Amigo leitor (a)

Amigo leitor (a). Quando lemos um livro, ou qualquer texto, publicados ou não, que são sinônimos do prazer, por mais simples que forem, sejam reais ou surreais, nos permite exercitar a nossa memória, ampliar nossos conhecimentos e nos faz sentir as mais diversas emoções, por isso, sensibilizado, agradeço a sua visita ao meu Blog, na esperança de que tenha gostado pelos menos de um ou que alguns tenha tocado o seu coração. Noutros, espero que tenha sido um personagem principal e encontrado alguma história que se identificasse com a sua. PARA ABRIR QUALQUER CRÔNICA OU ARTIGO ABAIXO É SÓ CLICAR SOBRE O TÍTULO OU NA PALAVRA "MAIS INFORMAÇÕES. Abraço,Vanderlan

Tolerância Zero

sexta-feira, 1 de março de 2013


Dias atrás um amigo telefona dizendo que precisava de uma orientação jurídica. Seu carro e sua carteira de motorista foram apreendidos perto de uma cidade do interior de Goiás. Disse-me que carregava algumas cervejas e os policiais alegaram que ele estava bêbado. Não que concordou com a afirmação do policial e se prontificou a fazer exames médicos, mas, mesmo assim, a sua carteira ficou apreendida não sabendo para onde fora encaminhada, se para o DETRAN ou PRF. Demonstrando certa contrariedade alegou que precisava do veículo, pois era seu o único meio de transporte e que o usava para trazer produtos da roça, e por fim, perguntou-me como deveria agir. Perguntei aos os meus botões: será que um motorista depois de cometer uma asneira desta, ou seja, carregar cervejas desobedecendo à nova Lei apelidada de “Tolerância Zero” pode ficar ileso? E se considerarmos a existência de imprudência e que essa provocasse a morte de um parente, de um filho ou de um ente querido, seria correto liberar sua carteira? Talvez a sua resposta, esteja ele embriagado ou não, possa ser um não. Como imaginar a dimensão da dor da família do acidentado? E qual seria o tamanho da sua indignação? São sentimentos difíceis de serem mensurados.

No nosso país a quantidade de pessoas que perdem a vida por ano por causa do trânsito é muito maior do que qualquer guerra já noticiada. Muitas delas ocorrem por influência do álcool e uso de drogas. Mas, como barrar essa tragédia social? Um verdadeiro massacre humano silencioso que não tem o mesmo espaço na mídia como a queda de um avião ou a morte de um torcedor num campo de futebol.

Como acabar com esses motoristas embriagados? Exterminá-los antes que os mesmos matem inocentes? Seria essa a saída? Goiás e principalmente Goiânia, segundo uma pesquisa nacional, aparece com um número surpreendente de pessoas que tem o costume de beber e dirigir. Têm muitos botecos esparramados pela Capital e muitas cidades do interior são turísticas, como Caldas Novas. Talvez o calor escaldante sobre Goiás seja o culpado dessa crescente bebedeira. Eu diria que seria, na verdade, a falta de educação de fato e de direito. Àquela que nossos pais deveriam nos ensinar ainda dentro de casa.

Sinto-me frustrado e impotente quando dirijo pela cidade e noto acidentes de toda monta, principalmente com motociclistas imprudentes. A Lei Seca que sofreu algumas alterações nesse mês que passou, pode continuar oportunizando que os maus motoristas continuem bebendo e dirigindo. Isso não mudou. Mas, o que ela trouxe de benefício para quem a fiscaliza? Apenas ampliou o seu contexto de provas e do valor das multas. Isso no meu entendimento não é suficiente para melhorar as estatísticas de mortes no trânsito do nosso País.

Mais uma vez vamos ter uma verdadeira guerra judicial nos tribunais quando um motorista alcoolizado matar mais um inocente nas ruas das nossas cidades. Isso sem falar ou contar, melhor dizendo, nos milhares de reais que são gastos com a saúde pública para recuperar e enterrar pessoas vítimas de acidentes de trânsito, onde o principal protagonista dessa triste história é mais um motorista embriagado.

Sou a favor de uma Lei Seca que promova a tolerância zero mesmo! Disse isso ao amigo quando me ligou. Como o policial relatou no BO que estava bêbado e ele disse não, então, lhe orientei que deveria apresentar uma defesa administrativa e provar suas alegações, pois só assim, após analisado, poderia recuperar sua carteira antes do prazo previsto da Lei. A pessoa bebeu, qualquer que seja a quantidade, não pode mais pegar no volante. O cidadão tem de entender que essa combinação não dá certo, só gera dor e inconsequências danosas para as famílias. Como advogado, presidente ONG Visão Ambiental e missionário da Paróquia Santa Terezinha do Menino Jesus, que tem como pároco o Padre Luiz Augusto, que combate incisivamente o uso de bebidas alcoólicas, motivos que me fazem conclamar a toda sociedade a entrar nessa luta para que a justiça seja implacável com os usuários para que, doravante, traga somente benefícios à sociedade e um futuro melhor para todos nós.

Homens de duas caras e os caras de pau.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


Não queria mais entrar no mérito, entretanto, em razão dos últimos acontecimentos, resolvi escrever sobre o assunto. Desde que o Partido dos Trabalhadores assumiu a Administração do País venho acompanhando as ações de seus mandatários maiores. Seus líderes antes de assumirem o poder se mobilizavam, iam às ruas e criticavam o governo, conduziam cartazes e gritavam palavras de ordem contra a corrupção e assim agiam como se fossem salvadores da pátria.  Punham “lenha na fogueira”, muitas vezes até ajudavam a atiçar fogo e depredavam tudo o que viam pela frente.  Onde havia uma atmosfera crítica e as fofocas preenchiam as conversas, eles lá estavam. Desde aquela época comecei a me preocupar e perguntava a mim mesmo: será que se eles assumirem o poder acabará com a corrupção? E fui percebendo, com o passar dos tempos, que se tratava de um ledo engano e aí comecei a notar o aparecimento de homens de “duas caras” e “caras de pau”, que mentiam e continuam mentindo descaradamente, e mesmo penalizados pela justiça, assumem cargos eletivos e nem corados ficam – talvez, no caso do mandatário maior – o Lula da Silva, que parece ter mais de duas caras –, também nunca vermelho fica diante das câmeras, e nós sabemos que ele mente e sabe de tudo o que acontece nos bastidores, por trás das cortinas palacianas, de modo que, em razão disso, passou a transmitir desconfiança e virar chacota nacional. Bastam ver jornais, revistas, Twitters, Facebook e outros meios de comunicação. E aí pergunto: Onde foram parar os princípios éticos tão propalados pelo PT antes de assumir o poder?

Infelizmente, esse é um problema vivido pelo País. De modo geral, a falta de moral e ética dos políticos que sequer sabem respeitar os valores assentados nas Escrituras e à própria Constituição Federal. Mentem descaradamente e possuem uma displicência para com o pecado e o risco do mundanismo que têm gerado uma classe crescente de “caras de pau”, homens públicos, eleitos pelo povo, que ao pegarem o bastão legislativo e ou mesmo do executivo, já sentem o cheiro da propina, simplesmente esquecem-se das promessas feitas aos seus eleitores quando diziam: se for eleito serei honesto e probo. 

Protegido pela reclusão do seu escritório ou gabinete, esse tipo de político segue virtualmente caminhos onde nunca desejaria ser visto e até mantém conversas que jamais pensaria que caíssem nos ouvidos da lei.  Mas, felizmente caíram. Com perfis que contêm nomes, fotos, gravações que dizem não serem seus, eles se aventuram em uma vida perniciosa, paralela ao mundo nefasto e muito próximo ao profano.

Recentemente, um desses líderes disse “que não há nada demais em fazer mais um barulho com a sua revolta porque, depois pretende se aquietar enquanto o tempo apagará a memória coletiva” – apenas oficializou o que suas pregações e artigos que já escreviam havia muito tempo. Um ledo engano desse ímprobo. Uma ironia em detrimento de um povo que ele acha ser bobo. É uma tragédia quando alguém apostata desse jeito da verdade, mas é melhor fazer isso que, ainda apoiado nos galhos da República – como muitos “políticos” o fazem –, continuam ensaiando mentiras como justificativa para a sua salvação diante de uma decisão judicial, onde sabem serão descritas as imoralidades, impuridades, formação de quadrilha e corrupção geradas pelo famigerado “mensalão”. E foi preciso o STF agir para que as caras duplicadas aparecessem, e mesmo assim, insistem em dizer que são inocentes e até fazem ameaças de irem às ruas, reúnem para arrecadar dinheiro para pagar as condenações impostas pelo STF, cujos hábitos perniciosos, essas pessoas sempre o utilizaram para incitar e enganar o povo incauto a cair em suas próprias armadilhas, como aconteceu com muitos jovens denominados de “caras-pintadas” que inocentemente participaram daqueles movimentos. É tempo dos políticos terem uma só face e ao usarem a Gillette, devem torcer para que dela não saia serragem; se não conseguirem mudar, pelo menos tente se aproximar da do nosso Senhor Jesus, e quem não quiser assumir as feições do Mestre, que deixe as fileiras dos terrenos inférteis e passem a exibir somente uma face. Mas se não quiserem fazer isso, então, procure pelos menos seguir a santa orientação bíblica: “Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros. Purifiquem as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo dobre, limpai o coração” (Tg 4.8).

Quando falamos de duas caras é importante delinear em itens separados algumas famosas frases do Lula: 1.ª - Em 18 de agosto de 2005, no auge do Mensalão disse: “Quero dizer a vocês, com toda a franqueza, eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento. Estou indignado pelas revelações que aparecem a cada dia, e que chocam o país.”; 2.ª - No dia 1º de setembro de 2007, durante o 3º Congresso do PT disse: “É verdade que podemos ter cometido erros [...]. Mas ninguém nesse país tem mais moral e ética do que nós.”; 3.ª - Em 18 de agosto de 2005: “O PT deve pedir desculpas [ao país] por seus erros.”; 4.ª - Em 1º de setembro de 2007: “Não temos de quê nos envergonhar. Não tenham medo de ser petistas, de andar com a estrela no peito. O PT é um dos grandes responsáveis pelos passos largos do Brasil rumo à dignidade”.

 À beira do deboche, o Ex-Presidente que se alardeia tão arguto e inteligente, pois se faz de surdo, cega-se e emudece; diz não ter ouvido ou visto tantas traficâncias ilícitas e ilegais ocorridas dentro ou fora dos corredores palacianos. Os escândalos do caso Rosemary, sua “amiga”, cuja situação perniciosa sobrepõe os casos dos anões do orçamento, do dinheiro na cueca, do mensalão, etc. que o fez viajar para a Europa, África e escapar da mídia. Como se vê, o Lula de hoje é bem diferente do Lula torneiro mecânico e líder sindicalista. Em tese, teria até mais razões para cobrar dos “traidores” um “pedido de desculpas”. Afinal, há meses o STF converteu em ação penal a denúncia contra os 40 integrantes da “quadrilha” do mensalão.  Onde Lula alegou que via “erros”, mas o STF enxergou indícios de crimes. “Onde o presidente observou “moral” e ética”, o Tribunal enxergou corrupção ativa e passiva, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, peculato, gestão temerária e evasão de divisas. Certo dia, em um discurso do presidente voltado à militância petista que durou 57 minutos e 25 segundos (ouça aqui, se quiser), não pronunciou uma mísera palavra de reprimenda. Foi segundo a interpretação do SITE do PT um “discurso para lavar a alma petista e elevar autoestima.” Só não lavou a imundície concentrada no processo que tramita no STF. Mas quem se importa? “José Dirceu, o técnico do time Mensalão, que recentemente brindou com petistas a sua não prisão em 2012, em razão do pronunciamento do Ministro Sebastião Barbosa, mas, felizmente, dificilmente escapará, porque já tinha sido “brindado” com várias imputações e condenado a 10 anos e 10 meses de prisão —, ele acha que Lula expressou o sentimento dos delegados” presentes naquele 3º Congresso petista. Para o ex-chefe da Casa Civil -, “o partido já fez a autocrítica”. Voltar ao tema do mensalão é, na opinião dele, “um desvio de foco” que só interessa à direita. O PT, disse ele: “se renova, assume novas bandeiras.” Frases irônicas de quem possuem duas caras que sequer coram.

Kiss, O beijo do descaso.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013


Hoje, após alguns dias da tragédia ocorrida na boate Kiss comecei a pensar na dor daquelas mães, pais, irmãos, irmãs e amigos da vítimas, cada um ou uma, com uma história diferente destacada pela mídia. Deixo-me tomar por um momento de reflexão, enquanto me preparo para ir ao trabalho, mas, logicamente, ansioso para que cada uma daquelas famílias encontrassem algum conforto. Lembrei-me de quantas vezes me irritava com tudo e com o excesso de zelo de minha saudosa mãe, ainda que estivéssemos a centenas de quilômetros de distância. Precisou acontecer  aquela tragédia para que eu hoje a entendesse.  E entendi, pois os filhos para os pais não têm idade. Necessitam que eles  compartilhem, telefonem, digam onde estão, se estão bem ou não, para que possam fechar a porta e deixar do lado de fora as tormentas e preocupações.

A dor daquelas famílias era tanta que não souberam exercitar a revolta. A gente via que era sofrimento demais diante de um prédio em chamas, que mais perecia uma armadilha, um labirinto, cuja saída era controlada por “toupeiras”, comumente chamados de porteiros. Evidentemente que muitos se arriscaram antes a morrer nas dependências da boate na ânsia de salvar seus amigos e ao observar cada expressão colocada pela mídia, tanto escrita como televisiva, notei que na translúcida dor faltava apenas o casamento do fortuito com o inexorável. As imprudências imbecis e metodicamente praticadas dentro de um cubículo sem saída careciam do elemento incidental, destacando a estupidez que serviu de estopim e do gesto tolo de um músico que foi desastroso provocando uma reação em cadeia resultando naquela horrenda tragédia.

Na madrugada de sábado para domingo, um sem noção, inlúcido no palco, manuseando um sinalizador, uma espécie de fogos de artifícios, esguichou  para cima fagulhas que atingiram o teto de papelão e material de proteção acústica que são altamente inflamáveis. Foram apenas segundos. O fogo formando imensas labaredas se espalhou  pelo teto e a maioria das vítimas morreram asfixiadas pela fumaça tóxica. Não existiam portas de emergência ou outras saídas e a única, se encontrava travada pela imbecilidade, talvez, se estivesse “destravada”, bastava para minimizar a tragédia. Mas, o Corpo de Bombeiros não atentou para esse detalhe e liberou o uso da boate, cuja licença se encontrava vencida desde agosto do ano passado. Para as autoridades policiais é uma informação relevante que parece indicar que a casa não primava exatamente pelo respeito às regras ou havia falha do Poder Público. De quem seria a culpa afinal? Do Corpo de Bombeiros que julgava que tudo ia bem? Do músico que soltou fogos de artifício?  Dos porteiros que impediram a saída dos frequentadores porque achavam que os jovens não queriam pagar? Do Poder Público de forma em geral ou somente dos proprietários que tinham protocolizado a renovação da licença? 

A escuridão tormou conta do salão deixou a moçada no escuro em meio à fumaça. Não havia luzes de emergência, acionadas automaticamente quando há o corte do fornecimento de energia elétrica. Dizem que um extintor não funcionou. A boate Kiss não poderia naquelas condições estar funcionando. E não era um empreendimento pequeno e nem  clandestino e pelo que se vê nos noticiários talvez fosse a maior casa do gênero em Santa Maria, uma cidade de porte médio com  pouco mais de 230 mil habitantes, mas com vida noturna agitada em razão de possuir uma Universidade de renome que atrai jovens de todo Brasil.  Noticia-se que aquele festa tinha sido organizada por alunos do primeiro ano dos cursos de Tecnologia de Alimentos, Agronomia, Medicina Veterinária, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia para angariar fundos para suas formaturas.

Por mais que eu tento refletir observo que essa não é uma tragédia fabricada pelo acaso. Ela é obra de uma cadeia de descasos, de desrespeito ao ser humano e quiçá, de uma má administração do serviço público. Uma casa  de shows naquelas dimensões tinha de ter, por exemplo, uma brigada civil de combate a incêndios. A ela caberia dizer aos tais imbecis chamados de banda “Gurizada Fandangueira” que o ambiente era impróprio para o uso de fogos de artifício. Assim urge as autoridades policiais que apurem as responsabilidades. Sou advogado, mas a vivência no meio jurídico me fez conhecer uma pouco de perícia técnica, mas, no caso em tela é desnecessário meus parcos conhecimentos, pois há elementos de sobra para concluir que a “fatalidade” que resultou na morte de 237 jovens e outros tantos na UTI, foi construída pela imprudência, insensatez, estupidez e não pelo destino. Foi preciso acontecer uma tragédia dessa magnitude para que o poder público desencadeasse uma fiscalização mais rígida em todo o País, mas, acredito será em vão, pois a morosidade e incompetência do serviço publico não evitará outros descasos. Esse é o Brasil, onde mandatários-mor choraram no intuito de angariar dividendos políticos.

Detrás da sombra de nossos sonhos.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Tempos idos os pais não se preocupavam se o seu filho poderia sair sossegado à noite, assistir filmes e shows musicais; andar sem medo pelas calçadas, pois naquele tempo não existiam pivetes, assaltantes, usuários de drogas e traficantes. Não se importavam com a filha que ia a pé ou de ônibus até a escola ou outro destino qualquer?! Naquele tempo, ao lado de uma agitação que era considerada como normal tudo se passava sem grandes sobressaltos. A televisão que era em preto e branco, não mostrava cenas horripilantes como hoje e são repetidas sem a anuência do telespectador, tudo em nome da mídia. Adultos e adolescentes caminhavam pelas ruas de madrugada, sem medo de serem felizes, cantavam para as estrelas e nem ouviam os roncos de motores, buzinas ou latidos de cães. A cidade era pacata. Hoje tudo é diferente. E para pior, é claro. Podemos enumerar uma série de vantagens, mas na certeza de que o sol hoje não brilhará como antes. As fumaças que saem das queimadas, chaminés, veículos, sobem aos céus e tapam-lhe os seus olhos flamejantes. O céu, que outrora se apresentava estupidamente azul, claro e limpo, hoje se encontra coberto de poeira e gases carbônicos, produzindo o efeito estufa que o deixa ruborizado. As nuvens, nem se fala, quando caem, trazem borrascas inesperadas e incontidas.

Ainda me lembro dos dias em que passeava nos parques, provando deliciosas maçãs do amor, pipocas e o famoso refrigerante Grapette, à sombra das árvores que o tempo permitiu crescerem e hoje, pela insensatez humana, muitas foram derrubadas e em seu lugar, construíram famigerados parques de diversão, prédios e condomínios de luxo. Que bem fazia aquela sombra fresca durante o solstício de verão que parecia querer esconder detrás dela os meus sonhos de menino.

Fora daquele parque dos sonhos vivia o autoritarismo e a ditadura. Talvez fosse verdade e até ocorria poucos casos de homicídios e crimes hediondos, mas já passaram alguns anos e hoje o que mais há são casos desses. Vivemos num país onde o crime acontece todos os dias e em toda a parte. Assaltam-se bancos explodindo caixas eletrônicos, assaltam postos de gasolina, e roubam dos seguranças mal treinados suas armas, estupram crianças e ainda constatamos a existência de rixas entre gangs e de crime organizado; filhos matam pais e vice versa; mulheres são espancadas pelos maridos e pessoas são assassinadas sem pena ou dó e o criminoso, insensível, parece sentir prazer de ouvir o gemido do desafeto; assaltam-se carros de valores e ninguém é culpado de nada. O que se nos dá a conhecer é o outro lado da questão. Empolga-se o caso deste ou aquele criminoso estar doente, ter sido atingido por uma bala ou saber a razão pela qual aconteceu ter-se atingido mortalmente um rapaz que estava associado a um assalto. Só falta começarmos a defender os criminosos e a condenar os que sofrem na pele às arbitrariedades dos assassinos e assaltantes.

Ninguém se sente seguro em lado algum. Já não falo de políticos e afins, pois esses andam sempre com guarda-costas. Tem grana para pagar e o pior, é que sai de nosso bolso. Por outro lado, é justo pararmos no sinaleiro e ter receio de um assalto e ainda dar dinheiro ao elemento para alimentar o seu vício. Temos consciência de que muitos caixas de banco são explodidos no Brasil e com a maior das facilidades. Eles nem se preocupam. O banco está com apólice de seguro e o pior, que quem paga o prejuízo somos nós. Podem notar que tudo o que é mau, acontece ao Brasil, e rapidamente. O pior é que ninguém faz nada. O combate deveria ser eficaz, rápido, duro e desmotivador para quem estivesse a pensar fazer alguma malandragem. A segurança é urgente e necessária. Não podemos andar numa insegurança total pelas ruas das cidades, esperando ser atacado por alguém que sabe nada vai lhe acontecer, mesmo que seja apanhado. Pagam uma mísera fiança e fica solto. A impunidade não pode ser prêmio de criminosos, não importa qual seja o crime.

Afinal onde está a segurança? Que País é este que de um dia para o outro se transformou de tal forma que mais parece uma penitenciária, onde existe um amontoado de gente e tudo acontece. Mata-se, estupra-se, droga-se, ninguém se importa ou interfere. E o Poder Público onde está?  É com muita pena que tenho de admitir que detrás da sombra de nossos sonhos, parece existir um amontoado de sentimentos frustrantes, depressões, desamor, confrontando-se com sentimentos de amor, amizade, paz, todos eles comuns à humanidade como um todo, e o fio êmulo, resistente, que talvez ainda os unam no espaço sem luz ocupado por um corpo opaco, todos deveriam se agarrar e ao serem amparados pelo bastão da benevolência, procurar encenar no palco da vida um novo modelo para sociedade para que ela se torne mais justa, humana e fraterna... Aliás, se isso não acontecer, nem o sol e a lua voltarão a brilhar como antes e as árvores milenares morreriam mesmo com as chuvas de verão.

Até a sombra o abandonou

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Hoje, faz meses que ela o abandonou. Tempos idos quando caminhava juntos ele sentia uma vontade danada de conversar com pessoas que passavam pelas calçadas e ruas da cidade. E a sua sombra era alegre, assim como ele, que se encontrava de bem com a vida. Era filho de gente abastada e fazia da sombra o que bem queria. Brincava com ela usando as mãos, sinalizando gestos grotescos diante de lâmpadas que se refletiam no branco muro da mansão. Aos transeuntes, ele sem ao menos fazer autocrítica, perguntava se estavam entusiasmadas com a vida, às outras, menos afortunadas, indagava se estavam felizes com seu emprego, se viviam bem com a família, com os filhos e se invejavam dos sucessos dos amigos. Mas, brincadeiras à parte, certo dia alguém que se dizia amigo lhe enveredou pelo mundo das drogas e por mera brincadeira, cheirou o maldito pó. Uma brincadeira que lhe custou caro e o tornou viciado, perdeu tudo que tinha, até sua própria sombra. Meses se passaram e não conseguia se livrar da droga indo parar na sarjeta; começou a perambular pelas ruas sem rumo, sem destino certo. Sua mente embaralhava, a cada baforada aumentava as alucinações, enxergava coisas estranhas que jamais imaginara ver. De tanto matutar cansou e sem a sombra, sua única companheira, sentiu-se desnorteado, perdido no mundo do seu próprio ser. Ela que o acompanhou, lhe ajudou a minimizar as alegrias e tristezas e repetia prazerosamente nas suas andanças gestos precisos e imprecisos, agora jaz na escuridão. Ela sabia tudo sobre ele, e em certos momentos, parecia querer lhe alertar sobre o seu modo de vida e o fio de esperança que ainda lhe restava: Deus. E foi nesse fio, mesmo dominado pela droga, que tentou se agarrar para viver seus últimos dias, mas, incrédulo, não conseguiu conversar com ELE. Achava que era tarde demais! Lembrou-se dos tempos idos, do amor de sua mãe, do saudoso pai que lhe deixou como herança o tino para o trabalho; lembrou-se da prosperidade, onde acreditava na sua capacidade de trabalho, de vencer o invencível, de construir o sucesso, de transformar a realidade e viver a bonança. Tempo em que conseguia deixar de lado todo o negativismo, o ceticismo, abandonar a descrença e entusiasmar com tudo que acontecia, mesmo quando não havia luz para refletir a sua rica sombra, e principalmente, entusiasmar com alguém importante que hoje passa pela calçada e vê que não é sombra, é real, mas, certo de que uma o acompanha e se refletirá diante de quaisquer luminosidades, ou em dias de sol ou em noites enluaradas. Mas, para ele era realmente tarde demais. Não tinha religiosidade, não conseguia libertar-se das drogas e os prostíbulos era seu ninho, e aí, começou a viver no mundo profano e se arrastar pelas calçadas como a um lixo humano.

Nos últimos dias, ora sob o sol causticante, ora sob chuva torrencial, algumas pessoas passavam, desdenhavam dele, desviavam o olhar, lhe ignoravam, e outras, nem o viam ou se faziam de cegos; as mais imbecis diziam: "não cheguem perto, pois este homem é usuário de droga e parece que nem sombra tem”. Diante daquelas palavras, olhou para a calçada e confirmou que ela não estava lá. Talvez se envergonhasse dele, pois era uma sombra que acostumara com sua elegância nos tempos de prosperidade. Era imponente e os seus gestos logicamente refletiam a sua soberba, a sua presunção, a sua arrogância e o seu modo metido de ser. 

Deitado debaixo da marquise, quase inconsciente, alguma força estranha ainda o fez arregalar os olhos. A doçura de uma voz de mulher, vestida de avental branco. Começou a tocar-lhe e disse: "Senhor, coma este alimento, você está tão frágil”. “É bom alimentar, pelos menos te ajudará a minimizar as dores”. Nem soube como, mas lágrimas saíram rolando pelo seu rosto, e mesmo quase desfalecido, concordou. Tomou aquela sopa e dada a sua fraqueza, engoliu vagarosamente e nem sentiu a picada da injeção que ela lhe aplicara. Ainda lúcido, foi levado a um albergue e, colocado sobre a cama, ele nem mais se importava se havia sol ou lua para trazer sua sombra de volta e nem pensava em saber o porquê teve que nascer se o mundo não lhe queria... Sabia que não mais veria a sua sombra e que naquele dia fatídico ou no dia seguinte poderia ser o seu fim... (Átila, dois dias depois, deixou este mundo por uso excessivo de cocaína e crack).  Com a própria saúde na UTI, urge à família, à sociedade organizada e ao Poder Público implantar uma política eficaz de atendimento ao dependente químico e apoio aos seus familiares, assim como o combate ao tráfico de drogas e a prevenção ao uso dessas substâncias.

Juarez, o Doutor Caipira e os Foliões de Malhador.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


A Folia de Reis é uma festa religiosa, Segundo o livro de Mateus (2, 1-12), os magos eram sábios que vieram do Oriente, guiados por uma estrela, para adorar o Deus Menino em Belém. Especula-se que eles não eram reis, cada um com características próprias e também não se sabe o número exato. Existe lenda dentro da própria lenda, coisas entre os três Reis Magos, mas que nunca interessaram aos festeiros. Esta festa se tornou uma grande celebração para a igreja. Em toda Europa, é feriado no Dia de Reis, e em muitos lugares, os presentes são distribuídos apenas no dia 6 de janeiro. 

No ano passado fui convidado para assistir o Encontro da Folia de Reis de Malhador no Condomínio de Chácaras de Alta Vista, Senador Canedo, que acontece no dia 06 de janeiro pelo terceiro ano consecutivo. Por incrível que pareça, confesso, foi à primeira vez que vi de perto aquele belo trabalho de louvação ao Divino Espírito Santo através da cantoria e sons específicos. Uma das características da festa é a diversidade, cada cultura, cada cidade tem costumes e tradições diferentes, de acordo com as peculiaridades da região, e Malhador não é diferente. Em cada rosto via a satisfação e a necessidade de compartilhar a amizade que ali nascia e o desejo de saírem juntos em peregrinação, seguindo a estrela guia criada pela imaginação de cada um até o encontro do Menino Jesus. Logo à frente, um palhaço, cuja função simbolicamente, é proteger o Menino Jesus, e com suas peraltices confundir os soldados de Herodes. Diz à lenda que aos palhaços cabia o papel de pedir aos donos das casas visitadas, os donativos para a festa. O anfitrião pode, em contrapartida, exigir que algum serviço seja feito em troca dos donativos. Todavia, no caso da Folia de Reis de Malhador, pequeno vilarejo perto da cidade turística de Pirenópolis, o anfitrião e responsável pela festa, é o médico ginecologista Juarez Antônio de Souza – o doutor caipira, que assumiu todos os ônus da festa, tanto em razão da herança deixada pelos seus pais José Antônio Sousa e Maria Serafim de Sousa, como pelo seu amor à arte e ao folclore. São companheiros os foliões, os sanfoneiros: Meire Minadaks, Izá e Ediberto; os violeiros Valdivino, José Rafael, Sebastião e Antônio; no pandeiro o Cílio; no cavaquinho, o Orlando; no reco-reco, o Romes; no tambor ou caixa, a Ana Machado; de cujo grupo hoje eu tenho a satisfação de fazer parte, assim como, outros ases da cultura e do folclore de Goiás. Também foram convidados para aquela linda festa a escritora Elizabeth Abreu, o prof. Alvaro Catelan e Sônia Ferreira, os escritores e folcloristas Bariani Hortêncio e Prof. Jadir, e outros importantes membros da cultura, música, arte e folclore de Goiás.

Encantado, vi seguir em forma de procissão pessoas devidamente uniformizadas, à frente, a alferes Tamires, conduzindo a bandeira que representa a autoridade espiritual dos foliões, e estes, pelo que se conhece, não podem ser ultrapassados por ninguém. Atrás, sob a batuta musical do Mestre Juarez, cantando canções compostas pelo próprio grupo, seguiam as pessoas da comunidade e convidados. O candidato a integrar um grupo de Folia de Reis, tem obrigações e deveres que iniciam com a submissão às ordens do Mestre, e alguns grupos chegam a ter um código de ética escrito e aceito pelos membros. 

O percurso é feito sempre iniciando pelo lado direito de tal modo que, de casa em casa a companhia de Santos Reis aproximam-se do local da recepção final, quando o Alferes e equipe despojam-se de seus materiais e os guardam na casa. Quando eles vão embora, se despendem, repetindo os gestos da chegada (Despedida).  Em algum momento da festa, é feita a Passagem da folia para o novo alferes. Foram anfitriões, além do Dr. Juarez e esposa, os casais Beto e Priscila, Alvaro Catelan e Cláudia.

Quando falo da folia iniciar o seu percurso pelo lado direito é uma superstição ligada à festa que vem desde os tempos idos. Antigamente, as pessoas não entendiam a maior parte dos fenômenos naturais, e então, costumavam atribuir suas causas a determinados fatos, e esse costume foi transferido através de gerações sem nenhuma fundamentação científica, e hoje em dia, as pessoas sabem disso, mas por via das dúvidas... As crendices listadas a seguir referem-se à festa dos Santos Reis. Por exemplo: A bandeira não deve fazer um formato de cruz por onde ela já passou: Se isso acontecer, alguém da folia morre. Se for preciso atravessar uma cerca de arame, os instrumentos não devem passar por baixo da cerca, para que não percam o som. No Dia de Reis, algumas famílias costumam escrever o nome dos três reis magos em um pedaço de papel branco e colocá-lo na porta de entrada da casa, para que haja durante todo ano, fartura, saúde e felicidade. Há também uma simpatia, feita com romã, no dia 06 de janeiro em que a família se reúne para rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria, depois, cada um pega três caroços de romã, põe na boca para sorver o sumo da fruta, um a um, e depois embrulha em um pedaço de papel para guardar na carteira durante o ano inteiro, para não faltar dinheiro. A cada semente embrulhada deve-se repetir “São Belchior, São Gaspar e São Baltazar. Não deixe o dinheiro faltar”. A cada ano, as sementes antigas devem ser jogadas em água corrente. A folia não pode voltar pelo mesmo lugar de onde veio Os andarilhos não passam por baixo de varal de roupa.

E o mundo não acabou...

domingo, 30 de dezembro de 2012


Muitos estavam esperando pelo fim do mundo que teoricamente, poderia ter acontecido no dia 21 de dezembro de 2012. Até eu que me encontrava de férias e teria que voltar no dia 21, me deixou confuso e aí perguntei a mim mesmo: será que terei que trabalhar somente até às 11 horas? E como vou receber meu salário se o mundo acabar? E minha conta bancária? O mundo da economia girou em minha mente e enxerguei muitas perdas. Lembrei-me do meu amigo que comprou um carro a prazo. Será que vai ficar livre das prestações? E uma amiga que marcou a data do casamento para o dia 22, será que terá que comemorar sua lua de mel antes do dia 21. E o Papai Noel receberá seu salário no dia 25? E a nossa “semaninha” como ficará? E a chefa, será que vai tirar suas férias em janeiro? E o Breno não vai precisar distribuir processos para a alegria dos Doutores Jorge, Antônio, Joaquim e Isa? É complicado lembrar-se de fim do mundo. Mas está escrito no calendário Maia. Ah, então, quão felizes deveriam estar os presos que iam receber o indulto de Natal e saber que não mais voltariam às celas. Ah, quão felizes deveriam estar os condenados pelo STF que ficariam livres das penas impostas, pois não as cumpririam se o mundo acabasse. Ah, quantas pessoas que ficariam livres das dívidas e hoje choram pela farsa do fim do mundo. Ah, quantas outras situações pessoais, espirituais, amorosas, hipocrisias, seriam resolvidas com o fim do mundo. Felizmente, para essas pessoas, existe uma série de fatores que passaram despercebidos até mesmo pelos olhos mais críticos e céticos do planeta. Uma imagem começou a circular por blogs e redes sociais, mostrando que, se fôssemos levar em consideração o calendário maia, o mundo já teria acabado. Parece que ocorreu um erro de cálculo, não acrescentaram os anos bissextos. Não obstante isso, se você achava que o mundo ia acabar,  bom, provavelmente poderia estar certo.  Afinal, um dia, tudo acaba. E, se não cuidarmos da natureza, se nenhum grande asteroide gigantesco atingir a terra antes, como mostram os filmes, ou se não acabarmos nós mesmos com o planeta em guerras nucleares, ou em alguns milhões de anos o Sol se distanciar da Terra e esfriar, é claro que todos os seres vivos morrerão e não mais existirá vida na Terra. Com ela ficará depois de tudo isso, só Deus sabe.

De acordo com o discutido calendário Maia, o dia 21 de dezembro de 2012 marca o fim de um ciclo de 5.125 anos e está ligado a desastres naturais. Alguns estudiosos afirmam que o encerramento do período pode significar o fim do mundo, com terremotos, tsunamis e enchentes em diversos locais da Terra, mas isto já vem acontecendo há milhares de anos. Em face do tão propalado fim do mundo em 2012, a questão que se colocava é se teria algum fundamento ou não as afirmações de alguns que anunciavam através da mídia, “o juízo final”, o “Apocalipse”, o “Armagedom”, o fim de um ciclo ou o fim de uma era, como quiser chamar. Até eu, preocupado com a devastação e poluição atmosférica, escrevi dois artigos intitulados de “Começo do Apocalipse I e II”, todavia, me baseava nos desastres naturais que a terra vinha e vem sofrendo. Mas falava em começo e não fim. Entendia que, embora alguns não conseguirem voltar atrás nas suas decisões prejudiciais a natureza, o importante é saber que eles ainda têm tempo para consertar o estrago, de tentar um novo começo e delinear um novo fim. Não o fim do mundo anunciado para o dia 21 que levou em conta as crenças de diversas civilizações como os Maias, os Celtas, os Egípcios e profetas como Nostradamus que fizeram alguns chegarem à conclusão de que o fim estava próximo, ou pelo menos o mundo da forma como o conhecemos. 

É certo que já por várias vezes se apontou esta ou aquela data como a do Juízo final. Lembro, por exemplo, da crença quase generalizada de que o mundo iria ou acabar ou sofrer uma enorme transformação quando da entrada em 2000. Ia dar uma pane geral. Pois bem, nada aconteceram, a não ser o aumento da criminalidade aqui e ali, a perda de valores humanos crescentes e os atentados terroristas de 11 de Setembro e de 11 de Março, assim como a da forma desumana e aviltante com que alguns terroristas ceifaram centenas de vidas, denominados de “homens bomba” que nos fazem pensar no quão perigoso é o extremismo religioso e esse ódio exagerado principalmente entre Estados Unidos e o Islamismo. E a criminalidade no Brasil que é estarrecedora?

Voltemos ao assunto em pauta. Afinal o que aconteceu no dia 21 de dezembro de 2012?  Nada. Não é curioso que civilizações tão distintas, separadas cultural e geograficamente, apontem no mesmo sentido?  Sabemos, e isso é certo, que nunca vivemos tão graves crises como vivemos agora quer políticas, quer econômicas, naturais ou ambientais. Se pararmos para pensar facilmente dará conta que estamos perto da insustentabilidade. Dia após dia os recursos naturais se esgotam. Realmente, nada aconteceu nada no dia 21, tampouco sei que não acontecerá de fato alguma coisa, mas sei que é urgente uma transformação da mentalidade humana. Talvez o mundo que achavam que ia acabar se torne um exemplo de superação de ânimo e seja injetada no mundo uma nova tomada de consciência.

...eram apenas gestos refletidos na parede.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012


Preguiçosamente apertei a frouxa lâmpada do abajur que perscrutava as sombras dos gestos refletidos nas paredes, mais parecendo seres vivos extraídos de um filme de animação, mais vivos do que jamais refletira. O velho abajur geralmente iluminava debilmente o quarto fazendo a luz branda tornar todos os meus gestos romanticamente surreais. Todavia, de repente, a luz que a muito não acendia tão intensamente, surpreendeu-me com seu poder de claridade. Alguém deve ter substituído à lâmpada de 30 wolts. Os movimentos sombreados na parede começaram a acontecer como a um desenho animado filmado em câmera lenta e em formato de preto e branco. A ação refletida na parede era febril e frenética, mas também estática, bastava ficar quieto. Os gestos de minhas idas e vindas retesavam-se na branca parede do quarto e lutavam para se libertar de um corpo estranho que se movia de um lado para outro e insistia em não liberar meus gestos embutidos naquela cena surreal, mas, fortificados com a presença da luz escaparam do peso daquelas sombras e rejuvenesceu o meu coração que de tanto lutar já gesticulava incólume.

A luz brilhou mais forte e pensei que nunca acabaria. Olhei para um canto vi a cama e berço vazios e sobre a cama e abraçada a um travesseiro, faltava alguém. Com os olhos ainda travados pelo sono, cabelos desalinhados, mãos calejadas de lida rotineira fiquei pasmo e uma saudade abateu-me sobre o peito. Faltava realmente alguém naquele espaço, alguém que ajudou a curar as minhas dores e feridas. Alguém que não reclamava de nada, nem das dores desconfortantes dos seus pés ou dos joelhos, pernas e braços esfoladas de quedas e estripulias que a própria vida gerou Alguém que naquela noite inusitada não pode ver seu rosto ser iluminado pela nova e potente lâmpada do abajur. Esse alguém que se estivesse ali tenho certeza de que a luz mostraria na sua face o dom de me devolver à calma que a vida tantas vezes insistiu em me roubar. Cenas surreais de gestos realmente inusitados refletidos na parede que somente eu tive o privilégio de assistir: um corpo de mulher em movimento coberto por um lençol cheio de contrastes e cores, amparado por um travesseiro de espumas macias que protegia a imagem de uma guerreira. Só podia ser surreal, pois há dias não acendia aquele velho abajur e jamais pensava assistir cenas tão preciosas que minha mente não esquecera e jamais esquecerá. Mas, a saudade é difícil de imaginar mesmo quando se vê apenas gestos. É uma coisa estranha que toma conta da gente, chega sem pedir licença e acontece quando menos imaginamos: saudade do seu cheiro, de uma melodia que curtimos, que nos trás boas recordações, saudade de uma simples palavra, de uma manifestação de amor; saudade daquelas imagens que foram acopladas cotidianamente na região recôndita de meu cérebro, mas, eis que a máquina do tempo surgiu me envolveu e convidou-me a voltar a ser criança. A mulher que se gesticulava nas sombras refletidas na parede soube costurar a vida usando a linha da verdade para que os filhos pudessem construir suas vidas com sobriedade. Alguém que deixou a saudade invadir o meu peito e se transformou numa ponte de concreto e me fez retornar a mim mesmo; uma travessia moldurada de sabedoria, sem empecilhos, onde se vê bordada uma identidade muitas vezes esquecida, perdida na pressa que me levou ou me que deixa levar. Ao olhar para os gestos e falar em saudade dela é dizer o óbvio, é devolução, é ato que restitui o que se parte; é luz que sinaliza o local de nosso porto seguro, é voz mansa no ouvido que nos acalma nas madrugadas de desespero e solidão.  Mas, naquela noite, ao acender a lâmpada do abajur e ver aquelas cenas refletidas na parede não me restou alternativa senão em finalizar este artigo em uma única frase: O poeta tem diante de si vários sentimentos: o real, o palpável, o prático, o surreal, o imaginário, visões fantasiosas, e quando escreve, muitas vezes objetiva levar ao leitor uma mensagem de amor, esperança, fé, e intencionalmente, deixa de dedilhar o teclado do computador e o substitui pela caneta-tinteiro injetando nela a ruborizada tinta de um coração ferido pelo tempo no afã de aferir a sensibilidade de cada um, mormente quando virem perscrutadas as sombras de sua amada e suas refletidas na parede.

Feliz Natal e Próspero Ano Novo.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012


São os votos de Vanderlan Domingos e Família.




O Carapina e o Pica-Pau

terça-feira, 11 de dezembro de 2012


Torquato era uma pessoa afável, inquieto, criativo, e extremamente curioso. Não tinha dificuldades para se concentrar. Gostava de compartilhar tudo com os outros e não conseguia guardar suas ideias só para si. Começava a tagarelar e nem se importava quem era o ouvinte. De bom astral, parecia querer competir com um inquieto e barulhento pica-pau que vivia circundando a sua carpintaria, o qual, de vez em quando, tentava com seu bico afiado furar as madeiras que ficavam amontoadas no canto do galpão. Torquato era tão tagarelo que exagerava. Tentava colocar sua vida numa realidade que não existia. As palavras que saíam de sua boca eram levadas pelo vento, sem nenhum sentido. Dizia o indizível e não conseguia controlá-las. Falava tanto que até escumava o canto da boca. 

Com exceção a de ser tagarelo, na sua vida não havia excesso e consagrava-a a Deus. Durante muitos anos trabalhou com afinco na sua carpintaria; beneficiava a madeira com paciência, cortava-a e lavrava em peças com esmero, e a maioria era utilizada nas coberturas, soalhos e forros. Era costume, antes de manusear a madeira, ler a Bíblia e louvar ao Senhor. Fazia orações todos os dias, mas apesar de toda essa dedicação nada parecia dar certo em sua vida e a situação financeira aumentava a cada dia. Mas, numa bela tarde, o pica-pau sobrevoou o galpão, desta vez assentou-se comportadamente sobre um pedaço de madeira e com os olhos lânguidos, parecia se compadecer da situação difícil daquele carapina. Torquato ficou observando o bichinho imponente de topete vermelho e achou estranha a quietude daquele pássaro, justamente depois de uma estilingada que lhe dera ao amanhecer para se livrar do barulho que fazia no quintal. Como resolvera se tornar um homem temente a Deus não o molestou, mas, continuou observando.  Aquela pequena ave parecia admirá-lo, queria ajudá-lo e fortalecer sua fé, mas apesar de ser um bom profissional e crer no mundo espiritual até aquele dia não sentira uma melhora financeira, vivia de minguados serviços.

Torquato ficou observando atentamente e a ave permanecia quieta. De repente levantou outro voo e acomodou-se sobre uma linda cruz de madeira. Queria lhe chamar a atenção, dar-lhe um sinal que estranhamente parecia moldar-se sobre a cruz. Procurando entender o que estava acontecendo abriu novamente a Bíblia que estava sobre uma mesinha e leu o primeiro texto que apareceu diante de seus olhos. Compassadamente foi absorvendo cada palavra e aí começou a compreender que Deus tem propósitos para tudo e que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que o ama. E Torquato desconfiou que aquela ave estivesse sendo usada para lhe trazer uma mensagem e passou a olhá-la com admiração, não a molestou e assim ela permanecia firme. Então, vendo a oportunidade começou a conversar com o pica-pau: “Amigo você deve ter vindo de um reino encantado e sempre o recebi nesta oficina com muita raiva, talvez pelo barulho que você faz, mas hoje, dou a mão à palmatória e até entendo que queiras me imitar, pois de certo modo, trabalhamos com madeira. Perdoa-me, haja vista que, sem piedade, lhe atirava pedras com aquele estilingue, talvez até não desejando, ato que me doía o coração. Hoje passei a entender que a oficina inteira era só barulho e comparativamente ao seu, é insignificante. Mas, hoje quero mudar meu comportamento, fechar a boca e construir uma nova vida, pois você me fez ver isso e para mim já é suficiente.”.

Torquato, pela primeira vez deu uma pausa, pensou e concluiu: “Sei que Deus está me colocando no fogo das aflições. Então, vou procurar aceitar as “bicadas” que a vida me dá. Às vezes sinto-me tão frio e insensível como o pó ou a lasca que sai da madeira. Não é fácil, mas a única coisa que peço a Deus é que não desista até que eu seja o que Ele espera de mim. Que leve o tempo que precisar, mas jamais quero ser um lixo como aquela serragem, ou as migalhas de ferros retorcidos e restos de madeira que só servirão para ser derretidos em fornos ou queimadas num fogão de lenha”.

Cabisbaixo, abriu novamente a Bíblica e leu em voz alta para que a pequena ave ouvisse e até servisse como um pedido de perdão: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.” (Coríntios 12.9:10). Nem bem terminou de fazer a leitura uma antiga cliente adentrou ao galpão, encomendando-lhe muitos móveis rústicos e peças ornamentais dizendo que sempre elogiou seu belo trabalho de carapina aos amigos. O pica-pau ao ouvir ficou em júbilo, bicou suavemente a cruz três vezes e levantou um voo rasante atravessando o quadriculado da janela. Em poucos segundos desapareceu no horizonte e a partir daquele dia a clientela de Torquato se multiplicou.

 
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