maçãs do amor, pipocas e o famoso refrigerante Grapette, à sombra das árvores que o tempo permitiu crescerem e hoje, pela insensatez humana, muitas foram derrubadas e em seu lugar, construíram famigerados parques de diversão, prédios e condomínios de luxo. Que bem fazia aquela sombra fresca durante o solstício de verão que parecia querer esconder detrás dela os meus sonhos de menino.

Fora daquele parque dos sonhos vivia o autoritarismo e a ditadura. Talvez fosse verdade e até ocorria poucos casos de homicídios e crimes hediondos, mas já passaram alguns anos e hoje o que mais há são casos desses. Vivemos num país onde o crime acontece todos os dias e em toda a parte. Assaltam-se bancos explodindo caixas eletrônicos, assaltam postos de gasolina, e roubam dos seguranças mal treinados suas armas, estupram crianças e ainda constatamos a existência de rixas entre gangs e de crime organizado; filhos matam pais e vice versa; mulheres são espancadas pelos maridos e pessoas são assassinadas sem pena ou dó e o criminoso, insensível, parece sentir prazer de ouvir o gemido do desafeto; assaltam-se carros de valores e ninguém é culpado de nada. O que se nos dá a conhecer é o outro lado da questão. Empolga-se o caso deste ou aquele criminoso estar doente, ter sido atingido por uma bala ou saber a razão pela qual aconteceu ter-se atingido mortalmente um rapaz que estava associado a um assalto. Só falta começarmos a defender os criminosos e a condenar os que sofrem na pele às arbitrariedades dos assassinos e assaltantes.

Ninguém se sente seguro em lado algum. Já não falo de políticos e afins, pois esses andam sempre com guarda-costas. Tem grana para pagar e o pior, é que sai de nosso bolso. Por outro lado, é justo pararmos no sinaleiro e ter receio de um assalto e ainda dar dinheiro ao elemento para alimentar o seu vício. Temos consciência de que muitos caixas de banco são explodidos no Brasil e com a maior das facilidades. Eles nem se preocupam. O banco está com apólice de seguro e o pior, que quem paga o prejuízo somos nós. Podem notar que tudo o que é mau, acontece ao Brasil, e rapidamente. O pior é que ninguém faz nada. O combate deveria ser eficaz, rápido, duro e desmotivador para quem estivesse a pensar fazer alguma malandragem. A segurança é urgente e necessária. Não podemos andar numa insegurança total pelas ruas das cidades, esperando ser atacado por alguém que sabe nada vai lhe acontecer, mesmo que seja apanhado. Pagam uma mísera fiança e fica solto. A impunidade não pode ser prêmio de criminosos, não importa qual seja o crime.

Afinal onde está a segurança? Que País é este que de um dia para o outro se transformou de tal forma que mais parece uma penitenciária, onde existe um amontoado de gente e tudo acontece. Mata-se, estupra-se, droga-se, ninguém se importa ou interfere. E o Poder Público onde está?  É com muita pena que tenho de admitir que detrás da sombra de nossos sonhos, parece existir um amontoado de sentimentos frustrantes, depressões, desamor, confrontando-se com sentimentos de amor, amizade, paz, todos eles comuns à humanidade como um todo, e o fio êmulo, resistente, que talvez ainda os unam no espaço sem luz ocupado por um corpo opaco, todos deveriam se agarrar e ao serem amparados pelo bastão da benevolência, procurar encenar no palco da vida um novo modelo para sociedade para que ela se torne mais justa, humana e fraterna... Aliás, se isso não acontecer, nem o sol e a lua voltarão a brilhar como antes e as árvores milenares morreriam mesmo com as chuvas de verão.

Até a sombra o abandonou

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Hoje, faz meses que ela o abandonou. Tempos idos quando caminhava juntos ele sentia uma vontade danada de conversar com pessoas que passavam pelas calçadas e ruas da cidade. E a sua sombra era alegre, assim como ele, que se encontrava de bem com a vida. Era filho de gente abastada e fazia da sombra o que bem queria. Brincava com ela usando as mãos, sinalizando gestos grotescos diante de lâmpadas que se refletiam no branco muro da mansão. Aos transeuntes, ele sem ao menos fazer autocrítica, perguntava se estavam entusiasmadas com a vida, às outras, menos afortunadas, indagava se estavam felizes com seu emprego, se viviam bem com a família, com os filhos e se invejavam dos sucessos dos amigos. Mas, brincadeiras à parte, certo dia alguém que se dizia amigo lhe enveredou pelo mundo das drogas e por mera brincadeira, cheirou o maldito pó. Uma brincadeira que lhe custou caro e o tornou viciado, perdeu tudo que tinha, até sua própria sombra. Meses se passaram e não conseguia se livrar da droga indo parar na sarjeta; começou a perambular pelas ruas sem rumo, sem destino certo. Sua mente embaralhava, a cada baforada aumentava as alucinações, enxergava coisas estranhas que jamais imaginara ver. De tanto matutar cansou e sem a sombra, sua única companheira, sentiu-se desnorteado, perdido no mundo do seu próprio ser. Ela que o acompanhou, lhe ajudou a minimizar as alegrias e tristezas e repetia prazerosamente nas suas andanças gestos precisos e imprecisos, agora jaz na escuridão. Ela sabia tudo sobre ele, e em certos momentos, parecia querer lhe alertar sobre o seu modo de vida e o fio de esperança que ainda lhe restava: Deus. E foi nesse fio, mesmo dominado pela droga, que tentou se agarrar para viver seus últimos dias, mas, incrédulo, não conseguiu conversar com ELE. Achava que era tarde demais! Lembrou-se dos tempos idos, do amor de sua mãe, do saudoso pai que lhe deixou como herança o tino para o trabalho; lembrou-se da prosperidade, onde acreditava na sua capacidade de trabalho, de vencer o invencível, de construir o sucesso, de transformar a realidade e viver a bonança. Tempo em que conseguia deixar de lado todo o negativismo, o ceticismo, abandonar a descrença e entusiasmar com tudo que acontecia, mesmo quando não havia luz para refletir a sua rica sombra, e principalmente, entusiasmar com alguém importante que hoje passa pela calçada e vê que não é sombra, é real, mas, certo de que uma o acompanha e se refletirá diante de quaisquer luminosidades, ou em dias de sol ou em noites enluaradas. Mas, para ele era realmente tarde demais. Não tinha religiosidade, não conseguia libertar-se das drogas e os prostíbulos era seu ninho, e aí, começou a viver no mundo profano e se arrastar pelas calçadas como a um lixo humano.

Nos últimos dias, ora sob o sol causticante, ora sob chuva torrencial, algumas pessoas passavam, desdenhavam dele, desviavam o olhar, lhe ignoravam, e outras, nem o viam ou se faziam de cegos; as mais imbecis diziam: "não cheguem perto, pois este homem é usuário de droga e parece que nem sombra tem”. Diante daquelas palavras, olhou para a calçada e confirmou que ela não estava lá. Talvez se envergonhasse dele, pois era uma sombra que acostumara com sua elegância nos tempos de prosperidade. Era imponente e os seus gestos logicamente refletiam a sua soberba, a sua presunção, a sua arrogância e o seu modo metido de ser. 

Deitado debaixo da marquise, quase inconsciente, alguma força estranha ainda o fez arregalar os olhos. A doçura de uma voz de mulher, vestida de avental branco. Começou a tocar-lhe e disse: "Senhor, coma este alimento, você está tão frágil”. “É bom alimentar, pelos menos te ajudará a minimizar as dores”. Nem soube como, mas lágrimas saíram rolando pelo seu rosto, e mesmo quase desfalecido, concordou. Tomou aquela sopa e dada a sua fraqueza, engoliu vagarosamente e nem sentiu a picada da injeção que ela lhe aplicara. Ainda lúcido, foi levado a um albergue e, colocado sobre a cama, ele nem mais se importava se havia sol ou lua para trazer sua sombra de volta e nem pensava em saber o porquê teve que nascer se o mundo não lhe queria... Sabia que não mais veria a sua sombra e que naquele dia fatídico ou no dia seguinte poderia ser o seu fim... (Átila, dois dias depois, deixou este mundo por uso excessivo de cocaína e crack).  Com a própria saúde na UTI, urge à família, à sociedade organizada e ao Poder Público implantar uma política eficaz de atendimento ao dependente químico e apoio aos seus familiares, assim como o combate ao tráfico de drogas e a prevenção ao uso dessas substâncias.

Juarez, o Doutor Caipira e os Foliões de Malhador.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


A Folia de Reis é uma festa religiosa, Segundo o livro de Mateus (2, 1-12), os magos eram sábios que vieram do Oriente, guiados por uma estrela, para adorar o Deus Menino em Belém. Especula-se que eles não eram reis, cada um com características próprias e também não se sabe o número exato. Existe lenda dentro da própria lenda, coisas entre os três Reis Magos, mas que nunca interessaram aos festeiros. Esta festa se tornou uma grande celebração para a igreja. Em toda Europa, é feriado no Dia de Reis, e em muitos lugares, os presentes são distribuídos apenas no dia 6 de janeiro. 

No ano passado fui convidado para assistir o Encontro da Folia de Reis de Malhador no Condomínio de Chácaras de Alta Vista, Senador Canedo, que acontece no dia 06 de janeiro pelo terceiro ano consecutivo. Por incrível que pareça, confesso, foi à primeira vez que vi de perto aquele belo trabalho de louvação ao Divino Espírito Santo através da cantoria e sons específicos. Uma das características da festa é a diversidade, cada cultura, cada cidade tem costumes e tradições diferentes, de acordo com as peculiaridades da região, e Malhador não é diferente. Em cada rosto via a satisfação e a necessidade de compartilhar a amizade que ali nascia e o desejo de saírem juntos em peregrinação, seguindo a estrela guia criada pela imaginação de cada um até o encontro do Menino Jesus. Logo à frente, um palhaço, cuja função simbolicamente, é proteger o Menino Jesus, e com suas peraltices confundir os soldados de Herodes. Diz à lenda que aos palhaços cabia o papel de pedir aos donos das casas visitadas, os donativos para a festa. O anfitrião pode, em contrapartida, exigir que algum serviço seja feito em troca dos donativos. Todavia, no caso da Folia de Reis de Malhador, pequeno vilarejo perto da cidade turística de Pirenópolis, o anfitrião e responsável pela festa, é o médico ginecologista Juarez Antônio de Souza – o doutor caipira, que assumiu todos os ônus da festa, tanto em razão da herança deixada pelos seus pais José Antônio Sousa e Maria Serafim de Sousa, como pelo seu amor à arte e ao folclore. São companheiros os foliões, os sanfoneiros: Meire Minadaks, Izá e Ediberto; os violeiros Valdivino, José Rafael, Sebastião e Antônio; no pandeiro o Cílio; no cavaquinho, o Orlando; no reco-reco, o Romes; no tambor ou caixa, a Ana Machado; de cujo grupo hoje eu tenho a satisfação de fazer parte, assim como, outros ases da cultura e do folclore de Goiás. Também foram convidados para aquela linda festa a escritora Elizabeth Abreu, o prof. Alvaro Catelan e Sônia Ferreira, os escritores e folcloristas Bariani Hortêncio e Prof. Jadir, e outros importantes membros da cultura, música, arte e folclore de Goiás.

Encantado, vi seguir em forma de procissão pessoas devidamente uniformizadas, à frente, a alferes Tamires, conduzindo a bandeira que representa a autoridade espiritual dos foliões, e estes, pelo que se conhece, não podem ser ultrapassados por ninguém. Atrás, sob a batuta musical do Mestre Juarez, cantando canções compostas pelo próprio grupo, seguiam as pessoas da comunidade e convidados. O candidato a integrar um grupo de Folia de Reis, tem obrigações e deveres que iniciam com a submissão às ordens do Mestre, e alguns grupos chegam a ter um código de ética escrito e aceito pelos membros. 

O percurso é feito sempre iniciando pelo lado direito de tal modo que, de casa em casa a companhia de Santos Reis aproximam-se do local da recepção final, quando o Alferes e equipe despojam-se de seus materiais e os guardam na casa. Quando eles vão embora, se despendem, repetindo os gestos da chegada (Despedida).  Em algum momento da festa, é feita a Passagem da folia para o novo alferes. Foram anfitriões, além do Dr. Juarez e esposa, os casais Beto e Priscila, Alvaro Catelan e Cláudia.

Quando falo da folia iniciar o seu percurso pelo lado direito é uma superstição ligada à festa que vem desde os tempos idos. Antigamente, as pessoas não entendiam a maior parte dos fenômenos naturais, e então, costumavam atribuir suas causas a determinados fatos, e esse costume foi transferido através de gerações sem nenhuma fundamentação científica, e hoje em dia, as pessoas sabem disso, mas por via das dúvidas... As crendices listadas a seguir referem-se à festa dos Santos Reis. Por exemplo: A bandeira não deve fazer um formato de cruz por onde ela já passou: Se isso acontecer, alguém da folia morre. Se for preciso atravessar uma cerca de arame, os instrumentos não devem passar por baixo da cerca, para que não percam o som. No Dia de Reis, algumas famílias costumam escrever o nome dos três reis magos em um pedaço de papel branco e colocá-lo na porta de entrada da casa, para que haja durante todo ano, fartura, saúde e felicidade. Há também uma simpatia, feita com romã, no dia 06 de janeiro em que a família se reúne para rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria, depois, cada um pega três caroços de romã, põe na boca para sorver o sumo da fruta, um a um, e depois embrulha em um pedaço de papel para guardar na carteira durante o ano inteiro, para não faltar dinheiro. A cada semente embrulhada deve-se repetir “São Belchior, São Gaspar e São Baltazar. Não deixe o dinheiro faltar”. A cada ano, as sementes antigas devem ser jogadas em água corrente. A folia não pode voltar pelo mesmo lugar de onde veio Os andarilhos não passam por baixo de varal de roupa.

E o mundo não acabou...

domingo, 30 de dezembro de 2012


Muitos estavam esperando pelo fim do mundo que teoricamente, poderia ter acontecido no dia 21 de dezembro de 2012. Até eu que me encontrava de férias e teria que voltar no dia 21, me deixou confuso e aí perguntei a mim mesmo: será que terei que trabalhar somente até às 11 horas? E como vou receber meu salário se o mundo acabar? E minha conta bancária? O mundo da economia girou em minha mente e enxerguei muitas perdas. Lembrei-me do meu amigo que comprou um carro a prazo. Será que vai ficar livre das prestações? E uma amiga que marcou a data do casamento para o dia 22, será que terá que comemorar sua lua de mel antes do dia 21. E o Papai Noel receberá seu salário no dia 25? E a nossa “semaninha” como ficará? E a chefa, será que vai tirar suas férias em janeiro? E o Breno não vai precisar distribuir processos para a alegria dos Doutores Jorge, Antônio, Joaquim e Isa? É complicado lembrar-se de fim do mundo. Mas está escrito no calendário Maia. Ah, então, quão felizes deveriam estar os presos que iam receber o indulto de Natal e saber que não mais voltariam às celas. Ah, quão felizes deveriam estar os condenados pelo STF que ficariam livres das penas impostas, pois não as cumpririam se o mundo acabasse. Ah, quantas pessoas que ficariam livres das dívidas e hoje choram pela farsa do fim do mundo. Ah, quantas outras situações pessoais, espirituais, amorosas, hipocrisias, seriam resolvidas com o fim do mundo. Felizmente, para essas pessoas, existe uma série de fatores que passaram despercebidos até mesmo pelos olhos mais críticos e céticos do planeta. Uma imagem começou a circular por blogs e redes sociais, mostrando que, se fôssemos levar em consideração o calendário maia, o mundo já teria acabado. Parece que ocorreu um erro de cálculo, não acrescentaram os anos bissextos. Não obstante isso, se você achava que o mundo ia acabar,  bom, provavelmente poderia estar certo.  Afinal, um dia, tudo acaba. E, se não cuidarmos da natureza, se nenhum grande asteroide gigantesco atingir a terra antes, como mostram os filmes, ou se não acabarmos nós mesmos com o planeta em guerras nucleares, ou em alguns milhões de anos o Sol se distanciar da Terra e esfriar, é claro que todos os seres vivos morrerão e não mais existirá vida na Terra. Com ela ficará depois de tudo isso, só Deus sabe.

De acordo com o discutido calendário Maia, o dia 21 de dezembro de 2012 marca o fim de um ciclo de 5.125 anos e está ligado a desastres naturais. Alguns estudiosos afirmam que o encerramento do período pode significar o fim do mundo, com terremotos, tsunamis e enchentes em diversos locais da Terra, mas isto já vem acontecendo há milhares de anos. Em face do tão propalado fim do mundo em 2012, a questão que se colocava é se teria algum fundamento ou não as afirmações de alguns que anunciavam através da mídia, “o juízo final”, o “Apocalipse”, o “Armagedom”, o fim de um ciclo ou o fim de uma era, como quiser chamar. Até eu, preocupado com a devastação e poluição atmosférica, escrevi dois artigos intitulados de “Começo do Apocalipse I e II”, todavia, me baseava nos desastres naturais que a terra vinha e vem sofrendo. Mas falava em começo e não fim. Entendia que, embora alguns não conseguirem voltar atrás nas suas decisões prejudiciais a natureza, o importante é saber que eles ainda têm tempo para consertar o estrago, de tentar um novo começo e delinear um novo fim. Não o fim do mundo anunciado para o dia 21 que levou em conta as crenças de diversas civilizações como os Maias, os Celtas, os Egípcios e profetas como Nostradamus que fizeram alguns chegarem à conclusão de que o fim estava próximo, ou pelo menos o mundo da forma como o conhecemos. 

É certo que já por várias vezes se apontou esta ou aquela data como a do Juízo final. Lembro, por exemplo, da crença quase generalizada de que o mundo iria ou acabar ou sofrer uma enorme transformação quando da entrada em 2000. Ia dar uma pane geral. Pois bem, nada aconteceram, a não ser o aumento da criminalidade aqui e ali, a perda de valores humanos crescentes e os atentados terroristas de 11 de Setembro e de 11 de Março, assim como a da forma desumana e aviltante com que alguns terroristas ceifaram centenas de vidas, denominados de “homens bomba” que nos fazem pensar no quão perigoso é o extremismo religioso e esse ódio exagerado principalmente entre Estados Unidos e o Islamismo. E a criminalidade no Brasil que é estarrecedora?

Voltemos ao assunto em pauta. Afinal o que aconteceu no dia 21 de dezembro de 2012?  Nada. Não é curioso que civilizações tão distintas, separadas cultural e geograficamente, apontem no mesmo sentido?  Sabemos, e isso é certo, que nunca vivemos tão graves crises como vivemos agora quer políticas, quer econômicas, naturais ou ambientais. Se pararmos para pensar facilmente dará conta que estamos perto da insustentabilidade. Dia após dia os recursos naturais se esgotam. Realmente, nada aconteceu nada no dia 21, tampouco sei que não acontecerá de fato alguma coisa, mas sei que é urgente uma transformação da mentalidade humana. Talvez o mundo que achavam que ia acabar se torne um exemplo de superação de ânimo e seja injetada no mundo uma nova tomada de consciência.

...eram apenas gestos refletidos na parede.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012


Preguiçosamente apertei a frouxa lâmpada do abajur que perscrutava as sombras dos gestos refletidos nas paredes, mais parecendo seres vivos extraídos de um filme de animação, mais vivos do que jamais refletira. O velho abajur geralmente iluminava debilmente o quarto fazendo a luz branda tornar todos os meus gestos romanticamente surreais. Todavia, de repente, a luz que a muito não acendia tão intensamente, surpreendeu-me com seu poder de claridade. Alguém deve ter substituído à lâmpada de 30 wolts. Os movimentos sombreados na parede começaram a acontecer como a um desenho animado filmado em câmera lenta e em formato de preto e branco. A ação refletida na parede era febril e frenética, mas também estática, bastava ficar quieto. Os gestos de minhas idas e vindas retesavam-se na branca parede do quarto e lutavam para se libertar de um corpo estranho que se movia de um lado para outro e insistia em não liberar meus gestos embutidos naquela cena surreal, mas, fortificados com a presença da luz escaparam do peso daquelas sombras e rejuvenesceu o meu coração que de tanto lutar já gesticulava incólume.

A luz brilhou mais forte e pensei que nunca acabaria. Olhei para um canto vi a cama e berço vazios e sobre a cama e abraçada a um travesseiro, faltava alguém. Com os olhos ainda travados pelo sono, cabelos desalinhados, mãos calejadas de lida rotineira fiquei pasmo e uma saudade abateu-me sobre o peito. Faltava realmente alguém naquele espaço, alguém que ajudou a curar as minhas dores e feridas. Alguém que não reclamava de nada, nem das dores desconfortantes dos seus pés ou dos joelhos, pernas e braços esfoladas de quedas e estripulias que a própria vida gerou Alguém que naquela noite inusitada não pode ver seu rosto ser iluminado pela nova e potente lâmpada do abajur. Esse alguém que se estivesse ali tenho certeza de que a luz mostraria na sua face o dom de me devolver à calma que a vida tantas vezes insistiu em me roubar. Cenas surreais de gestos realmente inusitados refletidos na parede que somente eu tive o privilégio de assistir: um corpo de mulher em movimento coberto por um lençol cheio de contrastes e cores, amparado por um travesseiro de espumas macias que protegia a imagem de uma guerreira. Só podia ser surreal, pois há dias não acendia aquele velho abajur e jamais pensava assistir cenas tão preciosas que minha mente não esquecera e jamais esquecerá. Mas, a saudade é difícil de imaginar mesmo quando se vê apenas gestos. É uma coisa estranha que toma conta da gente, chega sem pedir licença e acontece quando menos imaginamos: saudade do seu cheiro, de uma melodia que curtimos, que nos trás boas recordações, saudade de uma simples palavra, de uma manifestação de amor; saudade daquelas imagens que foram acopladas cotidianamente na região recôndita de meu cérebro, mas, eis que a máquina do tempo surgiu me envolveu e convidou-me a voltar a ser criança. A mulher que se gesticulava nas sombras refletidas na parede soube costurar a vida usando a linha da verdade para que os filhos pudessem construir suas vidas com sobriedade. Alguém que deixou a saudade invadir o meu peito e se transformou numa ponte de concreto e me fez retornar a mim mesmo; uma travessia moldurada de sabedoria, sem empecilhos, onde se vê bordada uma identidade muitas vezes esquecida, perdida na pressa que me levou ou me que deixa levar. Ao olhar para os gestos e falar em saudade dela é dizer o óbvio, é devolução, é ato que restitui o que se parte; é luz que sinaliza o local de nosso porto seguro, é voz mansa no ouvido que nos acalma nas madrugadas de desespero e solidão.  Mas, naquela noite, ao acender a lâmpada do abajur e ver aquelas cenas refletidas na parede não me restou alternativa senão em finalizar este artigo em uma única frase: O poeta tem diante de si vários sentimentos: o real, o palpável, o prático, o surreal, o imaginário, visões fantasiosas, e quando escreve, muitas vezes objetiva levar ao leitor uma mensagem de amor, esperança, fé, e intencionalmente, deixa de dedilhar o teclado do computador e o substitui pela caneta-tinteiro injetando nela a ruborizada tinta de um coração ferido pelo tempo no afã de aferir a sensibilidade de cada um, mormente quando virem perscrutadas as sombras de sua amada e suas refletidas na parede.

Feliz Natal e Próspero Ano Novo.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012


São os votos de Vanderlan Domingos e Família.




O Carapina e o Pica-Pau

terça-feira, 11 de dezembro de 2012


Torquato era uma pessoa afável, inquieto, criativo, e extremamente curioso. Não tinha dificuldades para se concentrar. Gostava de compartilhar tudo com os outros e não conseguia guardar suas ideias só para si. Começava a tagarelar e nem se importava quem era o ouvinte. De bom astral, parecia querer competir com um inquieto e barulhento pica-pau que vivia circundando a sua carpintaria, o qual, de vez em quando, tentava com seu bico afiado furar as madeiras que ficavam amontoadas no canto do galpão. Torquato era tão tagarelo que exagerava. Tentava colocar sua vida numa realidade que não existia. As palavras que saíam de sua boca eram levadas pelo vento, sem nenhum sentido. Dizia o indizível e não conseguia controlá-las. Falava tanto que até escumava o canto da boca. 

Com exceção a de ser tagarelo, na sua vida não havia excesso e consagrava-a a Deus. Durante muitos anos trabalhou com afinco na sua carpintaria; beneficiava a madeira com paciência, cortava-a e lavrava em peças com esmero, e a maioria era utilizada nas coberturas, soalhos e forros. Era costume, antes de manusear a madeira, ler a Bíblia e louvar ao Senhor. Fazia orações todos os dias, mas apesar de toda essa dedicação nada parecia dar certo em sua vida e a situação financeira aumentava a cada dia. Mas, numa bela tarde, o pica-pau sobrevoou o galpão, desta vez assentou-se comportadamente sobre um pedaço de madeira e com os olhos lânguidos, parecia se compadecer da situação difícil daquele carapina. Torquato ficou observando o bichinho imponente de topete vermelho e achou estranha a quietude daquele pássaro, justamente depois de uma estilingada que lhe dera ao amanhecer para se livrar do barulho que fazia no quintal. Como resolvera se tornar um homem temente a Deus não o molestou, mas, continuou observando.  Aquela pequena ave parecia admirá-lo, queria ajudá-lo e fortalecer sua fé, mas apesar de ser um bom profissional e crer no mundo espiritual até aquele dia não sentira uma melhora financeira, vivia de minguados serviços.

Torquato ficou observando atentamente e a ave permanecia quieta. De repente levantou outro voo e acomodou-se sobre uma linda cruz de madeira. Queria lhe chamar a atenção, dar-lhe um sinal que estranhamente parecia moldar-se sobre a cruz. Procurando entender o que estava acontecendo abriu novamente a Bíblia que estava sobre uma mesinha e leu o primeiro texto que apareceu diante de seus olhos. Compassadamente foi absorvendo cada palavra e aí começou a compreender que Deus tem propósitos para tudo e que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que o ama. E Torquato desconfiou que aquela ave estivesse sendo usada para lhe trazer uma mensagem e passou a olhá-la com admiração, não a molestou e assim ela permanecia firme. Então, vendo a oportunidade começou a conversar com o pica-pau: “Amigo você deve ter vindo de um reino encantado e sempre o recebi nesta oficina com muita raiva, talvez pelo barulho que você faz, mas hoje, dou a mão à palmatória e até entendo que queiras me imitar, pois de certo modo, trabalhamos com madeira. Perdoa-me, haja vista que, sem piedade, lhe atirava pedras com aquele estilingue, talvez até não desejando, ato que me doía o coração. Hoje passei a entender que a oficina inteira era só barulho e comparativamente ao seu, é insignificante. Mas, hoje quero mudar meu comportamento, fechar a boca e construir uma nova vida, pois você me fez ver isso e para mim já é suficiente.”.

Torquato, pela primeira vez deu uma pausa, pensou e concluiu: “Sei que Deus está me colocando no fogo das aflições. Então, vou procurar aceitar as “bicadas” que a vida me dá. Às vezes sinto-me tão frio e insensível como o pó ou a lasca que sai da madeira. Não é fácil, mas a única coisa que peço a Deus é que não desista até que eu seja o que Ele espera de mim. Que leve o tempo que precisar, mas jamais quero ser um lixo como aquela serragem, ou as migalhas de ferros retorcidos e restos de madeira que só servirão para ser derretidos em fornos ou queimadas num fogão de lenha”.

Cabisbaixo, abriu novamente a Bíblica e leu em voz alta para que a pequena ave ouvisse e até servisse como um pedido de perdão: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.” (Coríntios 12.9:10). Nem bem terminou de fazer a leitura uma antiga cliente adentrou ao galpão, encomendando-lhe muitos móveis rústicos e peças ornamentais dizendo que sempre elogiou seu belo trabalho de carapina aos amigos. O pica-pau ao ouvir ficou em júbilo, bicou suavemente a cruz três vezes e levantou um voo rasante atravessando o quadriculado da janela. Em poucos segundos desapareceu no horizonte e a partir daquele dia a clientela de Torquato se multiplicou.

Elesbão, o jardineiro de Deus.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012


Elesbão sempre teve uma vontade danada de ser jardineiro. Desde pequeno gostava de trabalhar com a terra. Era um exímio oleiro e construtor. Fazia tijolinhos usando o quadriculado das caixinhas de fósforos, construía pequenos castelos com jardins floridos; afundava as mãos no barro, nem sentia a meleca que vinha da terra e nem o calor causticante do sol que lhe queimava as costas franzinas. Quando o tempo era frio, sentia os dedos adormecerem, mas, mesmo assim, se inebriava com os cheiros vindos dos quintais e contemplava cada estação do ano como se fossem uma só, e o mesmo fazia em relação ao sol e a chuva, enquanto o pai lançava sementes no jardim. Regava-as nas horas apropriadas. Ele conversava com as plantas, suas mãos eram pura magia e bastava encostar os dedos para elas nascerem vistosas. E pacientemente esperava a lenta maturação da vida... E cultivar flores era seu sonho. E Elesbão, com os olhos vidrados no trabalho, com os dedos em riste apontava para o seu pai e dizia: Um dia serei jardineiro como o senhor e para o Senhor!

Sem dúvida que ele seria um bom jardineiro, nascera e crescera ajudando a manusear aquele imenso jardim. Suas mãos sabiam massagear o barro e separar a terra preta, boa para o plantio. Sabia admirar as plantas que se erguiam do solo e produziam botões que se abriam em pétalas de diferentes cores e tonalidades, mas, também, entendia que se não fossem regadas diariamente, murchariam, secariam e os caules dobrariam sobre a grama inerte. Como bom observador sentia a voluptuosidade com que elas buscavam o céu azul, a luz solar e o ar livre, e depois, se não regadas, curvariam encarquilhadas sobre o chão, morreriam e cairiam no esquecimento. Mas, mesmo assim, deixariam sobre a terra as sementes, que cedo ou tarde, haveriam de romper a superfície e se reerguerem para a vida.

Mas, o pai de Elesbão, o cultivador de flores, lhe transmitia outros segredos. Sabia que cada uma delas era única, incomparável e insubstituível. Inútil perguntar a ele qual a mais bonita, a mais sedutora, a mais cheirosa. Todas o são, embora distintas. Ou melhor, todas são belas justamente porque distintas! É a diversidade de formas e aromas, cores e tons que torna encantado o jardim e o senhor do jardim sabe, ainda, que cultivar flores não é tomar posse delas. Aprende-se que somente há de colher as flores que cultiva com o toque mágico de suas mãos, rudes e ternas a um só tempo. O bom jardineiro rega com as lágrimas, colhe com o olhar, acalenta-as com a voz, com o deslumbramento da alma, pois, prendê-las, simplesmente seria uma forma de condená-las à morte.

Unidas ao sorriso de Elesbão diante de seu pequeno castelo, ao monte de terra boa, fertilizada, ao murmúrio ou ao rugido da água, à luz longínqua das estrelas, ao sol e a lua que chegam ou que partem ao olhar de quem ama ou à lágrima de quem ainda é capaz de chorar, aos corações sedentos de justiça ou às mãos que combatem pelos direitos humanos - as flores integram a grande orquestra da criação. Instrumentos distintos, que tocam notas diferentes, mas exprimem a beleza de uma sinfonia comum.

Elesbão realmente cresceu junto a aquele jardim. Ajudou a plantar, zelou e viu flores crescerem, murcharem, secarem-se. Mas, certo dia ao enfiar as mãos debaixo de um feixe de galhos podados já ressequidos de um roseiral foi picado por uma cascavel. Estava só naquele instante, não foi socorrido e nem houve tempo de lhe aplicar o antídoto. Quedou-se diante do mundo colorido em que vivia, morrendo no limiar daquele dia. De repente, como por encanto, sentiu seu corpo subir ao céu e diminutamente via as flores desaparecendo diante dos seus olhos e nem compreendia o que estava acontecendo. Montou num cavalo alado e este começou a galopar sobre as nuvens brancas e uma paz incomum abateu-lhe sobre o peito, enquanto o céu escurecia e milhares de meteoritos passavam como que querendo saudá-lo naquele espaço sem fim. Um túnel iluminado em forma de cone se abriu e logo desceu sobre um imenso jardim cheio de flores variadas. Ao tocá-las com as mãos sentia que elas nem precisavam de jardineiro e um sorriso alargou em seu rosto e o seu coração ficou em júbilo. Ainda atônito, percebeu alguma coisa à sua frente, alguém sentado numa pequena nuvem branca, cercado de uma luminosidade que lhe ofuscava olhos. Era a oportunidade de perguntar e saber quem era o dono daquele lugar aprazível, encantador. Nem foi preciso. Uma voz branda, que lhe causou arrepios, disse-lhe: Elesbão meu filho, a partir de hoje você cuidarás do paraíso! A única palavra que saiu de sua boca foi: Sim Senhor! E logo apareceu do lado direito um imenso castelo, o mesmo que construíra usando pequenos tijolinhos feitos de caixinhas de fósforos. 

Na sua simplicidade, nem poderia entender que a sua frente estava à imagem de Deus. O trono de nuvens era apenas o retrato humanizado do pensamento de uma época que Elesbão sequer chegou a conhecer, pois sempre vivera tomando conta de um jardim, fato que faço questão de citar neste artigo para que cada um leve em conta e faça uma reflexão mais profunda sobre o nosso Pai celestial. Ele é o amor infinito, a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas, é aquele que não tem começo nem fim, e não pode ser conhecido através dos esforços intelectuais de uma mente humana que, por mais avançada ou capaz que for, está sujeita a limitações. Deus, portanto, é uma força que não pode ser analisada ou mensurada, só podendo ser sentida e contemplada através daqueles que têm coração puro. 

Como parte final, quero sublinhar, talvez em forma de parábolas, a lição deixada por Elesbão: plante, regue e cuide de sua da flor, porque é bela, fugaz e frágil, porque ela é como a luz que brilha e se apaga, porque ela é como a noite ou o dia, que se revela e se esconde, porque ela é como as estrelas que aparecem e desaparecem com o nascer e o pôr do sol, porque elas à noite se acendem para tirar o medo que ela tem da escuridão, ou ela é como você que se oculta para estimular a busca e nutrir um amor fiel e persistente como o deixado por Elesbão, o jardineiro de Deus.

Voando sem asas.

terça-feira, 27 de novembro de 2012


Sentado no moirão da porteira agucei meus olhos rumo ao horizonte no afã de enxergar o imprevisível. Aos poucos o brilho do sol foi desaparecendo e o céu não querendo estragar aqueles momentos de prazer ofereceu-me a lua, que soberba, nascia detrás dos montes. Abri a janela de minha alma e rocei com meus pensamentos as relvas úmidas da vida sem precisar me privar de admirar os últimos resquícios do pôr sol. A beleza da natureza era um bálsamo para o meu espírito inquieto, mas transparente como a uma bolha de sabão, que muitas vezes levou meus sonhos certos e incertos, imagináveis e inimagináveis, como se fosse uma nave espacial desgovernada e sem plano de voo.

Quantas lembranças vieram à minha mente. Naquele mesmo moirão, ainda menino, aprendi vislumbrar o bonito que céu oferecia. À noite que tinha medo da escuridão enchia-se de estrelas reluzentes; o dia renascia carregado de nuvens brancas feitas flocos de lã, parecendo carneirinhos, e quando se tornavam escuras prestes a desabarem em temporais, nem me importava, pois tudo me ensinou que beleza existe em qualquer desses céus.  Muitas vezes o tempo passa veloz sem a gente perceber, mas, Deus percebe e está presente em todos os nossos momentos de dificuldades, fraquezas, sucesso e insucesso. É Ele que faz o sol brilhar, que faz a noite cobrir de estrelas o céu que hoje volto a admirar com meus olhos no mesmo lugar. É Ele quem dá o frio do inverno, as chuvas e o calor estressante do verão; faz as folhas secas de outono cair, e a fascinante primavera encher-se de flores e despedirem-se deixando saudades nos primeiros solstícios de verão.

Então, hoje, pare, pense, reflita sobre si mesmo. Tem um poeta dentro de você basta querer. Os poetas têm alguma coisa em comum: têm os pés na terra, mas seu olhar, seu coração, seu pensamento estão cravados no céu, e assim, não pense duas vezes, crave o seu e mire o azul do céu, ouça os cânticos dos pássaros, aprecie a lua e todo o seu esplendor e aí escreva o que sentiu. Escreva o que fluiu de seu pensamento e terás a certeza de que sua alma renascerá e começará a viver o bonito, o prazer que vem das palavras e todos te entenderão. Não tenha preguiça física ou mental. Fale coisas que possamos entender, sejam reais ou imaginárias. Quando ler meus escritos, mesmo sendo de tempos idos, com as páginas amareladas pelo tempo, podem até parecer que foram escritos dias atrás, mas não foram, porque aquilo que imaginamos será atualizado pelo próprio tempo e os manterão vivos e reais.

Se sempre ler e escrever suas fontes de inspiração nunca se dissipará. Ao devorar livros, engula-os saboreando toda a escrita que sua mente percebeu que possa vitaminar o seu saber. Aos poucos, sua ânsia por coisas novas crescerá a ponto de todos os livros te encantarem, despertarem em você aqueles olhos que outrora não varavam sequer dez páginas, enquanto outras pessoas devoravam várias. Ao ler, faça compassadamente. Seu pensamento voará às alturas e absorverá o néctar da sapiência e aí, tudo se tornará mais fácil e a inspiração poética fluirá naturalmente.  Quando você começar uma frase mesmo sem nexo, pode ter a certeza que ao final, revisando cada palavra, você finalizará com sucesso o seu texto, portanto, não se aquiete, pegue uma folha de papel ou sente-se à frente do seu computador, use o teclado e digite. Pense no mundo que o rodeia, pense naquela beleza inspiradora que a gente destacou no preâmbulo, e fazendo isso, notará que seus dedos correrão a uma velocidade incrível e martelarão as teclas com desenvoltura e no monitor, aparecerá automaticamente um amontoado de palavras e nelas, brotarão sentimentos que só um poeta é capaz de sentir e ter a inspiração necessária que certamente, jorrará aos borbotões e que serão gravadas em sua memória para sempre.

Hoje estou voado sem as asas da imaginação porque achei não ser necessário usá-las. Porque em toda parte encontro palavras para lhe incutir o saber. Sabemos que até para se entrar numa Universidade um dos pontos prioritários é saber escrever, é interpretar textos. Então porque não exercitar a memória e saber que tudo está sobre o seu alcance e você com vontade de aprender. Existem as realidades e mistérios decorrentes de cada coisa escrita, por um mínimo que seja e não importa o autor, sempre existirão. Realidades e mistérios dos quais agora também você fará parte se começar a escrever. É claro que vamos entender quando escrever o seu primeiro texto, romance, contos, crônicas ou poesias; entender de que não existirão neles como realidade, o palpável, mas sabendo que existirá a importância do começo e a partir daí viverás a dimensão do seu próprio saber sem precisar de asas para voar.

O cego e o vaga-lume

terça-feira, 20 de novembro de 2012


Ninguém melhor que aquele cego sabia como fluir. Usava movimentos coordenados, sensitivos, ponteava sua bengala de alumínio sobre o chão com um propósito de achar o equilíbrio entre a luz e a escuridão. Também, ninguém melhor que o vaga-lume para entender o quão importante é para ele a noite e que todo seu ciclo começa justamente com a escuridão, assim como a noite é o começo do dia e dá lugar à sua luz, o outro ciclo vale somente para despertar o mundo ao amanhecer. Aqueles que enxergam, mas se mantém escuridão, não estão cônscios de onde estão, ou que existe uma presença de luz com que eles podem se conectar, mas, insensíveis, não conectam. É como se estivessem com os olhos vendados sem o real desejo e a coragem de tentar retirar a venda. Diferententemente do vaga-lume o cego vive a escuridão, mas está cônscio do lugar em que se encontra, não importa o lugar, seja dia ou noite; ele tateia paredes, ouve sons e vozes e sabe onde está; sobe escadas e ainda tem a sensibilidade de enxergar aquilo que a gente não vê. Como diz o ditado popular: “O pior cego é aquele que não quer ver”, porque ver o que é óbvio todo mundo consegue, e assim podemos afirmar que vivemos num mundo onde a aparência e o status contam muito. Mas, é pura ilusão! Uma satisfação temporária. Muitos não veem que os sentimentos são coisas mais preciosas e duradouras do que o egoísmo e a mesquinharia que estão embutidos na ambição de se dar bem a qualquer custo, mas que, como num flash sabem que pode desaparecer num pestanejar de olhos.

O vaga-lume desfaz toda essa teoria de cegueira humana, pois quer enxergar, não obstante tenha apenas a noite para testemunhar a sua luminosidade. A luz que sai do seu corpo na verdade, são “lanternas” que usa para iluminar o habitat onde circula. A luz que emite é contínua. Na lanterna torácica, a luz tem uma tonalidade esverdeada. Na lanterna abdominal, é amarelo-alaranjada. Então sob este prisma, a experiência vivida pelo cego e o vagalume precisa ser concluída com eficácia antes que possa haver um ensaio de luz e enseje uma progressão gradual da escuridão para que ela aconteça dentro de cada um de nós, de acordo com o nosso desejo e do nosso poder-viver na escuridão.

Certa noite, ao descer do ônibus, o cego perdeu o seu trajeto costumeiro e andou a esmo. Passou pelo mesmo caminho várias vezes. O vaga-lume observava aquele transeunte que manuseava uma vara com uma ponta de alumínio para se locomover e condoeu-se. Convocou outros vaga-lumes formando um verdadeiro exército e centenas de lanterninhas iluminaram a estrada. Sensitivo, que é peculiar aos cegos, contornou a estrada, voltou ao seu trajeto normal e em poucos minutos já estava abrindo o pequeno portão. Foi uma demonstração clara de que não queria ser “o pior cego” tão decantado pelos preconceituosos, que muitas vezes cegam-se diante do seu próprio mundo, tornam incapacitados, limitados ao ponto de não conseguirem repensar suas vidas ou falar sobre si mesmos. A ação dos vaga-lumes e o cego mostram quão poderosos podem ser a escuridão, uns temem a luz porque acreditam que se trocarem a escuridão pela luz, precisam também trocar o poder pela fraqueza. Outros nunca fazem essa escolha não obstante saber que esse é o seu papel na Terra, porque há os que precisam manter a escuridão, visto ser uma escolha que cada um pode fazer, e a escuridão precisa estar presente para equilibrar a luz. Cada um tem o seu contrato firmado com o destino, e o compromisso para o bem servir, e isto é pura verdade. 

Há pessoas que só escolhem a luz porque temem a escuridão. Há pessoas que adotam a paz e a quietude da luz, mas ignoram o seu poder, porque acreditam que o poder faz parte da escuridão. Entretanto, ambas as energias têm poder, mas, ditam normas e modos diferentes. O poder da escuridão é controlador e maléfico ao ser humano; o da luz é solidário e bondoso. A escuridão governa por meio do medo, endivida-nos com o mal e nos leva ao divã; a luz reina através da natureza divina que não exige dispêndio. Então, pode-se afirmar que, se a pessoa humana souber receber a verdadeira luz, se tornará poderosa e lhe permitirá brilhar como o vaga-lume faz no seu habitat.

Sabemos que a escuridão cumpre a sua finalidade, como o de fazer brilhar os vaga-lumes, as estrelas, a lua, as lâmpadas, os faróis e cada coisa no Universo. O seu propósito é alinhá-los internamente com o seu ego e assim a luz se expande para o seu espírito. A escuridão faz com que se lembrem das limitações e controle pessoal como aconteceu com aquele cego; a luz é ilimitada e os convida a render-se. Eu já me rendi. Então pergunto: Qual é a sua escolha mais poderosa? É essa que é a realização de cura e do desejo de totalidade da sua alma a cada momento, que pode ser escuro ou claro, ou ambos. Não julguem as suas escolhas e não seja como aquele que mesmo sabendo existir alguma coisa não quer ver, ou então, tente pelos menos permanecer com a consciência naquilo que deseja criar e deixe que as energias fluam, luz e escuridão, à medida de sua própria realidade, do jeito que sempre sonhou em viver na Terra, mas sabendo que o nosso Pai Celestial pede, a livre arbítrio, que você acolha essa luz em toda sua plenitude. 

 
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