Amigo leitor (a)

Amigo leitor (a). Quando lemos um livro, ou qualquer texto, publicados ou não, que são sinônimos do prazer, por mais simples que forem, sejam reais ou surreais, nos permite exercitar a nossa memória, ampliar nossos conhecimentos e nos faz sentir as mais diversas emoções, por isso, sensibilizado, agradeço a sua visita ao meu Blog, na esperança de que tenha gostado pelos menos de um ou que alguns tenha tocado o seu coração. Noutros, espero que tenha sido um personagem principal e encontrado alguma história que se identificasse com a sua. PARA ABRIR QUALQUER CRÔNICA OU ARTIGO ABAIXO É SÓ CLICAR SOBRE O TÍTULO OU NA PALAVRA "MAIS INFORMAÇÕES. Abraço,Vanderlan

Juarez, o Doutor Caipira e os Foliões de Malhador.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


A Folia de Reis é uma festa religiosa, Segundo o livro de Mateus (2, 1-12), os magos eram sábios que vieram do Oriente, guiados por uma estrela, para adorar o Deus Menino em Belém. Especula-se que eles não eram reis, cada um com características próprias e também não se sabe o número exato. Existe lenda dentro da própria lenda, coisas entre os três Reis Magos, mas que nunca interessaram aos festeiros. Esta festa se tornou uma grande celebração para a igreja. Em toda Europa, é feriado no Dia de Reis, e em muitos lugares, os presentes são distribuídos apenas no dia 6 de janeiro. 

No ano passado fui convidado para assistir o Encontro da Folia de Reis de Malhador no Condomínio de Chácaras de Alta Vista, Senador Canedo, que acontece no dia 06 de janeiro pelo terceiro ano consecutivo. Por incrível que pareça, confesso, foi à primeira vez que vi de perto aquele belo trabalho de louvação ao Divino Espírito Santo através da cantoria e sons específicos. Uma das características da festa é a diversidade, cada cultura, cada cidade tem costumes e tradições diferentes, de acordo com as peculiaridades da região, e Malhador não é diferente. Em cada rosto via a satisfação e a necessidade de compartilhar a amizade que ali nascia e o desejo de saírem juntos em peregrinação, seguindo a estrela guia criada pela imaginação de cada um até o encontro do Menino Jesus. Logo à frente, um palhaço, cuja função simbolicamente, é proteger o Menino Jesus, e com suas peraltices confundir os soldados de Herodes. Diz à lenda que aos palhaços cabia o papel de pedir aos donos das casas visitadas, os donativos para a festa. O anfitrião pode, em contrapartida, exigir que algum serviço seja feito em troca dos donativos. Todavia, no caso da Folia de Reis de Malhador, pequeno vilarejo perto da cidade turística de Pirenópolis, o anfitrião e responsável pela festa, é o médico ginecologista Juarez Antônio de Souza – o doutor caipira, que assumiu todos os ônus da festa, tanto em razão da herança deixada pelos seus pais José Antônio Sousa e Maria Serafim de Sousa, como pelo seu amor à arte e ao folclore. São companheiros os foliões, os sanfoneiros: Meire Minadaks, Izá e Ediberto; os violeiros Valdivino, José Rafael, Sebastião e Antônio; no pandeiro o Cílio; no cavaquinho, o Orlando; no reco-reco, o Romes; no tambor ou caixa, a Ana Machado; de cujo grupo hoje eu tenho a satisfação de fazer parte, assim como, outros ases da cultura e do folclore de Goiás. Também foram convidados para aquela linda festa a escritora Elizabeth Abreu, o prof. Alvaro Catelan e Sônia Ferreira, os escritores e folcloristas Bariani Hortêncio e Prof. Jadir, e outros importantes membros da cultura, música, arte e folclore de Goiás.

Encantado, vi seguir em forma de procissão pessoas devidamente uniformizadas, à frente, a alferes Tamires, conduzindo a bandeira que representa a autoridade espiritual dos foliões, e estes, pelo que se conhece, não podem ser ultrapassados por ninguém. Atrás, sob a batuta musical do Mestre Juarez, cantando canções compostas pelo próprio grupo, seguiam as pessoas da comunidade e convidados. O candidato a integrar um grupo de Folia de Reis, tem obrigações e deveres que iniciam com a submissão às ordens do Mestre, e alguns grupos chegam a ter um código de ética escrito e aceito pelos membros. 

O percurso é feito sempre iniciando pelo lado direito de tal modo que, de casa em casa a companhia de Santos Reis aproximam-se do local da recepção final, quando o Alferes e equipe despojam-se de seus materiais e os guardam na casa. Quando eles vão embora, se despendem, repetindo os gestos da chegada (Despedida).  Em algum momento da festa, é feita a Passagem da folia para o novo alferes. Foram anfitriões, além do Dr. Juarez e esposa, os casais Beto e Priscila, Alvaro Catelan e Cláudia.

Quando falo da folia iniciar o seu percurso pelo lado direito é uma superstição ligada à festa que vem desde os tempos idos. Antigamente, as pessoas não entendiam a maior parte dos fenômenos naturais, e então, costumavam atribuir suas causas a determinados fatos, e esse costume foi transferido através de gerações sem nenhuma fundamentação científica, e hoje em dia, as pessoas sabem disso, mas por via das dúvidas... As crendices listadas a seguir referem-se à festa dos Santos Reis. Por exemplo: A bandeira não deve fazer um formato de cruz por onde ela já passou: Se isso acontecer, alguém da folia morre. Se for preciso atravessar uma cerca de arame, os instrumentos não devem passar por baixo da cerca, para que não percam o som. No Dia de Reis, algumas famílias costumam escrever o nome dos três reis magos em um pedaço de papel branco e colocá-lo na porta de entrada da casa, para que haja durante todo ano, fartura, saúde e felicidade. Há também uma simpatia, feita com romã, no dia 06 de janeiro em que a família se reúne para rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria, depois, cada um pega três caroços de romã, põe na boca para sorver o sumo da fruta, um a um, e depois embrulha em um pedaço de papel para guardar na carteira durante o ano inteiro, para não faltar dinheiro. A cada semente embrulhada deve-se repetir “São Belchior, São Gaspar e São Baltazar. Não deixe o dinheiro faltar”. A cada ano, as sementes antigas devem ser jogadas em água corrente. A folia não pode voltar pelo mesmo lugar de onde veio Os andarilhos não passam por baixo de varal de roupa.

E o mundo não acabou...

domingo, 30 de dezembro de 2012


Muitos estavam esperando pelo fim do mundo que teoricamente, poderia ter acontecido no dia 21 de dezembro de 2012. Até eu que me encontrava de férias e teria que voltar no dia 21, me deixou confuso e aí perguntei a mim mesmo: será que terei que trabalhar somente até às 11 horas? E como vou receber meu salário se o mundo acabar? E minha conta bancária? O mundo da economia girou em minha mente e enxerguei muitas perdas. Lembrei-me do meu amigo que comprou um carro a prazo. Será que vai ficar livre das prestações? E uma amiga que marcou a data do casamento para o dia 22, será que terá que comemorar sua lua de mel antes do dia 21. E o Papai Noel receberá seu salário no dia 25? E a nossa “semaninha” como ficará? E a chefa, será que vai tirar suas férias em janeiro? E o Breno não vai precisar distribuir processos para a alegria dos Doutores Jorge, Antônio, Joaquim e Isa? É complicado lembrar-se de fim do mundo. Mas está escrito no calendário Maia. Ah, então, quão felizes deveriam estar os presos que iam receber o indulto de Natal e saber que não mais voltariam às celas. Ah, quão felizes deveriam estar os condenados pelo STF que ficariam livres das penas impostas, pois não as cumpririam se o mundo acabasse. Ah, quantas pessoas que ficariam livres das dívidas e hoje choram pela farsa do fim do mundo. Ah, quantas outras situações pessoais, espirituais, amorosas, hipocrisias, seriam resolvidas com o fim do mundo. Felizmente, para essas pessoas, existe uma série de fatores que passaram despercebidos até mesmo pelos olhos mais críticos e céticos do planeta. Uma imagem começou a circular por blogs e redes sociais, mostrando que, se fôssemos levar em consideração o calendário maia, o mundo já teria acabado. Parece que ocorreu um erro de cálculo, não acrescentaram os anos bissextos. Não obstante isso, se você achava que o mundo ia acabar,  bom, provavelmente poderia estar certo.  Afinal, um dia, tudo acaba. E, se não cuidarmos da natureza, se nenhum grande asteroide gigantesco atingir a terra antes, como mostram os filmes, ou se não acabarmos nós mesmos com o planeta em guerras nucleares, ou em alguns milhões de anos o Sol se distanciar da Terra e esfriar, é claro que todos os seres vivos morrerão e não mais existirá vida na Terra. Com ela ficará depois de tudo isso, só Deus sabe.

De acordo com o discutido calendário Maia, o dia 21 de dezembro de 2012 marca o fim de um ciclo de 5.125 anos e está ligado a desastres naturais. Alguns estudiosos afirmam que o encerramento do período pode significar o fim do mundo, com terremotos, tsunamis e enchentes em diversos locais da Terra, mas isto já vem acontecendo há milhares de anos. Em face do tão propalado fim do mundo em 2012, a questão que se colocava é se teria algum fundamento ou não as afirmações de alguns que anunciavam através da mídia, “o juízo final”, o “Apocalipse”, o “Armagedom”, o fim de um ciclo ou o fim de uma era, como quiser chamar. Até eu, preocupado com a devastação e poluição atmosférica, escrevi dois artigos intitulados de “Começo do Apocalipse I e II”, todavia, me baseava nos desastres naturais que a terra vinha e vem sofrendo. Mas falava em começo e não fim. Entendia que, embora alguns não conseguirem voltar atrás nas suas decisões prejudiciais a natureza, o importante é saber que eles ainda têm tempo para consertar o estrago, de tentar um novo começo e delinear um novo fim. Não o fim do mundo anunciado para o dia 21 que levou em conta as crenças de diversas civilizações como os Maias, os Celtas, os Egípcios e profetas como Nostradamus que fizeram alguns chegarem à conclusão de que o fim estava próximo, ou pelo menos o mundo da forma como o conhecemos. 

É certo que já por várias vezes se apontou esta ou aquela data como a do Juízo final. Lembro, por exemplo, da crença quase generalizada de que o mundo iria ou acabar ou sofrer uma enorme transformação quando da entrada em 2000. Ia dar uma pane geral. Pois bem, nada aconteceram, a não ser o aumento da criminalidade aqui e ali, a perda de valores humanos crescentes e os atentados terroristas de 11 de Setembro e de 11 de Março, assim como a da forma desumana e aviltante com que alguns terroristas ceifaram centenas de vidas, denominados de “homens bomba” que nos fazem pensar no quão perigoso é o extremismo religioso e esse ódio exagerado principalmente entre Estados Unidos e o Islamismo. E a criminalidade no Brasil que é estarrecedora?

Voltemos ao assunto em pauta. Afinal o que aconteceu no dia 21 de dezembro de 2012?  Nada. Não é curioso que civilizações tão distintas, separadas cultural e geograficamente, apontem no mesmo sentido?  Sabemos, e isso é certo, que nunca vivemos tão graves crises como vivemos agora quer políticas, quer econômicas, naturais ou ambientais. Se pararmos para pensar facilmente dará conta que estamos perto da insustentabilidade. Dia após dia os recursos naturais se esgotam. Realmente, nada aconteceu nada no dia 21, tampouco sei que não acontecerá de fato alguma coisa, mas sei que é urgente uma transformação da mentalidade humana. Talvez o mundo que achavam que ia acabar se torne um exemplo de superação de ânimo e seja injetada no mundo uma nova tomada de consciência.

...eram apenas gestos refletidos na parede.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012


Preguiçosamente apertei a frouxa lâmpada do abajur que perscrutava as sombras dos gestos refletidos nas paredes, mais parecendo seres vivos extraídos de um filme de animação, mais vivos do que jamais refletira. O velho abajur geralmente iluminava debilmente o quarto fazendo a luz branda tornar todos os meus gestos romanticamente surreais. Todavia, de repente, a luz que a muito não acendia tão intensamente, surpreendeu-me com seu poder de claridade. Alguém deve ter substituído à lâmpada de 30 wolts. Os movimentos sombreados na parede começaram a acontecer como a um desenho animado filmado em câmera lenta e em formato de preto e branco. A ação refletida na parede era febril e frenética, mas também estática, bastava ficar quieto. Os gestos de minhas idas e vindas retesavam-se na branca parede do quarto e lutavam para se libertar de um corpo estranho que se movia de um lado para outro e insistia em não liberar meus gestos embutidos naquela cena surreal, mas, fortificados com a presença da luz escaparam do peso daquelas sombras e rejuvenesceu o meu coração que de tanto lutar já gesticulava incólume.

A luz brilhou mais forte e pensei que nunca acabaria. Olhei para um canto vi a cama e berço vazios e sobre a cama e abraçada a um travesseiro, faltava alguém. Com os olhos ainda travados pelo sono, cabelos desalinhados, mãos calejadas de lida rotineira fiquei pasmo e uma saudade abateu-me sobre o peito. Faltava realmente alguém naquele espaço, alguém que ajudou a curar as minhas dores e feridas. Alguém que não reclamava de nada, nem das dores desconfortantes dos seus pés ou dos joelhos, pernas e braços esfoladas de quedas e estripulias que a própria vida gerou Alguém que naquela noite inusitada não pode ver seu rosto ser iluminado pela nova e potente lâmpada do abajur. Esse alguém que se estivesse ali tenho certeza de que a luz mostraria na sua face o dom de me devolver à calma que a vida tantas vezes insistiu em me roubar. Cenas surreais de gestos realmente inusitados refletidos na parede que somente eu tive o privilégio de assistir: um corpo de mulher em movimento coberto por um lençol cheio de contrastes e cores, amparado por um travesseiro de espumas macias que protegia a imagem de uma guerreira. Só podia ser surreal, pois há dias não acendia aquele velho abajur e jamais pensava assistir cenas tão preciosas que minha mente não esquecera e jamais esquecerá. Mas, a saudade é difícil de imaginar mesmo quando se vê apenas gestos. É uma coisa estranha que toma conta da gente, chega sem pedir licença e acontece quando menos imaginamos: saudade do seu cheiro, de uma melodia que curtimos, que nos trás boas recordações, saudade de uma simples palavra, de uma manifestação de amor; saudade daquelas imagens que foram acopladas cotidianamente na região recôndita de meu cérebro, mas, eis que a máquina do tempo surgiu me envolveu e convidou-me a voltar a ser criança. A mulher que se gesticulava nas sombras refletidas na parede soube costurar a vida usando a linha da verdade para que os filhos pudessem construir suas vidas com sobriedade. Alguém que deixou a saudade invadir o meu peito e se transformou numa ponte de concreto e me fez retornar a mim mesmo; uma travessia moldurada de sabedoria, sem empecilhos, onde se vê bordada uma identidade muitas vezes esquecida, perdida na pressa que me levou ou me que deixa levar. Ao olhar para os gestos e falar em saudade dela é dizer o óbvio, é devolução, é ato que restitui o que se parte; é luz que sinaliza o local de nosso porto seguro, é voz mansa no ouvido que nos acalma nas madrugadas de desespero e solidão.  Mas, naquela noite, ao acender a lâmpada do abajur e ver aquelas cenas refletidas na parede não me restou alternativa senão em finalizar este artigo em uma única frase: O poeta tem diante de si vários sentimentos: o real, o palpável, o prático, o surreal, o imaginário, visões fantasiosas, e quando escreve, muitas vezes objetiva levar ao leitor uma mensagem de amor, esperança, fé, e intencionalmente, deixa de dedilhar o teclado do computador e o substitui pela caneta-tinteiro injetando nela a ruborizada tinta de um coração ferido pelo tempo no afã de aferir a sensibilidade de cada um, mormente quando virem perscrutadas as sombras de sua amada e suas refletidas na parede.

Feliz Natal e Próspero Ano Novo.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012


São os votos de Vanderlan Domingos e Família.




O Carapina e o Pica-Pau

terça-feira, 11 de dezembro de 2012


Torquato era uma pessoa afável, inquieto, criativo, e extremamente curioso. Não tinha dificuldades para se concentrar. Gostava de compartilhar tudo com os outros e não conseguia guardar suas ideias só para si. Começava a tagarelar e nem se importava quem era o ouvinte. De bom astral, parecia querer competir com um inquieto e barulhento pica-pau que vivia circundando a sua carpintaria, o qual, de vez em quando, tentava com seu bico afiado furar as madeiras que ficavam amontoadas no canto do galpão. Torquato era tão tagarelo que exagerava. Tentava colocar sua vida numa realidade que não existia. As palavras que saíam de sua boca eram levadas pelo vento, sem nenhum sentido. Dizia o indizível e não conseguia controlá-las. Falava tanto que até escumava o canto da boca. 

Com exceção a de ser tagarelo, na sua vida não havia excesso e consagrava-a a Deus. Durante muitos anos trabalhou com afinco na sua carpintaria; beneficiava a madeira com paciência, cortava-a e lavrava em peças com esmero, e a maioria era utilizada nas coberturas, soalhos e forros. Era costume, antes de manusear a madeira, ler a Bíblia e louvar ao Senhor. Fazia orações todos os dias, mas apesar de toda essa dedicação nada parecia dar certo em sua vida e a situação financeira aumentava a cada dia. Mas, numa bela tarde, o pica-pau sobrevoou o galpão, desta vez assentou-se comportadamente sobre um pedaço de madeira e com os olhos lânguidos, parecia se compadecer da situação difícil daquele carapina. Torquato ficou observando o bichinho imponente de topete vermelho e achou estranha a quietude daquele pássaro, justamente depois de uma estilingada que lhe dera ao amanhecer para se livrar do barulho que fazia no quintal. Como resolvera se tornar um homem temente a Deus não o molestou, mas, continuou observando.  Aquela pequena ave parecia admirá-lo, queria ajudá-lo e fortalecer sua fé, mas apesar de ser um bom profissional e crer no mundo espiritual até aquele dia não sentira uma melhora financeira, vivia de minguados serviços.

Torquato ficou observando atentamente e a ave permanecia quieta. De repente levantou outro voo e acomodou-se sobre uma linda cruz de madeira. Queria lhe chamar a atenção, dar-lhe um sinal que estranhamente parecia moldar-se sobre a cruz. Procurando entender o que estava acontecendo abriu novamente a Bíblia que estava sobre uma mesinha e leu o primeiro texto que apareceu diante de seus olhos. Compassadamente foi absorvendo cada palavra e aí começou a compreender que Deus tem propósitos para tudo e que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que o ama. E Torquato desconfiou que aquela ave estivesse sendo usada para lhe trazer uma mensagem e passou a olhá-la com admiração, não a molestou e assim ela permanecia firme. Então, vendo a oportunidade começou a conversar com o pica-pau: “Amigo você deve ter vindo de um reino encantado e sempre o recebi nesta oficina com muita raiva, talvez pelo barulho que você faz, mas hoje, dou a mão à palmatória e até entendo que queiras me imitar, pois de certo modo, trabalhamos com madeira. Perdoa-me, haja vista que, sem piedade, lhe atirava pedras com aquele estilingue, talvez até não desejando, ato que me doía o coração. Hoje passei a entender que a oficina inteira era só barulho e comparativamente ao seu, é insignificante. Mas, hoje quero mudar meu comportamento, fechar a boca e construir uma nova vida, pois você me fez ver isso e para mim já é suficiente.”.

Torquato, pela primeira vez deu uma pausa, pensou e concluiu: “Sei que Deus está me colocando no fogo das aflições. Então, vou procurar aceitar as “bicadas” que a vida me dá. Às vezes sinto-me tão frio e insensível como o pó ou a lasca que sai da madeira. Não é fácil, mas a única coisa que peço a Deus é que não desista até que eu seja o que Ele espera de mim. Que leve o tempo que precisar, mas jamais quero ser um lixo como aquela serragem, ou as migalhas de ferros retorcidos e restos de madeira que só servirão para ser derretidos em fornos ou queimadas num fogão de lenha”.

Cabisbaixo, abriu novamente a Bíblica e leu em voz alta para que a pequena ave ouvisse e até servisse como um pedido de perdão: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.” (Coríntios 12.9:10). Nem bem terminou de fazer a leitura uma antiga cliente adentrou ao galpão, encomendando-lhe muitos móveis rústicos e peças ornamentais dizendo que sempre elogiou seu belo trabalho de carapina aos amigos. O pica-pau ao ouvir ficou em júbilo, bicou suavemente a cruz três vezes e levantou um voo rasante atravessando o quadriculado da janela. Em poucos segundos desapareceu no horizonte e a partir daquele dia a clientela de Torquato se multiplicou.

Elesbão, o jardineiro de Deus.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012


Elesbão sempre teve uma vontade danada de ser jardineiro. Desde pequeno gostava de trabalhar com a terra. Era um exímio oleiro e construtor. Fazia tijolinhos usando o quadriculado das caixinhas de fósforos, construía pequenos castelos com jardins floridos; afundava as mãos no barro, nem sentia a meleca que vinha da terra e nem o calor causticante do sol que lhe queimava as costas franzinas. Quando o tempo era frio, sentia os dedos adormecerem, mas, mesmo assim, se inebriava com os cheiros vindos dos quintais e contemplava cada estação do ano como se fossem uma só, e o mesmo fazia em relação ao sol e a chuva, enquanto o pai lançava sementes no jardim. Regava-as nas horas apropriadas. Ele conversava com as plantas, suas mãos eram pura magia e bastava encostar os dedos para elas nascerem vistosas. E pacientemente esperava a lenta maturação da vida... E cultivar flores era seu sonho. E Elesbão, com os olhos vidrados no trabalho, com os dedos em riste apontava para o seu pai e dizia: Um dia serei jardineiro como o senhor e para o Senhor!

Sem dúvida que ele seria um bom jardineiro, nascera e crescera ajudando a manusear aquele imenso jardim. Suas mãos sabiam massagear o barro e separar a terra preta, boa para o plantio. Sabia admirar as plantas que se erguiam do solo e produziam botões que se abriam em pétalas de diferentes cores e tonalidades, mas, também, entendia que se não fossem regadas diariamente, murchariam, secariam e os caules dobrariam sobre a grama inerte. Como bom observador sentia a voluptuosidade com que elas buscavam o céu azul, a luz solar e o ar livre, e depois, se não regadas, curvariam encarquilhadas sobre o chão, morreriam e cairiam no esquecimento. Mas, mesmo assim, deixariam sobre a terra as sementes, que cedo ou tarde, haveriam de romper a superfície e se reerguerem para a vida.

Mas, o pai de Elesbão, o cultivador de flores, lhe transmitia outros segredos. Sabia que cada uma delas era única, incomparável e insubstituível. Inútil perguntar a ele qual a mais bonita, a mais sedutora, a mais cheirosa. Todas o são, embora distintas. Ou melhor, todas são belas justamente porque distintas! É a diversidade de formas e aromas, cores e tons que torna encantado o jardim e o senhor do jardim sabe, ainda, que cultivar flores não é tomar posse delas. Aprende-se que somente há de colher as flores que cultiva com o toque mágico de suas mãos, rudes e ternas a um só tempo. O bom jardineiro rega com as lágrimas, colhe com o olhar, acalenta-as com a voz, com o deslumbramento da alma, pois, prendê-las, simplesmente seria uma forma de condená-las à morte.

Unidas ao sorriso de Elesbão diante de seu pequeno castelo, ao monte de terra boa, fertilizada, ao murmúrio ou ao rugido da água, à luz longínqua das estrelas, ao sol e a lua que chegam ou que partem ao olhar de quem ama ou à lágrima de quem ainda é capaz de chorar, aos corações sedentos de justiça ou às mãos que combatem pelos direitos humanos - as flores integram a grande orquestra da criação. Instrumentos distintos, que tocam notas diferentes, mas exprimem a beleza de uma sinfonia comum.

Elesbão realmente cresceu junto a aquele jardim. Ajudou a plantar, zelou e viu flores crescerem, murcharem, secarem-se. Mas, certo dia ao enfiar as mãos debaixo de um feixe de galhos podados já ressequidos de um roseiral foi picado por uma cascavel. Estava só naquele instante, não foi socorrido e nem houve tempo de lhe aplicar o antídoto. Quedou-se diante do mundo colorido em que vivia, morrendo no limiar daquele dia. De repente, como por encanto, sentiu seu corpo subir ao céu e diminutamente via as flores desaparecendo diante dos seus olhos e nem compreendia o que estava acontecendo. Montou num cavalo alado e este começou a galopar sobre as nuvens brancas e uma paz incomum abateu-lhe sobre o peito, enquanto o céu escurecia e milhares de meteoritos passavam como que querendo saudá-lo naquele espaço sem fim. Um túnel iluminado em forma de cone se abriu e logo desceu sobre um imenso jardim cheio de flores variadas. Ao tocá-las com as mãos sentia que elas nem precisavam de jardineiro e um sorriso alargou em seu rosto e o seu coração ficou em júbilo. Ainda atônito, percebeu alguma coisa à sua frente, alguém sentado numa pequena nuvem branca, cercado de uma luminosidade que lhe ofuscava olhos. Era a oportunidade de perguntar e saber quem era o dono daquele lugar aprazível, encantador. Nem foi preciso. Uma voz branda, que lhe causou arrepios, disse-lhe: Elesbão meu filho, a partir de hoje você cuidarás do paraíso! A única palavra que saiu de sua boca foi: Sim Senhor! E logo apareceu do lado direito um imenso castelo, o mesmo que construíra usando pequenos tijolinhos feitos de caixinhas de fósforos. 

Na sua simplicidade, nem poderia entender que a sua frente estava à imagem de Deus. O trono de nuvens era apenas o retrato humanizado do pensamento de uma época que Elesbão sequer chegou a conhecer, pois sempre vivera tomando conta de um jardim, fato que faço questão de citar neste artigo para que cada um leve em conta e faça uma reflexão mais profunda sobre o nosso Pai celestial. Ele é o amor infinito, a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas, é aquele que não tem começo nem fim, e não pode ser conhecido através dos esforços intelectuais de uma mente humana que, por mais avançada ou capaz que for, está sujeita a limitações. Deus, portanto, é uma força que não pode ser analisada ou mensurada, só podendo ser sentida e contemplada através daqueles que têm coração puro. 

Como parte final, quero sublinhar, talvez em forma de parábolas, a lição deixada por Elesbão: plante, regue e cuide de sua da flor, porque é bela, fugaz e frágil, porque ela é como a luz que brilha e se apaga, porque ela é como a noite ou o dia, que se revela e se esconde, porque ela é como as estrelas que aparecem e desaparecem com o nascer e o pôr do sol, porque elas à noite se acendem para tirar o medo que ela tem da escuridão, ou ela é como você que se oculta para estimular a busca e nutrir um amor fiel e persistente como o deixado por Elesbão, o jardineiro de Deus.

Voando sem asas.

terça-feira, 27 de novembro de 2012


Sentado no moirão da porteira agucei meus olhos rumo ao horizonte no afã de enxergar o imprevisível. Aos poucos o brilho do sol foi desaparecendo e o céu não querendo estragar aqueles momentos de prazer ofereceu-me a lua, que soberba, nascia detrás dos montes. Abri a janela de minha alma e rocei com meus pensamentos as relvas úmidas da vida sem precisar me privar de admirar os últimos resquícios do pôr sol. A beleza da natureza era um bálsamo para o meu espírito inquieto, mas transparente como a uma bolha de sabão, que muitas vezes levou meus sonhos certos e incertos, imagináveis e inimagináveis, como se fosse uma nave espacial desgovernada e sem plano de voo.

Quantas lembranças vieram à minha mente. Naquele mesmo moirão, ainda menino, aprendi vislumbrar o bonito que céu oferecia. À noite que tinha medo da escuridão enchia-se de estrelas reluzentes; o dia renascia carregado de nuvens brancas feitas flocos de lã, parecendo carneirinhos, e quando se tornavam escuras prestes a desabarem em temporais, nem me importava, pois tudo me ensinou que beleza existe em qualquer desses céus.  Muitas vezes o tempo passa veloz sem a gente perceber, mas, Deus percebe e está presente em todos os nossos momentos de dificuldades, fraquezas, sucesso e insucesso. É Ele que faz o sol brilhar, que faz a noite cobrir de estrelas o céu que hoje volto a admirar com meus olhos no mesmo lugar. É Ele quem dá o frio do inverno, as chuvas e o calor estressante do verão; faz as folhas secas de outono cair, e a fascinante primavera encher-se de flores e despedirem-se deixando saudades nos primeiros solstícios de verão.

Então, hoje, pare, pense, reflita sobre si mesmo. Tem um poeta dentro de você basta querer. Os poetas têm alguma coisa em comum: têm os pés na terra, mas seu olhar, seu coração, seu pensamento estão cravados no céu, e assim, não pense duas vezes, crave o seu e mire o azul do céu, ouça os cânticos dos pássaros, aprecie a lua e todo o seu esplendor e aí escreva o que sentiu. Escreva o que fluiu de seu pensamento e terás a certeza de que sua alma renascerá e começará a viver o bonito, o prazer que vem das palavras e todos te entenderão. Não tenha preguiça física ou mental. Fale coisas que possamos entender, sejam reais ou imaginárias. Quando ler meus escritos, mesmo sendo de tempos idos, com as páginas amareladas pelo tempo, podem até parecer que foram escritos dias atrás, mas não foram, porque aquilo que imaginamos será atualizado pelo próprio tempo e os manterão vivos e reais.

Se sempre ler e escrever suas fontes de inspiração nunca se dissipará. Ao devorar livros, engula-os saboreando toda a escrita que sua mente percebeu que possa vitaminar o seu saber. Aos poucos, sua ânsia por coisas novas crescerá a ponto de todos os livros te encantarem, despertarem em você aqueles olhos que outrora não varavam sequer dez páginas, enquanto outras pessoas devoravam várias. Ao ler, faça compassadamente. Seu pensamento voará às alturas e absorverá o néctar da sapiência e aí, tudo se tornará mais fácil e a inspiração poética fluirá naturalmente.  Quando você começar uma frase mesmo sem nexo, pode ter a certeza que ao final, revisando cada palavra, você finalizará com sucesso o seu texto, portanto, não se aquiete, pegue uma folha de papel ou sente-se à frente do seu computador, use o teclado e digite. Pense no mundo que o rodeia, pense naquela beleza inspiradora que a gente destacou no preâmbulo, e fazendo isso, notará que seus dedos correrão a uma velocidade incrível e martelarão as teclas com desenvoltura e no monitor, aparecerá automaticamente um amontoado de palavras e nelas, brotarão sentimentos que só um poeta é capaz de sentir e ter a inspiração necessária que certamente, jorrará aos borbotões e que serão gravadas em sua memória para sempre.

Hoje estou voado sem as asas da imaginação porque achei não ser necessário usá-las. Porque em toda parte encontro palavras para lhe incutir o saber. Sabemos que até para se entrar numa Universidade um dos pontos prioritários é saber escrever, é interpretar textos. Então porque não exercitar a memória e saber que tudo está sobre o seu alcance e você com vontade de aprender. Existem as realidades e mistérios decorrentes de cada coisa escrita, por um mínimo que seja e não importa o autor, sempre existirão. Realidades e mistérios dos quais agora também você fará parte se começar a escrever. É claro que vamos entender quando escrever o seu primeiro texto, romance, contos, crônicas ou poesias; entender de que não existirão neles como realidade, o palpável, mas sabendo que existirá a importância do começo e a partir daí viverás a dimensão do seu próprio saber sem precisar de asas para voar.

O cego e o vaga-lume

terça-feira, 20 de novembro de 2012


Ninguém melhor que aquele cego sabia como fluir. Usava movimentos coordenados, sensitivos, ponteava sua bengala de alumínio sobre o chão com um propósito de achar o equilíbrio entre a luz e a escuridão. Também, ninguém melhor que o vaga-lume para entender o quão importante é para ele a noite e que todo seu ciclo começa justamente com a escuridão, assim como a noite é o começo do dia e dá lugar à sua luz, o outro ciclo vale somente para despertar o mundo ao amanhecer. Aqueles que enxergam, mas se mantém escuridão, não estão cônscios de onde estão, ou que existe uma presença de luz com que eles podem se conectar, mas, insensíveis, não conectam. É como se estivessem com os olhos vendados sem o real desejo e a coragem de tentar retirar a venda. Diferententemente do vaga-lume o cego vive a escuridão, mas está cônscio do lugar em que se encontra, não importa o lugar, seja dia ou noite; ele tateia paredes, ouve sons e vozes e sabe onde está; sobe escadas e ainda tem a sensibilidade de enxergar aquilo que a gente não vê. Como diz o ditado popular: “O pior cego é aquele que não quer ver”, porque ver o que é óbvio todo mundo consegue, e assim podemos afirmar que vivemos num mundo onde a aparência e o status contam muito. Mas, é pura ilusão! Uma satisfação temporária. Muitos não veem que os sentimentos são coisas mais preciosas e duradouras do que o egoísmo e a mesquinharia que estão embutidos na ambição de se dar bem a qualquer custo, mas que, como num flash sabem que pode desaparecer num pestanejar de olhos.

O vaga-lume desfaz toda essa teoria de cegueira humana, pois quer enxergar, não obstante tenha apenas a noite para testemunhar a sua luminosidade. A luz que sai do seu corpo na verdade, são “lanternas” que usa para iluminar o habitat onde circula. A luz que emite é contínua. Na lanterna torácica, a luz tem uma tonalidade esverdeada. Na lanterna abdominal, é amarelo-alaranjada. Então sob este prisma, a experiência vivida pelo cego e o vagalume precisa ser concluída com eficácia antes que possa haver um ensaio de luz e enseje uma progressão gradual da escuridão para que ela aconteça dentro de cada um de nós, de acordo com o nosso desejo e do nosso poder-viver na escuridão.

Certa noite, ao descer do ônibus, o cego perdeu o seu trajeto costumeiro e andou a esmo. Passou pelo mesmo caminho várias vezes. O vaga-lume observava aquele transeunte que manuseava uma vara com uma ponta de alumínio para se locomover e condoeu-se. Convocou outros vaga-lumes formando um verdadeiro exército e centenas de lanterninhas iluminaram a estrada. Sensitivo, que é peculiar aos cegos, contornou a estrada, voltou ao seu trajeto normal e em poucos minutos já estava abrindo o pequeno portão. Foi uma demonstração clara de que não queria ser “o pior cego” tão decantado pelos preconceituosos, que muitas vezes cegam-se diante do seu próprio mundo, tornam incapacitados, limitados ao ponto de não conseguirem repensar suas vidas ou falar sobre si mesmos. A ação dos vaga-lumes e o cego mostram quão poderosos podem ser a escuridão, uns temem a luz porque acreditam que se trocarem a escuridão pela luz, precisam também trocar o poder pela fraqueza. Outros nunca fazem essa escolha não obstante saber que esse é o seu papel na Terra, porque há os que precisam manter a escuridão, visto ser uma escolha que cada um pode fazer, e a escuridão precisa estar presente para equilibrar a luz. Cada um tem o seu contrato firmado com o destino, e o compromisso para o bem servir, e isto é pura verdade. 

Há pessoas que só escolhem a luz porque temem a escuridão. Há pessoas que adotam a paz e a quietude da luz, mas ignoram o seu poder, porque acreditam que o poder faz parte da escuridão. Entretanto, ambas as energias têm poder, mas, ditam normas e modos diferentes. O poder da escuridão é controlador e maléfico ao ser humano; o da luz é solidário e bondoso. A escuridão governa por meio do medo, endivida-nos com o mal e nos leva ao divã; a luz reina através da natureza divina que não exige dispêndio. Então, pode-se afirmar que, se a pessoa humana souber receber a verdadeira luz, se tornará poderosa e lhe permitirá brilhar como o vaga-lume faz no seu habitat.

Sabemos que a escuridão cumpre a sua finalidade, como o de fazer brilhar os vaga-lumes, as estrelas, a lua, as lâmpadas, os faróis e cada coisa no Universo. O seu propósito é alinhá-los internamente com o seu ego e assim a luz se expande para o seu espírito. A escuridão faz com que se lembrem das limitações e controle pessoal como aconteceu com aquele cego; a luz é ilimitada e os convida a render-se. Eu já me rendi. Então pergunto: Qual é a sua escolha mais poderosa? É essa que é a realização de cura e do desejo de totalidade da sua alma a cada momento, que pode ser escuro ou claro, ou ambos. Não julguem as suas escolhas e não seja como aquele que mesmo sabendo existir alguma coisa não quer ver, ou então, tente pelos menos permanecer com a consciência naquilo que deseja criar e deixe que as energias fluam, luz e escuridão, à medida de sua própria realidade, do jeito que sempre sonhou em viver na Terra, mas sabendo que o nosso Pai Celestial pede, a livre arbítrio, que você acolha essa luz em toda sua plenitude. 

O Vacilão

terça-feira, 13 de novembro de 2012


Ildo Marcel sabia escrever e bem. Algumas vezes lia com curiosidade parte de jornais que achava jogados nas calçadas e fazia algumas notações no seu caderno comentando sobre as notícias e cenas horripilantes do dia-a-dia, retratadas em letras e fotos garrafais. No seu pequeno caderno tinha a sensibilidade de descrever, mesmo nas horas mortas, as sombras que se movia nas esquinas, sobre o cheiro das flores que vinham dos jardins e o gosto dos frutos que retirava dos quintais. Com a caneta presa na orelha, caminhava olhando para os lados, arqueando as sobrancelhas grossas, enquanto os cabelos anelados nem se mexiam com o vento. Há dias não os lavavam. Em cada vulto, procurava retratar a sua mãe, a quem não via há mais de cinco anos. Cabisbaixo e com a saudade estampada no rosto, deu uma baforada, escondeu o cachimbo no tronco de uma árvore e seguiu em direção ao Condomínio Residencial que ficava a pouco mais de dois quilômetros do centro cidade, forçando a perna esquerda prejudicada por uma paralisia infantil. Sabia que a sua mãe e irmã ainda moravam lá, mesmo diante das dificuldades financeiras.

Cansado de tantas andanças, Ildo tomou uma decisão. Resolveu voltar para casa, pedir perdão e viver ao lado da mãe. O suor escorria pelo rosto enquanto espremia as mãos, deixando à mostra as unhas sujas de terra e manchas escuras sobre os dedos deixadas pela fumaça da maconha que saiam do seu adaptado cachimbo. Perambulando pelas ruas às vezes conseguia um cantinho para dormir mais tranquilo, sem a perturbação de outros meninos de rua que muitas vezes queriam esculachá-lo, mas, esperto, sempre conseguia se safar.

Pensava muito na sua mãe e queria estar com ela. Sabia que ao deixá-la para procurar a tão sonhada liberdade, fora um vacilo seu. Morou nas ruas, drogou-se.  Sentiu raiva e saudade, e às vezes, dominado pelo vício, chorava. Começou a sentir-se só e ele tinha consciência da burrada que dera. Tinha um lar perfeito, uma mãe carinhosa, mas os “amigos” o drogaram e convenceram-no a ter a tão propalada liberdade. No caminho de retorno, furtou de um quintal uma camisa e trocou com a sua já maltrapilha que também furtara há meses. Com a calça caindo sobre a bunda e tênis surrado, continuou andando pelas ruas e avenidas enquanto o povo o olhava com certo desdém. Sentia-se um “João Ninguém” e até o sol que queimava o seu rosto imberbe parecia indiferente. 

A maior parte do tempo ficava usando drogas para esquecer a vida, roubava para manter o próprio vício, apanhou e estava sempre sendo observado pelos traficantes e os olhos sisudos da lei. Foi preso por uso de drogas e depois que saiu do reformatório logo voltou para a rua. Dizia alto e em bom som que não era passarinho para ficar preso em gaiola. Às vezes, ficava vendo garotas e garotos indo à escola, achava bonito e até pensava que se tivesse ido talvez a sua vida fosse diferente e hoje não estaria usando drogas, roubando e dormindo em becos sujos, entregue a própria sorte e de certa forma, esperando a cortina do tempo se fechar sem antes tomar uma atitude de mudança. Ainda era em tempo, pois tinha apenas dezesseis anos e ademais, era herdeiro de um lar que outrora vivia em crise, hoje não.

Ao entrar na casa viu sobre a estante a fisionomia de uma infância feliz imortalizada numa fotografia: Era ele de cabelos castanhos encaracolados, com oito anos de idade, fazendo pose em cima da porteira de uma fazenda que sequer lembrava qual. O sorriso eternizado no único retrato de sua infância conta um pouco de sua história. A foto foi tirada dias antes da separação dos pais, uma perda não superada pelo menino. Com a separação começaram as fugas que se tornaram rotina. Era jovem demais para entender. A sua mãe tentou explicar o motivo da separação. O marido era alcoólatra, agressivo, lhe batia e perdera o emprego em razão do alcoolismo. Era visível que as marcas da violência incomodavam sua mãe toda vez que ela se olhava no espelho. 

Ildo, mesmo arredio, recebeu o abraço carinhoso da mãe. Depois subiu aos aposentos e tomou banho, deitou-se sobre o lençol branco estendido sobre a cama. Depois, diante do sorriso angelical de sua mãe, saboreou o que gostava: arroz carreteiro, feijão preto e um suculento frango a molho pardo com pequi. Ainda arredio subiu novamente ao quarto, olhou pela janela e viu o dia ser engolido pela noite e cansado, deitou novamente sobre a cama. Dormiu. Quando despertou, começou a desenhar tudo o que vira durante o lapso de tempo em que se tornara um menino de rua. Usando formas coloridas, reproduzia com fidelidade os detalhes de cada peça, as copas das árvores floridas e suas sombras, sejam formadas pela luminosidade solar ou pela lua; reproduzia os meninos e meninas de rua deitados sobre as calçadas, os canteiros das praças e jardins, as aves que se alvoroçavam nos galhos, as quais, alegres e cantantes, pareciam querer motivá-lo a lutar pela vida, mas, tudo de certo modo parecia ser em vão. Deixou os desenhos de lado e mirou a mochila que estava sobre a escrivaninha. Abriu-a. Manuseou os velhos cadernos e junto deles colocou aquele que carregara durante aqueles anos. As aulas começariam na segunda-feira, Ildo ficou pensativo por instantes e aí, repentinamente, sentindo um desejo incontrolável que lhe produzia suor, ansiedade e que corroíam suas entranhas, pegou a mochila, olhou pela janela e antes do sol se pôr, surrupiou alguns reais na bolsa de sua mãe e fugiu. Da nada adiantou o carinho dela. Vacilou mais uma vez. Lá fora, algo mais poderoso o esperava, não resistiu à falta do famigerado crack. Meses depois a televisão noticiava sobre um corpo franzino que jazia num beco escuro com uma perfuração no peito, apenas uma bala tirou-lhe a vida. Era Ildo que vacilou mais uma vez não pagando a um traficante.


Simplesmente Cansei!

terça-feira, 6 de novembro de 2012


Hoje levantei sem otimismo e não conseguia ver as coisas do modo que elas são. Senti-me cansado e ”p” da vida. Cansado de tudo, do mundo real, do palpável, do prático, do imaginário, do surreal. Cansei da visão fantasiosa sempre contrária ao mundo real. Cansei do trabalho maçante e de tudo aquilo que estressa; cansei de reclamar do errado e das coisas erradas, cansei daqueles que fazem denúncias vazias, caluniosas, difamatórias e não enxergam o seu próprio umbigo ou o umbigo do Órgão, Entidade ou Ministério em que trabalham. Cansei da escada tortuosa construída até aquele andar onde esperava alguém descer, apenas descer. Cansei de passar pelo mesmo trajeto onde passam os imprudentes que irresponsavelmente fazem zigue-zague com seus veículos na avenida. Cansei do bonito que a natureza mostra, mas sempre é desrespeitada; cansei da ilusão de beleza que se vê em cada rosto. Cansei, cansei mesmo! Cansei das mesmas notícias que são veiculadas diariamente nas telas de TV e das novelas que levam mau exemplo aos lares brasileiros. Cansei da leitura de páginas de jornal, das vozes de alguns radialistas e apresentadores que judiam de nossa língua portuguesa, as quais surfam nas ondas do rádio maltratando nossos ouvidos. Cansei das desgraças que são repetidas nessas parafernálias eletrônicas, onde uns copiam cenas de outros e outros, querendo ser mais engenhosos, encenam o mesmo ato criminoso só que usam apenas outras posições, fazem montagens inversas, destacam o choro em outros tons e destoa a comoção no verso e anverso da fita gravada. Destacam um surpreendente julgamento que ao final sabem que ele poderá tornar-se uma pizza, recheada de votos “pensados”, extraídos de códigos defasados que são descritos na plácida sentença que se o povo tiver juízo não aceitará. Cansei da forma em que retratam a comoção de um povo, do falso novo, do falso velho e principalmente, do anverso dos dois porque quando colocados inversamente são definidos pelo Aurélio como falsos. Cansei do que os olhos são capazes de enxergar perto ou à longa distância. De perto, tenho que usar óculos de grau, e isto me cansa; de longe, enxergo coisas que não deveria enxergar; coisas que não presta e aí me constranjo, canso.

Hoje eu quero é algo diferente que vai além daquilo que penso. Quero o poder da premonição, de ver o futuro, sem desfazer do presente. No teatro da vida quero a inversão de papéis entre atores e atrizes, sem que haja a inversão de valores e o texto na tela interpretado não vire realidade e a realidade mostrada, não vire sonhos amorais ou imorais, e se virarem, que sejam distante de minha realidade. Entendo que devemos respirar novos ares, ter novos hábitos, ideias, emoções, desejos, pensamentos, isto é tudo que quero. Quem sabe se isso vir a acontecer tudo possa ser diferente em relação ao que temos hoje, se não pudermos ter, então serei obrigado a desejar que o hoje renasça novamente.

Mas, quão difícil ser diferente e não cansar de tudo. Quando chegamos à casa a primeira coisa que ouvimos é o zunido do elevador, o tic-tac do relógio, a torneira que mesmo fechada insiste em soltar gotas fazendo barulho sobre um vasilhame, um som rouco: tum... tum..., nem paro para contabilizar os ruídos. É justo. Estou cansado. Nunca importei muito com o que acontecia ao meu redor, mas, hoje, dou atenção aos mínimos detalhes. É o cansaço. Quando sento à mesa e sirvo-me com um pouco de café adoçado com algumas gotas dietéticas e pão francês, então aí me acalmo. Ainda bem que a gota dietética é silenciosa.  Tomo o café e com um sorriso inacabado ligo a TV. Novamente aparecem as desgraças de ontem reprisadas hoje. Mudo de canal e lá vêm outras notícias e digo: espera ai! Eram as mesmas cenas do outro canal, e então percebo que a minha mente poderia estar atabalhoada. Aquela reprise não era real. Desligo a maldita TV. Vou ao quarto e olho no espelho para ver se estava apresentável, pois o trabalho me esperava. Mirei fundo nos meus próprios olhos que se arregalavam diante do espelho e vi-me vítima da rotina que eu mesmo criei. Eles também estavam cansados. Coloquei a gravata e sai. Pode ter sido só mais um dia ou poderá ser o último se pudesse prever o meu futuro, mas o que importa é que eu nada planejei.

Quando disse no preâmbulo que cansei do imaginário, não posso afirmar isso em relação aos amigos e amigas imaginários, pois eles são como os sonhos: estão com a gente aonde quer que estejamos; aonde a gente quer estar, e ninguém pode podá-los ou impedi-los de existir, pois só nós o vemos e acreditamos neles. Os amigos que me acompanham pelas ruas solitárias da vida nunca me deixam no meio do caminho e me impedem de ficar sozinho, porque somos pessoas que correm atrás de um propósito, de um desiderato para continuar andando em busca de um caminho cheio de luz, não só os iluminados pelos raios do sol ou pelo os da lua, mas também, em busca daquela luz que brota dos lindos olhos de alguém, alguém que nos espera diariamente e nunca nos cansará. À bem da verdade, acreditar no improvável, no impossível e no imaginário sempre foi meu norte. É bom viver no mundo dos sonhos, mas hoje eu cansei.

Realmente cansei. Parece que estou com uma grade em meus olhos. Uma grade embaçada que me impede de enxergar e de ver o óbvio. E assim sou obrigado a me manter parado, sem dar um passo à frente ou para trás, talvez por medo de cair num precipício que a própria vida constrói. Essa grade está repleta de memórias insolúveis, indecifráveis, uma grade que me isola do mundo, que impede meu coração de bater como antes batia. Tudo isso me fere. Neste lapso de tempo posso ter caminhado por estradas tortas e deitado sobre relvas sombreadas por galhos secos de árvores milenares, sem esperança de obter certezas e ouvir melodias tocadas e cantadas por alguém que não existia e que eu mesmo inventava. E olha que me preocupo com o vozerio de vozes e sons que vem das ruas, do zuído do elevador, de cada gota que cai da torneira, do chuveiro, do tic-tac do relógio ou dos noticiários dos jornais, rádios e TV, mas, tudo isto, não faz de mim um ser insensível, incapaz de enxergar o sorriso angelical de alguém ou as lágrimas que saem dos olhos da minha amada que dada a sua firmeza de espírito jamais as deixa cair ao chão. Leitor, não se deixe sangrar por essas palavras. Não se deixe sangrar mesmo, pois no fim a verdade sempre aparecerá, e as que tento expressar, pode ser apenas uma situação momentânea a mim postergada por alguma coisa surreal ou um ente estranho, que me cansou e fez com que eu criasse situações fantasiosas extraídas de um mundo que não se sabe se é ou não real. 

 
Vanderlan Domingos © 2012 | Designed by Bubble Shooter, in collaboration with Reseller Hosting , Forum Jual Beli and Business Solutions