Amigo leitor (a)

Amigo leitor (a). Quando lemos um livro, ou qualquer texto, publicados ou não, que são sinônimos do prazer, por mais simples que forem, sejam reais ou surreais, nos permite exercitar a nossa memória, ampliar nossos conhecimentos e nos faz sentir as mais diversas emoções, por isso, sensibilizado, agradeço a sua visita ao meu Blog, na esperança de que tenha gostado pelos menos de um ou que alguns tenha tocado o seu coração. Noutros, espero que tenha sido um personagem principal e encontrado alguma história que se identificasse com a sua. PARA ABRIR QUALQUER CRÔNICA OU ARTIGO ABAIXO É SÓ CLICAR SOBRE O TÍTULO OU NA PALAVRA "MAIS INFORMAÇÕES. Abraço,Vanderlan

OS NOVOS “CARAS PINTADAS” QUE SACUDIRAM O BRASIL.

segunda-feira, 1 de julho de 2013



Enquanto aquela multidão de manifestantes caminhava pela avenida, lembrei-me da minha amiga Olga, uma linda jovem, universitária, inteligente, filha de gente humilde, que à época, com dezenove anos de idade, dada a sua inquietude, compartilhava suas alegrias, tristezas e ideais com outros jovens de sua idade. A menina de olhos azuis tinha o hábito de usar tênis brancos, caças jeans e camiseta cavada. Desde pequena era diferente das outras crianças e todo mundo notava. Era independente, inquieta, líder nata, promovia travessuras e quando havia problemas na posse onde morava sempre se colocava à frente dos debates e em defesa dos moradores.
Ao longo dos anos foi uma cara pintada e comandou protestos contra a fome e a pobreza; ainda jovem tentou reunir os menores de rua num movimento contra os maus tratos e abandono do governo. De palavra fácil usava de artimanhas para atormentar os políticos para resolver os problemas de sua comunidade. Extremamente popular, quando discursava, mostrava maturidade e conhecimento de causa e todos notava que tinha uma imaginação bastante fértil. Menina pobre, mas sem nenhuma timidez, participava de movimentos estudantis pós revolução de 1964 para defender aos mais carentes e aqueles que viviam à margem da sociedade – os excluídos. Todos viam que o destino daquela menina ia ser diferente, principalmente quando participava de debates em entidades assistenciais e não governamentais.
Hoje, ao invés de continuar assistindo a TV resolvi abrir as páginas amareladas pelas intempéries tempo para mostrar a vida de Olga, jovem que lutava bravamente para destruir o vergonhoso papel da fome, da violência, da miséria, da corrupção e da inflação galopante. Por mais que minha mente neste momento tentasse inserir questões solúveis na região recôndita do meu cérebro; por mais que cutucasse a minha sensibilidade, a minha altivez e virtude há momentos em que o meu apelo, por mais dramático que seja ou receba uma sinalização mais forte de algum representante dos excluídos, sei que jamais lograria êxito e não sustaria o prolongado torpor em que mergulhava a sociedade brasileira naquele período ditatorial. O vergonhoso papel da fome, da violência, da miséria, da inflação galopante e corrupção generalizada, continuariam longe de ser varrida de nosso País em razão da desonestidade de nossos governantes, da falta de vontade política em resolver certas questões urgentes, além é claro, dos descasos com a classe dominada.
Não resisto à emoção que invade o meu peito ao ver aquela multidão, e assim, volto os olhos e os fixo na TV. Vejo rostos pintados em verde e amarelo, alguns com nariz de palhaço levantando cartazes com reivindicações escritas em simples cartolina; questionamentos que se não forem resolvidos, jamais as manifestações serão atenuadas e pelo contrário, poderão ampliar essa revolta para outros setores da atividade pública. E é real o que se escancara diante de nossos olhos: o panorama de gritantes tradições que alimentavam e ainda alimentam e fazem crescer as riquezas e pobrezas do mundo, estas últimas em maior escala e tudo isso ocorre em razão da corrupção generalizada que sempre foi o maior estopim que sempre gerou e continuam gerando manifestações. Dados estatísticos mostram a realidade, que nem merecem ser comentadas, mesmo porque, por si só, eles são suficientemente eloqüentes para clamar por justiça e abalar os reais fundamentos e a indiferença que campeia no mundo político. Esses homens públicos nem constatam ou não interessam saber que a desnutrição dos famintos é o desperdício e a indiferença dos saciados, e o que mais revolta e nos deixa indignados, é sentir que a pobreza de uns, a miséria absoluta de outros nem toca a sensibilidade dos abastados e dos poderosos que nada fazem para extirpar as causas da pobreza no mundo e quando fazem é de forma abusiva, até riem da situação do povo e nem corados ficam; usam desse subterfúgio para ludibriar a pobreza com uma propaganda extemporânea que nada mais é do que crime eleitoral e fazem de tudo para perpetuá-la, alicerçando todo o seu poder e sua prosperidade na penúria e na expropriação da imensa maioria dos descamisados com oferecimento de “Bolsas” de todo tipo e programas de casas mal construídas, esquecendo que a pessoa humana quer apenas escola, transporte, saúde, segurança, trabalho e serviços públicos dignos. 
Tempos idos Olga deixou este mundo desiludida e foi para outra dimensão, mas hoje vejo que a sua luta não foi em vão. Parecia estar ali no meio daquela multidão, pois em cada rosto via refletir o seu. Os novos “caras pintadas” que agora tomavam as ruas das cidades e que antes protestavam somente contra tarifas de transporte, agora ampliam o leque de reivindicações: combate a corrupção, contra a falta de investimentos em segurança, melhoria na educação e saúde, e gastos com a Copa do Mundo. Na pauta incluíram até a PEC 37 que retirava o poder de investigação criminal do Ministério Público. São manifestações legítimas, embora muitas tenham terminado com atos de vandalismo, mas, neste caso pouco importa, pois os maiores vândalos são os políticos e governos corruptos, os improbo que se apossam do dinheiro público e dão maus exemplos para essa juventude baderneiras. A presidenta Dilma assustou com a situação, se pronunciou anunciando diversas medidas, dentre as quais, a reforma política, e no Congresso Nacional, parlamentares que desejavam acabar como o poder do MP, com medo de represálias, votou contra a aprovação da PEC 37 e aprovaram mais recursos públicos para a saúde e a educação. E não vai ficar só nisso aí, as manifestações assustaram e continuarão assustando os três poderes da República. As manifestações foram incentivas para assustarem os políticos e serão capazes de criar uma densa e ampla inquietação social em todo o território nacional e entre os variados segmentos socioeconômicos se não acabar de vez com essa doença chamada corrupção. Estas manifestações por si só já representam inquietação social com o “sistema”, este reconhecido como um conjunto de problemas que não serão resolvidos somente pelos atores políticos. O eleitor também responsável, pois ele é que escolhe o governante.

Publicado no Diário da Manhã, edição do dia 3 de julho de 2013.

Aconteceu numa manhã de outono

terça-feira, 25 de junho de 2013


Estacionei meu possante frente à Escola Paulo Teixeira de Mendonça, Vila Negrão de Lima, que tempos idos cheguei a morar perto dela. Naquela linda manhã de outono levava comigo alguns livros que ia devolver a um amigo vizinho da escola. Curioso, resolvi adentrar e ao passar por uma sala de aula observei que havia bastante silêncio, que não era comum naquela escola, afinal, tratava-se de jovens na faixa etária de seis a onze anos de idade. Por instantes, fiquei observando aquela calmaria até que uma voz conhecida cortou o espaço e aguçou meus ouvidos. Era o professor Zezinho, meu sobrinho, que entusiasticamente ensinava aos seus alunos, não acordes musicais, mas, como repensar as escolas, o ensino de um ser e para o ser humano e como envolver as comunidades. Parei momentaneamente perto da porta e observei atentamente as suas interessantes explanações; notei que os alunos prestavam bastante atenção.  
Durante o tempo em que fiquei ouvindo os ensinamentos do professor Zezinho, observei que um dos instrumentos para ensinar autocontrole é o mesmo que praticar a exercício de um simples “sinal de trânsito” e ou mesmo fazer que se interessassem pela aula, usando um método de aproximação professor e aluno, de maneira respeitosa e cordial. Como simples observador, vi que ele nem precisava usar método nenhum, pois de alguma forma já era tratado pelos alunos como mestre. As peripécias que fez para conquistar aqueles adolescentes foram até hilárias, até o seu nariz avantajado serviu como instrumento de conquista. Se acha que é brincadeira ele até pensou em desistir em razão da indisciplina de alguns alunos, mas o gosto de ensinar música falou mais alto e daí, sua luta em prol do ensino moderno e com novos métodos passou a ser reconhecido por aqueles adolescentes e colegas professores e com isso, veio à admiração.
       Falando com “meus botões”, mas, atento à sua apresentação quase teatral, concordei que a vida em família não mais proporcionava às crianças uma base segura na vida, restavam às escolas como único lugar para as quais a comunidade pode recorrer em busca de corretivos para as deficiências da garotada no que se refere ao emocional e ao social. Isso não quer dizer que as escolas, sozinhas, possam substituir todas as instituições sociais que demasiadas vezes já estão ou se aproximam do colapso. Mas, se concluirmos que toda a criança vai à escola, ela oferece um lugar um lugar e as lições básicas para a vivência cotidiana, as quais, talvez, não receberiam em outro lugar. A alfabetização moderna e com novos métodos, incentiva o aluno a uma participação maior e efetiva no contexto escolar. Essas escolas são substitutas de famílias falhas na socialização de crianças. Entretanto, como disse o professor Zezinho, a quem carinhosamente chamo de “Zezinho dos Teclados”, essa temerária tarefa exige duas grandes mudanças: que os professores deva ir além de sua missão tradicional, e que as pessoas da comunidade se envolvam mais com as escolas, principalmente as localizadas na periferia da cidade. Os professores muitas vezes precisam sentir-se à vontade, falar de seus sentimentos, e até certo momento, esquecer da matéria, o quadronegro, o giz, no seu caso do Zezinho, os instrumentos e acordes musicais, e voltar brincar, ser criança como elas, fazer da vida um pequeno teatro, falar de sonhos e fantasias, tentar conhecer o âmago do aluno, para, a partir daí, descobrir as deficiências e angústias que os cercam.
       Naquela manhã ele parecia diferente, compenetrado, encenava para os alunos com seu jeito brincalhão, cujos gestos refletiam no olhar de cada um como se fosse uma magia, e entusiasticamente, começou a falar das mudanças que deveriam acontecer nas escolas, com implantação de novos métodos de ensino. Um ensino que pudesse aproximar pais, alunos, professores e escolas, num mesmo objetivo, num mesmo desiderato: o desenvolvimento intelectual do aluno, de forma compreensível e que esses ensinamentos tivessem sequência no próprio lar. A maioria dos pais não acompanha o aprendizado, não atendem os apelos da escola quando convocados para discutirem assuntos de interesses de seus próprios filhos. Não obstante o esforço de cada um - pai e professores – hão de se convir que não exista sistema educacional capaz de superar as deficiências da família. O que os pais têm de procurar é estimular intelectualmente seus filhos, orientá-los a alcançar suas metas e seus anseios. Mesmo em família de baixo poder aquisitivo os filhos se saem melhor na escola quando recebem esses estímulos. A escolha de uma boa escola, uma melhor proposta pedagógica baseada nos valores familiares tem muita mais probabilidade de dar certo do que aquela que funciona apenas como “pinguela” para tentar compensar as falhas da educação familiar e é fato que deveria acontecer com a escola moderna, mas, dada a precariedade, o mísero salário e abandono da escola pelo poder público no Brasil tudo era apenas utopia. Não querendo importuná-lo retornei ao meu habitat, pois não poderia perder aquela linda manhã de outono. 

Publicado no Diário da Manhã, edição do dia 26 de junho de 2013.

A DIMENSÃO DE AMIGOS, ANJOS E ARCANJOS.

terça-feira, 18 de junho de 2013


             

Quando me sobra tempo para refletir diria que já vivi momentos terríveis, alguns deles, fotografados pela máquina do tempo em preto e branco. Estas partículas ásperas retiradas da memória, onde as alegrias infindas, os desencantos e desencontros insolúveis, sorrateiramente foram repaginados, alguns em tons sépia envelhecidos, que destoam de minha vivência, feita em preto e branco, porém, em face de uma situação momentânea, retratam uma vida normal para quem não busca ou não consegue sair dessa anormalidade e soltar as rédeas do destino e sair à procura do pincel da vida para, no final, colori-la com amor, respeito, carinho e paz interior. Hoje, temporariamente, eu queria uma máscara, que me fizesse passar despercebido pelos lugares por onde passo, não conhecer novas pessoas e não contar novas histórias; eu só quero não ser lembrado por um tempo. Eu só quero me convencer de que essa sensação vai passar, porque agora está doendo tanto que parece que eu já nasci com essa dor. Mas, é indiscutível também que em nossa vida não existem tantas pedras preciosas. Existem pedras que são obstáculos que se fizeram retirar ou foram eternas imagens de alegria, onde a maioria procura receber tons alegres de lutas bem sucedidas, da realização de sonhos, símbolos difíceis de discernir, mas, que angariam valores pelo resultado alcançado. Toda pessoa sonha com um futuro melhor, ser bem sucedida na vida e isso é bom, pois todos estão se alimentando de esperança para perpetuar-se no amanhã. Imagine o que seria de nossa existência sem sonhos... Certamente ela não teria o mesmo sentido, visto que os sonhos nos levam a alcançar aquilo que parece impossível.

Tem gente que vive a preto e branco, desesperançado. Todavia, se pudesse ter um olhar mais simples sobre o seu modo de viver poderia ser mais interessante, ou de outra forma, procurar no altar do Senhor Jesus o milagre da vida e o anjo da guarda para enfrentar as labutas do dia a dia. Deus em sua infinita bondade atribuiu a cada homem um anjo que acompanha todos os passos e o protege contra os perigos do corpo e da alma. Os anjos são figuras importantes em muitas outras tradições religiosas do passado e do presente e o nome de "anjo" é dado amiúde indistintamente a todas as classes de seres celestes. Já Arcanjo é o nome dado ao anjo que ocupa a segunda classe em sua hierarquia celestial religiosa, mas, de qualquer forma, também nos protege de todo o mal. Infelizmente, a maior parte da humanidade parece que não tem interesse de se beneficiar desse ser protetor e nem sabe a sua grandiosidade. Eu meço e sinto dimensão deles em relação a minha proteção individual. Eu não tenho só um anjo, vários. Como tive e tenho muitos amigos que fazem papel de anjo. Quantas pessoas queridas se foram para outra dimensão; eu oro para elas todos os dias e sinto que me escutam e protege. Assim, posso afirmar com convicção que não tenho amigos, parentes, anjos e arcanjos somente no mundo espiritual, tenho aqui na terra também, pois em todos os momentos que precisei de ajuda e amparo, todos estiveram junto de mim. 

Neste momento, quando apago de minha memória o preto e branco para viver o colorido da vida, sinto vir a mim um desejo ardente de agradecimento até certo ponto inenarrável. Ao manusear o teclado do computador e passar para o monitor estas singelas linhas, tive que segurar o máximo para conter as lágrimas que ameaçavam sair de meus olhos, mas, como sempre faço, encurto a distância entre o meu cérebro e o coração, uso a razão, levanto a cabeça, olho pelo vão da janela e observo o céu azul e os pássaros que voam com destino incerto. Tudo fortalece minha emoção e prevalece a razão. Respiro fundo e tento me controlar, afinal, eu não posso me parecer fraco e vítima traumatizada perante essas pessoas que encheram e enchem minha vida de alegria, esperança e fé em dias melhores; e está longe o meu desejo que alguém fique decepcionado ou venha sentir pena de mim. 

Fazendo o papel de anjos, quantas pessoas amigos se foram para outra dimensão. Abstenho-me de relacioná-las por questões óbvias. Mas é bom discernir que existem dois sentidos para a palavra dimensão, um é o que se mede a extensão para avaliá-la, ou pode ser o tamanho de um trabalho  desenvolvido durante toda uma existência ou um volume  de uma coisa qualquer. Outro é no sentido espiritual: a passagem de um plano inferior a um plano mais sublime. As que continuam aqui na Terra, ao meu lado cotidianamente, e outras mais distantes, que são muitas, também não cabem nesta folha de papel. Resta-me então, cavalgar na máquina do tempo, tirar fotos, flashes em preto e branco ou colorido, não importa a cor e arquivar na minha memória, mas sem os percalços impostos pelas curvas destino para mostrar em cada dimensão, no Paraíso Celeste ou na Terra os parentes, amigos, anjos e arcanjos que conseguiram inserir através de seus atos de bondade, a perseverança, a dignidade e o amor ao próximo. 

Publicado no Diário da Manhã, edição do dia 19 de junho de 2013

O ÚLTIMO SUSPIRO.

segunda-feira, 10 de junho de 2013


                                                                                                                                                            
Sou escritor, poeta, cronista, um artista solitário que vive perdido no mundo da imaginação e tento através dos meus artigos e crônicas satisfazer meus desejos mais desvairados, reativar minha memória, reviver emoções, devaneios e talvez, até sonhos não realizáveis. É através da escrita que manifesto meus descontentamentos com o mundo egoísta, com os projetos de vida impostos por um Estado opressor que não dá exemplo e destrói a nossa sociedade. A crônica me dá asas para voar no mundo da imaginação e ânimo para iniciar mais este texto e nele falar de uma pessoa qualquer ou especial, mas, certamente, antes que a luminosidade lunar passe pelo vão da janela, já tenho que ter digitado e lançado na telinha o amontoado de letras, para no final, juntando-as, alcançar os objetivos propostos, sem entrar em detalhes que possam ferir a sensibilidade do meu leitor. Hoje a minha intenção, é escrever sobre duas pessoas amigas que nos últimos dias fizeram parte do teatro da vida e tiveram que aceitar os desígnios de Deus; aceitar aquilo que o destino lhes preparou, para, talvez, até servir de exemplo e mostrar, no final da cena, que o amor prova a sua força mesmo no tempo da adversidade e reconforta como o sol depois de uma chuva torrencial. 

Através de uma janela quadriculada, no décimo terceiro andar, protegida por uma pequena persiana, esta me fez lembrar um quatro de um hospital, de uma luz tênue que iluminava as paredes brancas e de uma porta onde se via uma luz vermelha que indicava ser ali uma UTI. Com o pensamento alhures fiquei sem entender o porquê encontrar aquele amigo ali, quase desfalecido, com agulhas fincadas no pulso e braço jorrando nas veias o soro e medicamentos para manter sua vida. Por tratar-se de pessoa amiga resolvi escrever este texto e relatar o que aconteceu num final de tarde, onde o céu escondido por imensas nuvens negras, entrecortadas por raios de sol, testemunhou um acidente ocorrido a poucos metros da margem do caudaloso Rio Babilônia. 

Com o corpo inerte naquele leito de hospital, aquele jovem pescador, que era inquieto, acostumado com as tempestades e intempéries do tempo, naquele final de tarde seguia rio adentro amparados pelos últimos resquícios de sol que ainda clareava aquelas margens, e espertamente, acariciavam o rosto de sua amada. Ele manobrava feliz o seu barco, sem rumo certo, apenas com o prazer de sentir o vento beijar seu rosto e as águas calmas se debaterem na proa. Mas, por imprudência de alguém, agora estava ali naquele leito de hospital, enquanto lá fora, caía uma tempestade nunca vista. O seu rosto parecia esboçar um sorriso e diante da adversidade que o destino lhe pregara, não nos restou alternativa senão em ficar ali atentos, observando cada movimento seu e da parafernália de instrumentos e máquinas que monitoravam o seu sistema cardíaco e respiratório.
 
Sentimos que lembranças horríveis de um acidente de barco vinham à sua mente e através de seu semblante, brotar imagens que pareciam ir e voltar como uma avalanche, mostrando vívidos detalhes, manobras inconsequentes realizadas por barqueiros. O seu pequeno barco foi abalroado por uma lancha de grande porte, partindo-o ao meio ocasionando uma grande explosão. Talvez aquele esboço de sorriso perdido na escuridão recôndita de um cérebro anestesiado pela dor, poderia estar estimulando-o a sonhar com sua amada Yasmim que fora também internada em estado grave no pavimento inferior.

Em certo momento sentimos sua boca balbuciar alguma coisa, como estivesse se despedindo da gente. Sobre a escrivaninha, uma pequena lâmpada de abajur iluminava o rosto de Benjamim que se encontrava com o corpo apoiado sobre dois travesseiros. Sussurramos alguma coisa em seu ouvido e o seu rosto magro de transfigurava e um sorriso leve saíam de seus lábios finos e pálidos, como que agradecendo a nossa presença, mas, naquele instante parecia estar em outra dimensão. As suas mãos estiradas sobre o lençol branco, mal conseguia movê-las, mas, entrelaçamos nossas mãos nas dele afagando-as com carinho. Uma lágrima brotou de seus olhos cerrados e desceu em sua face sofrida e naquele momento sentimos seus dedos se afrouxarem e o coração parar de bater. Deu um último suspiro e expirou. Ficamos olhando um para o outro, mudos, atônitos, enquanto a enfermeira pagava o lençol e lhe cobria o rosto. Naquele instante entre um médico e comunica o falecimento de sua mulher Yasmim no pavimento inferior.

De repente, um arrepio tomou conta de meu corpo quando uma luz intensa clareou o quarto fazendo desaparecer a pequena escuridão que era sustida apenas por uma pequena lâmpada de abajur. Um clarão intermitente formou-se no quarto de forma inusitada e incrédulo, vi Benjamim e Yasmim aparecem em forma de luz e pelo vão da janela suas imagens saírem esvaindo-se diante daquele prenúncio de noite e recebidas por um grande barco adornado de estrelas reluzentes para depois, subirem ao céu e como a um raio, desaparecer no universo que nem sabemos ter fim.

Publicado no Diário da Manhã, edição do dia 12 de junho de 2013




GASTÃO PINÓQUIO, O MENINO DE NARIZ PEQUENO

terça-feira, 4 de junho de 2013



A verdade para mim é muito importante. Dificilmente minto e se minto, é para uma boa causa, para não alvoroçar a vida de ninguém. Penso que para a grande parte da humanidade também. Hoje, depois de ouvir uma mentira escabrosa, resolvi esporá-la sem dó, principalmente quando vi que se tratava de sentimento íntimo; merecia verdade daquele a quem foi confiado o assunto sigiloso. Naquele ato a intimidade compartilhada significava transferência de algo profundo, pessoal. Ninguém deve dispor dessa essência que não é sua, usando a mentira. O pior é que quando o mentiroso diz a verdade ninguém acredita, a perna da mentira encurta, o mentiroso enrubesce mesmo sendo um exímio manipulador, bom ator, espontâneo, eloquente, improvisador e criativo. Existem grandes mentiras e outras pequenas, mas, como é possível mentira ter tamanho? Mentira é mentira e de qualquer jeito que for contada causa estrago e algumas, até danos irreparáveis. O hábito de mentir, quase sempre, tem início na infância e para que alguns privilégios não fossem cortados, mentiam. Quantas mentiras insignificantes, que sequer causavam danos. Eram pequenas inverdades que nem todos escapavam, mas, eram corrigidas a tempo. Sejam mentiras grandes ou pequenas, gordas ou magras, todas têm pernas curtas.  Às vezes, nem é preciso de pernas fortes, porque, como alguém disse não me recordo quando, que a mentira tropeça na própria mentira. 

Os mais novos mentem aos pais, principalmente à mãe, pois nunca revelam o verdadeiro ingrediente que provocou tamanha sujeira. Mentem sobre as companhias, sobre onde estiveram, sobre onde dormiram e sobre o que fizeram. Aos pais mentem sobre o que se passaram entre eles na calada da noite. Mas, como incriminá-los, infelizmente até os pais mentem. Mentem aos seus patrões, dizendo-se doentes para faltar ao trabalho, mas a sua doença é mundial: a preguiça.

Há mentiras óbvias, há mentiras bem feitas, bem pensadas; há mentiras do momento, há mentiras elaboradas até em papel rascunho, postadas na internet; há mentiras que agradam e outras que não; há mentiras que são mentira mesmo, há mentiras que pensam que são mentiras, mas, é verdade; há mentiras grandes, há mentiras pequenas, há mentiras do povo, há mentiras dos políticos, há mentiras engraçadas e há aquelas que nem piada tem; há mentiras inofensivas e há outras muito nocivas. Há mentiras para todo o lado. São tantos tipos de mentiras que qualquer uma pode ser apanhada, principalmente aquelas que têm a perna curta. Estas não se vão muito longe não… Como disse Oscar Wilde: “A finalidade do mentiroso é simplesmente fascinar, deliciar, proporcionar regozijo. Ele é o fundamento da sociedade civilizada”.  

Não é mentira, mas agora preciso finalizar minha crônica, pois o espaço que o jornal me oferece é pequeno. Não poderia dizer ao meu leitor que isto é uma mentira? Dizer que o meu personagem, que por ironia, o pai o registrou como Gastão Pinóquio tem nariz pequeno? Se o nariz dele não cresceu então não é mentiroso? E se eu lhe disser que isto é tudo verdade, mas que pode ser mentira; mas se lhe disser que tudo é mentira, mas que pode ser verdade. E agora? Até eu fiquei na dúvida! O meu Pinóquio tem nariz pequeno ou não? Será que é verdade ou mentira? Será a verdade uma mentira, ou a mentira é uma verdade? Mas, eu só sei que ela tem perna curta, então, apresse-se que ainda pode apanhá-la antes que ela dobre a esquina da mentira e adentre na rua da verdade. 

Publicado no Diário da Manhã, edição do dia 05 de junho de 2013

Facebook no divã dos internautas

quarta-feira, 29 de maio de 2013




                                            
Quando faço os meus comentários no Facebook, ao encerrar, sempre escrevo alguma coisa sobre os compartilhamentos, cutucada e curtida recebidas.  Para não melindrar ninguém, contrariar, decepcionar ou magoar; tento buscar nos meandros de cada palavra, das citações, frases e fotos postadas pelas pessoas amigas, uma forma de ver e procurar entender a realidade vivida por cada uma, e algumas vezes, de tanto analisá-las, acabo reportando-as da maneira mais cordial possível, escrevendo frases de efeito, de acordo com cada sentimento, manifestação e meio metido que sou, costumo até dar conselhos e puxões de orelha (no bom sentido é claro!) na pessoa que vulgarizou o seu palavreado. Na curtição de fotos, compartilhamentos das mensagens pessoais ou frases de grandes pensadores postadas por elas, eu procuro trazer do fundo da alma uma melhor resposta, um dom que a vida deu-me para escrever e inteligência para saber exprimir sentimentos que vai além da imaginação, e, imbuído do desiderato de melhor orientá-las, sempre uso o mundo do saber, no qual, faço questão de entrelaçar a força do amanhecer como forma de incutir a paz e a amizade que muitos, de algum modo, procuram encontrar nas entrelinhas do FACE e mormente, em busca de outros sonhos.
Iluminado pelo sol do meio-dia, do jeito que gosto e impulsionado pela força que move meu espírito; com os olhos voltados para o inspirador entardecer que ajuda a noite revigorar meus sonhos, tudo me faz adormecer e sonhar com o impossível. O sono vem manso, descompromissado e me leva pelo túnel do nada, a lugar algum, cujo destino é o próprio vazio. Como o sono não conhece o fim, ele abre espaço para o mundo dos sonhos. Sonhos que às vezes me impede de sair em socorro dos desalojados, dos moradores de rua e dos barracos de alvenaria ou de papelão cheirando a mofo fétido. Mas tem noites que são ótimas, porque não roubam tempo dos dias e nem o frescor da tarde ou da manhã que chegou forte e vai entrando pelo vão da janela sem pedir licença, clareando a pilha de livros colocados desordenados na pequena estante.
Hoje, quando intitulei esta crônica de “FACEBOOK NO DIVÃ DOS INTERNAUTAS”, sei que até posso estar enganado, mas tenho a impressão que vou desagradar muita gente amiga que faz parte de minha página, pelo menos no mundo virtual, ao trazer a baila este assunto. Qualquer crítica então, amigo e amiga, a dirijo a mim também, embora meu alvo seja o “modus operandi” de quem o usa, e em última análise, permite que cada pessoa leia o que a outra escreve. Por isso sempre quando encerro a minha participação no FACE procuro dizer que busco nos textos, nas artes expostas através de atelier, na cultura, na literatura ou qualquer outra citação postada,  o impossível, onde a razão jamais poderá alcançar, e aí, “viajo” para dentro de mim mesmo, na profundeza de minha alma e quase sem querer, descubro que entre as palavras mágicas dos compartilhamentos, das curtidas, das cutucadas, risos, alguns escondidos e outros soltos, mesmo com as nuances encontradas, podem ter a certeza que o que li e vi me deixam reconfortado e  feliz.
Neste final de semana para variar, com tempo de sobra em razão do feriadão, vaguei na Internet, manuseando sem pressa, apenas dando pausa para um lanche e descanso natural para sossegar a mente.  De repente, eis que lá estava eu no Facebook. E com o cursor, fazia descer os links postados e quantas “pérolas” expostas iam aparecendo, alguns de gostos duvidosos, outros, expressando raiva de alguém, sabedoria, artes, citações bíblicas e textos lindíssimos que pareciam pintados e extraídos do fundo da alma. Afinal, nesta Terra de Ninguém que é a Internet tudo se pode e de tudo se vê. A vida funciona como no mundo real, não pára, não tem hora para acontecer: são 24 horas ininterruptas no ar. Mas, confesso que vi muito “besteirol” caseiro. Pessoas usando-a para reclamar da vida ou para mandar recados maldosos a outras, talvez tenham sido ofendidas, todavia, sequer observam que todos estão vendo e essa maldita comunicação é de uso público. Tem pessoas que postam cenas obscenas (estes eu os excluo de meu rol de amigos sem pestanejar!), situação que me levou a refletir sobre esse universo do qual participo e resolvi colocá-lo num divã para que cada internauta se torne um psicólogo de si mesmo e possa refletir. Isso tudo é a aldeia global digital cada qual na sua tribo têm suas particularidades indiscutíveis e intransferíveis. Mas como dizia o grande mestre Voltaire: “Não concordo com uma palavra do que dizes mais defenderei até a morte seu direito de dizê-las”. Felizmente, na minha página só tem gente amiga, a maioria virtuais é claro, mas que, com o passar do tempo, se tornarão reais.
Alguns podem achar interessantes e úteis; outros detestáveis, tudo depende do ponto de vista ou interesses de cada um. Agora, desdenhar da privacidade alheia é ferir o direito do exercício da livre escolha. O facebook é uma rede aberta, onde você pode simplesmente curtir, cutucar, compartilhar refutar e excluir o que não gosta. Agora critica por critica é dispensável, mas o cuidado no uso dela por mais que você tenha, é pouco. 

 
Vanderlan Domingos © 2012 | Designed by Bubble Shooter, in collaboration with Reseller Hosting , Forum Jual Beli and Business Solutions