Amigo leitor (a)

Amigo leitor (a). Quando lemos um livro, ou qualquer texto, publicados ou não, que são sinônimos do prazer, por mais simples que forem, sejam reais ou surreais, nos permite exercitar a nossa memória, ampliar nossos conhecimentos e nos faz sentir as mais diversas emoções, por isso, sensibilizado, agradeço a sua visita ao meu Blog, na esperança de que tenha gostado pelos menos de um ou que alguns tenha tocado o seu coração. Noutros, espero que tenha sido um personagem principal e encontrado alguma história que se identificasse com a sua. PARA ABRIR QUALQUER CRÔNICA OU ARTIGO ABAIXO É SÓ CLICAR SOBRE O TÍTULO OU NA PALAVRA "MAIS INFORMAÇÕES. Abraço,Vanderlan

O Detento, A Ex e A Sacoleira.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O dia amanheceu e Torquato fez o último risco na parede, sorriu sorrateiramente e contabilizou-os para no final, conformar o quantitativo dos dias e noites passados na cela junto com outros detentos menos afortunados. À noite recebera a notícia de que seria solto por bom comportamento e voltaria à liberdade. Detentos amontoados não o perturbavam, faziam algumas piadinhas, mas ninguém ousava dizer o seu apelido: Girafa. Era grande, forte e pescoçudo. Se dissessem era encrenca na certa!

Naquele mesmo momento, do outro lado da cidade, Michele colocou algumas mercadorias na sacola compradas nas lojas de um e noventa e nove da Rua 25 de março em São Paulo. Partiu rumo ao centro à busca de suas clientes gastadeiras. Aquela mercadoria parecia difícil agradar, mas precisava convencê-las sobre o produto nem que fosse obrigada a usar de suas artimanhas e contar mentiras mirabolantes. Seria bom também que entrosasse com a turma da repartição com o fito de recuperar a autoestima, no entanto naquele dia o “mar não estava prá peixe” e ainda lembrou que o namorado Torquato tinha sido preso há alguns meses, e me relação a isso, achava-se um pouco culpada e envergonhada pelo acontecido. Ele fora preso acusado de furtar mercadoria de uma sacoleira. Veja que coincidência!?

Torquato com o semblante extasiado colocou o giz azul sobre a cama e deixou como presente aos colegas de cela um conjunto de baralho, que os ajudaram há passar o tempo entre aquelas quatro paredes mofadas. Era um passatempo que naquele dia perdeu o sentido. Antes de sair prometeu visitá-los, trazer-lhes cigarros, entregar as cartas que mandariam aos familiares. E, sobretudo, pensava em si e na vida que deixara. Sua besteira em tentar enrolar uma sacoleira agora estava paga. Agora era rever a namorada sacoleira que talvez estivesse na esquina esperando. Iria conversar com ela, pedir desculpas, fazê-la feliz, e até casar.

Michele ao passar pela avenida encantou-se com um porta-jóias, caixinha de música estocada numa banca de camelô. A pequena boneca bailarina dançava sobre o espelho e ela se lembrava de tudo que já quisera ser. Sempre sonhara ser dançarina, mas logo teve que trabalhar exercendo funções pouco criativas, principalmente a de sacoleira. Agora o trabalho valia como ocupação e não pensaria em besteiras. E, afinal, havia coisas boas na vida: o seu namorado. Ele ia sair da prisão e tinha que estar lá. Aquela caixinha de música podia esperar.

Torquato retirou debaixo da cama a Bíblia, recortes de jornais e revistas pornôs, coisas que o faziam lembrar-se de momentos bons e difíceis e até do mundo profano lá fora. Os pôsteres de garotas seminuas ficaram para os colegas. Com a Bíblia debaixo do braço, presente que lhe dera um padre franciscano, releu algumas frases sem nexo que escrevera na parede, onde tentava se iludir dizendo que lá fora não existe tanta liberdade, enquanto que ali, embora entre grades... Ah! Deixa isto prá lá. Com os olhos voltados para o pequeno gradil da janela onde quase não passavam raios de sol, fez o sinal da cruz, pegou seus pertences e suspirou, achando incrível que um dia pudesse vir a sentir saudades daquele lugar horrível.

À porta de uma loja Michele abriu um embrulho e não acreditou. Alguém que não se identificou mandou-lhe entregar um pacote e dentro dele uma caixinha de música. Desconfiada, abriu o embrulho e qual foi a sua surpresa: A caixa era usada e estava toda estragada. E o som nem se fala, arranhava, e a boneca sequer mexia. Que brincadeira de mau gosto! Quem será este imbecil? Questionou injuriada. Perdeu o controle e quebrou o bagulho na cabeça da primeira pessoa que começou a rir. O Azar é que ela era a ex de Torquato. – Foi você imbecil? Perguntou. Ela continuou rindo sarcasticamente, sem dar a menor bola. Parecia sentir-se vingada. E lá se foi àquela manhã primaveril. Cacos de bonecas e outros brinquedos voaram para todos os lados, gritos, empurrões, e elas se atracaram arrancando fios de cabelos que ficaram grudados nas mãos. Chegam os seguranças e todos foram parar na sala da Gerência.

Naquele instante Torquato saía da Delegacia. O sol que mal conseguia passar pelo quadriculado do gradil, lá fora lhe feria os olhos. Parou por instantes para acostumar. Nem sabia bem que rumo tomar. Talvez descer a pé até a próxima esquina, chamar um táxi usando os seus últimos e míseros reais ou seguir à frente em busca de seu destino. Frente à Delegacia parou uma viatura e dela saíram duas mulheres, algemadas. Uma com a cabeça enfaixada onde recebera doze pontos como prêmio, Outra, com o corpinho de Tessália, cabisbaixa, desceu olhando triste para o chão. Era Michele que ao passar por Torquato ergueu os olhos cheios de lágrimas. Ante ao aparato policial e xingamentos de baixo calão vindos de Etelvina, a ex, os dois sequer tiveram tempo de se abraçar e ou mesmo dizer: Oi, meu amor! Torquato meio assustado apertou a Bíblia junto ao peito, pediu perdão a Deus por aquela brincadeira que fizera a Michele, apressou os passos e sem olhar para trás seguiu rumo incerto.

Por quem os sinos dobrarão.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Deus ao criar o homem colocou em sua mente uma multiplicidade de sensações e emoções capazes de despertar sentimentos mais variados – desde o prazer proporcionado pela contemplação da beleza, da harmonia e equilíbrio naturais, até do terror e impotência gerados por pessoas passando fome, doentes e sem condições de plantar a sua própria sobrevivência. Por outro lado, veem-se meninos e meninas cheirando cola para enganar a fome, crianças e mulheres que se prostituem para sobreviverem, chacinas, roubos, corrupção, abusos do poder econômico que oprimem, catástrofes e fenômenos naturais que ocorrrem no mundo, onde tudo parece irreal, mas é pura realidade e se alastram como se fosse uma coisa natural característica da própria espécie humana, que a tudo vê e assiste complacente através de jornais e imagens geradas pela TV.

Quando intitulei este artigo como “Por quem os sinos dobrarão”, título de um filme antigo, o fiz com  o intuito de homenagear o Padre Luiz Augusto e reportar o seu sermão proferido no último domingo na Paróquia Santa Terezinha do Menino Jesus. Ele, incisivamente, pediu ajuda aos profissionais médicos e odontólogos que colaborássem na Clínica Atos e que resgatássemos da memória do tempo os bons fluídos, o amor ao próximo, a prática da solidariedade, a volta das riquezas e criatividades cristãs, que criteriosas, podem fecundar novas reflexões e ajudar a delinear e modelar novos conceitos de vida em face do processo atual, de forma que, cada pessoa se torne responsável pela sua própria história, pela sua própria libertação, transformando a sua realidade de forma que se efetive a justa liberdade e amor, ainda que de maneira rudimentar.
 
Naquele domingo, padre Luiz ao ver a multidão diante do altar e rincão inacabado, talvez sentindo a não presença de Deus em muitos corações e a falta efetiva de colaboração dos fiéis, passou no telão as obras que a comunidade Atos vem realizando em prol dos mais necessitados: mostrou pessoas famintas, enfermas, idosas e viciados em drogas, abandonadas, sem rumo, perdidas na escuridão de seu próprio ser. Preocupou-se sobremaneira com a situação real de alguns enfermos, como o do Carlos, mas não se deixou abalar pelo desânimo e insistiu junto à multidão que se praticasse a solidariedade, realçando-a como único valor e extremamente capaz de forjar um mundo mais justo, humano e fraterno.
 
Após ouvir as palavras do Padre Luiz, com o pensamento absorto, me vi caminhando pelas ruas da cidade, sem chutar pedras ou bisbilhotar as belezas circundantes. Olhava o vaivém dos veículos e a falta de respeito à leis de trânsito e ao próprio ser humano. Cada carro que ultrapassava o meu, sentia uma dor no coração ao imaginar que a vida de cada uma daquelas criaturas sequer tinha tempo de pensar que existe vida além vida e que poderia ter que prestar contas do que faz neste mundo de expiação e provas. Sequer tinham tempo de observar os pedintes amontoadas nas calçadas e uma criança esquelética sugando o seio da mulher que parecia doente. Um quadro que jamais apagarei da memória. Pouco mais à frente, um vento quente soprou manso e logo deparei com alguns jovens descontraídos que usavam colares, brincos, pircing, cabelos pintados em cores variadas, dando-se a impressão de estarmos em outro planeta. Fumavam e soltavam baforadas de fumaça que cheirava a “baseados” e nos refrigerantes, misturavam diminutas pedras de crack no afã de contemplar melhor a vida e de se “chegar às nuvens”, talvez numa nave criada pelas suas imaginações, sem destino e desvalida.
 

Ao quebrar os laços familiares, deixar de ajudar aos infortunados, aos doentes e àqueles que passam fome, o homem quebra também o elo da cadeia que o liga a harmonia, ao amor, a fraternidade, a fé e equilíbrio de forças assentes nas Escrituras, motivos relevantes que se não exercitados tornam implacáveis e difíceis a mantença da sobrevivência humana, e na forma em que está, banalizada, indiferente e que nos leva  passividade, não pode continuar. Ao final, deverão estar fundamantadas precisamente no amor, na caridade, não ficar à deriva, sem referência, para no final, saber por quem o sinos dobram e dobrarão e não perderem a visão familiar tão sonhada por Josué (24:15): “Eu e minha casa serviremos ao Senhor”.
 
Hoje, o homem não mais cora de vergonha e muitas vezes nem vê  motivos para isso. Talvez a vergonha que não se aflora mais em seu rosto é que o faz fazer tantas declarações de intenções, tantos compromissos político-sociais, tantas promessas de ajudar ao próximo, ajudar aos doentes, ao menos favorecidos; muitas vezes não realiza alegando falta de tempo ou faz-se de esquecido. Ao analisar as palavras do Padre Luiz no último domingo confesso que corei e sei que muitos coraram e usaram a carapuça. Eu, principalmente, me senti em débito com a minha comunidade. Cheguei a conclusão também de que temos a oportunidade fazer alguma coisa boa em prol de nosso Planeta e se não o fizermos será por mero capricho. Podemos transformá-los num paraíso se agirmos com correção, termos amor ao próximo e sermos solidários um ao outro, ou num inferno, se sucubirmos sob o peso do pecado e da falta de amor ao próximo A resposta a esse desafio está presa nos elos da imensa cadeia da vida, que se quebrados, deixarão todos em cárcere inseguro, e para sairem ilesos, difíceis serão as decisões que cada um terá de tomar. E é diante dos fatos narrados que cheguei a conclusão de que os sinos dobram e dobrarão a todos aqueles que sempre ajudaram a segurar o cajado espinhoso da luta em prol da vida.

A Estagiária e o Poeta

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Uma jovem de passos miúdos, estatura mediana e elegante adentra e anda pela sala, olha para os lados e cumprimenta os colegas de trabalho com um sorriso singular, infantil. Chega à janela, observa o movimento da avenida e o povo que se aglomerava a espera de ônibus, e mais além, seu olhar compenetrado vê vidas desfeitas, cambaleantes e outras estiradas sobre a calçada, e o modo que olhava aquelas cenas com outro olhar, parecia querer transformar o mundo com imposição de suas ideias, nem que fosse aplicá-las apenas no seu mundinho particular. Vislumbrada e ao mesmo tempo desnorteada com aquele mundo, volta à mesa de trabalho carregada de bons fluídos distribuindo-os gratuitamente e ofertando o mesmo sorriso infantil, que dado à graciosidade, até intimidava. Por segundos, quebra-se o silêncio. O telefone soa e o seu corpo lento e demonstrando cansaço, aconchega-se sobre a poltrona e diante do monitor entrega-se ao trabalho estafante do dia a dia e sequer notam os olhos admirados do poeta que acompanhava seus passos naquele pequeno trajeto.


Os olhos do poeta, despidos de óculos, admitem enxergar o verdadeiro, desinteressados, mesmo diante de uma silhueta desconcertante, mesmo diante uma esmerada educação e vontade de não enganar ninguém, o que era visível notar. Os olhos sem cobiça não enxergavam a existência de egoísmo e de valores morais indiscutíveis, os quais nunca renderão a ela angústias, inimizades e dissabores. No divã laboral, com ou sem encosto, ladeadas de processos, a estagiária aprendeu a ouvir os mais sábios e compreender que as experiências de vida enriquecidas pelos exercícios espirituais a valorizaria durante toda sua existência e optaria pelo renascimento espiritual e quiçá, a benção de poder enxergar os valores inimagináveis do ser humano e os encantos da vida.
 

O sorriso está sempre estampado no rosto e nem parece reclamar da vida, não obstante sabermos que aquela jovem também tem suas dores, temores e até chora. Mas, se chora sabe fazer às escondidas, no seu quarto de dormir, com a cara colada no travesseiro limpo, cheiroso, no qual a empregada se esmera em trocar a fronha todo dia para que a menina-moça tenha noite de lindos sonhos... Ela não era como aqueles pombos e passarinhos que davam voos rasantes sobre a praça e o Palácio e passavam rente a janela numa terapia coletiva matinal à cata de alimentação por meio de um lamento gutural. Deve ter aprendido durante os anos vividos que aquela revoada de pássaros assim como os livros traz algumas mensagens, escondem mundos e revelam realidades que nem sempre as conversas em casa, na universidade e no trabalho apresentam. E foi  este mundo que passou a frequentar sempre que sua cabecinha inquieta questionava e suscitava novas descobertas...
 

Tornou-se uma leitora e pesquisadora obcecada de livros jurídicos, deixando-se preencher pelo sonho de se tornar uma advogada. Descobriu o mundo da Internet. Nele mergulhou fundo como a uma inquieta jornalista à busca de novidades e conhecimentos. Para bem de sua formação, muito do que descobriu nunca abandonou, livrando-se, como outros tantos que não conseguiram, de uma dependência que a poderia tornar uma desocupada e inoperante perante a sociedade, com vida inativa no mundo virtual e nenhum envolvimento significativo na vida real. E esta lhe era uma possibilidade bastante plausível, caso não experimentasse essa sensação da modernidade, exceto, talvez, por uma babá que pode estar à sua disposição para atender seus caprichos de menina moderna que deve possuir detrás de seu sorriso angelical os mesmos medos de uma jovem qualquer e a incorporação de personagens que procura apropriar-se de sua força. Mesmo sendo bela, deve ter receios de ser decepcionada, de sair frustrada de relacionamentos, afinal de contas está preocupada em seus afazeres laborais e iniciou uma jornada criteriosa pelo labiríntico mundo dos livros.
 

A menina, porém, enquanto agente de seu próprio destino, entregue à própria sorte da formação intelectual aprendida nos livros e da formação para a vida extraída de experiências de terceiros, vai tendo um amadurecimento precoce de tal forma que, ainda jovem, já possui uma experiência intelectual acima da média para a sua idade, assim como o amadurecimento emocional, pois os parâmetros que têm possuem a força do apoio e peso da experiência familiar, que deu um impacto promissor em sua vida deixando-lhe segura diante de certos fatos que a vida, já nesta fase, lhe começa a impor.
 

O poeta que a viu e vê passar por horas a fio é um homem vivido. Sabe que não pode frustrar uma jovem que sonha com o mundo jurídico. O poeta já percorreu muitas escolas e na pele, traz as marcas das montanhas que teve que transpor para conquistar o seu lugar ao sol. No entanto sabe que mesmo pelo pouco tempo de vivência, a jovem também já transpôs algumas barreiras, tornando-se uma leitora inveterada de livros e até dos simples artigos, crônicas e versos, disponibilizados pelo poeta em seu Blog, que descobrira numa coluna do Diário da Manhã.

 
Ousa dar umas opiniões, fazer uns elogios, enaltecer sua beleza. A mulher que neste texto o poeta se abstém de falar o nome existe e só ele pode vê-la. Quanto a você leitor o poeta diz que ela pode estar na sua sala, próxima à sua mesa, na sala ao lado ou desfilando elegantemente no corredor. Aguce a sua sensibilidade. Observem a silhueta, o trejeito, o caminhar, os olhos castanhos, os cabelos longos castanhos claros caídos sobre os ombros. E o sorriso! Ah! Esse nem se fala! Tudo junto nada mais é do que a expressão de uma poesia lírica. Ela, a quem o poeta vê, jamais adotará posturas defensivas. Ela de quem o poeta fala talvez sequer acredite na vida e nas pessoas. Ela de quem fala não é cética. Crê e aceita o que fazemos e realizamos. A opinião de terceiros é importante e ela ouvirá e digerirá para alimentar a sua alma inquieta. Descubra quem é essa mulher ou então, esse poeta vai acreditar que há ali naquela sala apenas um coração inseguro que quer apoio, ajuda e conquistar o mundo, mas que precisa primeiro conquistar o seu “eu” interior, conquistar a confiabilidade no mundo das palavras que imprimem sonhos e transformam vidas. E o papel do poeta como criador de coisas inimagináveis, irreais, vai promover uma reviravolta na vida de alguns leitores que se perderam na jornada da vida, sendo de fundamental importância que atinem para o fato narrado e deem importância a quem está ao seu lado ou perto, cuja imagem alguns insiste em não querer enxergar. Mais do que nunca você leitor e o poeta, precisam estar conscientes de que a vida imita a arte. E a arte embeleza a vida, dando mais cor e sabor à existência.

Uma viagem para além de mais além

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Como a um pássaro aventurei-me por aquelas brenhas selvagens, embora perigosas, banhei-me nas águas revolta do Rio Babilônia, pesquei lambaris em suas águas piscosas, entreguei-me a amassos imaginários de uma linda mulher cujas bolhas de águas envoltas em seu corpo eram levadas pelo vento, e o belo vulto iluminado pela luz tênue do sol e adornado por folhas secas caídas de árvores milenares, emergia e imergia naquelas águas profundas, num vai e vem inesquecível. O rio, eu e minha canoa, assim como o esbelto corpo, seguíamos céleres para além de mais além, enfrentando curvas, recepcionando brisas vindas de outros rincões e sob o cantar dos pássaros, parecia querer mostrar a aqueles que passaram e viveram o amor, que naquele local jamais existiria violência, poluição ou a brusquidão do quente asfalto de uma cidade. Aos incautos, o rio sempre dizia que as aves que outrora gorjeavam foram também para mais além, onde o ser humano jamais poderá aprisioná-las e nem fazê-las ouvir o ruído infernal de suas máquinas insones.


O rio, para além de mais além, onde a natureza não mostrará sua face, onde não se ouvirá suspiros nem gemidos, onde não se verão cidades incharem, onde não se respirarão o mesmo ar do ser humano, seguirá navegando sobre o seu próprio leito mesmo sinuoso, suscitando sons inebriantes, poéticos, sob o silêncio sombreado das árvores que debruçam sobre suas águas límpidas e deleitam em suas rústicas margens, cujos momentos de nostalgia me fez recordar de coisas obscuras impregnadas no meu cérebro há tempos, e com emoção à flor da pele, restou-me quedar diante daquele ambiente místico e esquecer-se dos sustos da cidade, das enfermidades, da violência, da criminalidade e dos cotejos de morte.



Naquele recanto aprazível tentava fugir do real, encaixotar de vez minhas ansiedades, aflições e sensações oriundas de um mundo profano e de certa forma, procurar entender a própria existência do homem no universo e acreditar firmemente na existência de Deus. As atitudes de cada um por mais crentes que forem, considero que a demonstração de fé, caso não seja rejuvenescida ante ao Criador, continuará sendo apenas uma gota de orvalho que não tem mãos para levantar aos céus e pedir ajuda, pois rapidamente se evaporará sob os raios de sol. Não importa se vamos mais além para ouvir e assistir o nascer de um novo amanhã, e ou se por extrema necessidade, termos que usar asas para voar no afã de visualizar nesse amanhã uma vida nova, e possivelmente, numa curva qualquer, encontrarmos a fé em Cristo que tantos procuramos.

O sol se pôs no horizonte entregando-me a lua que já nascia soberba detrás da densa mata. Não obstante o palco mostrado pela natureza se diversificasse a cada momento, o rio seguia seu rumo e eu o acompanhava com olhar complacente de um admirador. Era óbvio que ele passaria por serrados ingentes, matas e mais além, encontraria queimadas praticadas pelo próprio homem. Sabia que o fogo atiçado sobre o capim e galhos secos tornaria suas chamas ardentes, implacáveis, os quais, silenciosos, quedariam esbatidos sobre a terra que chorava de dor. Por mais que procurasse me aquietar naquele poucos dias de férias não conseguia ficar indiferente e como ambientalista precisava agir não obstante saber que a vida humana é cheia de contrastes em relação ao ambiente em que vive. A sua ação devastadora fez-me voltar ao meu mundo real, esquecer aquela imagem surreal, dos mistérios e mitos contados por moradores ribeirinhos para poder soltar os pequenos flashes guardados em minha mente, onde se encontram níveis insuportáveis da violência, de corrupção sem controle, de descrédito absoluto da classe política, de apagão ético e moral e de toda a sorte de agruras que o cidadão vem enfrentando, impotente, sem ter a quem recorrer. A sociedade está órfã e este fato me fez “cair na real” e “viajar” para além de mais além, inerme, em busca de meu mundo incógnito.

PAI, sob a ótica da celeridade e do bem servir

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O artigo que escrevi na semana passada foi dedicado ao meu saudoso pai.  Era 12 de junho, “Dia dos Pais”. Coincidentemente, o artigo que hoje escrevo já estava pronto naquele dia, e por sinal, falava também de PAI, não o pai presente ou ausente do qual teci alguns comentários. O artigo que escrevi naquele dia intitulado: “O PAI sob a ótica da celeridade e do bem servir” e que hoje publico rendo minhas homenagens ao Governo de Goiás por esta feliz iniciativa. Esse PAI do qual resolvi também tecer alguns comentários veio ao mundo para monitorar o serviço público, desburocratizar, dar unidade, eficiência, racionalizar gastos, prestar contas e avaliar o desempenho dos agentes no controle social da gestão pública. O PAI que vou delinear nesta pequena coluna de jornal foi apresentado ao servidor público em sessão solene e naquele ato o seu idealizador o denominou de Plano de Ação Integrada.

Há muito tempo que a Administração Pública precisava de um controle administrativo mais eficaz, pois ela exerce suas funções por meio de seus agentes, órgãos, entes e atividades públicas, garantindo a direta e imediata realização plena dos fins alçados pelo Estado e esta, sob a ótica dos administradores públicos o plano de ação pode assumir duas vertentes: a primeira repousa na ideia de servir e executar; a segunda envolve a ideia de direção ou gestão. Nas duas visões obviamente há a presença de relações de subordinação e hierarquia.

Administrar para muitos significa não só prestar serviços bem como executá-los. Também pode afirmar que governar é o exercício da vontade com o objetivo de obter um resultado útil a coletividade, não obstante sabermos que figura na Administração Pública assim como na Administração Privada as atividades que dependem de vontade externa, individual ou coletiva, sempre vinculada ao princípio da finalidade.

 
O artigo 37 da Constituição Federal de 1988 elenca os princípios inerentes à Administração Pública, que são: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. A função desses princípios é a de dar unidade e coerência ao Direito Administrativo, controlando as atividades administrativas de todos os entes que integram a federação brasileira (União, Estados, Distrito Federal e Municípios) e isso foi absolutamente obsevado pelo grupo de trabalho que idealizou o PAI.

No que tange aos aspectos gerais da reforma administrativa, a proposta constante no PAI – Plano de Ação Integrada do Governo Marconi Perillo, é possível constatar que, em cada item, eles são formados por etapas de implementação onde se incluem projetos prioritários, fontes de recursos, desburocratização e monitoramente intensivo.

Vislumbra-se mais na leitura do Plano que o seu objetivo visa alcançar um novo modelo administrativo que será composto por um conjunto de ações positivas que o Governo vai programar visando acelerar o desenvolvimento econômico e social do Estado de Goiás, substituindo o então modelo burocrático vigente, reputado como ineficiente e ultrapassado, também melhorar a eficiência do serviço público com a desburocratização, monitoramento intensivo dos programas idealizados visando à obtenção de mais eficiência na utilização dos recursos disponíveis, assim como, coibirem o desperdício e racionalizar o gasto público.

Uma das características que visualizamos no PAI é a integração dos programas de modo que todos fiquem subordinados a ele, com o fito de tornar os serviços estatais mais eficientes e de forma que possa desenvolver uma cultura gerencial nas organizações públicas, principalmente no controle e qualidade do gasto. Nesse parâmetro há de se destacar a flexibilidade administrativa, através da diminuição e até mesmo fim da burocracia do modelo anterior que emperrou e emperra a máquina administrativa, e de certo modo, prejudicava e continua prejudicando a participação ativa da população no controle administrativo, por meio da prestação social de contas e avaliação de desempenho dos agentes públicos no controle da gestão pública.

Fica clarividente que o PAI tem um objetivo primordial que é modernizar o serviço público, buscar novas metas e alcançar objetivos que são: o crescimento econômico e atender melhor o cidadão com uma excelente prestação de serviços. Entretanto para a consecução dessa empreitada é necessário equipar os órgãos com aparelhos mais sofisticados, dar qualificação profissional e aperfeiçoar a mão de obra para executar com perfeição esses serviços.

Quanto à aplicação do ponto eletrônico que é uma das metas do PAI essa exigência pode esbarrar num princípio bem simples e conhecido da população: a não assiduidade, a morosidade; a inércia; a improdutividade de uns que desanimam aqueles que trabalham bem e zelam pelo bom andamento e celeridade dos serviços lhes atribuídos. Ainda existem aqueles servidores que dizem ter “costas quentes” e não estão nem aí para esse tal de ponto eletrônico. Existem aqueles que são nomeados para cargos de primeiro, segundo e terceiro escalão que chegam ao trabalho e o ponteiro do relógio já está apontando para o sol do meio dia. Existem aqueles que fazem de cegos e nem  relógio tem, todavia, recebem mais que a  gente o sol, a lua, e ainda têm tempo de brincar de esconde-esconde com o Gasparzinho num castelo assombrado e sob o uivo de ensurdecedor dos ventos. Pontos para esses, quiçá, deveriam valer também e isso se acontecesse seria um grande exemplo para todos e daria ânimo aos trabalhadores descontentes.

O Governo deve atinar para essas nuances e por outro lado, voltar também suas ações para o treinamento e reciclagem profissional, e, assim fazendo, alcançará o objetivo proposto pelo PAI que é executar com desenvoltura e competência os programas instituídos, abrindo espaços necessários para a participação efetiva deste mesmo servidor junto ao seu superior, assim como, junto ao seu setor produtivo. O trabalho conjunto entre Administração e Servidor, sob a ótica da celeridade e do bem servir, é claro que resultará num atendimento de excelente qualidade e no estabelecimento de prioridades entre si de modo que possa ocorrer um perfeito ordenamento do sistema de serviços ora propostos pelo Governo através do PAI e que serão geridos pelo próprio servidor.

Tudo em Nome do Pai

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Amanheci inquieto e de certo modo atormentado pela saudade que tremulava na minha massa cefálica e dilacerava meu coração já machucado pela engrenagem da velha máquina corpórea, sobre a qual não consigo obter respostas de como funciona por mais que a gente insista. Tenho uma filosofia diferenciada, onde procuro inserir na minha vida a segurança, a paz, a amizade e respeito ao ser humano. Hoje, nesta manhã de inverno, 12 de agosto, “dia dos pais”, entre um gole de café com leite e um pedaço de pão francês, começo a observar a grande diferença entre a saudade e a ausência. Muitos as confundem, outros a torna única, alguns pensam erroneamente, mas, tudo é a mesma coisa em se tratando de saudade de um pai que partiu há décadas deste mundo para viver numa outra dimensão.

A única imagem que carrego dele aconteceu num final de tarde quando estava na garupa de seu cavalo e ele me disse: “Filho, quando cavalgar à noite e tiver medo, cante bem alto que o mal espanta”. Esta frase ficou gravada em minha memória, como ficou também o seu corpo estirado no chão, dias depois, morto, queimado por fios elétricos de alta tensão. Devo confessar que nem chorei, porque hão de compreender que era apenas uma criança e para mim aquilo era surreal, incompreensível. Um filme de terror a mim devia ser proibido. Diria até que o que senti era apenas uma forma heurística, uma verdade que não aceitava e que podia me inculcar ou quedar-me diante de um exercício de alquimia, mas era pequeno demais para entender aquilo e sobre a existência ou não de coisas filosofais. Eu era apenas um menino-diamante que necessitava primeiro ser carbono, ter a temperatura elevada para me tornar valioso, pois a ausência nem sempre evolui para a saudade, mas em relação ao meu pai, as duas evoluíam sim.

Sentir saudade do que nos faz bem ameniza o coração; sentir saudade daquele que um dia nos fez sentir vivos, nos acalenta, nos provoca sorrisos e até choros com algumas palmadas, mas é bom. Sentir saudades das conversas, de sua voz ao longe gritando e campeando o gado; sentir saudade dos pequenos gestos, das grandes ações é inesquecível. Sentir saudade das histórias contadas à beira do fogão de lenha enquanto os biscoitos eram fritos na panela de ferro é gratificante, assim como, fazia bem o cheiro do mato verde e das cores de flores do campo. Saudade que me é importante e que todo mês de agosto comemoramos. Falta que dói, mas, sei que nunca o terei de novo.

A ausência de um pai que abandona o lar não traz saudade, gera esquecimento. Tem pai que se diz presente, mas, o seu amor está sempre ausente. Tem pai que está presente, é amado e distribui amor aos seus entes queridos. Quanto aos ausentes, o cotidiano os enterra, diluem as lembranças, revira as páginas da vida que jamais queremos abrir. A ausência de um pai deixa as páginas amarelas, cria mofo, e ao relermos as linhas, constatamos não ser mais necessário, pois a escrita nada nos trás de bom. Não há mais o ornamentado palco da vida e nele, a arte do suspense, da trama que já era prevista e o fim… Ah o fim… Não quero ler ou reviver essas páginas corroídas por traças e amareladas pelas intempéries do tempo.

Quando há saudade e é a que sinto, não haverá fim… Porque não há ausência, mas uma presença distante, talvez do outro lado do mundo, numa dimensão qualquer, do outro lado da vida, porque acredito na existência dela do lado de lá, mesmo não existindo palavras, olhares e nem toques. É um mistério que foge a compreensão do homem. Aqui no Planeta Terra ainda há a alegria de olharmos para céu e enxergarmos entre as nuvens raios de sol que nos remete de volta à realidade; existe a alegria de colhermos a cada dia a flor da certeza e plantá-la em terreno fértil onde poderemos regar com a verdade do sentir. Quando há saudade a espera é apenas mais uma etapa, mas, tudo vale à pena… Quando se trata de ausência passa-se a sentir a indiferença do outro, e isso dói e fere a nossa alma. Quando não há mais o interesse, quando ficamos em silêncio, quando não há mais a partilha entre o ser humano e tudo vira um emaranhado de figuras distantes, ai sim é uma grande ausência.

A saudade de meu pai por mais que enfraquecesse meu coração não me deixou solitário. Ao contrário, me fez ir à luta e honrar o seu nome, pois sabemos que no jogo contínuo das aparências, a vida segue, como as semanas seguem, alternando os dias, as noites e as esperanças. Mas nada que faça cócegas no cerne, nada que perpasse a casca. A vida segue assim como segue a dor que sinto no ombro e o coração com o seu descompasso que tenta diminuir o vazio que existe dentro. Os planos são muitos, a execução é difícil, mas não desisto, nem solto de vez o leme como gostaria, mantenho-me ainda com a enferrujada bússola, com algum norte, alguma inteligência para além da lamentação. Talvez isso me mantenha em pé, com a cabeça próxima de alguma magnitude.

Nesta manhã de 12 de agosto novamente senti saudade, entretanto, não quero mais sentir a dor da ausência, pois se assim for é porque não era, porque foi efêmero, foi ilusão, foi apenas uma escrita que não chegou a ser uma história. Não quero transformar minha saudade em ausência porque isso chegaria à resposta que não quero ter e se a vida trouxe a minha alma as certezas de uma procura, não quero que ela se perca na incerteza de uma chegada.

A primeira carta do menino da porteira.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

                                                                              Era uma tarde de sexta-feira. O céu estava coberto por nuvens negras gigantescas. Um prenúncio de chuvas abundantes e não se via mais sinais de raios de sol. Começou a cair uma chuva fina enquanto eu descia ao porão acompanhado de minha avó Catarina. Pendurei o chapéu Panamá e a capa de couro sobre um pedestal de ferro e em seguida abri o baú de madeira envelhecido, na tentativa de encontrar um documento de meu saudoso avô. Ao manusear os papéis já corroídos pelo tempo e sentir nas narinas o cheiro de mofo fétido e ácaros que se soltavam ao vento, deparei com uma carta já amarelada e corroída por traças. Era a primeira carta de Fortunato, mais conhecido naquela região como “o menino da porteira”, que enviara a Polliana Barteli. 


O menino da porteira de quem falo não é aquele sem nome, homenageado por cancioneiros, numa ficção sertaneja, cantado em prosa e verso sob a batuta de maestros e o acorde de sanfonas e violas caipira. Nem é aquele que abriu a porteira para a boiada passar, que viu a poeira baixar, ouviu o som do berrante e ou saiu pulando para apanhar uma moeda atirada por um boiadeiro errante. O menino de quem falo abria sim a porteira, mas a do coração para receber o amor daquela menina que sempre passava a galope montada num cavalo branco acenava-lhe com as mãos e que conhecera à beira de um pequeno riacho. O menino da porteira de quem falo era real e os caminhantes e boiadeiros sempre o via no mourão da porteira ansioso à espera de sua amada. O menino de quem falo tinha quase a mesma vida que as demais pessoas, a diferença é que morava na roça e para sobreviver, cuidava da horta, capinava quintal, tratava das galinhas e ordenhava as poucas vacas para ajudar o pai conseguir o “pão de cada dia”. Pai que dava duro na lida no pequeno sítio e se esforçava para mandar os filhos para a escola. Mas, aquele menino, numa tarde qualquer, estava pendurado na porteira quando Polliana apontou na estrada de chão poenta, trajando uma calça jeans, uma camiseta vermelha e uma bota comprida que nunca tinha visto. Estava linda! Mas, naquele dia não parou e sentada na carroceria da camioneta apenas acenou com as mãos e partiu...

De repente, um mau pressentimento abateu-lhe o pensamento. Desceu da porteira e apressadamente insistiu que parasse, pelos menos por um segundo, mas nada, o pai dela sorriu sarcasticamente e acelerou desdenhando o amor que pairava em nossos corações.  Ela tentava balbuciar algumas palavras. Fez a leitura labial e entendeu como a um adeus! Detrás da poeira que se esvaiam pelo espaço, o sol da manhã parecia emitir raios efêmeros, talvez se sentindo cúmplice de um amor que iluminara por longos meses e que naquele dia parecia findar-se.

Com a carta mão, a primeira de muitas que não obteve resposta, li em voz alta devida a surdez de minha avó, mas embargada, por se tratar de um amigo, poeta brejeiro, que deixou o seu rincão sem contabilizar os dias perdidos e pelas trilhas da vida seguiu rumo incerto, mas, sempre com o pensamento voltado à busca de um amor perdido. Fortunato, não era o badalado menino da porteira, mas, para Polliana era e ele sempre estava lá sentado mourão à sua espera. A sua primeira carta já expressava todo o seu sentimento e que assim dizia: “Neste momento que escrevo a lua já completa a metade de sua rota. A obscuridade em minha volta é interrompida apenas pela sua luminosidade que invade o vão da janela. Eu e o meu sabiá preso na gaiola somos velados apenas pelo silêncio da noite e sequer escutamos o Curiango que costumeiramente canta topo da serra. O galo Barnabé adormece na torrinha, os pássaros noturnos e a coruja emudecem como que sentindo sua falta neste recanto. O seu rosto angelical ainda se encontra gravado em minha mente e os momentos de nostalgia que outrora os colocava no palco da vida, hoje perecem se convergir rumo a um mundo incógnito, assim como seu rosto que muitas vezes vi refletir por detrás das aspirais de fumaça que saíam da pequena chaminé. Sei que nunca serei para ti aquele “menino da porteira” tão cantado por artistas sertanejos, mas, apenas um menino que abriu a porteira do coração e não deixou ninguém entrar: só você!” 

Restou Apenas um Retrato na Parede

terça-feira, 31 de julho de 2012

Era prenúncio de verão. O ônibus balançava na estrada cheia de lama. Dia anterior tinha chovido copiosamente. A estrada passava por uma região bastante produtiva e havia necessidade de asfaltá-la para atender aos apelos dos produtores rurais e indústrias locais que cresciam assustadoramente. À frente, viam-se várias máquinas rasgando o chão já molhado pela chuva e às margens, lindas pastagens e capim verde brotando. Plantações de soja e milho perdiam-se na imensidão de terrenos férteis, enquanto os pneus do ônibus se debatiam nas imensas poças de lama, formando um jato sujo e os lançava sobre a relva verde que margeava aquela estrada. Numa curva, o veículo atola e o motorista olha pelo retrovisor e tenta forçar o acelerador. O pneu desliza sobre o buraco cheio de barro e não consegue sair do lugar. Cascalhos grossos e pedras são jogados no buraco e o motorista acelera novamente. O ônibus arranca soltando uma fumaça cinzenta que cheirava borracha queimada. O veículo parecia carregar um monte de problemas, pois além do desgaste do motor, dentro ele levava passageiros cheios de esperança, ilusões, mágoas, ansiedades, desamor... Juca fazia parte daqueles passageiros da agonia e voltava da Capital no afã de rever o seu recanto recheado de sonhos imaginários, mas, com certeza, a lembrança do amor que deixou retratado na moldura pendurada na parede.


O ônibus mal conseguia ficar em linha reta. Os passageiros se ajeitavam nas poltronas, inquietos. No banco da frente duas jovens retornavam da Faculdade. Era tempo de férias. Calado, o motorista segurava o volante com habilidade e o suor descia pelo seu rosto, enquanto uma professora reclamava de seu salário irrisório, e outra, em prantos, comentava sobre a morte do filho que tinha sofrido um acidente de trânsito. No último banco um casal de namorados trocavam carinhos e sequer sentiam os problemas causados pela estrada. Outros se olhavam fixamente, alguns demonstravam medo, outros ódio, felicidade, descontentamento e aflição. Tudo fazia daqueles momentos um viver nefasto. A tristeza infinita estampada em cada rosto mostrava como a humanidade está doente. As alegrias são tão poucas que ao se fitarem, encolhiam-se tímidas em suas poltronas com medo de serem abordadas.


Juca, inquieto em sua poltrona, lembrou-se de Jéssica e dos momentos em que desabotoou uma fileira interminável de botões forrados de cetim branco; do vestido azul, da blusa alaranjada, do sorriso dela, do seu perfume que exalava cheiro de flores do campo e depois, como último ato para se chegar ao ápice do prazer, um beijo ardente com gosto de mel.


O sol se pôs no horizonte deixando a noite assumir o seu lugar. Nenhuma nuvem importunava a lua e as estrelas que se esparramavam no universo. Juca com o corpo cansado desceu do ônibus à beira da estrada e seguiu rumo ao casarão de assoalho de tábuas e puro adobe construído a poucos metros dali. Desviou de algumas poças de lama e com o coração em júbilo, parou momentaneamente e com o pensamento alhures, adentrou naquele ambiente abafado, deparando somente com o retrato dela pendurado na parede ofuscado pela escuridão dos dias findos. Doeu e muito ao recordar dos tempos idos, mas não poderia ser diferente. Se não bastasse a dor incontida da perda, da lembrança que sempre trazia aquela imagem querida à memória. E o retrato pendurado na parede foi à forma que Juca encontrou para amenizar sua angústia e dor. Quando olhava para o retrato se rejuvenesceria e, ao deparar com o sorriso contagiante, o semblante encorajador, os olhos estupidamente azuis, os cabelos loiros soltos ao vento e o jeito simples de mulher amável e amante, reverenciava-se, quedava-se inerte, enquanto os pensamentos inúteis e nefastos eram dissipados com o uivo enganador do vento.  Entretanto, foi essa a maneira que encontrou para mantê-la viva em seu coração e também vivo o seu amor por ela.  Um acidente fatal tirou-lhe a vida e ao Juca, já com o corpo curvado, rosto carcomido pelas intempéries do tempo e amparado por uma bengala, restou, como última lembrança, manter fixado na parede o retrato dela emoldurado de amor e saudade. 

Naquele dia o rio não estava para peixe...

segunda-feira, 23 de julho de 2012


Sob um céu azul peguei a canoa e liguei o motor instalado na popa. Saí devagar rasgando com suavidade as águas daquele caudaloso rio em direção ao lado oposto. Daquele lado existiam belas praias, pois em razão da estiagem grande parte das margens ficava a descoberto, deixando uma imensidão de areias estupidamente brancas onde o povo se aglomerava. Encostei a canoa no embarcadouro e segui rumo à cabana coberta de folhas secas de coqueiros. Na areia, ao lado da palhoça, logo percebi a presença de Camila que me esperava ansiosamente e para mim, era um alívio vê-la ali, sóbria, nos eixos. Sua postura parecia ter-se desligado de sua adolescência e das paixões desenfreadas. Por instantes, fiquei observando a sua linda silhueta. Estava usando um biquine, sutiã azul e sobre os ombros, caíam seus cabelos dourados, enquanto os olhos eram protegidos por um óculo escuro. Pensei comigo mesmo: Este rio hoje parece estar para “peixe”. E que peixe!

Nunca tinha ido àquele rio. A sua fama atravessava fronteiras e isso me deixava ansioso para conhecê-lo. À esquerda da cabana via-se uma esplendorosa mata e ao longo da praia, uma imensidão de barracas fincadas na areia e à direita, um emaranhado de galhos que avançava vertiginosamente para dentro do rio. Era tudo efeito da seca que já castigava a região. Naquele momento nostálgico o sol da manhã já invadia aquele rincão, iluminando o rio e a praia, enquanto crianças, jovens e adultos saíam das barracas respirando um ar puro e recebiam a brisa aromática que vinha das matas que circundavam aquela região.

Foi um final de semana inesquecível, principalmente porque estava junto de Camila. Durante o dia banhávamos e algumas vezes pegávamos a canoa para tentar pescar. Iscas, enviamos muitas aos peixes, mas nada. O anzol sempre voltava vazio e nenhum peixinho sequer. Talvez os barulhos das lanchas e Jet Esks os espantavam. Desistimos. O rio naquele dia parecia não estar para peixe. À noite, ouvíamos músicas, ora dançávamos sobre a areia, sob a luz do luar; ora olhávamos o céu azul e displicentemente contávamos as estrelas, e só parávamos quando a lua era perturbada por nuvens negras que sombreava o local, fazendo-nos perder o controle e de certo modo, nos escondia durante aqueles momentos de prazer.

Dias depois, voltamos ao outro lado do rio. Despedimo-nos. Cada um seguiu o seu caminho.

Retornei à Capital. Revoltado em face de minha timidez, por não ter convencido Camila a me acompanhar, restou-me vê-la desaparecer no final da rua, e meneando as mãos, comecei fazer a contagem regressiva dos dias. A ansiedade de reencontrá-la naquele lugar aprazível deixava-me desconcertado, parecia que o meu coração ia estourar de emoção e saudade. Eu ainda era apenas um adolescente e nunca tinha sentido isso. Parecia um colegial ao rever os colegas no reinício das aulas.

Meses se passaram. Findo novamente o período chuvoso voltei ao Rio Araguaia. A lua clareava a areia. Um som vindo de uma barraca trazia mensagens de amor, enquanto meus pensamentos iam a voltavam na velocidade do vento e se deleitavam sobre a praia, onde a encontrei pela primeira vez e trocamos juras de amor eterno. O tempo passou e nada. O céu escureceu. Caíram pingos de chuva inesperados para aquele período e eles se esvaíram sobre a areia ainda quente. Um alerta. Era hora de retornar à minha barraca. Como aqueles parcos pingos de chuva os meus pensamentos também se esvaíram de minha mente e decidido, resolvi despachá-los no barco da saudade com o fito de manter visível sua imagem e quiçá, poder revê-la novamente naquele rio, mas, doravante, sem timidez, e tendo a certeza de que nesse dia o rio estará para peixe.

Aconteceu numa manhã de outono...

terça-feira, 17 de julho de 2012


Nem bem o sol surgia no horizonte, arriava o meu cavalo baio e aproveitando o seu trotão cadenciado, encurtava caminhos para chegar à pequenina cidade de Pomares. Se eu usasse a estrada principal teria que percorrer uns vinte quilômetros a mais para chegar à escola municipal Santa Izabel. Sempre usava um desvio formado por uma trilha construída por patas de animais e pés humanos, cheia de declives e pedras que prejudicavam o trotão do meu cavalo Arizona. Mais adiante, após passar rente a uma pequena serra, sentia o meu cavalo ofegante e como de costume, virava às rédeas forçando-o seguir rumo a um pequeno córrego a poucos metros da trilha para saciar a sede. Desci do animal, apoiando num galho de pequi, pois eu tinha uma estatura bastante pequena se comparada com o corpanzil daquele robusto cavalo, descendente de um puro-sangue inglês, presente dado pelo meu saudoso pai.

Sentado à sombra de uma árvore milenar, ficava olhando a água límpida daquele córrego que descia sobre o leito cheio de pequenas pedras de cores variadas, que pareciam ter sido esculpidas pela natureza, Dava vontade de me transformar em um peixe ou numa pequena folha seca, cair sobre o rio e sair boiando sobre aquele caminho aquático que parecia sem rumo, mas, infelizmente, tinha que prosseguir viagem. A escola me esperava. Todas as vezes que descansava naquele local procurava escrever sobre um imaginário quadro negro o meu futuro. A cada frase escrita, quando indecisa e sem nexo, o vento com seu sopro afoito se encarregavam de apagar uma a uma sem pedir licença. Enquanto a água descia mansa e os pássaros faziam algazarra nos galhos, sonhava acordado e nem sentia os raios de sol daquela manhã de outono passar entre as folhagens. Sonhava ser um veterinário para ajudar meu pai na labuta diária da fazenda, mas sentia que não tinha dom; pensava ser engenheiro e quantas contas e cálculos matemáticos vinham à minha cabeça. Não gostava de matemática; talvez médico, essa profissão, não! Não apreciava a matança de gado e nem gostava de ver sangue. E professor?  Também não! Além de não ter o dom natural, iria ganhar um salário irrisório. O governo remunera mal. Por fim, sempre vinha um último pensamento: ser advogado e este foi se firmando cada vez mais em meu subconsciente toda vez que parava à beira daquele riacho.

Meses se passaram. Já não perdia muito tempo à beira daquele córrego. Tinha pressa para passar perto da Fazenda Madrigal e ver a bela e traquina Danielle, ora sentada no mourão da porteira, ora equilibrando em cercas, mas sempre recebendo dela um caloroso aceno e um sorriso contagiante quando por lá passava. O Arizona parecia me entender, pois nem bem passava as pernas por cima do arreio ele já saía à galope. Era compreensível, afinal, ele também já estava se acostumando com a figura angelical dela e com o seu assovio que ecoava sobre o vale e nossos ouvidos o recebia como se o som estivesse vindo de uma orquestra entoada sob a batuta Friedrich Chopin. Mas, naquele dia, o mourão da porteira estava vazio. Preocupado, parei o cavalo sob a encosta da serra e levantei os olhos rumo à sede da fazenda. Tentei visualizar todos os recantos que circundavam aquele casarão e nada. Fiquei esperando. Horas se passaram. A espera foi inútil.  No dia seguinte fui surpreendido por uma notícia funesta. Fiquei sabendo que ela tinha falecido em razão de uma doença gravíssima e incurável: a leucemia.

Atônito com a notícia e de não ter comparecido ao funeral, restou-me a lembrança dos momentos quando eu e ela, às escondidas, curtíamos o pôr do sol no topo do Morro Agudo. Quantas vezes abandonei a sala de aula só para encontrá-la perto do Lago das Brisas. Quantas vezes, em nossa inocência, rolávamos felizes sobre o capim verde, embebidos de amor e carícias audazes. Quantas vezes eu acariciei o seu rosto bronzeado beijado diariamente pelos raios de sol. Quantas vezes a vi delirar com os cânticos entoados dos pássaros. Como explicar cada gesto dela que era raro, assim como o seu sorriso, que era místico? Eles traziam à minha mente a imagem de uma menina-moça, dotada de um sorriso angelical, que conheci numa manhã ensolarada de outono, sentada sobre o mourão de uma porteira e que noutra manhã não pode me esperar, deixando este mundo para outra dimensão, levando consigo o nosso amor, os acenos e assovios.

Passei a mão no rosto, imberbe e olhei para o horizonte no afã de retratar o seu rosto no imaginário quadro negro que novamente criei, desta vez, para poder encostar os meus lábios sobre ele. E o fiz. Depois, entrelaçado por estas lembranças e com o coração dilacerado, deleitei-me à sombra de uma árvore milenar do Morro Agudo, adormeci.

 
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