Amigo leitor (a)

Amigo leitor (a). Quando lemos um livro, ou qualquer texto, publicados ou não, que são sinônimos do prazer, por mais simples que forem, sejam reais ou surreais, nos permite exercitar a nossa memória, ampliar nossos conhecimentos e nos faz sentir as mais diversas emoções, por isso, sensibilizado, agradeço a sua visita ao meu Blog, na esperança de que tenha gostado pelos menos de um ou que alguns tenha tocado o seu coração. Noutros, espero que tenha sido um personagem principal e encontrado alguma história que se identificasse com a sua. PARA ABRIR QUALQUER CRÔNICA OU ARTIGO ABAIXO É SÓ CLICAR SOBRE O TÍTULO OU NA PALAVRA "MAIS INFORMAÇÕES. Abraço,Vanderlan

Debruçado na janela da alma

domingo, 8 de setembro de 2013



Amparando o queixo com as mãos olhava o horizonte poente e aguçava os olhos que naquele instante eram a janela de minha alma que tentavam recuperar a  imagem de uma mulher guerreira, que fora levada pelo tempo, sem motivo, como se fosse uma simples folha seca... Talvez, seja este o padrão diariamente imposto a elas, mulheres da vida real, modernas, mas sem realeza, sem personal trainer, sem personal dieter, que à noite, assim como eu, mesmo com os olhos embaçados, se debruçam na janela da alma, sem nada a ouvir, sem expressar sorrisos, e se sentem dominadas por um exército de gente que não as entendem e nem procuram saber que também sonham. Quieto naquele quadriculado nostálgico e nem um pouco lúdico, nem vi o tempo passar quando os meus olhos voltaram a se inclinar sobre a janela da minha alma e enxergarem a poucos metros dali árvores centenárias também debruçarem os ramos, assim como, os cabelos daquela linda mulher em louras mechas e o sol e a lua se porem e nascerem soberbos. Mesmo cansados, sei que somente queriam é que eu vivesse uma existência efêmera, mas encantada... Eu procurava entender isso e saber que um dia tudo iria extinguir-se, então, não nada mais me restaria. Todavia, era deslumbrante ver a primavera se antecipar florindo jardins e os Ipês, cujas flores caíam e deixavam o chão colorido, que minutos antes, tinha sido molhado por pequenas gotas de chuva rapidamente secadas em face escaldante sol que já se despedia detrás da selva de prédios. 

Diante da perda daquela imagem restou-me usar as asas da imaginação, sair voando e num vôo alado, livre, sem atropelos, alcançar o infinito, onde, talvez, poderia me distanciar da terra e alimentar os meus sonhos e os dela em outras dimensões. Mas, a imagem se esvaiu no universo mórbido, não mais vista, nem através da janela de minha alma, e aí, fui novamente acalentado por pequenas gotas de chuva que se debatiam no vidro da janela e com o cantar de alguns pássaros que procuravam desesperadamente o seu habitat. No céu da imaginação tentava buscar o amanhã que poderia até ser um sonho de ontem e hoje, ser apenas uma fantasia de quem sonha com o impossível, de quem vive intensamente e agita-se ao vento, voa fantasiosamente em busca do seu próprio “eu” num universo, controverso, desconhecido, que nem sabemos ter fim e lá, poder achar o amor e a paz, se é que ainda existem. Sabemos que a alma universal não pode realizar-se perfeitamente enquanto não afastarmos de nós o véu da ilusão, ou enquanto perdurar o sentimento do “eu” e do “meu”. Assim, sem contabilizar as horas mortas e diante daqueles respingos de chuva primaveril, senti a janela de minha alma se fechar antes de trazer de volta aquela imagem, pois sabia que com a presença dela, captaria emoção e motivos necessários para escrever um texto plausível capaz de alimentar prazerosamente a mente do meu querido leitor. Mas, enquanto isso não ocorria, as cortinas do tempo se fechavam com o pôr do sol mostrando o lado obscuro do mundo que parecia descer pelos desfiladeiros da insensatez. Inerte, deixei-me dominar pelas asas da imaginação que levaram  junto comigo, como poeira ao vento, os  meus   desejos, aspirações e   esperanças, onde, a cada dia, tento fazer um ensaio dramático para uma última cartada no teatro da vida, para quem sabe, do outro lado, alguém possa entender e discernir o porquê de tantas mazelas que vêm ocorrendo em nosso País, assim como, na nossa sociedade e quiçá, também, conhecer e entender minhas angústias e lamentações. 

Empilhada em cantos escuros de minha alma, a soberba reflexão incorreta sobre quem sou, hão de entender possivelmente, pois, minhas abstrações se limitam a nada definir com profundidade, no entanto, como aquela imagem que se esvaiu no espaço celeste, eu, você, sabemos que amanhã tudo voltará à velha rotina: morte e vida; encontros e desencontros, tempestades e calmarias; lua e sol. Vozes sussurrando palavras doces e mentirosas que são impregnadas em nossos ouvidos desacostumados com a realidade e padrões duros impostos por uma sociedade consumista. Nesse interregno, o tempo dita suas regras que são acopladas pelos pólos magnéticos que se chocam em um espaço sem gravidade. 

Por fim, com os olhos da alma desconectados, deixo de dedilhar o teclado do meu computador e vou embora para ficar fora do campo de visões que me angustiam. Assim, opto por voar nas asas da imaginação para resguardar apenas o que restou daquelas lembranças, como um sorriso angelical, uma palavra de afeto, uma foto postada, um compartilhamento, uma mensagem amiga, um comentário, um texto poético, onde se podia ler coisas importantes e regozijar das belas palavras lá escritas. Mas o olhar que sabe captar essas palavras mesmo escritas de forma hieroglíficas hão de acreditar que nele existe uma beleza pronta ou esperando para ser lapidada... Enfim, o que mais me encanta no olhar é que, o contrário da boca, eles nunca conseguem desmentir o coração e é através daquela imagem inesquecível captada através da janela de minha alma é que hei, doravante, de cristalizá-la para sempre na minha retina.

Laços de família

sábado, 31 de agosto de 2013



Embora os filhos não tenham motivos para se tornarem delinquentes é necessário entender que a violência pouco a pouco pode entrar em nossos lares. Ouvimos diariamente noticiários mostrando as barbaridades praticadas por jovens contra pessoas humildes que transitam pelas ruas e ou mesmo contra os seus próprios pais e entes queridos. Situação que nos fazem refletir e perguntar: Como podem eles praticar tanta barbaridade? Como podem ser tão frios e capazes de praticar tamanha violência? Como pode uma criança exterminar toda a sua família? Diante daquela notícia, inerte calei-me e sabia que a sociedade também ficara incrédula, estupefata.  Entretanto, não obstante a gente não aceitar como um fato real, que pode alcançar o nosso lar e que esta é uma realidade vivenciada todos os dias, em todos os lugares e que nos afeta, não podemos deixar de considerar que a violência sempre existiu, entretanto, o mais perigoso, agora, é que começam a ser tolerada e aceita como inevitável, pois sem ir muito longe, em nossos lares a televisão entra sem pedir licença, mostra em seus filmes e novelas cenas horripilantes, armamento de pequeno e grosso calibre que vomitam suas balas como se estivessem comemorando uma festa junina, e vemos estupefatos, vários corpos estirados no chão. Mostra o sexo de forma deliberada, a crua violência, os políticos que são condenados pela justiça,  presos e sequer são cassados pelo Congresso Nacional, que nada mais é um corporativismo formado pelo PT, PMDB e partidos aliados para defender seus asseclas. Uma vergonha que virou chacota em todo o mundo! Meu Deus! Que país e este? País onde políticos  não dão exemplo de cidadania e nem respeitam o seu próprio eleitor, fatos que estão se tornando corriqueiros, noticiados pela imprensa escrita e televisiva, que já extrapolam os limites da sensibilidade humana, mas, no fundo, sabemos ser difícil dar um basta ao não ser, se voltarmos às ruas e tomarmos conta daquela malfadada Casa Legislativa lotada de corruptos, sem escrúpulos. A todas essas mazelas que vêm contaminando o Brasil temos de convir, entretanto, da existência da perda de controle do governo federal e da sociedade especializada.

No que tange ao meio familiar, desde os tempos remotos, Deus tem incluído a família em suas promessas de bênçãos, salvação e livramento, tanto que em Gênese 7:1 disse a Noé: “Entra na barca, tu e toda sua casa, porque reconheço que tens sido justo diante de mim no meio desta geração”. Daí manter a paz e ser justo dentro de uma família, partindo deste princípio, podemos afirmar que é uma obrigação primária, mas, em especial, dos pais, pois é no lar onde se aprende essa justiça, onde se inicia o aprendizado das palavras de Deus, bem como a viver e construir a tão almejada paz. É no lar que os pais têm enorme responsabilidade de ensinar aos seus filhos a maneira de se comportar, de tratar aos demais e de resolver os problemas. Mas é importante salientar que nessa pequena sociedade familiar, deva existir  amor e carinho entre seus membros para que não se perca a almejada paz, pela qual, todos devem trabalhar pacientemente todos os dias para conquistá-la e ou mesmo mantê-la.

A paz para reinar num lar deverá ser o resultado de muitas atitudes, mas todas elas deverão estar fundamentadas precisamente no amor, no respeito e ajuda mútua, na partilha, no compartilhamento do trabalho do lar, na caridade, sem perder a visão familiar tão sonhada por Josué (24:15): “...eu e minha casa serviremos ao Senhor”. Quando colocamos algumas famílias no palco da vida para encenaram o que estão fazendo, assistimos cenas que nos deixam estarrecidos, entretanto, é importante atentar para o fato de que estão vivendo uma realidade dinâmica, em evolução permanente, com nascimento de novas raízes e aí nunca será a mesma, pois estão formando um mundo à parte, como propostas e jeitos próprios que não se repetem. E é neste contexto que os planos de Deus tomam forma e são dados ao casal em forma de semente para que a cultive e se multiplique na Terra, onde o mal, muitas vezes, parece prevalecer sobre o bem, mas, fortalecidos por ELE e obedecidos os seus mandamentos, essas famílias possam prevalecer sobre o mal, crescer e levar essa semente à plenitude do amor, da paz e da bondade. 

É difícil corrigir anos e ou mesmo erros de gerações passadas, todavia está claro que há muita coisa que precisa ser esclarecida escrita no versículo, Atos 16:31: “Crê no Senhor Jesus e será salvo, tu e tua casa”. Interpretando a frese acreditamos que essa provisão Divina para a salvação e bênção de toda a família nada mais é que devemos meditar que Deus pensa nela e tudo que faz, tanto que proveu para o seu filho Jesus uma família abençoada nesta terra. Tenho visto atitudes erradas na vida de muitos cristãos, entretanto, o único modo pelo qual podemos ter boas famílias é vê-las construído sobre um alicerce firme para que todos louvem a Deus de forma consciente e tudo comece a frutificar dentro da casa, de modo que possam entender o que Deus tem desejado e os princípios que norteiam o seguimento familiar

Pedaços de chão no Reino da Utopia

segunda-feira, 19 de agosto de 2013



Todos sonham possuir um pedaço de chão, mas nem todos conseguem. Desde o descobrimento do Brasil o índio tinha mais do que possui hoje. Na verdade, quase não tem mais, pois a civilização avançou demais e foi tomando seus quinhões de terra selva adentro. Diferentemente desses habitantes de florestas, as pessoas chamadas por esses selvagens de “caras pálidas” e que vivem noutra selva, a “de pedras”, construídas pelos seres humanos, muitas se encontram abandonadas nas ruas, ocupam clandestinamente os espaços públicos e privados, não tem um pedaço de chão para nele instalar um barraco, por mais simples que for. Uns cem números de habitantes são desabrigados pelas chuvas, pelos desmoronamentos, pelos incêndios, por outros eventos e até pela própria ação do homem, os quais, certamente, desejariam para reconstrução de suas vidas, apenas um pequeno pedaço de chão, porque para eles, um pedaço de chão é muito mais que ter onde morar. É ter direito a uma vida mais digna e melhor protegida. É poder plantar sementes e colher sonhos. Colher sonhos, semear projetos e gerar filhos num solo fértil, torna-se claro e notório, que tudo se frutificará em coisas prósperas e lhes darão alegrias no amanhã. Ter um pedaço de chão vai além de abrigar corpos. Aconchega. Conforta. Até na hora sinistra da morte precisa-se de um pedaço de chão. E nem nessas horas todos têm o privilégio de adquirir um espaço digno para sua última morada. Todos querem. Muitos sonham, mas nem todos conseguem um pedaço de chão... 

Quantos parentes, amigos e amigas se foram para outra dimensão. Sábado findo, na cidade de Goianira, durante o funeral de dona Judite Alexandrina Carneiro, mãe de Eva, minha secretária do lar, observei que sol queimava a terra enquanto pequenas nuvens negras iam se formando e retalhava-o naquele universo místico, onde, algumas vezes, se eclipsou com coisas surreais, mesmo assim, resquícios dele teimavam em atravessar entre as impertinentes nuvens a conta gotas quando estas se descuidavam. Todos naquele campo santo, cercados lápides e jazigos antigos, nem vislumbravam a magnífica vermelhidão que pendia no céu como um pingente multicolorido, e sequer entendiam que aquele sol estava iluminando as pessoas que ali oravam em prol de dona Judite e que, de alguma forma, aquelas orações eram reabastecidas pelo Espírito Santo, um poder impessoal que Deus disponibilizou aos seguidores de Cristo. 

Disse acima que até na hora sinistra da morte precisa-se de um pedaço de chão e nem nessas horas todos têm o privilégio de adquirir um espaço digno para sua última morada. Dai lembrei-me de tantas pessoas que são desalojadas de suas casas, dos casebres, dos barracos, sem a menor sensibilidade e amor ao próximo. Com essas nuances, surgiram as primeiras tentativas de mudança naquela terra que chamo de Reino da Utopia. É como se ela vibrasse sobre os pés de pessoas insensíveis e entrasse em um novo eixo. Mas, o tempo não pôde esperar, o sol se foi e veio à escuridão, que desceu sobre Utopia escurecendo-a sem dó. Era como se lá tudo estivesse protegida por uma grande placa de aço, escura, pesada, sem fim. As pessoas pareciam acordar de um sono profundo e algumas sentiram seus corpos convulsionarem-se, retorcerem-se, curvarem-se em choro, expondo o que nem elas mesmas tinham conhecimento, um lado oculto, mas, felizmente, a escuridão esvaiu-se como num passe de mágica e o sol tomou o seu lugar para iluminar o caminho daqueles que partiram e partem para se despertarem em outra dimensão ao lado do Pai Celestial. 

Mas, a minha querida Utopia estava mergulhada em uma maldição indecifrável, o sol vermelho que beijava a terra, poderoso, magnífico, absoluto e que fazia recair sobre a cidade fachos de luz únicos, curvou-se diante da noite. Fechada a cortina do tempo e diante aquela cena de construções devastadas, natureza arruinada e um vazio supremo, todos pareciam perdidos, cada qual procurando respostas, saídas daquele pesadelo, mas o que não entendiam é que o Reino da Utopia adormecia sobre um pedaço de chão, que vagava no espaço celeste, mostrando coisas mirabolantes, uma cidade efervescente que iluminava todos os covis, que deveríamos aprender a destrui-los, um a um, e depois, procurar extrair todos os nossos medos e receios, lutando por uma vida digna e a chance de um dia voltar ao convívio com os nossos entes queridos. E, quando tocar o sinistro relógio por doze vezes, anunciando meia-noite e vermos algo se apoderar de Utopia  como as estranhas criaturas que saíam de seus covis e atacar aqueles que ali se acomodavam, havemos de entender que nada mais é do que um jogo de sobrevivência, por tempo determinado ou talvez, até que aquele relógio utópico silencie-se diante das intempéries do tempo e ceda um pouco, de modo que os monstros sumam e cada um de nós possamos despertar do transe, voltarmos a viver um dia normal e entender que aquele pedaço de chão tão sonhado é apenas utopia.

Publicado no Diário da Manhã, edição do dia 21 de agosto de 2013.

Eram apenas sonhos cotidianos represados.

terça-feira, 13 de agosto de 2013


 
Se eu não fosse uma pessoa estressada por natureza enfrentaria aquele trânsito infernal sem lamúrias. E o pior é que moro apenas três quilômetros do centro da cidade e faço sempre o mesmo percurso todos os dias para chegar ao trabalho, mas, naquele dia, em virtude de uma obra, tive que mudar o trajeto e passar por outro local onde tive o desprazer de deparar com enormes outdoors que mostravam mulheres seminuas e outros, anunciavam aniversário de quinze anos da uma casa de prostituição. Pensei com meus botões: Nestes cartazes deveriam anunciar shows para arrecadação de alimentos para as pessoas que estão passando fome, ou de combate a violência, a drogas e à própria prostituição, e não anúncios oferecendo “serviços” de mulheres, cuja propaganda nada mais é do que uma agressão à família. Estupefato, continuei o meu trajeto e ao chegar ao centro, com o pensamento amalucado, tive dificuldade também de achar um lugar para estacionar o carro. Olhei para o céu e vi que o sol estava bastante declinado com o beiço cheio de fogo que parecia beijar a terra. Para azucrinar mais a minha tolerância, logo atrás do meu veículo, um apressadinho começou a buzinar e abrir a boca cheia de dentes cariados, e com um sorriso sarcástico, gritava palavras grosseiras que tropeçavam em consoantes indecifráveis. Com os nervos à flor da pele, mas tentando manter o pensamento firme, enchi o peito de ar e respirei fundo. Respirei mais uma vez, puxei o ar novamente para dentro dos pulmões e o soltei, depois, fui surpreendido e envolto por um temporal de perdigotos vindos da boca daquele indivíduo que minutos antes fazia de tudo para tirar-me a quietude percutindo sobre meus ouvidos aquela voz estridente e sons que mais pareciam cascos de mulas trotando sobre paralelepípedos. Naquele instante procurava evitar que alguém reparasse a minha ansiedade e também não me tornasse ridículo como a uma carranca de chafariz a cuspir água, num mugido aquático confuso. Olhei para os lados, entrei num pequeno espaço sombreado de uma árvore centenária, manobrei o veículo, balancei a cabeça meio atordoada, emitindo um sinal de sim e não, como se eu estivesse fazendo um resumo daquelas cenas grotescas como forma de reportar nas páginas da vida aqueles gestos vagos. Como a um prisioneiro de palavras complexas desatei o cinto de segurança, peguei a caneta, um pedaço de papel e procurei resumi-la elaborando um texto provável, e sem erguer as sobrancelhas consegui reduzir aquela situação em poucas palavras, e desdenhosamente, encolhi os ombros para não enredar-me numa teia de frases sem nexo.
 
Lembrando daquela língua abarrotada de saliva e de palavras inapropriadas, desci do veículo, ergui os braços desapertei a gravata que sufocava o meu pescoço, peguei o lenço no bolso do paletó e abafei aquelas estranhas gotas de suor, espelhadas, que desciam mansas e penetravam no canto da boca misturando-se ao suco de limão servido por aquele boteco da praça, cujo ato foi presenciado por um par de olhos famintos de um menino de rua, que lacrimejavam dor, lágrimas que desciam devagarzinho pela sua bochecha franzina e que sabia não ter chão para ampará-las, ou talvez, de seus olhos, não saíssem apenas lágrimas.

O sol queimava a lataria do veículo sem dó e o suor, brotava entre as células molhando minha camisa, deixando-me exausto naquele dia em que o povo se movimentava nas ruas comemorando alguma coisa ou manifestando não sei o quê. E as gotas, que hora tornavam-se cintilantes e hora não, mais pareciam obras de ficção e sabiam como escorrer sobre a face e às vezes, eram levadas pelo vento esvaindo-se no espaço sem espatifar-se no chão. O meu corpo em chamas sentia mergulhar em águas profundas enquanto aquela pessoa que esbravejara, coincidentemente, parou o seu carro ao meu lado e nele trazia plotado sobre o capô uma enorme caveira intimidadora,  e aí, sem mais delongas e despistando o acontecimento anterior, perguntou-me o que achava do calor. Notei que se tratava de uma pessoa questionadora e que gostava de esbravejar contra tudo e contra todos, até mesmo contra o tempo que estava realmente abafado e quente. Com a língua em forma de gravata, parecia querer abrir a torneira do tempo para se esconder debaixo de uma água imaginária. Eu, sem medo de procrastinar em lume porque o calor era realmente insuportável que fazia latejar meu cérebro, não dei ouvidos e aquietei-me à sombra daquela árvore, pois quando a gente está feliz nem repara se o calor é proveniente de solstício de inverno ou de verão.

Os meus pensamentos iam e voltavam na velocidade da luz e diante de tantas informações captadas guardadas na região recôndita do meu cérebro não vi alternativa senão ver aquele trânsito caótico modificado e tentar moldá-lo assertivamente orientando que as ações governamentais fossem formadas por um conjunto de procedimentos capazes de assegurar, e desde o início, que se faça um exame sistemático das vias públicas, retiradas de outdoors perniciosos, sincronização de semáforos, não importa em que locais, com propostas e alternativas capazes de provocar resultados satisfatórios e seja apresentada adequadamente aos usuários de veículos, assim como aos não usuários de forma plausível, vez que eu e eles somos e continuaremos sendo o público alvo que motiva e continuarão motivando mudanças, sejam ou não através de manifestações nas ruas. 

Descansado, prossegui, pois o trabalho me esperava. De repente, me vi diante de outros motoristas na mesma situação, um alvoroço total, e aí, não foi possível desviar o olhar e nem escapar dos olhares deles, por mais que tentava. Adentrei ao prédio e apertei o botão do elevador e nada. E o tempo foi passando e nada... Suava bastante e preocupado com as horas mortas apertei novamente o botão. Era como tivesse apertado um acionador de míssil, pois em seguida, não sei como, ocorreu um estrondo ensurdecedor. Assustado, acordei. Atônito, olhei para o lençol amarrotado e travesseiro molhado de suor, e aí, passei a entender claramente que eram apenas sonhos cotidianos que há dias vinham sendo represados em minha mente. 


Publicado no Diário da Manhã, edição do dia 14 de agosto de 2013

 
Vanderlan Domingos © 2012 | Designed by Bubble Shooter, in collaboration with Reseller Hosting , Forum Jual Beli and Business Solutions