Amigo leitor (a)

Amigo leitor (a). Quando lemos um livro, ou qualquer texto, publicados ou não, que são sinônimos do prazer, por mais simples que forem, sejam reais ou surreais, nos permite exercitar a nossa memória, ampliar nossos conhecimentos e nos faz sentir as mais diversas emoções, por isso, sensibilizado, agradeço a sua visita ao meu Blog, na esperança de que tenha gostado pelos menos de um ou que alguns tenha tocado o seu coração. Noutros, espero que tenha sido um personagem principal e encontrado alguma história que se identificasse com a sua. PARA ABRIR QUALQUER CRÔNICA OU ARTIGO ABAIXO É SÓ CLICAR SOBRE O TÍTULO OU NA PALAVRA "MAIS INFORMAÇÕES. Abraço,Vanderlan

Se eu viajasse amanhã.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Se eu viajasse amanhã levaria na mala do meu coração a bolinhas de gude azul que numa tacada só, usando o dedão da mão direita, colocava-as uma a uma nas cinco covinhas feitas no chão batido; levaria as fincas pontiagudas que fincavam o chão rente às linhas imaginárias do terreno úmido do quintal; lavaria a minha bola de meia que recheava de palha de arroz; levaria minha tabuinha de pirulitos; levaria comigo a minha caixa engraxar que juntos, fizemos muitos sapatos brilharem; levaria comigo o som da fanfarra, dos trombones, dos toques das cornetas que alegravam os desfiles militares e estudantis ocorridos no Dia da Independência; levaria comigo o som gostoso da velha locomotiva, os sorrisos dos passageiros, os acenos de adeus e o apito sonoro do trem ao fazer a última curva da estrada despedindo-se das pessoas ribeirinhas; lavaria do jardim de minha existência as gotas de orvalho, o néctar das flores, as lindas manhãs primaveris, e longe dos holofotes, dos olhares humanos e burburinhos, levaria o silêncio do monjolo, o cântico dos pássaros, o cocoricó rouco do galo Barnabé anunciado um novo dia e a suavidade da água límpida que descia mansa sobre o rego d’água.

Se eu viajasse amanhã levaria na mala do meu coração o amor, a dedicação e virtuosidade de minha mulher; a disciplina e carinho de minha filha e filhos; a paz e amor de meu genro e noras, a pureza de minhas netas e netos, o sorriso angelical de minha saudosa mãe, o carinho desmedido de meus irmãos, irmãs, primos, primas, sobrinhos, sobrinhas, cunhados, cunhadas, sogro e sogra e as amabilidades dos meus vizinhos, da zeladora e porteiros do edifício onde moro.

Se eu viajasse amanhã levaria de minhas amigas e amigos editores, escritores, romancistas, poetas e articulistas os seus neurônios porque sei que de lá saem seus escritos, prosas e versos, dotados de ritmos e rimas que se extravasam em cada prolongamento das células e as quais me fazem cair em deleite e levam-me ao êxtase mesmo em noites mal dormidas. Levaria comigo a cantoria e o toque de viola do doutor Juarez, dos violeiros, sanfoneiros e percursionistas da Folia de Reis do Malhador. Sei que são muitos os amigos intelectuais e artistas, os quais, não caberiam aqui nesta pequena folha de papel, por isso me abstenho de relacioná-los. Se fosse possível, até rasgaria esta folha, relacionaria os nomes prazerosamente e jogaria o rascunho fora. Viraria a página, e do início ao fim, riscaria, rabiscaria e escreveria tudo novamente porque sei que estaria levando na mala de meu coração, além dos seus escritos, porções e mais porções de histórias inacabadas.

Se eu viajasse amanhã levaria a amizade sincera dos amigos e amigas da Casa Legislativa, do Ministério Público, das lides forenses, do Paço Municipal, das ONGs ambientais e Entidades Culturais, e da SEMARH, cujos colegas de trabalho sofreram comigo; levaria o carinho dos Brenos, do Antônio, da Taís, da Isa, do Jorge, da Giovana, do Joaquim, da Lia, da Alessandra, do Joaci, do Roberto, do Augusto, da Sandra, do Índio e seu arco e flecha imaginário, do Lívio, do Gerson, da Luiza, da Junia, da Marcela, do Chico, do Leonardo, dos Josés, das Tânias, das Jacks e de tantos outros e outras que guardo a sete chaves no solo fértil da minha existência e que se fosse possível relacionar um a um ou uma a uma, não caberia também nesta folha de papel.

Se eu viajasse amanhã levaria o carisma, o amor, a fé e a perseverança do Padre Luiz; levaria dos amigos e amigas dele, o companheirismo, a amizade e a fé inconteste em Deus, de cujo rol eu tenho a alegria e satisfação de fazer parte; levaria as mensagens das amigas e amigos blogueiros e internautas que muitas vezes viajam no mundo da imaginação na tentativa de levar esperanças àqueles que têm dificuldades para subir os degraus da vida; levaria àqueles que trazem no peito o choro sufocado e as injustiças que não conseguiram se safar; levaria, seja qual for o degrau ou estrada da vida a ser percorrida, seja qual a for dor a ser curada, seja enfrentando nebulosas ventanias, chuvas torrenciais, o sol quente queimando o rosto, noites e dias frios, pedras pontiagudas e espinhos, porque a mala do meu coração vai ser entregue numa dimensão onde todos poderão ser felizes e realizar seus sonhos.

Se eu viajasse amanhã levaria na mala de meu coração o intelecto, os dotes de espírito e inteligência do Batista Custódio, a meiguice e simpatia de Meyrithânia Michele, o intemerato e o jeitão revolucionário do Ulisses Aesse, a inteligência e a capacidade de Hélmiton Prateado, a simpatia e educação do Arthur, a competência e educação de Julio Nasser, do Taquinho e de toda equipe do DM, e todas essas benevolências humanas retiraria de minha mala, colocaria numa bandeja de ouro e entregaria ao querido e saudoso Fabio Nasser, não me importando em qual dimensão ele esteja, assim como, nessa mesma bandeja, com todo o meu apreço, juntaria o carinho e a singeleza da amiga Sabrina Richely, ex-integrante do Diário da Manhã.

Se eu viajasse amanhã levaria do Hospital Santa Helena as mãos firmes e abençoadas do Dr. Flávio, a competência e conhecimento medicinal do Dr. José Gilson e toda sua equipe; levaria o carinho e a prestimosa atenção das enfermeiras e auxiliares: Mayara, Nayane, Clarise, Lourdes, Silvânia, Lucely, Walkíria, Elaine, Antônia, Maria José e tantas outras dedicadas atendentes, conhecidas como as meninas de jalecos azuis; levaria tudo de bom que existe neste mundo porque a mala de meu coração é grande, todavia, naquele dia 8 e 9 de agosto de 2012, antes de o sol beijar o vão da janela e a lua se esconder no horizonte, fui surpreendido por uma chuva de preces e orações que inundaram a UTI do hospital e foi aí que entendi que não era minha hora partir. E assim, amigos e amigas, me desculpem por ter guardado esta crônica na mala do meu coração e reprisá-la novamente, para, nesse ínterim, alertá-los de que vocês vão ter que continuar me aturando por mais tempo, porque a minha vida pertence a Deus e depois daquele dia fatídico entendi que só ELE sabe o momento de enviar a “passagem” a cada um de nós. 



Fortunato e a pinguela.

terça-feira, 19 de maio de 2015


Fortunato era um pequeno agricultor, filho único, solteirão, trabalhador incansável, de boa estatura, olhos azuis, cabelos castanhos emaranhados até os ombros e morava com os pais à beira do Rio Corrente num longínquo rincão do mato grosso goiano. Certo dia, cansado das desventuras, começou meditar sobre como atravessar o rio, já que a única ponte de madeira ficava a cinco quilômetros de sua casa, então, sentou-se à beira de um barranco e começou a pensar... A solução era construir uma pinguela para encurtar o caminho. Do lado de lá, depois de atravessar a densa mata, chegaria mais rápido a igrejinha que em razão da distância participava pouco, e a construção dessa travessia era a solução, pois sabia que encontraria lá a linda jovem, professora, que faziam seus olhos brilharem e o coração bater mais forte. Ela possuía uma silhueta muito elegante, pernas torneadas, cabelos loiros, compridos, e quando a via andar pela estrada de chão sacudindo os cabelos ao vento, esta cena o deixava encantado. E não era miragem. Avexado, nem se atrevia a acenar com as mãos quando deixava a igrejinha, ou mesmo quando passava perto da escola onde ela ministrava aula às crianças do pequeno povoado. Aqueles momentos inusitados mais pareciam um sonho e a construção da pinguela era a única forma de se aproximar mais amiúde dela, de alcançar um sonho, ou talvez, acordar para a vida.

Sabendo que a travessia era insegura e a sensação de não conseguir alcançar a outra margem poderia ser sentida a cada passo, mesmo assim não titubeou, cortou uma enorme árvore que ficava às margens do rio e a ponta cheia de galhos caiu do outro lado. Foi até lá, equilibrando-se no tronco tal qual a um macaco, conseguiu aparar os galhos, tirar as lascas como faz um escultor e ainda amarrar nela umas varas de bambu para ajudar no equilíbrio. Pronto! Estava construída a formosa pinguela. Ficou observando a sua arte, chegou bem perto do barranco, olhou para baixo e sentiu-se como se estivesse num prédio de dois andares e depois, lembrou-se que além do medo de altura sofria de labirintite e ao podar os galhos sentiu isso. Entretanto, para quem sentia medo e não tendo alternativa, se viu obrigado a enfrentar a sensação da travessia, até porque precisava se encontrar com aquela mulher.

Passados alguns anos visitei Fortunato e numa tarde quente de verão, enquanto o sol se escondia no horizonte, fiquei observando atentamente aquela pinguela e aí me veio à mente que a nossa vida está repleta de momentos semelhantes. Muitas vezes somos forçados a atravessar situações difíceis, sem  nenhuma    segurança e equilíbrio. Muitas vezes pensamos até em retroceder ou sentar a margem daquilo que achamos impossível construir. O impossível no mundo de hoje é sobreviver ou viver em linha reta, avançar e superar obstáculos. A menos que a opção seja por não amadurecer e não crescer, mas sabendo que ultrapassar obstáculos faz parte do itinerário de qualquer ser humano. Chegará o dia em que será necessário que levantemos nossos próprios voos e experimentemos novos ares, pois somente consegue sucesso quem  avança independentemente da situação em que se encontram como foi o caso de Fortunato Simão Filho que enfrentou o seu medo e pode alcançar na outra margem o seu grande amor.

Vivemos num mundo de altos e baixos, mesmo para aqueles que se dizem seguros quando chegam ao ponto final.  Na estrada da vida muitas vezes somos quase que obrigados a passar por algumas “pinguelas” que balançam nossa estrutura interior. Damos alguns passos, chegamos a vacilar e muitas vezes nem damos  conta de que não há consistência quanto à direção a ser seguida, não obstante sabermos da necessidade de ir adiante mesmo não tendo toda a certeza e segurança necessárias para alcançar o que almejamos. Quando conseguimos passar pela pinguela da vida e pisar em solo firme é sinal que vencemos os obstáculos, superamos nossas limitações e sentimos mais leves e fortalecidos. A nossa vida é cheia de “pinguelas” e não adianta a gente querer se desviar delas, pois elas surgirão ao seu tempo e quando surgirem, nada de receio e ansiedade, pois, depois do esforço empreendido, vem à alegria de termos conseguido alcançar do lado de lá pessoas que ansiávamos encontrar e hoje a felicidade de tê-las com a gente do lado de cá, como aconteceu com Fortunato.


III ECHTEC: Um encontro de intelectuais em Goiânia para integração da América Latina e Caribe.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Ainda bem que fiz parte do grupo de curadores do III ECHTEC realizado no CRECI. Ainda bem, porque tive a oportunidade de conhecer pessoas importantes, artistas e escritores renomados e intelectuais que vieram de várias partes do Brasil e da América Latina. Ainda bem... Eu estava com um artigo já engatilhado para ser enviado ao Diário da Manhã, cujo conteúdo era falar da política atual, mas resolvi guardá-lo para a próxima edição, deixar de lado a imundice da corrupção, que, infelizmente, é a tônica das conversas em nosso país, e voltar para algo mais importante e construtivo para Goiás: escrever sobre o Encontro de Ciências Humanas e Tecnológicas para a Integração da América Latina, trazido para Goiânia com muito esforço pelo professor Jean Jardim, idealizador, cujo evento foi realizado no aconchegante auditório e hall do Conselho Regional de Corretores de imóveis – CRECI.

Esse encontro teve o objetivo de colocar Goiânia e o Estado de Goiás no cenário dos grandes pensadores, assim como, incentivarem os participantes a atravessar fronteiras e divulgar cultura local em outros rincões brasileiros e quiçá, em todo mundo, para, num futuro próximo, como primeiro passo, gerar uma eficaz e profícua integração intelectual latino-americana. O trabalho apresentado pelos expositores presentes ao Encontro, como o conceituado prof. Levy Emanuel Magno, promotor de justiça de São Paulo; professora Dra. Mercedes Alejandrina Alarcon, da Universidade Cesar Vallejo – Chiclayo, Peru; que tiveram como tema principal falar sobre: Redes Acadêmicas Latino-Americanas – Pontos de Interação, e as pessoas que participaram, seja através de palestras ou simpósios realizados na Faculdade Padrão, onde estiveram renomados debatedores como os professores Carlos Túlio da Silva Medeiros; Eduardo Devés do Chile; Dr. Carlos Roberto da Silveira, da Faculdade Católica de Porto Alegre; Francisco Giraldo, da Colômbia e tantos outros, que, de alguma forma, tornaram-se agentes construtores no processo de integração entre o conhecimento e a sociedade de um modo geral. Um dito muito comum dá conta que o brasileiro não gosta de ler. Tenho cá minhas dúvidas a respeito da veracidade de tal informação. Afinal, generalizar é algo perigoso e prefiro crer que o preço dos livros algumas vezes extrapola os limites financeiros do leitor e a forma de sua divulgação também ainda é precária e ineficaz. Mas o que dizer do escrever? Uma rápida passagem por instituições de nível superior basta para verificarmos que são muitos os alunos (mesmo daqueles cursos nos quais a boa redação é essencial) que deixam clara sua incapacidade para colocar no papel cinco linhas com coerência e correção, não é verdade?

É evidente que existe um abismo temporal que pode estar se refletindo na interpretação de cada um deles. Será que é a falta de leitura ou preguiça mesmo? De outra parte, a incapacidade de colocar no papel um texto bem escrito pode momentaneamente estar retratando o inconformismo desses alunos frente ao mundo caótico e sem perspectiva em que vivemos. Às vezes, ao ler uma pequena mensagem de alguém na internet observo que nem sempre são metricamente perfeitas, mas que trazem a marca de alguém que já encara o mundo com olhos de quem viveu o bastante para poder criticar, com certo humor e fina ironia, os tempos e os costumes, as voltas e reviravoltas que a vida dá, e isso é bom.

Eu sei que, pelo menos neste momento, é fundamental que todo meio acadêmico, de cultura e conhecimentos participe de todos esses Encontros, pois quem os traz para Goiás vêm com a tentativa de deixar Goiás com referência em pensar a América Latina e Caribe, assim como desejar o melhor desempenho da área de artes plásticas, da escultura, tecnológica, educacional e literária. Destarte, a sociedade da qual fazem partes esses intelectuais necessita de um evento como o que foi realizado nos dia 7, 8 e 9 de maio findo que os permitiram dialogar em todas as áreas do conhecimento, mormente com o tema que foi apresentado com muito sucesso pela conferencista cubana prof. Dra. Maria Tereza Ferrer Madrazo, bastante elogiada pelo público presente, assim como, os trabalhos expostos pelos artistas plásticos e pela Intellectus – através da Feira do Livro.

Muitos escritores goianos deixaram de participar, mas o importante é que os que compareceram se sentiram beneficiados com tantas informações trazidas por intelectuais de outros países, seja mostrando uma nova face da cultura em geral, da escrita que, por vezes, parecia quase incomum. E, permitam-me a aparente falta de modéstia, posso falar de cátedra. Há muito tempo dedico-me não apenas ao escrever, mas também, a despertar, nos meus leitores, a consciência da importância e da necessidade ter além do gosto pela leitura, redigir bem. E não tem sido uma tarefa fácil. Os exemplos são muitos e o espaço que uso é pequeno para o que eu gostaria de escrever. E não me interessam as opiniões dos críticos que podem apontar, do alto de seu conhecimento baseado nas técnicas e métricas do texto poético, as eventuais falhas nos meus artigos ou crônicas. Interessa-me saber que ainda há aqueles que, independentemente da idade, ainda se dedicam à difícil arte de transformar sentimentos em palavras e registrá-los no papel como procuro fazer, e no III Encontro, vi muitos intelectuais fazerem. Valor ou resultado não se sabe ainda. O tempo dirá, e se nada disser, não faz mal. Quem participou do evento fez sua parte, mérito, pois, para ele.



Bate papo com um mosquito.

terça-feira, 5 de maio de 2015


No mundo da imaginação ou do universo fantástico das fábulas todo absurdo é possível e permitido. O homem desfigura-se para compor o enredo, onde o bicho é coadjuvante. Homens se transformam em bichos, bichos se transformam em pessoas humanas, peixes voam, pássaros nadam, cachorro relincha, cavalo faz cocoricó, o pintinho pinta, pedras falam, bichos e homens conversam... E através da imaginação, podemos ir além dos nossos limites no tempo e no espaço, conhecendo assim um mundo inacreditavelmente real.

Através da sensibilidade da escrita, o escritor tem acesso à linguagem primordial, não somente do homem, mas também dos animais e das árvores. Quando homem solta os pensamentos eles voam sem rumo, carregando uma imaginação surreal, às vezes distorcida, talvez por pertencer a uma sociedade hipócrita, e já não se sabe, onde e quando termina ou começa a vida real, se é que existe. Distorcida ou não, a arte literária é uma manifestação de criatividade, de sensibilidade, de discernimento, de solidariedade, de simplicidade, mas não é, de maneira alguma, manifestação de conhecimento e nisso eu acredito e passo a régua.

Se colocarmos em discussão cientificamente a situação em comento, podemos afirmar que a pedra não é um ser vivo e pronto! A água desliza sobre o leito, mas não é um ser vivo e ponto final! O cachorro é um animal irracional, ponto e sem mais delongas. O homem é um animal racional e ponto final! Mas a questão é que estamos falando do mundo imaginário, surreal. Veja o título desta crônica: “Bate papo com um mosquito” E não é um mosquito qualquer. É com o chefe mor dos mosquitos, o Osama Aedes Aegypti Bin Laden e mostrar que podemos conversar com eles, com os insetos, com as plantas, com as pedras, com as águas, com os ventos... Então pergunto: Por que tantas pessoas se afastam da natureza? Por tantos tentam destruí-la para poder dominá-la? Não somos seres da natureza tanto quanto uma palmeira onde cantam canários e sabiás? Por que o povo não se une nos bairros para combater esse mosquito transmissor da dengue? Somos ou não somos maiores pelo fato de sermos seres que pensam.

Talvez, se não fosse à pergunta feita por aquele menino pobre estirado sobre um banco à entrada de um CAIS, bastante febril e com suspeita de dengue, eu nunca teria pensado em conversar com aquele famoso mosquito, acomodado há bastante tempo num pneu de trator, bem folgado, logo ali, num lote baldio. Mas o fato é que, de alguma maneira, esse famigerado inseto de pernas longas e magras já pensava em dialogar comigo. Eu ou qualquer pessoa jamais podíamos imaginar que ele estava ali junto com suas amadas se reproduzindo dentro daquele pneu.

Pois bem, todos sabem que o macho não transmite a famigerada dengue, mas dá suas picadinhas, respira como qualquer animal; ele morre e nasce e é um vivo ser que voa com o vento e brinca de esconde-esconde tendo ou não sol, tendo ou não chuva; reproduz em proporções gigantescas, ou seja, é um inseto de amor eterno, terno até demais com as fêmeas. Estas sim precisam de nosso sangue e transmitem a doença. Mas quem vai falar isso não sou eu, é o próprio Aedes. Eu sou apenas um homem que se preocupou com a situação daquele menino, que olhou e pensou, mas o que pensou o mosquito enquanto eu pensava sobre ele? O que estaria pensando enquanto eu descansava à sombra de uma árvore logo ao lado daquele lote baldio? O que estaria dizendo enquanto eu descrevia sobre sua magreza e impotência de transmissor? Por que deixa para a fêmea o trabalho de picar as pessoas que, infelizmente, não se preocupam em se desfazer do lixo que acumula no lote ao lado ou dentro de seu próprio habitat.

Estava observando demais a vida pregressa dele e quase me esqueci do bate-papo. Aproximei-me devagarzinho, e olho no olho, fiz a primeira pergunta:

- Há quanto tempo reside neste pneu?
- Tem vários anos, nunca fomos perturbados por qualquer ser humano. De vez em quando passa um carro soltando uma “fumacinha” fedida, mas de tão fraca não alcança nosso habitat.
- Por que o governo não consegue exterminá-los?
- Acho que ele não tem um projeto preventivo para eliminar os criadouros e combater nossas fêmeas transmissoras. A saúde pública brasileira está um caos e o povo não colaboram com a limpeza dos lotes baldios, dos vasos, pneus, garrafas, copos, tampinhas de garrafas, calhas, caixas d’água, piscinas, então, de nada valerá o trabalho da vigilância sanitária. Procriamos até em tampinhas e todos sabem disso! A incompetência do governo e a falta de colaboração do povo, jamais vão conseguir quebrar o ciclo de vidas dos mosquitos e eliminar ovos e larvas. O governo está até criando em laboratório mosquitos geneticamente modificado, mas tudo é forma de abrir canal para mais corrupção no Brasil. Finalizou dando um sorriso sarcástico bicudo.
- Quem é aquela fêmea toda desengonçada sobrevoando perto daqueles meninos? - Perguntei-lhe.
- É a Dina Russefe. Ela ruim e mente demais! É uma verdadeira sanguessuga. No criadouro dela têm os mosquitos Zenoinos de Castro, “os três em um” e o controlador, apelidado de Vaccari que tentou “picar” alguém importante e se deu mal. Dizem por aí que ele “meteu a mão” na rica mosquitinha Pietrabras, muita querida e respeitada por todos e se enrascou de vez, ficando sem o pré-sal que “salgava” as mãos do pessoal daquele criadouro, que, por sinal, é cheio de melecas e larvas... Aedes deu mais um sorriso, agora cheio de deboche, e antes de concluir, me perguntou: - Você realmente acha que está conversando comigo, um simples mosquito?

A pergunta me deixou encabulado, mas logo pensei: se sou escritor e viajo no mundo imaginação, então pode tudo. Como subterfúgio para que ele não mandasse sua amada se aproximar de mim com aqueles ferrões, respondi-lhe que sim e que podia ficar tranquilo que não ia denunciá-lo para as autoridades sanitárias e nem indicar o local de seu criadouro. Deixei o local pensativo e o fato acontecido, para os leigos, creio que só restarão descobrirem nesta crônica onde estão as metáforas, mas para mim, a imaginação de minha conversa com o mosquito era uma coisa real que ia além da imaginação. Tropos para uma fábula ou um acalanto, desses que invento para orientar, levar minhas congratulações e elogios a todos àqueles que se cuidam, fazem a sua parte no combate a dengue, cuidando de seu lote, de sua saúde e de seus vizinhos.
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A dor, o sonho e o repentista

terça-feira, 28 de abril de 2015


Em certos momentos não é fácil constatar se a dor é apenas de um fato fisiológico ou oriundo de nossa própria existência. No caso em tela, falo de pessoas que pensam, falam e sentem. Optei por falar do corpo humano, pois ele sofre quando se vê diante da dor que não pode ser considerada apenas a medida de uma lesão (infarto) ou de uma afecção (angina), mas o encontro íntimo entre uma situação potencialmente penosa, e uma pessoa humana imersa com sua própria situação dolorosa. Com efeito, inserimos na dor, crônica ou não, toda a nossa personalidade, todo o nosso sentimento e junto com ela, um antídoto que nos dá força e vontade de viver. A dor crônica é uma experiência aflitiva, intensa, persistente, invade nosso corpo sem pedir licença e se aninha nos órgãos vitais, nos ossos, nos músculos, tonando-os dolorosos e o medo da dor ampliam os efeitos colaterais como: fraqueza, imobilidade de articular e encurtamento de músculos e tendões. E como dói a danada da gota! Esse conjunto de dificuldades afeta a estabilidade emocional dos indivíduos, interfere em sua vida familiar e social e compromete suas atividades profissionais. Entre as crônicas existe a dor do parto onde um ser ou seres inocentes se despedem do útero que o protegia para receber o sopro da vida, mas também, existem as prazerosas como: a dor da saudade, do amor, do carinho.... Entretanto, não importa em que parte do corpo incomoda e permanece, tornando-se um mistério, se ela, prazerosa ou não, nos despedaça e abala todas as nossas referências afetivas, não obstante tentarmos viver em paz, em harmonia e fugir dos estresses e depressões diárias, para, no momento certo, sabermos de onde ela vem, se ela é verdadeira, psíquica, espiritual, que muitas vezes nos leva a perda de nossa auto-estima, da autocrítica e nos traz a tristeza, a melancolia, distúrbio do sono e a sensação de que a vida perdeu a graça.
  
Mas hoje eu e você vamos esquecer-nos da dor seja ela qual for e falar de sonhos, porque sem eles não somos nada, nunca seremos nada. Só posso dizer, quanto a mim, que tenho todos os sonhos do mundo. Pois bem. Numa certa manhã, durante um tour que fiz pelo nordeste, parei numa barraca montada à beira de uma linda praia, e descalço, sai caminhando a esmo deixando rastros indecisos sobre ela. O vento, sem pedir licença, trazido pelo mar revolto, serpenteava meu rosto sem pedir licença, alvoroçava meus cabelos, talvez, no intuito de querer fazer-me lembrar de coisas guardadas na região recôndita de meu cérebro e quiçá, também, das dores lá impregnadas. As ondas que vinham do oceano se esparramavam sobre a areia branca despoluída e não mais retornavam ao seu habitat e quando algumas insistiam, outras as empurravam de volta, num vai e vem de confrontos de forças que só a natureza é capaz de decifrar. Meus sonhos iam e voltavam com as ondas, mas alguns se esvaiam ao colidir com meu corpo já carcomido pelas intempéries do tempo, mas imunizado por uma força Divina sei seguiam outros rumos, certo de que, num dia qualquer retornaria a mim, talvez, com a com intenção de proteger-me do mundo profano.

Encarei várias ondas no afã de restabelecer os sonhos que se perdiam na areia ou eram levados pelo vento, e no calor de cada desabafo, restou-me retornar à barraca para continuar ouvindo vozes, o som  melancólico do mar e ainda, pouco depois, a voz rouca de um repentista.

A manhã quente avançava sobre os coqueiros que circundavam a barraca enquanto a viola do cantador soava desafios improvisados. Voltei os meus olhos para o lado cujos caminhos estavam embaçados pelo mormaço embevecido com a destreza daquele repentista que, na ligeireza de seus dedos calejados,  articulava rimas e construía cadências, enquanto outros visitantes ouviam forró vindo de uma caixa de som. Era uma disputa infernal, mas o poeta de cordel, mais conhecido como Carlito Alagoano, precisava ganhar o seu quinhão. Ao ver a sua insistência, lembrei-me de minha adolescência e das modas de viola e da grande admiração pela espontânea inteligência dos cantores sertanejos que montados em cavalos baios ou viajando em velhos ônibus, percorriam cidades do interior de Goiás para fazer suas apresentações, promovendo nos palcos da vida uma verdadeira batalha pela sobrevivência e, dessa forma, receberem como retorno, a fama e tornar-se e um lídimo representante da música sertaneja de sua região. O toque da viola do repentista e a lembrança de minhas raízes me fizeram voltar ao passado.

Quanto a aquele repentista procurei distinguir se naquele no momento não era um problema, pois, sem mais delongas, ponteava a viola e ia soltando versos no afã de persuadir-me, assim como aos burocratas freqüentadores daquelas barracas, todavia, sabíamos qual era a sua intenção. No final e muitas vezes no meio da entoação recitava versos rimando com o pedido: colabore com este cantador com R$ 20. Caí como a um bobo da corte naquele rincão nordestino. Esqueci de levantar o dedo indicativo e em riste balançá-lo negativamente. Perguntei a mim mesmo: Como não cair numa armadilha quando se recebe uma cantoria que está sendo destinada ao coração da gente? Ele queria ver a nossa reação, e olho no olho, colocar-nos diante de um espelho imaginário para mostrar o radiar de uma felicidade duradoura. Esta tática que o cantador repentista usou para receber um sorriso nosso, a compreensão e paciência, era, para, no final, me pedir para contribuir com uma “grana” a qual, para evitar alguma dúvida, já antecipava no teor de seus versos.  Meus dedos não sinalizaram o “não” para negar o início daquela apresentação e olha que o repentista rimou elogiando a minha postura, o meu peito peludo, os meus olhos castanhos, o meu jeito galã, comparando-me até com o ator global Antônio Fagundes. Abestalhado e não querendo ser grosseiro com aquele repentista que entoava versos espontâneos, acabei por desembolsar R$20. Recebeu a grana com um largo sorriso, foi embora caminhando lentamente entre as barracas à procura de outros incautos. Num repente ou piscar de olhos, não mais o vi, nem sua voz ou som de sua viola ecoar naquele recanto nostálgico. 

Por fim, a tarde caiu, ela veio sem nenhum aviso e estava tão bom que nem a vimos chegar, tal como o sol que já descia soberbo no horizonte beijando com seus raios multicoloridos as águas oceânicas. Foi um pôr de sol inesquecível! Extasiados, deixamos a praia ainda apinhada de gente e de pequenos pássaros que bicavam minúsculos alimentos trazidos pelas ondas, todavia, a emoção ao ver minha filha e genro felizes pela concretização de um sonho me bastava, me fazia esquecer tudo, dos momentos difíceis que passei e por fim, poder reviver somente sentimentos positivos que alimentam a vida e motivam sensações prazerosas.

À espera de um novo amanhã.

terça-feira, 14 de abril de 2015


Caminhando o capim seco doía em meus pés descalços, mas a curiosidade de menino era tanta que morria de vontade de ver lá de cima da serra o pôr do sol. A subida ou escalada, era sobre terreno íngreme, cheio galhos secos, pedras pontiagudas, e quando olhava para baixo, dava até arrepios. Hoje percebo que era muito mais além daquilo que enchia meus olhos e a minha curiosidade — a Serra da Urtiga. O sol visto de lá era diferente, ora pintado de amarelo, ora avermelhado que só um final de tarde no sertão tinha e ainda tem tal plenitude de beleza. Olhava deslumbrado, como se estivesse marcando no horizonte a distância de minha saudade que só meus olhos podiam calcular. Queria enxergar além da luminosidade e das tintas vermelhas que se esparramavam no horizonte. Mas eu era apenas um menino sonhador e lá de cima da Serra da Urtiga os meus olhos infantis brilhavam de forma utópica, talvez, esperando por um novo amanhecer. Quando ele chegasse é claro, o receberia de braços abertos, depois fecharia os olhos, trancaria a janela da alma para não ofuscar o sonho colorido que nela entraria e que mais tarde, talvez, como aprendiz de poeta, poderia transcrever tais cenas, certo de que elas ainda estariam impregnadas nas minhas retinas digitais.

Não sei se é defeito, mas tenho uma paixão pela natureza e principalmente, ver o pôr ou nascer do sol ou da lua. A grandeza do universo redimensiona minha pequenez diante da natureza. Lá de cima observava que ela é maior do que eu pensava. Ao mesmo tempo, ante os colossais elementos do universo, seja fitando as estrelas ou olhando para o cosmos, podia sentir a grandeza do mundo que pulsa e que é latente no universo da minha consciência. Somos grãos de areia em relação a ele, como nossas emoções o são, como são todas as características do nosso atual estágio de ser humano. Como a pedra bruta, a natureza em mim, dorme como a um anjo, assim como, a sua beleza estética que aguarda o esmerilhar dos séculos, nascendo do aperfeiçoamento do caráter.  

Lá de cima sentia a brisa ondulada acariciar meu rosto e deixava-me envolver por ela que não me dizia de onde vinha e nem para onde ia, mas isto não importava. Olhava as pradarias, as densas pastagens, o pequeno rio que a circundava, tudo era belo, magnífico! Era como se estivesse remoendo alguma coisa, não distante, com reflexões importantíssimas para a minha tenra idade diante da grande e futura jornada. Sim, o futuro também se imiscuía, fazendo-me sentir fora de uma realidade que já se forjava a partir de todas as experiências por mim vividas. Se fosse o meu olhar e usando a janela de minha alma, jamais conseguiria direcionar corretamente rumo à linha de horizonte, assim como, esta singela crônica não teria sido escrita. Mas foi e a usei como recurso da vida para que o tesouro possa ser extraído de um novo amanhã e seja mais valorizado. Meditar, refletir sempre, é o cinzel que manuseamos, é o fogo que molda o ferro, é a bigorna que bate no aparar das arestas.

Procurando olhar para além de mais além do horizonte, à espera de um novo amanhã, sabia que tudo desse mais além que imaginava era um mistério. Quem somos nós para dizer o contrário! Então, como falar de fim do universo ou do seu infinito, de sua intensidade e de seus segredos... Lá do alto da Serra da Urtiga a olho nu, só podia ver a beleza da natureza envolvida por densas pastagens, matas e terrenos férteis. Passei as mãos no rosto, não era mais imberbe. A vontade de rever aquele pedaço de chão me fez retornar ao topo da serra e sentar na mesma pedra. Tornei-me adulto e muito chão pisei durante minhas andanças longe dali, mas ao retornar a aquele local, voltei a ser criança, eu e o tempo voltamos a curtir daquelas alturas o lindo visual, sem nos preocuparmos se existiam ou não o fim do mundo ou infinito. Com o corpo são e mente sã, com alegria e tristeza disputando espaço em meu coração, com o mal e o bem se digladiando, mas o bem sempre vencendo, eu ali estava para me despedir de vez, com um definitivo adeus, sabendo que a única dor que me doeu mais que dizer adeus foi a de não ter tido a oportunidade naquele local aprazível de alcançar, sem atropelos, o infinito, onde, talvez, poderia me distanciar da terra e alimentar os meus sonhos em outras dimensões ou ir para além de mais além em busca de um novo amanhã. 


Em busca de sonhos perdidos...

domingo, 5 de abril de 2015


Luto tanto em busca de um ideal, de um direito de viver, de um direito de pensar, de um direito de falar, e quando tiver vontade, até de um direito de sorrir, então por que não me alimentar do direito de sonhar e buscar os sonhos que perdi?... Afinal, sonhar sonhos que me acalentavam vai muito além do meu viver, do meu pensar, do meu falar, do meu sorrir e não há lei que mensurem esses sonhos, ou sonhos meus. Tem gente que diz que não sonha – dormindo. O meu sonho, que é sonho real, me mantém acordado, deixa-me desperto à vida que passa por mim. Pelo menos sonho muito mais acordado que dormindo, assim penso eu.

Não vou apelar aos livros de autoajuda e nem de postagens que procuram definir sobre sonhos, por que acho que não preciso deles e nem neles terão definição, mesmo os que se foram ou se esconderam na região recôndita de meu cérebro. Quem procura livros que tentam definir sonhos é por que, ao que parece, não entende a mensagem subliminar deles que é o ápice de sinceridade ou da tentativa do autor querer defini-los, mas os meus não estão lá paginados. Eles são somente meus. Acho que para compreender o conteúdo de um sonho é preciso, antes de qualquer coisa, perceber o esforço de quem elabora uma autoajuda para pessoas que nem sonham, e quando acham as que sonham, não elencam os pormenores e nem catalogam de forma decifráveis os sonhos delas. Se o leitor aprender isso, entendo que é o básico, pode conseguir, talvez uma graninha, faturando com o lançamento de um livrinho da mesma espécie – aí, sim, a autoajuda ao leitor pode ser concretizada. Não acredito em outra forma, pois ninguém sonha igual.

Também penso que não preciso de permissão para sonhar meus sonhos, sejam sonhos reais ou imaginários, seja dormindo, ou acordado. Nasci com o direito de sonhar e pronto. A escolha é minha. Claro que, às vezes, não consigo controlar meus sonhos sonhados, enquanto durmo. Por isso tenho pesadelos, talvez sejam os mesmos que tiram o sono de tanta gente por aí, por aqui, em todo ou qualquer lugar. Mas, acordado, tenho o direito de sonhar todos os sonhos que almejo alcançar e recuperar os que já se perderam durante minha existência. O direito de reprisar sonhos é porque tenho a certeza que eles sempre estarão no mesmo lugar, fato que me dá direito de sonhá-los e reprisar aqueles que me fizeram bem.

Penso mais. Penso que sonhar é exercitar o máximo a minha liberdade. Ninguém tem nada a ver com isso, direta ou diretamente, para querer me “guiar”, ou proibir-me. Sonho o que bem entendo e o que almejo sim. Fim de papo. Há quem busque concretizar os sonhos sonhados. Isso já resulta em trabalho, obviamente, mas não é impossível, seja que sonho for. Outros preferem continuar refugiando-se nos sonhos sonhados, como se houvesse jeito de mantê-los distanciados da realidade vivida. Estão apenas fugindo do real.

Se o brilho do olhar denuncia os sonhadores e não há como esconder este fato e de exercer o direito de sonhar, então os meus olhos brilham. Quem sonha, sonha adiante do que vive e quando o sonho é bom, reprisa ou tenta reprisar. Isso é realidade. Certo dia, isto há bastante tempo, estava eu diante de alguém que verbalizava uma lista infindável do que me era proibido. Escutei tudo, em silêncio, enquanto eu pensava: Você pode me proibir de tudo ou quase tudo, mas eu vou continuar sonhando os meus sonhos, dormindo ou acordado. Sonhar para mim passou a ser vital. Mas o pior é que tem gente que não se acha no direito de sonhar e isto é lamentável. Já ouvi muita gente, envergonhada, contar que teve um sonho lindo com alguém, até meio íntimo, num lugar aprazível. Que bobagem se era apenas um sonho! Os sonhos, em geral, são uma experiência individual, abrindo um caminho para o interior de cada um. Quando você tem alguma pendência que precisa ser solucionada ele se repete, não importa qual noite, mas repete. O sonho se repetirá sempre que o problema estiver em evidência na sua vida. É um mecanismo da própria mente, que processa e assimila experiências da própria vida e cada um tem a sua, por isso os sonhos não são iguais.

Mas é claro que cada pessoa sonha de um modo diferente, próprio. Não existe um modo "normal" de sonhar. Tem gente que sonha um sonho bom com pessoas que sequer conheceu. Eu mesmo tenho sonhos repetidos, ora alçando um voo, ora passando por um mesmo caminho, ora subindo um muro, parede ou montanha cheia de obstáculos que não consigo vencê-los, mas quando realizo aqueles sonhos na vida real, eles não mais se repetem. É incrível isso! Às vezes sonho um sonho tão gostoso que não gostaria de acordar, mas se acordado, jamais desistiria de concretizar esse sonho. Há os sonhos reais, com pessoas reais..., mas acho que o sonho dormido ainda é pouco para alimentar a vida acordada. Vou mais longe. Se há interpretações quanto a sonhos, às vezes até inimagináveis, enquanto dormimos somente nós mesmos sabemos, “na íntegra”, o significado deles e da forma que os escolhemos sonhar. Nem sonhando, outras pessoas conseguem imaginar o que sonhamos. Isto é salutar, pois tudo isso é vida, mas é importante frisar que a vida também se acaba, assim como o sonho não alimentado ou vivido. Os sonhos que não forem buscados, assim como, se seus sonhadores ficarem ineptos pode envelhecer, principalmente, quando os abandonarem. Bons sonhos a todos, mas, por favor, não interfiram porque estou em busca dos meus!


Diário da Manhã, porta voz da liberdade.

segunda-feira, 30 de março de 2015


O valor de um povo está nas causas que abraçam, nos projetos que constroem em prol de sua comunidade. Na história de sua luta que sabemos insana em prol da democracia plena, carregam o suor, lágrimas e alegrias proporcionadas quando consegue ter um espaço num jornal para poder se manifestar, alcançar objetivos, defender e conseguir benefícios em prol de um povo sofrido. Quanto mais restrições impõem à liberdade de expressão, no mesmo montante desejamos vê-la restabelecida, assim como, da mesma forma ansiamos por vivê-la. É bem verdade que cada um sente e entende a liberdade à sua maneira, mas o importante é que todos concordam num ponto: a liberdade é uma das mais preciosas e belas dádivas em nossa vida. Em última análise, para não sermos desumanizados, precisamos de liberdade, de justiça, de paz. Tudo isso está relacionado, na vida de cada homem e na existência de toda a humanidade. 

O jornal Diário da Manhã criou um caderno especial, intitulado 56 nos de liberdade, estampando obras riquíssimas, quadros e esculturas de renomados artistas goianos que teve o condão de abrir novo horizonte de liberdade de imprensa. A cada edição ficava surpreso quando via estampada fotos de muitas pessoas amigas, artistas consagrados, já com os rostos carcomidos pelas intempéries do tempo, olhos perdidos na escuridão de seu próprio ser, mãos calejadas e cabeças tomadas pela calvície, mas estavam ali firmes, manuseando os pincéis da liberdade. É o passar  dos anos que os tornaram assim, mas, o importante é que eles continuam com suas mãos mágicas, ora massageando o barro, ora os pincéis, enfrentando  as adversidades e as intempéries do  tempo em busca daquilo que lhes dão prazer: a pintura, a escultura.

Conheço a maioria deles, pois faço parte deste glorioso movimento da arte e, mesmo não usando os pincéis, procuro ser parceiro através da escrita, elogiando ou não, mas levando o meu apreço a estes baluartes que com suas obras contagiam a todos. Nutro por  toda a classe uma profunda admiração, porque durante este lapso de tempo os vejo carregando suas telas, ora pra ali, ora prá acolá, expondo, às vezes com dificuldades, em vários locais de Goiânia e até fora do Estado de Goiás. Não quero aqui destacar obras ou nomes daqueles cujas fotos foram estampadas no jornal porque pode me falhar a memória, mas como disse numa crônica anterior: “... devo pedir desculpas por não citar os nomes dos artistas goianos que passaram pela coluna do Diário da Manhã que são muitos, pois a página que ele me cede é pequena e não caberiam todos os nomes. Se entenderem que a arte é uma coisa imprevisível, uma descoberta, uma invenção da vida, abstrata ou não, que nos move, nos eleva, nos transporta a um mundo surreal, é lógico, nos deixam encantados e fascinados pela vida, então, apenas peço que usem o mundo da imaginação e façam de conta que os seus nomes aqui citados estão”

Hoje, a corrida do Diário da Manhã não é contra o tempo. É com o tempo. Sabe que o futuro é agora, o presente já é quase ontem e o passado é a história construída por cada uma deles ou de nós articulistas. O jornal abriu espaço com título “Opinião Pública”, e para os artistas goianos, um caderno especial, então, é momento de todos usarem de sua sabedoria, pois quando se lutam com sabedoria, tem sempre o tempo a favor. Mesmo nas horas mais difíceis, em momentos de turbulências e vendavais; diante das mais terríveis tormentas e tiranias sociais, e agindo com coerência,   respeito mútuo e sensatez, todos sairão fortalecidos, porque o saber está para o ser humano como está para o vinho. E que a luta do Diário da Manhã, seus ideais e projetos sejam vitoriosos, rumo a um tempo de união e paz que hoje se frutifica e que cada semente possa fortalecê-lo, como seus abnegados editores, que sem picuinhas e notícias truncadas, e com seu grito de liberdade, continue proporcionando a sociedade o direito de defesa, o legítimo trabalho, dignidade e solidariedade entre os homens, como já se vislumbra há tempos em todas as suas edições. 

O Diário da Manhã, como seu projeto inovador, tornou-se o porta-voz daqueles que se sentem injustiçados, abrindo as comportas para que todos se manifestem, sempre lembrando o momento do reencontro do passado, presente e futuro com uma história de luta e sofrimento, defendendo a liberdade de imprensa, deixando de ser massa de manobra, de rastejar como cobra e impedida de usar  o saber em prol de seu ideal democrático.



Pelos bares dos Elpídios.

terça-feira, 24 de março de 2015


Primeiro quero dizer que o título não é plágio. Os bares de que falo são bares que não são comuns, são bares diferentes, místicos, poéticos, quase utópicos, onde as pessoas se reúnem e criam coisas que jamais imaginamos existir no mundo real. Fazem parte desses bares além de outros personagens humanos, os artistas do barro, dos pincéis, das letras e até os poetas malandros que não aprenderam a rimar, mas se reúnem para prosear, reviver a mesma dor, os mesmos objetivos e anseios. Confesso que durante minha existência participei pouco desse ambiente e nem bebia grandes tragos. Hoje posso dizer que nem bebo. Apenas aprecio com moderação. Agora, para quem bebe, se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom, bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa. Celebrando ou esquecendo-se de celebrar, foi nas mesas dos bares que travei grandes debates políticos, aprendi a fazer discursos, viver momentos poéticos, passionais e amorosos. 

Muitos namoros nasceram em mesas de bar. Tempos idos, lá pelas décadas dos anos 70, ainda jovem, conheci a cidade de Aruanã e pasmo diante da beleza do Rio Araguaia, incuti na minha cabeça a ideia de escrever poesias e escrevi muitas e as guardava num pequeno baú. Lembro-me bem de um final de tarde quando o sol se escondia detrás das matas e seus raios cintilavam sobre as águas trazendo momentos de nostalgia, eu, juntamente com outros amigos, numa mesa de bar, jogávamos conversa fora e quantos artistas, jornalistas, empresários, profissionais liberais víamos se aglomerarem naquele ambiente místico - o Bar do Elpídio, bastante frequentado por aqueles que iam passar férias em Aruanã. As rústicas paredes eram autografadas por todos que por ali passavam. Quem esteve lá à época vivenciou esse fato histórico e outras situações pitorescas criadas pelo Elpídio, como a central de recados para as pessoas que acampavam na praia, e assim, Elpídio Amorim Leão deixava sua marca e relevantes serviços prestados ao turismo de Goiás.

Tempos passaram. Certo dia, outro Elpídio, o Fiorda, querendo homenagear o seu xará resolveu abrir um bar em Goiânia, no ano de 2007, no Mercado Popular da Rua 74, batizando-o de “Bar do Elpídio. Era um lugar descontraído simples e aconchegante, como também era o Bar do Elpídio em Aruanã. Na culinária, o Fiorda, tentou manter os mesmo ingredientes, como peixes, costeletas, costela e filé de Caranha, com ou sem pequi, sem falar do saboroso Sanduíche de Caranha. 

O público alvo era dos mesmos moldes do Bar do Elpídio de Aruanã e daqueles que conheciam a historia do estabelecimento. O bar foi inaugurado no dia 13 de setembro de 2007, essa data teve como intuito homenagear os 60 anos do Elpídio de Aruanã pelo relevante trabalho feito em prol do turismo de Goiás, e à época, recebeu o Titulo de Sócio Honorário da ABRAJET (Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo), regional de Goiás sendo assim a inauguração transformou em um evento para fortalecer e consolidar o novo espaço e ponto de lazer em Goiânia.

Para manter-se vivo o nome, em 27 de setembro de 2014, o Elpídio Fiorda e Gabriel Bretas, fundou Bar do Elpídio Empório & Restaurante e hoje é o mais novo empreendimento do setor de alimentação fora do lar em Goiânia, ora instalado de forma rústica, aconchegante e aprazível no Passeio das Águas Shopping, local de encontro de artistas plásticos, escultores, escritores, jornalistas, empresários e de pessoas que gostam de degustar da cozinha regional e do melhor em pratos à lá carte, peixes, feijoadas, pirão, caldos, a famosa panelinha, galinhada goiana e variados petiscos.

As instalações do empreendimento estão ilustradas com a iconografia goiana. Imagens dos casarões da Cidade de Goiás e Pirenópolis ornamentam as paredes. Uma escultura de Cora Coralina, em tamanho natural faz homenagem à poetisa maior. Os clientes vão poder sentar ao lado dela e se deixar fotografar. A obra é assinada pelo artesão Gabriel Machado. O mascarado personagem irreverente da festa das Cavalhadas, difundida em Pirenópolis, está montado ao cavalo, logo na chegada. É a economia criativa em movimento. Inovação, beleza e aconchego são características do espaço que chega para agregar serviços essenciais ao novo Shopping. Só posso dizer que é um lugar bem propicio para os encontros de fim de tarde. Lá o garçom não enrola mesmo sabendo que o cliente às vezes não come certas guloseimas e nem toma bebidas alcoólicas. Hoje, escrevo daqui e uso uma mesa, mas não é a do Bar do Elpídio, mas sim, a da sacada do meu AP, onde vislumbro do alto uma selva de pedras que nos rodeia. Estou com um Laptop, digito o texto e as letras vão se amontoando no monitor para no final sair esta besteira! Não estou bebendo nada, mas mesmo assim saúdo vocês que fizeram e continuam fazendo parte da arte e cultura em Goiás. Quero, nesta mesa onde vejo o sol de pôr soberbo no horizonte, levar comigo a lembrança de todos..., mas quero também, ao finalizar, dizer que tenho saudades do tempo da famosa Grapete e do slogan: “Quem bebe Grapete, repete”. Até mais! Vou tomar um suco de laranja. Um brinde à vida.


 
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