Amigo leitor (a)

Amigo leitor (a). Quando lemos um livro, ou qualquer texto, publicados ou não, que são sinônimos do prazer, por mais simples que forem, sejam reais ou surreais, nos permite exercitar a nossa memória, ampliar nossos conhecimentos e nos faz sentir as mais diversas emoções, por isso, sensibilizado, agradeço a sua visita ao meu Blog, na esperança de que tenha gostado pelos menos de um ou que alguns tenha tocado o seu coração. Noutros, espero que tenha sido um personagem principal e encontrado alguma história que se identificasse com a sua. PARA ABRIR QUALQUER CRÔNICA OU ARTIGO ABAIXO É SÓ CLICAR SOBRE O TÍTULO OU NA PALAVRA "MAIS INFORMAÇÕES. Abraço,Vanderlan

Retrato de Mulher

quarta-feira, 28 de março de 2012

Diante de um retrato pendurado na parede de moldura antiga, corroída pelo tempo, fiquei observando os cabelos grisalhos, presos no coque alto onde se  destacava um rosto maltratado, mas, via-se logo que, mesmo antigo, se tratava de uma linda  mulher, cujos olhos azuis  pareciam perdidos na escuridão de seu próprio ser, envoltos pela pele vincada por pequenas rugas e a boca amarga travada para baixo, num desdém pelos sorrisos que já dera na vida. O seu semblante parecia querer retratar que sua vida fora   apenas uma ilusão ou se era a corrosão de sua própria alma, do abandono de seus sonhos, do esquecimento de seus ideais ou de sua desistência da paixão. Para aqueles que conviveram com ela tempos idos sabiam que ela sempre trazia as maçãs do rosto coradas, os passos ágeis e os olhos arregalados que absorviam o mundo em sua totalidade. Ela era cheia de luz, uma alma inquieta, transbordante, vivaz.
Diziam que quando menina deslumbrava-se com a vida, e mesmo usando um vestido de cetim alcançando as canelas grossas corria pela terra seca, poeirenta, como se estivesse carregando uma alma de criança a tiracolo. Sonhava morar em uma cidade grande ou se ficasse em seu rincão, pelos menos casar-se com um príncipe de cabelos compridos que a levasse num cavalo branco, alado, e sob a luz do luar, amarem com loucura, sobre a verde relva que circundava o lago cheio de flores e árvores milenares que compunham aquele local aprazível.
Anos se passaram e lá estava eu de novo naquela fazenda e, sem tratar-se um sonho ou ilusão de ótica, fixei novamente meus olhos naquela moldura, agora nova, restaurada, e ao lado, outro quadro pendurado, onde se via uma paisagem, de outono, de um lugar qualquer, talvez imaginário e sobre o verde, uma cena inusitada: dois corpos estendidos sobre o capim verde, ela e o seu amado, que trajava uma calça grossa de algodão e camisa xadrez. Seus olhos castanhos pareciam voltados para o infinito e nos seus cabelos despontavam pequenas mechas brancas, enquanto ao longe, o sol descia soberbo no horizonte.  A moldura indicava que ela tinha ido para outra dimensão juntamente com seu peão. 

Naquele instante veio às minhas narinas o cheiro gostoso do feijão tropeiro que só ela sabia fazer, que travou a minha boca na emoção e no amargor que ela proporcionava quando também servia o café sem açúcar que costumava adoçar todas as  manhãs. A saudade abateu-me sobre o peito e ritmou meu coração.
Cabisbaixo e com o pensamento alhures, sentei-me no banco de madeira do velho casarão e comecei a pensar. A cada instante jogava os pensamentos impuros para fora e armazenava os puros, tempo em que ia contemplando com os olhos cheios de amargura o cair da tarde e o filete de água límpida e cristalina que descia recém-nascida do alto de uma grota, entre a única mata nativa, cercada de pedregulhos, brejal e lírios, formando ao redor um campo florido e fresco, onde os ventos brincavam de montanha-russa com a plantação de girassol, com pendo dando, que se alastrava pela ribanceira até alcançar a parte mais alta do córrego. Incessante como os meus pensamentos, que iam e voltava na velocidade do vento, o pequeno rego passava ao lado da casa também descia serpenteando incansavelmente os terrenos cheios de declives, dando vida ao  lugar e rumando para uma tênue caída numa pequena cachoeira. Indiferente a tudo, as águas, assim como eu, não víamos as horas passarem e tampouco tínhamos tempo para ouvir os pássaros cantarem no fundo do quintal.
O cheiro vindo da cozinha já não era tão convidativo, mas mesmo assim, em respeito a aquela guerreira todos saíram e, enfileirados, postaram-se ao redor do fogão à lenha, abastecendo os pratos com um   delicioso angu de milho, arroz, feijão, frango ao molho pardo com pequi, receita deixada por aquela saudosa  descendente de italiano de sangue quente Francesca  Milena Montalvan, os quais eram servidos acompanhados de verduras frescas colhidas diariamente na horta plantada à beira do rego d’água.
A mistura, outra herança deixada, ficava por conta da carne de porco adormecida em grandes latas e submersa em gordura que garantia o sustento daquela numerosa prole durante meses. Um paladar inigualável. Como dizia um dos peões: “É comer com as mãos, chupar os ossos e lamber os “beiços”.
Enquanto saboreava o jantar, ouvia a sinfonia de pássaros, rãs, grilos, cigarras, corujas, vaga-lumes, formando uma orquestra rural de brilho, cores e sons que nos remetiam à tranqüilidade e à paz. Os últimos resquícios de sol, alaranjado, ainda penetravam pelo vão da janela iluminando o quadro fixado na parede, deixando- o colorido e mais belo, cujos raios se refletiam no rosto daquela mulher que deixou saudade emoldurada naquele quadro que parecia ter sido pintado por um ser  imaginário vindo de outra dimensão.  
Essa rotina rural fazia parte da vida daquela mulher que com o olhar meigo, mesmo na parede, parecia dominar aquele rincão, onde mesmo as horas demoravam a passar e os dias eram enormes, não se esmorecia diante das tarefas diárias que enfrentou durante sua existência, principalmente quando se via diante de um sol escaldante ou sob chuva fria.
Nos tempos idos, apesar das dificuldades, sentia-se feliz ao manejar a terra e ajudar na lida com o gado e talvez seja isto, além do amor a terra que compartilhava com seus entes querido, é que senti pairar naquele retrato o semblante de uma mulher guerreira que sempre procurou  esconder sua dor e as incertezas que tinha em relação ao futuro e das adversidades que poderiam advir com o propósito de tirar a harmonia conjugal, o respeito mútuo, o amor e a paz que sempre reinou em seu lar. (minha     humilde homenagem ao dia internacional da mulher).

Pedofilia, Estupro e Incesto: Crimes que Afligem a Família e a Sociedade

quarta-feira, 21 de março de 2012

Todos os dias, indignado, assisto a noticiários televisivos onde repórteres mostram casos de pedofilia, estupros, incestos e atentados violentos ao pudor praticados por pais que violentam suas próprias filhas e os padrastos, as enteadas, engravidando-as, sem a mínima compaixão e respeito aos inocentes seres humanos. Hoje, sem duvida alguma, esses são os crimes do momento e um desses, que ocorre entre parentes consangüíneos e que se inclina para a prática de ato ilícito mais covarde, está o incesto. As veiculações dessas notícias envolvendo esse tipo de conduta contra menores trazem a certeza da atenção do publico e consequentemente, intensa discussão sobre o tema. Descartando o debate sobre a influência da mídia na sociedade, considerada detentora do “quarto poder”, pode-se dizer que o certo é que as chamadas referentes ao assunto em  tópico se tornam uma sensação da atualidade.   Basta ver o desespero do apresentador Luiz Datena quando se vê diante destes fatos estarrecedores que, em certos momentos, angustiado diante de tanta tara humana, diz aos telespectadores: “Me ajudem aí ô!...”

A maldade e desrespeito humano extrapolam os limites da insensatez. Outros noticiários destacam pessoas nefastas em busca do dinheiro fácil explodindo caixas eletrônicos; motoristas embriagados atropelando e destruindo vidas e ficam impunes; marido espancando esposa; filhos matando pais e vice-versa; pessoas assaltando e atirando à queima-roupa, sem piedade ou dó; outras matando e degolando suas vítimas apenas para  sentir o prazer de ouvir o gemido do desafeto. Onde vamos parar? Quando falo de tudo isso, chego à conclusão que até o crime de colarinho branco está ficando em desuso, apesar de que, se analisarmos sob a ótica política, poder-se afirmar que, se compararmos a uma calça jeans,  este assunto jamais sairá da moda.

O título do preâmbulo, quer queira, quer não, é o grande assunto do momento e a imprensa escrita e   televisiva sabe disso. As manchetes apontam nesse sentido e até certo ponto, com muito sensacionalismo, sem resultado prático, principalmente quando se trata de crimes praticados por políticos, padres, pastores, professores, advogados, empresários, militares, agentes públicos, e assim por diante.

Quando o estupro é noticiado pela mídia, a população exige formas de punição ou pelos menos prisão perpétua dos envolvidos. Então, a atenção dada a esses casos repercutem de forma intensa, principal-mente quando de fala de jogos do azar. Mas, quando se trata de pedofilia, estupro de menores e casos de     violência sexual com filhas e enteadas, não se sabe como agir, apesar do sentimento de revolta que toma conta da população. O pedófilo raramente mantém relações sexuais com penetração. Os ataques sexuais contra crianças se iniciam geralmente de uma forma verbal ou exibição do genital, ou podem consistir em acarinhar ou “bolinar” as crianças com toques nos órgãos genitais. De outras formas, vendo e      exibindo fotos pela internet sempre sendo acariciadas, seminuas ou despidas, muitas vezes, fotografadas    e cenas horripilantes gravadas em vídeo por eles mesmos. Dizem os especialistas que essas pessoas são incapazes de encontrar satisfação sexual em uma relação adulta.

O estupro e o incesto diferem da pedofilia porque eles são praticados de forma violenta sem a aceitação da vítima. Percebe-se, claramente, que temos um grave e sério problema a enfrentar. Essas doenças  psíquicas são de difícil tratamento e tais abusos sexuais estão se alastrando cada vez mais, cujos efeitos, após os atos libidinosos, abusos sexuais, estupros, trazem doenças físicas e psicológicas extremamente  danosas para as crianças e adolescentes. O pior é que essas pessoas passam sempre despercebidas pela família em relação à tara. Muitas vezes se encontram próximos à criança e aproveitam da ausência da mãe e da sua própria inocência e fragilidade para satisfazer seus instintos sexuais.

Diante dessa situação periclitante, conclui-se que estamos diante de um grave e sério problema que deve ser debatido urgentemente pela sociedade, pelas organizações não governamentais, pelas igrejas, não importando qual o rito religioso e com a participação ativa dos três podres da República Brasileira, para que as condutas e punições dessas pessoas sejam realmente mais severas. De outra parte, pode-se evitar  com essas ações conjuntas a degeneração da família que a cada dia está ficando mais longe de Deus, assim como,  evitar também que as crianças abusadas por esses  desequilibrados  mentais se calem e venham, futuramente, sofrer conseqüências   psicológicas irreversíveis e marcas emocionais e profundas para sempre.

Santa Missa no Altar da Humildade

terça-feira, 13 de março de 2012

“E revesti-vos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes”  (1.ª Pedro: 5.6)

Hoje ao escrever esta crônica lembrei-me da primeira missa realizada na Paróquia Santa Terezinha que infelizmente naquele dia não pude estar presente. Passaram semanas e restabelecido de um procedimento cirúrgico compareci no último domingo e com o coração em júbilo, vi o Padre Luiz Augusto mesmo num altar improvisado, montado em um ginásio de esportes ao lado da Paróquia, celebrar com alegria a missa diante de uma grande a multidão de fiéis. Antes de chegar ao local, passei por algumas ruas do Setor Expansul e a cada instante sentia um clima de alegria abater  sobre aquela comunidade e no rosto de cada um, estampavam sorrisos de satisfação em face da presença do Padre Luiz, que de alguma   forma deu vida nova àquele longínquo bairro. Ao adentrar no ginásio senti nos olhares dos irmãos o prazer imensurável de compartilhar daqueles momentos ímpares: clamar  e buscar incessantemente a presença de Jesus Cristo. Hoje, sentado diante do monitor e manuseando o teclado do computador para escrever esta crônica, senti-me imbuído de um sentimento incomum e assim, resolvi transformá-la em uma obra poética, ao invés de falar em sofrimentos e invejas que pairaram em nossos pensamentos e  corações durante a grande jornada que empreendemos para o retorno do Padre Luiz. Veio à minha mente a questão do trabalho de evangelização realizado por ele que estava impedido por aqueles que se consideram superiores como seres humanos apenas porque têm um cargo socialmente mais valorizado dentro da igreja e o poder da caneta nas mãos. Aliás, é sempre nesses casos que entra em cena o famoso “sabe de quem estou falando?”

Ao questionarmos algo que a religião católica põe em prática, mas, muitas vezes não pratica e até proíbe, de certa forma jamais vamos entender quem vai ser escolhido para depois expandir de vez o evangelho. Talvez não seja de nosso conhecimento que haja uma lei do universo em que o movimento da vida é expansão e encolhimento. Como é o nosso pulmão, como bate o nosso coração, como a sístole e diástole. Parece que existe uma lógica nisso, que os orientais, especialmente os chineses e indianos,  inseriram em suas religiões, aquela coisa do inspirar e expirar. Parece haver uma lógica nisso quando se fala em punição a um sacerdote, a ciência tem isso como hipótese e a religião católica como tese e    definitiva. E nesse mundo complexo podemos afirmar que pertencemos a uma galáxia impura, que é uma entre milhões de galáxias, num dos universos possíveis e que vai desaparecer se não nos tornamos humildes, não respeitarmos a natureza e os desígnios de Deus. Nessa nossa galáxia, repleta de estrelas, uma delas é o que agora os cientistas chamam de estrela-anã, o Sol e Deus o criou para nos dar vida, assim como ao nosso Planeta Terra. Em volta dessa estrelinha giram algumas massas planetárias sem luz   própria, nove ao todo, ou talvez, oito sei lá!

Tem gente que é tão humilde que acha que Deus fez tudo isso só para existirmos aqui na Terra. E isso é que é um Deus, que entende da relação custo-benefício! Tem indivíduo que acha coisa pior, que Deus fez tudo isso só para ele existir. Com o dinheiro que carrega, com a cor da pele que tem, com a escola que freqüentou, com o sotaque que usa, com a religião que pratica. Gente que tem inveja de outra só porque ela se destaca melhor na sociedade em que vive, e essa pessoa sequer tenta calçar as sandálias da humildade, muitas vezes sequer enxerga o seu próprio umbigo e nem se desculpa por seus próprios   erros e desatinos.

Permita-me caro irmão e leitor defender mais uma vez o Padre Luiz Augusto. Ele em sua trajetória de sacerdócio sempre pautou em servir a sua comunidade e não ser servido por ela, e em sua sabedoria cristã, continua clamando a Deus para que não o deixe desistir de ser padre; que não o deixe esmorecer diante das adversidades que surgiram e possam continuar surgindo; que  povo cristão não seja novamente prejudicado e que aqueles que acreditam no seu esforço de evangelização  e naquilo que  realiza em prol de sua comunidade, não sejam em vão; que Deus o mantenha distante de todas as maledicências, arrogâncias e invejas, e definitivamente,  receba a injeção da esperança, do amor e da fé, para que possa continuar construindo o altar da humildade, pregar com sabedoria, ensinar ao povo  o caminho da retidão, a amar ao  próximo e a estender a mão a quem precisa.

interlocutor espiritual esse abnegado paladino da fé que há mais de quinze anos vem  evangelizando  usando o altar da  humildade. Por fim, não poderia deixar de agradecer ao padre Castro por ter acolhido com carinho o Padre Luiz e todos os seus irmãos de fé.

Níqueis Caíam em Cachoeira

terça-feira, 6 de março de 2012

Dia perfeito para uma caminhada matinal. O quintal da fazenda Bela Vista estava sombreado por imensas árvores que amenizavam o calor causticante, mas a hora de voltar chegara, pois não podia caminhar por muito tempo por ordem médica como fazia anteriormente, no entanto, para a minha sorte, a pequena estrada  que levava ao pequeno riacho estava  plana e sem poeira; tudo  muito perfeito até alguém  ao passar por mim  injetar-me uma dose de insatisfação:  um boiadeiro montado num cavalo baio, interpelou-me dizendo em voz alta que uma organização que explorava jogos ilegais tinha sido desmantelada pela Polícia Federal e entre os suspeitos estavam um tal de Carlinhos Cachoeira e muitas outras personalidades  ilustres entre civis e militares. Relutei um pouco a acreditar. Ao final da prosa, sentindo o conhecimento político daquele matuto, restou-me ficar estático e pasmo em relação aos nomes dos envolvidos. Despedi-me e voltei o olho para o lado esquerdo da estrada e a poucos metros uma pequena, mas imponente cachoeira me esperava. Era costume quando ia à fazenda visitar aquele local aprazível. Ainda atônito com a notícia, desci sobre o barranco acalentado pelo som da água que caia mansa sobre o poço e naquele instante eu mais parecia um menino que sentia a perda de seu pirulito tomado por um pivete. Olhei para os raios de sol que passavam retalhados entre os galhos daquelas árvores milenares e pensativo, me lembrei dos conselhos e exemplos de honestidade dados pelo meu saudoso pai e saudosa mãe que me mostraram o caminho da retidão, ensinando-me a fazer o bem sem olhar a quem.

Pensativo, fiquei olhando as águas e de repente, por encanto, no meio daquele grande volume de água vislumbrei grande quantidade de níqueis que caíam em cachoeira misturando-se a rostos conhecidos e estranhos naquele espelho d’água, e com eles, insígnias, boinas, coturnos, coletes, distintivos e armas de todos os calibres também iam se desprendendo das emaranhadas máquinas caça-níqueis, enquanto viaturas recolhiam uma a uma. A Polícia Federal no intuito moralizador ia enquadrando os usuários daquelas parafernálias eletrônicas nos crimes de corrupção ativa e passiva, facilitação ao contrabando, contrabando, violação de sigilo, lavagem de dinheiro, peculato e formação de quadrilha. A cachoeira, naquele momento inusitado e surreal, ficou poluída e no poço, formou-se um lamaçal. Estupefato, olhando para o sol ainda matinal, questionei: O que leva um empresário ou uma pessoa graduada a fazer isso? Que exemplo está dando a seus filhos? Será que esse tipo de pessoa não importa com nada, apenas com o ganho fácil? Será que esse tipo de ação criminosa faz parte de sua índole, ou sua personalidade já faz parte deste mundo profano?

Olhei novamente sobre o espelho d’água enlameado e vi meu rosto refletir sobre ele. Ainda foi possível ver meus cabelos com as pequenas mechas brancas e o rosto carcomido pelo tempo, que trazia sinais de muita luta, alegria, dor e saudade; foi possível meus olhos verem as águas revoltas por receber aqueles incômodos detritos,  e perdido dentro de mim mesmo, tentava enxergar o impossível para salvá-la daquele lodaçal, mas tudo que planejava era em vão; o meu cérebro cansado de tantas labutas também quedou-se  diante de tantas mazelas; o meu coração extenuado de dor, tentava compreender porque  pessoas de fino trato social  passam a pertencer a uma organização criminosa altamente sofisticada no afã de proteger o líder maior  e os exploradores da jogatina no Estado, assim como, nas operações criminosas, onde recebem,  dele ou deles, em troca,  as famigeradas propinas, cujo valor variava de  acordo com a função do agente público ou a patente militar. Esse grupo de pessoas inescrupulosas estava infiltrando em todos os setores da administração pública deixando o Estado vulnerável.

Naquele momento de tortura surreal, outras situações pitorescas continuaram acontecendo, todas caindo sobre aquela cachoeira.  Eram rostos de Ministros, prefeitos, mulheres fiscais da receita federal e primeiras-damas, todos e todas carregando dinheiro na mão desviados do setor público para comprar mansões, carros importados, vinhos, uísque, rações  para  cachorro, compras em supermercado, lingerie e tantas outras mazelas. A água já raivosa parecia querer romper-se junto às pedras pontiagudas ante a corrupção generalizada que ali passava, ainda mais tratando ato de corrupção praticada por mulher.  Segundos depois, caía desembestada uma sucata giratória - a montanha-russa do Mutirama, - infestada de vírus corruptos que contaminou toda a água, transformando aqueles rostos que caíam em cachoeira em espectros humanos travestidos de sorrisos irônicos.

E quando menos esperava apareceram outras situações horripilantes envolvendo políticos renomados, tanto do alto como de baixos escalões do governo. Denúncias estarrecedoras e de repercussão nacional, que me deixou envergonhado e com certeza toda a sociedade estupefata e boquiaberta. Analisando a situação em tela que gerou aquele impacto surreal e assustador, entendi que no homem político a fraqueza de sua natureza humana tende a distorcer a personalidade do seu cargo e do poder e o leva, enquanto autoridade em função pública, a apropriar-se privadamente dos poderes inerentes ao  cargo e não à sua pessoa. A cachoeira parecia querer me envolver e mãos enlameadas saiam do fundo do poço tentando me puxar para dentro, mas, graças a uma força estranha talvez movida por uma noite mal dormida e a freada brusca de carro acordei. Com o corpo suado, levantei-me da cama, fui à janela, olhei o sol que já nascia soberbo no horizonte e respirei fundo. Tudo fora apenas um sonho. Graças a Deus!

Navegando no mar das emoções

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Tem momentos em nossas vidas que devemos parar e observar as obras construídas pelo ser humano as quais muitas vezes são construídas em caminhos    tortuosos e nos levam a destinos incertos. Passamos por esses caminhos e      subimos os degraus da vida até alcançar os limites oferecidos por ele no afã de alcançar aquilo que almejamos. No último degrau vislumbramos sonhos possíveis e impossíveis, ilusões e desilusões, saúde e doença, alegrias e tristezas, amor e desamor, mas, embebidos de sentimentos verdadeiros ao alcançarmos esse degrau podemos   encontrar remédios para curar o mal, amenizar as emoções e as dores que nos incomodam, assim como, nos facilitar a embarcá-las numa nau blindada de todos estes sentimentos que corroem a nossa alma, fadigam nosso espírito, ferem e apoquentam nossos corações, e em alto mar, podermos desvencilhar de tudo isso e livres, aproveitarmos a primeira onda sem emoções que certamente nos levará ao encontro do   amor, da paz, da felicidade e consequentemente,  termos de volta o tempo consumido para que possamos  suscitar os momentos vividos e refletir.
Vivemos em meio a um mar de incertezas e, para fazermos essa longa travessia e chegarmos a um    ponto de equilíbrio pleno, precisamos de uma embarcação realmente forte e blindada acoplada de discernimento. Além disso, sem amor e alegria a nossa travessia se tornará bem mais complicada, pois  nossos rumos são determinados por nossas escolhas que são filhas de nossos pensamentos, sentimentos e energias. A embarcação em que propomos navegar e fugir do mar das emoções possui a cor do que somos.
Depois de passar por momentos cruciantes num leito de hospital me deu vontade de escrever e enviar esta mensagem aos amigos, amigas e companheiros de trabalho e a todos aqueles que navegam no  mundo virtual. Enquanto as letras iam se acumulando na tela do computador senti que minha massa cefálica estava acelerada e que minhas energias estavam todas concentradas na cabeça dada a preocupação de levar esta mensagem de forma  explícita, concisa e que pudesse trazer bom discernimento também aos leitores. Isso é comum depois de passar por um momento crítico de saúde, mas, acredito que isso não ocorre somente comigo, outras pessoas que estão na mesma situação ficam assim, até a mente processar que é época de descanso e renovação. E consciente desse mecanismo é que concentrei  toda a atenção para dentro da região recôndita de meu cérebro e do meu subconsciente para extrair deles o  máximo, para posteriormente, descansá-los no berço da consciência de modo que os pensamentos deixassem de pressionar o cérebro com sua agitação.  Senti o prazer de descansar a mente em meio às forças vitais abundantes acumuladas no cérebro e foi aí que percebi dentro de mim mesmo uma energia intensa se expandindo, e gradativamente, fui sendo tomado por uma sensação de suave contentamento. Então, lembrei-me de vários parentes e amigos que rezaram por mim e assim pude emanar do próprio peito, um coração renovado, cuja intenção ao escrever estas pequenas linhas foi de dedicar a todos augurando votos de muita paz e luz em suas vidas.
Ao elaborar este texto resolvi compartilhar a luz d'alma de cada um porque sei que ela enriquece os  relacionamentos e equilibra as energias nos centros vitais. Visitar a alma da família, dos parentes, amigos e amigas com toques silenciosos de paz e luz é o verdadeiro presente que recebemos quando conseguimos alcançar o último degrau da vida. Cada palavra que digitei refletiu no monitor um carinho que permanecia alguns segundos nessa condição de contentamento íntimo, e no final, percebi o quão é difícil de explicar por palavras. Continuei digitando e o amontoado de letras acabou formando este pequeno artigo e ao encerrá-lo, senti uma paz interior, minha expressão e o meu olhar ficaram  cheios de contentamento e brilho.  Então, comecei a perceber que essa vida pulsante, dentro e fora era necessária e que em nenhum instante ela desistiu de mim e entendi que para amar não é preciso ler livros de romance, poesias, doutrinas ou livros pesados, carregados de dogmas absurdos. Para amar basta navegar rumo a Deus e ter amor no coração. 

A volta do Paladino da Fé.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Quando menino a presença de heróis era uma constante em minha vida. Naquela  fase, a imaginação era muito fértil que me permitia ser  o que queria. Bastava sonhar. O herói que imaginava era mais que uma representação da grandiosidade do potencial humano. No fundo sabia que podia ser muito mais do que aquilo que estava manifestando no momento. Naquele tempo, mesmo assistindo filmes em que se despontavam grandes heróis, o meu, por incrível que pareça, era o Padre Otávio, uma pessoa de um carisma impressionante, disciplinador e excelente educador, e talvez, tenha sido a sua capacidade de evangelizador que me fez tornar um católico fervoroso e obediente aos princípios cristãos.

O meu inconsciente dizia que eu possuía potencialidades latentes, que não trabalhadas, se atrofiavam mantendo vivas as imagens de muitos heróis, cavaleiros andantes que defendiam o povo oprimido e  perseguido por seus governantes.   Quantos paladinos mostrados em filmes americanos e que muitas vezes nos deixavam admirados pelos seus feitos, por mais que as cenas fossem irreais.

Da mesma forma em que admirava alguns personagens de cinema que salvavam vidas de pessoas, admirava também o Padre Otávio que salvava o homem do pecado e como bom pregador, faziam  todos seguir o caminho de Cristo, tornando-se o meu primeiro paladino só que ele era de “fé em Cristo”. São lembranças que guardo com carinho em minha mente. Hoje, adulto, continuo apreciando aqueles que realizam grandes feitos em alguma área que ele julga importante e salutar ao bom convívio da sociedade organizada. Na verdade, o herói vivente hoje é alguém como nós, mas que jamais aceitou a imposição da sociedade que não consegue realizar certas coisas possíveis, mas não fazem nada em prol do bem comum porque se acham donos da verdade e não calçam as sandálias da humildade. Aquele paladino da fé foi para outra dimensão, mas mantém acesa a identificação com aqueles bravos cavaleiros andantes que eu tanto gostava quando era jovem e que gerou em mim a força necessária para defender os injustiçados, os oprimidos e ajudar aqueles que lutam em prol de grandes obras sociais e evangelização, mas mesmo assim não são respeitados. Hão de se convir que pessoas que aceitam imposições nefastas e prejudiciais a uma sociedade organizada acabam por perder força, voltam à faixa da mediocridade e passam a ser anormais como às de pessoas que convivem ao seu lado.

Em Goiânia há vários meses vêm ocorrendo um fato pitoresco. Um padre com liderança, carismático, com retórica capaz de aglutinar pessoas fora afastado de suas funções pela Arquidiocese de Goiânia, sem qualquer justificativa plausível, deixando atônita uma comunidade composta por mais de quinze mil     pessoas, cujo ato, foi feito por mero capricho de um Bispo, que talvez, nunca tenha sentido de perto o calor humano, o cheiro de um povo verdadeiramente cristão e ou mesmo, tentou salvar vidas pregando a palavra de Deus. Talvez, falta-lhe o dom da retórica ou pode ter sofrido no início de sua vida de semina-rista chacotas e humilhações de colegas e que hoje tenta descontar no humilde sacerdote Padre Luiz  Augusto, amordaçando-o e retirando-lhe o que lhe mais é precioso á igreja católica: o dom da   palavra.

A inveja corrói a alma, torna duro o coração e cegam aqueles que têm olhos, mas não querem enxergar a  verdade e a força de um evangelizador nato, e nesta parte, como mandatário-mor da Igreja Católica em Goiás, o Bispo e seus conselheiros de plantão deviam realmente calçar as sandálias da humildade e entender que não é esta a postura de um cristão e não é isto que a Bíblia ensina.

Sabemos que Dom Waldemar também teve seus privilégios e benesses de ser transferido para Brasília, estudar no exterior e ir a Roma para concluir seus cursos e doutorado e por isso tornou-se Bispo aos quarenta e cinco anos o que lhe facultou fazer essa grande travessia dentro da igreja católica. Entretanto, aqueles que atingem um estado superior de consciência e depois se determinam a ensinar outras pessoas uma mensagem deve estar realmente preparada para tal sobre o manto da humildade, sapiência cristã e respeitar aqueles que evangelizam nas mais longínquas regiões, sem apego a luxos e ambições de se tornarem Bispos ou outra graduações maiores dentro da igreja católica.

O nosso herói ou paladino da fé como o chamamos, como se vê estampado na capa do jornal Diário da Manhã e outros,, é o Padre Luiz Augusto que numa demonstração de humildade aceitou mais uma vez ser submisso à Arquidiocese, mesmo sendo nomeado como padre auxiliar na Paróquia Santa Terezinha do Menino Jesus, localizada no setor Expansul no município de Aparecida de Goiânia.  Realizou a    celebração de forma tradicional e os fiéis acompanhavam usando impressos fornecidos pela Arquidioce-se, que não permitiam o Padre usar toda sua eloqüência de grande pregador.  Antes da celebração, como disse o jornal, ele foi ao lixão de Aparecida onde realiza trabalhos sociais, levando médicos, dentistas, alimentos e brinquedos e no final da tarde, quando se preparava para celebrar um casamento em Goiânia, foi impedido pelo padre local que dizia ter determinações para que ele não fizesse a celebração. Humilde, assistiu o casamento do casal amigo sentado no altar. Um absurdo!  Como forma de humilhá-lo mais uma vez colocou-o como padre auxiliar de outro que tem apenas três anos de sacerdócio e ele tem mais de quinze. Então pergunto: por que não colocaram o Padre Luiz numa paróquia desprovida de padres e que são muitas em Goiânia?
O padre Luiz Augusto na sua perseverança e amor a igreja católica me fez lembrar de Padre Otávio, que nos tempos idos, já era meu paladino da fé.  Naquele dia memorável ao ver o povo saindo de vários  bairros da Região Metropolitana de Goiânia  para assistir  a missa do Padre Luiz numa paróquia que não comporta mais de duzentos e cinqüenta pessoas me senti em júbilo, mesmo não podendo estar presente em face de minha enfermidade. Ao ver aquele povo de Deus extravasando sorrisos de alegria foi possível constatar  que, quanto mais a Arquidiocese ferir dignidade e humilhar o Padre Luiz  os fiéis e admiradores crescerão e ficarão mais próximos dele do que possam imaginar, e isto foi provado na   primeira missa celebrada da Paróquia  Santa Terezinha no último dia 12 de fevereiro, onde compareceram mais de quatro mil pessoas, não contabilizadas pelos fiéis e sim, pela Polícia Militar e imprensa goiana. Então, senhores mandatários da Igreja Católica, rogo-lhes, não tomem mais atitudes preconceituosas, humilhantes e não nos proíbam de admirar pessoas como o Padre Luiz Augusto que sabe evangelizar como nunca. Entenda de uma vez por todas que o povo que o acompanha recebe dele sábias palavras, carinho, afeto e nos leva para o caminho da luz, e percebendo isso reverendíssimos, podem ter a certeza de que todos ganharão. Façam deste paladino da fé e de tantos outros padres que sabem evangelizar e aglutinar pessoas as nossas fontes de inspiração para que um dia possamos despertar deste pesadelo e encontrar dentro de nós mesmos as potencialidades desses paladinos.

O galo que ciscava prá dentro

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Certo dia ao visitar a chácara da minha amiga Elizabeth no município de Cabribó fui surpreendido pela grande quantidade de pintinhos e galinhas que se esparramavam pelo grande galinheiro. Curioso, perguntei-lhe:

- Beth, como você conseguiu essa grande reprodução de aves?

Com aquele jeitão de mulher simples da roça disse:

- Alan pode ver que preparo bem os canteiros, onde, no verão, quando o sol e a temperatura ficam mais fortes, são usados os galinheiros do pomar ao lado, totalmente sombreado onde a temperatura fica mais amena, e no final da tarde, o tratador as solta para se alimentarem de ervas daninhas, insetos e frutas que caem no chão. Comem também os insetos que ficam nas hortaliças, e com isso através dos estercos, deixam o nitrogênio no solo que irá alimentar a pequena horta montada em formato de coxo. Ainda  para aumentar a produção procurei montar as coisas de modo que pudesse alimentá-las também com as sobras da cozinha e excedentes dos canteiros, pois elas gostam muito de restos das hortaliças, principalmente das sobras de alfaces.

Beth deu uma pausa na conversa, ficou um pouco envergonhada, mas depois soltou o verbo:

- Olha Alan, você pode pensar que é gozação, mas não é. Na realidade a grande produção de pintinhos, frangos, frangas e essas galinhas-mães têm um motivo: O galo Corisco. Venho observando há anos que depois que eu o comprei e o coloquei no galinheiro a produção de ovos aumentou. Ele é um galo diferente, não cisca prá fora! E mesmo tendo um esporão grande e pontiagudo não briga com os outros galos e eles ainda o respeitam, e a galinhas, então..., ah, nem se fala.

Ainda incrédulo, perguntei-lhe:

- Como isso é possível?

Ela respondeu, com um sorriso maroto:

- Não sei, mas parece que as galinhas gostam do seu jeitão e com isso vai levando vantagem sobre os outros. Os galos que ciscavam prá fora tive que retirá-los do galinheiro e vendê-los para que eles pudessem cantar em outra freguesia.  Eles cantavam como cocoricós destoando-se do canto canoro do Corisco. Estavam assustando as galinhas. Finalizou.

O galo Corisco além da espora pontiaguda era grandalhão e tinha uma bela crista vermelha caída para o lado. Suas penas eram brilhantes e coloridas como as de um pavão. Descendente de pai gaulês possuía uma elegância de fazer inveja e ainda gostava de cantar. Só que não cantava cocoricó, cocoricó, como todos os galos. Ele aprendia de tudo um pouco e cantava acompanhando o som de viola que vinha do mourão da porteira tocada pelo jovem tratador Alessandro. O seu canto saía diferente à medida que a viola entoava uma canção romântica ou música caipira. Mas seu forte mesmo era as músicas de Roberto Carlos e Paula Fernandes. Aí o seu canto saía mais sonoro do que nunca. Todos admiravam o Corisco: patos, patas, marrecos, marrecas, perus, peruas, galos, galinhas, pintos, gansos... Todos. Era incrível! Até os outros animais se aproximavam do galinheiro: cachorro, cavalo, boi, vaca, porcos, pombos...  Todos. Mesmo os passarinhos vinham de longe para ouvi-lo cantar: bem-te-vi, rolinha, sabiá, tiziu,   pardal, andorinha, araras, pica-pau... Todos.

À noite, olhando a lua cheia que seguia sua rota e iluminava aquele rincão, fique pensativo, comecei a filosofar e perguntar a mesmo: Quantas pessoas ou entidades públicas e privadas poderiam fazer como aquele galo ciscando prá dentro? Quantos partidos políticos ou coligações poderiam se unir para o bem comum da sociedade e ao invés de desunirem, ciscar prá dentro? Quantas comunidades poderiam        trabalhar juntas sem ódios, ciúmes invejas ciscando prá dentro?  Quantas decisões religiosas, sem a  prática do conservadorismo, poderiam ser tomadas em prol de uma comunidade, ciscando prá dentro, em benefício do crescimento da igreja católica e para que a paz volte a reinar? Ah, que bom se todos pudessem deixar de lado o ciúme, a inveja, o egoísmo, a intolerância, a teimosia, a severidade em     demasia e ciscar prá dentro!

A lua soberba seguia o seu rumo enquanto a região recôndita do meu cérebro tentava decifrar e entender as ações de um simples galo que procurava sempre ciscar prá dentro, atraindo todos os animais que   circundavam aquele galinheiro. No começo estranhei o cisca-cisca inverso daquele belo galo. Mas, aos poucos, comecei a entender seu ciscado que outros galos tinham dificuldades de fazer, não obstante  tentarem. Era elogiável, pois todos tentavam o cisca-cisca invertido. Era uma grande demonstração de maturidade entre eles. E, pouco a pouco os chacareiros se achavam no direito de tocar viola perto de seus galinheiros, todavia, somente a viola do jovem Alessandro é que ajudava o embalo do Galo Corisco em qualquer tempo ou horário, principalmente ao nascer e pôr do sol, e nesse caso, os outros chacareiros teriam que contratá-lo também para que seus galos tivessem o prazer de ciscar inversamente, cantar com maestria e aumentar a produção. A notícia correu por toda a região de Cabribó. O povo e a bicharada tiveram que engolir as cantorias dos galos roucos e o som das violas desafinadas de seus tratadores.

Apenas sobreviveu à história o Galo Corisco, que sempre ciscou prá dentro e angariou simpatia e os outros, desajeitados, tiveram suas vidas ceifadas.

Dom Waldemar, ouça o clamor do povo que vem das ruas

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Há alguns dias, fazendo uma peregrinação pela cidade encontrei com muitos amigos e como todos tinham lido alguns artigos meus publicados no Diário da Manhã onde comentava sobre o Padre Luis Augusto. Questionaram-me sobre o motivo da igreja em proibi-lo de celebrar missas, batizados e casamentos. Procurando não polemizar muito sobre o assunto, mas, certo de que o meu pensamento era os mesmos dos outros membros da igreja, não relutei em afirmar que estava havendo muito ciúme e inveja por parte de alguns padres, além de muitos comentários maldosos. A Arquidiocese nunca entendeu que nem todos os padres são iguais.  Alguns são diferenciados dado o seu empenho e dedicação à comunidade onde ele faz parte e nesse aspecto o Padre Luiz é e sempre será diferenciado, porque além do carisma de aglutinar multidões pela facilidade de comunicação e estilo de pregação, ainda se empenha em ajudar os menos favorecidos, os enfermos, os usuários de drogas, os presidiários, os meninos e meninas de rua, os idosos, sem enaltecer, é claro, obras sociais construídas com dificuldades, hoje vistas a olho nu pela sociedade goiana.

Na edição de “O Popular” do dia 15 de janeiro, a Cúria disse através de uma nota assinada pelo Colégio de Consultores da Arquidiocese de Goiânia que “transferências periódicas de religiosos e ministros   ordenados fazem parte da vida da igreja e que “tais medidas” visam sempre ao bem da comunidade e daquele que assume uma nova missão. Ficou definido pela autoridade eclesiástica competente que o Padre Luiz Augusto se dedicaria ao acompanhamento espiritual dos membros efetivos da Comunidade Luz da Vida e Atos”.

Pois bem, é perfeitamente entendível a transferência de um padre para outra paróquia, mas não é compreensível para os fiéis católicos quando dizem que “tais medidas” visam sempre ao bem da comunidade. Se os católicos aceitar essa versão é assinar um atestado de burrice, pois ninguém de sã consciência vai entender o porquê de enclausurar um padre que arrebanhava para a igreja católica milhares de pessoas entre adultos e crianças e mantinha na Sagrada Família mais de vinte mil dizimistas, sendo, conforme notícias divulgadas pela da Revisto ISTO É, a paróquia que mais arrecadava no Estado de Goiás. Então, pergunto: Por que não o enviou para outra Paróquia onde pudesse exercer com magnitude, o sacerdócio? E as obras sociais construídas mantidas por ele com a ajuda da comunidade, como ficam?  Será que o Padre foi punido apenas por celebrar missas noutro local?  Hoje, ao sair de seu silencio, o padre Luiz Augusto mostrou-nos que estávamos com a razão: a falta de abertura da igreja, a inveja, o ciúme, afirmações caluniosas de que gente rica o sustentava, esquecendo que o fiel, pobre ou rico tem o mesmo valor, e todos lhe ajudavam indistintamente, porque sabia de sua força de vontade e fé em Deus. Dá para compreender a atitude da Arquidiocese?

Dom Waldemar, como pessoa de nível superior, culto, que teve a graça de ser ordenado Bispo ainda jovem, chegou o momento de entender que todos devem descer pedestal, caminhar pelas ruas usando as sandálias da humildade, e nesta selva de pedra, ouvir o clamor do povo, principalmente das comunidades que sequer têm padres, para no final, sem se sentir derrotado, liberar o Padre Luiz para o exercício de seu sacerdócio, e por outro lado, não tirar o direito constitucional do povo de ir e vir. O povo deve assistir missas onde se sentir mais acolhido e ungido pelo espírito santo.

O Tribunal da vida está julgando esta injustiça e publicamente, quanto mais o enclausurar, este ato só fará aumentar o número de simpatizantes e defensores desta causa, portanto, urge a Arquidiocese solucionar definitivamente tal impasse para que a paz volte a reinar no meio católico. A decisão não depreciará ninguém muito menos à Arquidiocese, pois estará simplesmente fazendo justiça a um Padre de grande valor espiritual e que sabe agregar pessoas das mais diversas classes sociais para um bem  comum que é servir a Deus.

Quando olhamos a vida do Padre Luiz Augusto, temos a nítida consciência que ainda não lutou todos os combates, porém temos a segurança de que priorizou aqueles que de fato valiam à pena. Seus esforços durante todo este lapso de tempo estiveram concentrados na evangelização e de seus esforços muitas foram às famílias beneficiadas com o seu amor e dedicação. Hoje, Dom Waldemar, este humilde escriba, decifra a figura do Padre Luiz a um maratonista quando no final da estrada declara que completou o trajeto, não desistiu. Ao olhar o seu trabalho de grande evangelizador visualizo os obstáculos pelos quais transpôs e das ajudas espirituais que tiraram muita gente do fundo do poço e   nesse parâmetro me incluo. Os membros da Comunidade Atos sabem que não está sendo fácil convencer a Cúria, porém eles hão de entender a insensatez que estão cometendo e que a comunidade como perseverante que é completará também este trajeto percorrido pelo Padre Luiz  na certeza de que foi Deus quem propôs essa caminhada.

Ao olharmos para a vida do Padre Luiz Augusto inevitavelmente questionamos a nós mesmos, perguntando como temos vivido, e se de fato temos marcado a nossa geração priorizando o bom combate, completando a carreira e guardando a fé.  Hoje, o povo católico clama nas ruas e avenidas  sobre tudo isso que está acontecendo. Vozes que clamavam no deserto agora clamam na selva de pedra, pois todos se evoluíram e vivem num mundo globalizado. Qual é a escolha? O que preferem poder ou não poder dizer? Será que devemos insistir no crescimento dos evangélicos no Brasil e a evidência de um avivamento espiritual? Ou será o prelúdio de uma decadência, assim como uma lâmpada que está para se queimar brilha fortemente antes de, finalmente, apagar?

É um momento de reflexão. O que ele fez disseram que não teve aprovação, o que ele queria de melhor para a comunidade não fizeram e nem ajudaram, celebrações e obras de grande vulto trouxeram ciúmes e inveja, fato que lhe acarretou a proibição de celebrar missas e tantas outras mazelas. Caros Irmãos em Cristo!Tem dia que nenhum bem habita em nosso coração, muitas vezes o querer está em nós, mas não conseguimos realizar o bem. Quando queremos fazer o bem, o mal nos intercepta. No  entanto, sei que todos têm o prazer na lei de Deus, mas, no meio da nossa própria igreja há outra lei que batalha contra a lei do meu entendimento e é neste momento que notamos o quanto somos pó, carecemos e necessitamos mais do que tudo da ajuda de Deus, da graça de Cristo, da intercessão do  Espírito Santo para amenizar os duros corações do clero de Goiânia.

O menino que queria ser padre.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Abriram-se as cortinas do espetáculo. Entrou no palco da vida o ano novo todo serelepe trazendo a tira colo uma rede cheia de esperanças. Os sinos badalaram. Fogos de artifício explodiram na noite nublada e escura esparramando no céu multicoloridas estrelas. O povo se abraçava na praça ensejando paz ao ano que se iniciava. Terminou o show musical. Cantores que se revezaram no palco seguiram seus rumos. A praça ficou vazia, mas ainda recebendo os últimos suspiros dos seresteiros da noite, principalmente os de José que continuava sentado naquele banco com o pensamento absorto, talvez, recordando de seu tempo de menino quando ajudava como coroinha na pequena Paróquia de São Benedito, lá pelas bandas da cidade de Cabribó. Devia estar pensando nas coisas da religião católica e do seu tempo de coroinha que depois de tanta insensatez foram mudadas e esquecidas. Sentei ao seu lado e ao ver o seu triste semblante, a primeira coisa que me veio à mente e que acabou se transformando para pior foi à queda da Paróquia São Benedito que decaiu em termos de celebração, tornando-se monótona, esvaziando-se.  Os fiéis não mais assistiram missas outrora celebradas pelo grande pregador Padre Paulo Ricardo e nem viram aqueles que vestiam roupas pretas e brancas que precediam as procissões quilométricas que aconteciam em Cabribó, onde todos, felizes, carregavam seus estandartes, enquanto outros milhares de fiéis, com velas acesas às mãos, iam enfileirados, orando e cantando músicas sacras inesquecíveis.

Depois disto, lembrei-me das celebrações cantadas ou rezadas em latim, língua que eu o José não  entendíamos, mas que achávamos a coisa mais bonita do mundo. Dos sinos da igreja badalando  anunciando o início da missa; do momento da reza em que benziam o Santíssimo Sacramento; da  Cerimônia das sete últimas palavras de Jesus no Calvário realizada ao cair da tarde da sexta-feira Santa, na qual havia uma espécie de triângulo de madeira, cheio de velas acesas, as quais no decorrer da cerimônia o sacristão apagava uma a uma e quando a última era apagada, as luzes da igreja também se apagavam e na escuridão que se formava os fiéis batiam os pés no assoalho, repetidamente, para representar o tremor de terra da hora da morte de Jesus. As lembranças eram tantas que se fosse escrever sobre todas, teria que ocupar todo o espaço desta página, no entanto como disponho apenas de uma   pequena coluna, resolvi extrapolar os limites de palavras cedidas aos meus artigos, mas, na certeza de ter a complacência da editora responsável pela página “Opinião Pública” ampliar um  pouco o texto pois não  poderia deixar de falar sobre a última lembrança que me veio à mente naquele banco da praça: o desaparecimento dos coroinhas e a vontade de meu amigo José de ser padre.

Lembrei-me do tempo do Padre Paulo Ricardo, do seu trabalho social em prol da comunidade carente e de sua celebração que contagiava o povo. Naquele tempo ele mandava confeccionar conjuntos de túnicas. Estas vestes eram a tradicional batina vermelha com sobrepeliz branca, uma túnica branca com capuz, uma batina da cor do paramento do padre ou um blusão que tenha o símbolo litúrgico, mas, as vestimentas mal davam para vestir todos os coroinhas, dadas a quantidade de meninos, e no dia marcado para uso delas, apareceram mais de trinta para ocupar os postos. O bondoso padre teve muito trabalho em escolher quem seriam os coroinhas, mas, como bom observador selecionou os garotos Márcio Soares, Walter Moreira, Carlos Manzan e o órfão José Benedito, e por incrível que pareça todos tinham o mesmo desejo: ser padre.

Anos depois Márcio deixou de ser coroinha e até hoje ninguém soube o que aconteceu, então, José   Benedito mesmo triste com a saída de seu grande amigo, viu sua chance de ser padre tornar-se realidade. Um menino a menos. Não, dois, pois na semana seguinte o Walter mudou para a cidade de Minuano. Restaram dois, o Carlos  Manzan e José Benedito. Na igreja exerceram por um longo tempo o papel de acólitos nas funções litúrgicas. Chamados de “meninos do altar”, aqueles que ajudam na celebração das missas.   Hoje, o acólito na Igreja católica, é o ministro que acompanha e serve o celebrante dos atos litúrgicos.

José conhecedor evangelho, participava ativamente de todos os movimentos da igreja, conheceu a Santa Missa com todas suas partes, dos lugares na igreja, dos livros sagrados, dos utensílios utilizados na   celebração e das vestes litúrgicas, sem falar  claro, do conhecimento bíblico. Leu a releu a Bíblia várias vezes e se sentia preparado para ser padre, não obstante contrariar-se com muitos dirigentes que não estavam lá para servir e sim para dominar ou impor seus desejos. Sabia também que os tempos modernos trariam muitas dificuldades as Igrejas Católicas caso seus dirigentes não acompanhassem a evolução dos tempos. Sabia também que poderia ocorrer o afastamento de fiéis em face da concorrência de outras religiões, situação que obrigou José a se refletir e manifestar nas reuniões pedindo mudança de atitude e ouvir o clamor do povo, fato que, talvez, o tenha prejudicado junto aos seus superiores, não obstante tenha insistentemente mostrado a descrença do povo com a igreja católica.

A estratégia de aproximação e modernização de algumas Igrejas Católicas começou a dar frutos e José vendo o povo aglomerar-se nelas sentiu-se ungido, pois sabia que essa era a igreja que Jesus sonhou há mais de dois mil anos. No entanto, José já seminarista, desistiu porque se sentiu injustiçado, talvez porque conseguira acender no povo a chama do amor a Deus e mostrar aos superiores que as vocações não voltariam aos níveis das décadas de 70 e 80, e que certas dioceses, por exemplo, se voltar a ouvir o clamor do povo e mudarem o seu estilo, logicamente conseguirão aglutinar bons números de seminaristas, enquanto outras, se continuarem com idéias retrógadas, celebrações monótonas, sem a participação da comunidade, não permitir que fiéis saiam de outros bairros  para assistir missas, onde se sentem  ungidos pelo espírito santo e mais perto de Deus, se não tirarem as “amarras” que sufocam os grandes evangelizadores, sequer  entusiasmarão novos seminaristas a ingressar na igreja e num futuro próximo não terão padres para celebrar missas, principalmente nas periferias das grandes cidades, como vem acontecendo na região metropolitana de Goiânia. Daí se pode visualizar uma inversão de tendência que responde à mensagem do papa Bento XVI que deixou em novembro do ano passado aos bispos  portugueses: "É preciso mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros." Que esta mensagem sirva como exemplo para Goiás e quiçá para o Brasil. Por amor a igreja é chegado o momento dos superiores reverem suas posições,   deixar de lado a  insensatez e abrir as portas da igreja para aqueles que querem seu crescimento, como muitos padres  abnegados que ouvem e convivem com o povo querem.

Revendo as páginas da vida

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Quando abri a tela do computador estava no limiar de 2011, ano de certa forma efêmero como a uma gota de orvalho, imprevisível, que me forçou a rever nas páginas amareladas pelo tempo alguns artigos que falavam de amor, paz, morte, doenças, dor, saudade, bravura, vitórias e conquistas. Noutros, procurei alertar sobre o efeito estufa que estava causando catástrofes naturais, terremotos, tsunamis, deslizamento de erras, poluição atmosférica, e de uma forma mais contumaz, sobre as mordaças impostas aos padres que querem o crescimento da igreja católica; e contundente, sobre a criminalidade, o uso de drogas, o tráfico, sem falar, é claro, sobre os espetáculos dados por políticos corruptos e por aqueles ímprobos que nos palcos da vida mundana encenavam suas maledicências, cujos rostos impregnados de sorrisos irônicos, eram perfilados diariamente nas telas de TV e jornais, quantitativo que não conseguíamos contabilizar.

Durante o ano muitas coisas aconteceram: Nasceram minha neta Alice e meu neto Augusto; mortes de parentes, pessoas amigas, e em especial Tia Doce e o líder ambientalista Antônio Souto, que deixaram este mundo e partiram para outra dimensão, todavia, a perda de um ente querido mais próximo – minha mãe Carolina, que faleceu no dia 15 de novembro, foi uma das experiências mais traumáticas que eu passei na vida. A dor que sentia era tão intensa que muitas vezes parecia que nunca ia passar, mormente quando relia no meu blog a crônica que escrevi em sua homenagem e nele uma foto estampando um sorriso angelical. Quando leio sei que é importante experimentar este sentimento, sem temor ou culpa de não ter sido carinhoso, mais compreensivo, se deixei de ir ao hospital e porque não disse que a amava e/ou por ter perdido a paciência algumas vezes.

À medida que ia remoendo cada palavra escrita com cores rubras que tingiam o meu peito de dor e saudade, procurei me desfazer dos “porquês” e do “se”, pois entendi que somente o sentimento de culpa retardaria a cura e sobre isso, sei que não fui perfeito, mas sempre procurei fazer o melhor e só ela sabe e pode me julgar, assim como se poderia ou não receber dela o amor verdadeiro.

Ela está em outra dimensão ao lado de Deus por ter sido boa filha, mãe e esposa. Deixou-nos prisioneiro de uma dor aguda, mas certa de ter cumprido o seu destino no planeta Terra. Esta fase de tristeza profunda neste momento parece enfatizar na gente uma sensação de desamparo, aquela presente nos fatos do dia a dia, como quando lhe fazíamos visitas rotineiras no final de semana, quando levávamos remédios para amenizar sua dor, as cestas básicas e o carinho que sempre esperava de um filho.  Hoje, ainda podemos até ouvir os seus passos, seus clamores, o seu cheiro, ver o tricô e os tapetes de retalhos estendidos no chão que fazia com esmero, assim como, a sensibilidade de perceber sua presença manuseando cada um desses objetos. Isto é bom, apascenta nossa alma e o coração.

O certo é que, com o tempo, quando a dor estiver cessada, além dela nos proteger lá do céu, sabemos que com a sua proteção voltaremos a sentir a alegria e amor pela vida, por uma vida completa e normal, sabendo que seremos capazes de enfrentar e vencer quaisquer obstáculos, pois sentiremos mais fortes, mais maduros, corajosos e renovados em razão do seu exemplo de trabalho e luta pela vida. Saudades de ti mãe!

 
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