Amigo leitor (a)

Amigo leitor (a). Quando lemos um livro, ou qualquer texto, publicados ou não, que são sinônimos do prazer, por mais simples que forem, sejam reais ou surreais, nos permite exercitar a nossa memória, ampliar nossos conhecimentos e nos faz sentir as mais diversas emoções, por isso, sensibilizado, agradeço a sua visita ao meu Blog, na esperança de que tenha gostado pelos menos de um ou que alguns tenha tocado o seu coração. Noutros, espero que tenha sido um personagem principal e encontrado alguma história que se identificasse com a sua. PARA ABRIR QUALQUER CRÔNICA OU ARTIGO ABAIXO É SÓ CLICAR SOBRE O TÍTULO OU NA PALAVRA "MAIS INFORMAÇÕES. Abraço,Vanderlan

Nas entrelinhas do silêncio...

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Calado, mas usando as entrelinhas do meu silêncio, sou capaz de fazer belas crônicas e brincar com as palavras. De certo modo, quando estou escrevendo, não escrevo apenas por escrever, existe sempre em mim uma motivação e geralmente não me arrependo do que escrevo, porque pensei antes de começar e quando a mente cansa, uso as asas da imaginação para alcançar coisas inimagináveis. Quando uso somente a fala, sinto que posso me equivocar e me arrepender, pois uma vez que ao falar algo, talvez não pertinente, eu não posso "desdizer", voltar atrás e pedir desculpas, porque pode me soar mal, muito mal mesmo! Por isto é que prefiro escrever, pois escrevendo tenho mais chances de corrigir meu pensamento, colocar no lugar certo os pontos e vírgulas e até reticências para não soarem como as pausas que preciso para que todos me entendam. Às vezes dou uma parada técnica para refletir, oportunidade em que me questiono mais sobre o texto, cuja parada tenho a oportunidade de apagar alguns textos que os acho infantis, inéditos ou profundos demais. Todavia, me comovo, e em certos momentos, excluo frases inteiras para depois, substituí-las por outras mais cabíveis ao texto. São os ócios do ofício de um escritor, poeta, cronista e articulista. Não sei se um dia vou aprender a arte de bem falar, mesmo sabendo que não falo tão mal assim e expresso bem o que escrevo porque sai do fundo d’alma. Sei que a oratória é para poucos. Sou mais ou menos articulado, mas gostaria de ser o “mais”. A escrita me representa melhor que a palavra falada e ela me salva quando preciso me expor e aí, então, sigo com meus rabiscos sinceros e completos que se acoplam numa pequena folha de papel ou no espaço de um monitor.

A Wikipédia define a crônica como uma narração curta, produzida essencialmente para ser veiculada na imprensa, seja nas páginas de uma revista, seja nas páginas de um jornal. Possui assim uma finalidade utilitária e pré-determinada: agradar aos leitores dentro de um espaço sempre igual e com a mesma localização, criando-se assim, no transcurso dos dias ou das semanas, uma familiaridade entre o escritor e aqueles que lêem. O cronista se inspira nos acontecimentos diários, que constituem a base da crônica. Entretanto, há elementos que distinguem um texto do outro. Após cercar-se desses acontecimentos diários, o cronista dá-lhes um toque próprio, incluindo em seu texto elementos como: ficção, fantasia, imaginação e ceticismo, elementos que o texto essencialmente informativo não contém. De outra parte, cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia. A crônica, na maioria dos casos, é um texto curto e narrado em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está "dialogando" com o leitor. Isso faz com que a crônica apresente uma visão totalmente pessoal de um determinado assunto: a visão do cronista. Ao desenvolver seu estilo e ao selecionar as palavras que utiliza em seu texto, o cronista está transmitindo ao leitor a sua visão de mundo. Ele está, na verdade, expondo a sua forma pessoal de compreender os acontecimentos que o cercam, cotidianos ou não.

Então caro leitor, não se espante com este escriba, aprendiz de poeta e cronista, meio atabalhoado, maluco, mas que recebe nos seus textos o sopro do vento que às vezes passa meio confuso, como a uma nuvem efêmera que cai sobre um oceano; e nesse passo cheios de descompassos raramente ele enxerga o destino, pois tudo move passo a passo, mas são capazes de enxergar pessoas chegando e outras partindo. É pura realidade, pois a cadência da vida é assim, ora estamos diante de uma passarela sem fim, ora sem tablado, ora sem lado, ora sem alambrado, ora sem a cercania de flores, beija- flores e jardins.

Não tenho medo de insistir com o tema, pois o aprendiz de cronista, poeta, romancista-ficcionista é assim: sempre quer que o mundo seja seu mesmo quando insiste em manipular o impossível, o inimaginável, o inexistente; mesmo aos que se encontram tristes, o aprendiz sabe que logo estarão sorrindo, pois nos caminhos da vida uns realmente retornam vitoriosos ao convívio e outros, saem para a luta à procura de seu lugar ao sol; alguns dizem nos contornos da escrita a verdade, outros mentem, mas, no fundo, todos são escritores, poetas, cronistas, e se gabam de que somente eles são capazes, sem nenhum mito ou atrito com o universo, de enxergar o fim do infinito. Poetas são criaturas que vivem a perambular pela estrada da vida e se vangloriam ao dizer nas entrelinhas de seu silêncio que a felicidade se encontra em qualquer lugar e pode ser apagada, revisada ou refeita, ao contrário das palavras ditas.



A segurança além das grades...

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Os atos de violência que vem acontecendo nos presídios brasileiros são mais perniciosos que as catástrofes naturais, como os furacões e terremotos, porque ao contrário das vítimas de um desastre natural, as de violências praticadas por detentos pertencentes a facções, se sentem intencionalmente escolhidas como alvos de uma crueldade de difícil controle. Esta situação que vem ocorrendo em vários presídios despedaça as crenças sobre a confiabilidade entre pessoas e desperta a insegurança intramuros, crenças que as catástrofes naturais deixam intactas, mas em presídios não. O mundo social está se tornando um lugar perigoso, onde os próprios seres humanos, se assim podemos dizer, são ameaças potenciais à sua própria segurança. Todos os dias a gente vê noticiados em jornais e televisão crueldades, matança e chacinas indescritíveis praticadas por facções criminosas que infestam os presídios, as quais ficam registradas na memória do tempo, marcando as vítimas, e quando fatais, as próprias famílias deles, como se fossem cenas de um filme de terror que nos faz encarar o medo como qualquer coisa semelhante ao próprio ataque traiçoeiro do mal que vem afligindo não só o Brasil assim como em todo o mundo.

A sociedade organizada e a polícia instalam câmeras de segurança com capacidade de desenvolver capturas faciais adequadas para o reconhecimento automatizado do indivíduo para que os delitos sejam esclarecidos num curto espaço de tempo, que são caras e onerosas. Não obstante essa assertiva de policiamento via câmeras, entende-se que outros instrumentos de apoio à investigação precisam ser empregados para permitir a captura ou descrição dos criminosos, bem como a inserção de dados biométricos dos envolvidos em agressões, mortes ou quaisquer outros delitos internos, cujo material auxiliará de forma efetiva e rápida a identificação positiva dos indivíduos em arquivos criminais de porte e com isso evitarão entrar nos presídios drogas, armas, objetos cortantes, celulares e outros. O retrato falado situa-se como um destes instrumentos, importante na elucidação de crimes porque além da televisão, temos a internet para divulgar essas fotos. Entretanto, além da confecção, que depende de razoável precisão biométrica, tem-se que abrir uma divulgação intensiva para interação com fontes de informações públicas e pesquisas que transforme o produto gráfico em identificação positiva do suspeito em arquivos fotos-criminais.

Não me lembro de nos últimos tempos ter tido um ano com tantos crimes violentos e macabros aqui no Brasil. Não só a matança nos presídios, mas vemos pais e mães que matam filhos, filhos que matam pais, amigos que matam amigos, maridos violentam suas mulheres, mulheres que esquartejam maridos, pais que estupram as próprias filhas, menores que roubam e matam porque sabem que não cumprirão penas e ainda sorriem diante das câmeras de TV. Contabilizo essas perdas aos amigos que foram assinados covardemente e que durante décadas eu cultivei suas amizades em meu coração. Restou-me, então, durante este lapso de tempo, orar por essas vítimas e momentaneamente, até sonhar que um dia uma borboleta pudesse pousar em minha mão, todavia, o que poderia ter se tornado apenas um desejo, se materializou, se tornou real, pois quando li certo dia num jornal, na coluna policial, eu tive que quedar-me inerte sobre a poltrona e dias depois, felizmente, sentir um alívio quando vi noticiar que a polícia tinha localizado o criminoso que matou o meu amigo.

 O interessante é quando vemos lençóis e vestimentas desses criminosos penduradas nas grades das celas não enxergamos nenhuma peça que pertençam aos criminosos de “colarinho branco”; não vemos vestimentas ligadas às facções, nenhuma peça daqueles que praticam o peculato de toda a espécie; não vemos presos como outro elemento qualquer; não vemos políticos que praticam a corrupção ativa e passiva, desvio de verbas públicas ou a errada aplicação de recursos, fraudes em concorrências, prevaricações, desmandos administrativos, nomeações ilegais, concussão, cerceamento à liberdade, homicídios e tantas outras mazelas. Na realidade, a maior parte destes crimes não vem à tona e os que surgem são abafados pelos próprios mecanismos estatais ou por influência política.  Destarte, o banditismo, armado com armas de grosso calibre, metralhadoras e granadas, explodem caixas de bancos, outros, às vezes, matam somente para ouvir o gemido do desafeto; elementos saem às ruas e deixa a população em polvorosa, que intimidada, ela se tranca dentro de sua própria casa, não podendo sequer sair às ruas, enquanto a polícia persegue pessoas incautas que são jogadas nas prisões ao lado dos piores marginais.

Caro leitor, tudo o que se vê é fruto de uma política criminal errada, injusta, implantada através de uma legislação esdrúxula, defasada, irresponsável e que precisa ser modificada urgentemente pelo Congresso Nacional. O juízo jurídico colocado em prática pelo legislador funciona como um juízo de valor, não se limita a comprovar a existência das causas, mas, valora-as, para fins de repressão, o que pode ocorrer, em muitos casos, em vez de extinguir ou reduzir o crime, venha estimular ou eliminar um e criar outro. Daí urge, para amenizar um pouco esta situação, além da prática da religiosidade entre os presos, também o trabalho prisional intramuros, com incentivo especial à formação de mão de obra especializada, por maiores de cursos profissionalizantes, em parcerias com escolas técnicas públicas e privadas e ainda, a construção de presídios mais humanizados com o objetivo de desafogar a lotação excedente, cujo ambiente atual deteriora mais ainda a mente humana. Em fazendo isso, acredito que trará mais socialização aos presos e segurança aos cárceres.


Nestas minhas andanças pelas periferias da região metropolitana de Goiânia sempre me preocupei com o ser humano, apesar de que, algumas vezes, sentir-me incapaz de solucionar algumas situações encontradas e, quando isso acontecia, recorria e recorro a amigos, porque é meu jeito de ser, de uma pessoa temente a Deus e que sempre carreguei e carregarei comigo o princípio básico de fazer o bem sem olhar a quem, frase que sempre norteou a minha caminhada.

De volta as origens...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Será que é possível voltar atrás e mudar o começo? Será que é possível parar, começar novamente, e mudar o fim? Dúvidas pairam em nossa mente, mas devemos compreender que não devemos tê-las quanto à possibilidade de parar, recomeçar tudo de novo e até alterar o fim. Pois bem, eu jamais chegaria aonde cheguei se só andasse em linha reta. Muitas vezes tive que voltar atrás, andar em círculos, perder dias e noites, perder o rumo, perder a paciência, perder o sorriso, me estressar e me exaurir em tentativas aparentemente inúteis pra encontrar uma quase finalidade, um quase endereço, uma provável ponte ou uma pinguela para que eu pudesse atravessar e voltar atrás. Seja em estradas retas, sinuosas, curvas, sempre acertei o caminho não porque segui as setas, mas porque respeitei todas as placas de aviso fincadas à beira da estrada da vida. O que aqui comento parece que está nas Escrituras. Tudo para Deus é simples, finito e pronto! Está escrito lá que ELE usou o barro para fazer o homem dando-lhe vida. Depois, arrancou dele uma costela e fez dela a mulher. O Grande Livro Sagrado não fala sobre o tempo de convivência antes do primeiro pecado, mas fala que existiu a desobediência de comer uma maçã, igual à que hoje comemos, mas é claro que naquela época, tudo era explicado através de parábolas e a citação tinha uma explicação, mas que não me cabe aqui dizer o que significava ou simbolizava a palavra “maçã” em relação à palavra “pecado”. O quero aqui dizer é que o homem usou e abusou do livro arbítrio e há tempos não vêm respeitando os desígnios de Deus, Então como voltar às suas origens, como recomeçar e mudar o seu destino.

Tempos remotos diziam que a Terra era o centro do Universo e que tudo girava à sua volta e à volta do homem, que era a Obra que mais preocupava Deus. Imaginavam que o Universo terminava no céu estrelado que a gente somente vê quando ele está azulado sem nenhuma nuvem a importuná-lo, e nele, ficava Deus e as pessoas por Ele premiadas por bom comportamento. À época acreditavam assim e era salutar para a humanidade que ainda engatinhava rumo ao futuro. Tudo tinha uma dimensão, tudo tinha um fim.

Quando leio alguns textos bíblicos começo a entender que foi assim comigo. Julgava ser assim como todos os cristãos, para quem o tempo e as preocupações limitam o seu Universo. Com tempo e o saber que a idade nos proporciona, mesmo que alguns não tenham passado por escolas primárias, secundárias ou superiores, pensam-se e se questiona tudo aquilo que às vezes escapam de nossa inteligência. Mas com o passar dos tempos, estudiosos descobriram que o homem foi criado com as leis físico-químicas e a partir do protoplasma por Ele criado e não a partir do barro. Para Deus nada era ou é impossível.

Comentei numa crônica anterior sobre o finito universo, mas não consigo afirmar se ele realmente tem fim. É um mistério!... Julgo ter um raciocínio que poderia pôr fim a esse finito em que vivi e ainda vivo, mas que gostaria de viver o infinito, por isso deixo de lado esse raciocínio. Lendo alguns livros de cientistas renomados os vi confirmarem cientificamente a existência de vários universos. Quantos haverá então? Acho que são em número infinito também, porque o espaço é infinito, então pergunto: Será que o mundo tem realmente fim? Se você pegar uma nave espacial com combustível suficiente para ir até onde bem entender, será que ela seria abalroada na beirado do mundo ou desceria num lugar ermo de um último universo. Mas depois deste último, será que não existirão outros? Ah, complicado não? Só assim hão de entender a nossa pequenez diante de Deus.

Quando na crônica da semana finda disse que me encontrava no topo de uma serra íngreme e que queria enxergar apenas o bonito não me foi possível, pois o nosso mundo não é assim, no entanto, ao olhar para infinito, me arrepiei e ainda me arrepio, porque tudo me reduzia a um simples grão de areia, e hoje, com o rosto já carcomido pelas intempéries do tempo, posso afirmar sobre o que assisti lá de cima em relação à natureza e a grandeza do universo, mas, contudo, tudo que vi e ainda vejo me reduz à insignificância.



O que acontecerá com nosso mundo em 2017?

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Olhando para universo que não sei discernir, restou-me aquecer da leveza do momento que de tão imenso o silêncio notei que este não quebrou os sons vindos das terras devastadas pela ação do homem, mas, felizmente, me senti preenchido pelas batidas do meu coração e pela voz infantil de uma criança que brincava do outro lado do mundo. Queria apenas enxergar o bonito. Meu coração começou a bater no ritmo suave de um mar sem pedras ou barrancos a impedir, e me sentia feliz. De meu posto privilegiado do alto de uma serra íngreme acompanhava os pontos enfeitados do universo, talvez usando mais o espírito do que com a consciência. Navegava com os olhos e não via naves espaciais enfeitarem a paisagem estelar, apenas aviões despejando bombas e matando gente inocente em terras do oriente.  Mas o meu mundo estava ali e não do outro lado e a cada olhar, procurava o meu porto seguro ou achar uma nave qualquer, sei lá, mas sem pressa, sabendo que meu destino não se resumia apenas deixar ou pegar passageiros errantes, gente sofrida e crianças desnutridas amontoadas nas beiradas daquele mundo inóspito, sem estação espacial.

Do alto dava pra ver que a nossa vida não era totalmente linear, todavia, com o pensamento positivo almejava o ano de 2017, com mais amor, dignidade, respeito ao ser humano, e com o mesmo sol que dá vida ao nosso planeta, como também, desejava que a chuva derramasse mansa, sem destruir nada, para que eu pudesse ficar aconchegado no meu recanto nostálgico e escrever, e à noite, sob o som das gotas de chuva debater-se no vidro da janela, abraçar meus lençóis, colocar a cabeça sobre o travesseiro e dormir, sem pressa. Mas antes de o sono vir e tomar o meu corpo eu queria arquivar na região recôndita do meu cérebro ideias novas para passar para as colunas jornais e revistas, para que jamais faltem àqueles dias em que as palavras tomam chá de sumiço, desaparecem de nossa mente como a um passe de mágica, situação que me traz desespero por não saber o que escrever. São, justamente, esses dias que me fazem perceber que não estou no controle de nada, não me sinto com condições de ajudar a ninguém e os altos e baixos se instalam, vem o bloqueio criativo, travam tudo, torpedeando horas e horas dias a minha produção literária, momentos em que não escrevo uma linha sequer. Para mim é sempre um martírio!

Quando consigo escrever e posto no BLOG e FACEBOOK espero que meus amigos não tenham preguiça de ler. Que continuem lendo, mesmo sendo um texto sem nexo. Que promovam curto-circuito nos seus CPUs e WHATSAPP, mas que, sobretudo, sejam compreensivos quando eu decido ficar em silêncio.

Eu 2016 assistimos horrorizados muitas guerras, destruição e mortes, no entanto, lá do alto almejava o melhor para o ano de 2017, um mundo com mais tolerância. É certo que na teoria existe uma enorme propaganda de aceitação do outro com tudo que ele faz, mas, na prática, a humanidade é péssima em acolher quem não compactua com o que pensamos, e aí vemos uma luta de pessoas em busca ou manter o poder pelo poder, vem à discriminação, preconceitos com quem não carrega o mesmo tom de pele ou com quem não tem a mesma opção sexual que a nossa. O mundo girou, passaram décadas e décadas e ainda não aprendemos lidar com a diversidade que o planeta comporta. Não obstante tudo isso eu quero dias calmos, pitadas de ociosidade, tranqüilidade, leveza, não sempre, mas quero. Também, como perfeccionista, sou feito de urgências, de natureza criativa, produtiva e de realizações. Realizar é um verbo que conjugo fácil e me veste bem. E abusando desse verbo, em 2017 quero ler, quero me aperfeiçoar, quero me movimentar no universo cultural, quero vontades, quero sonhos alcançáveis, publicar meu livro e como ele, continuar com meus pensamentos em alta voltagem.

Quero continuar tendo discernimento para enxergar meus erros, quero ter a humildade de pedir desculpas, eu quero ser grato a aqueles que me estenderem as mãos e sempre que possível, eu estender as minhas a eles, seja ou não diante de um ato de solidariedade. Quero continuar sendo eu, esse ser passível de falhas, de erros, cheio de imperfeições, que abre lacunas, espaços, vãos, brechas, hiatos, qualquer coisa que sinalize que ainda a algo a ser preenchido, mas, sobretudo, que não me falte à persistência, a vontade de viver, a loucura pela liberdade, a disciplina e a alternância, seja mantendo os pés no chão ou bem longe dele.

Por tudo isso é necessário que entendamos também que Deus, o arquiteto do universo providenciou para que a gente tivesse o livre arbítrio, e quando em dificuldades, estivéssemos na mesma hora e no lugar certo: um, para receber ajuda; outro, para dá-la. No fundo sabemos que o mais afortunado foi aquele que aproveitou a oportunidade para ajudar. E eu o fiz oferecendo meus préstimos às pessoas carentes e contribuindo de certa forma com a sociedade em que participo. Portanto, quero que você em 2017 faça isso também, pois pode ser que, talvez, venha a precisar de algum desconhecido. Se entender isso, então quero que saia do seu conforto e insista para que a pessoa espere pela sua nave espacial, talvez até imaginária, porque sempre chegará o dia em que todos precisarão de ajuda, e não importa quanto tempo passemos sentado na beira de nosso mundinho, nem quanto peso carregaremos e quantos minutos havemos de precisar para apreciar um final de tarde, um pôr do sol, ou o nascer da lua. Podem ter a certeza de que ao final todos nós pegaremos a mesma nave e seguiremos a mesma rota e teremos o mesmo destino.


O ano de 2016 se foi e eu sobrevivi...

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Quando nasci, de forma irônica, a parteira que me ajudou a vir ao mundo, devia ser uma distraída, mas, de certo modo, possuidora de um espírito crítico iluminado, pois disse no momento que nasci que eu era bonitão. Nascia mais um aquariano. Cresci sem bolo, sem vela de aniversário, sem pedidos, sem brinquedos e durante muito tempo o travesseiro foi meu melhor amigo. Ele parecia triste também. Aprendi a conversar com ele e dizer a verdade. Mentir não é coisa minha. Sem sono passei muitas noites contando carneirinhos e no mundo dos sonhos me tornei um dos maiores produtores desses animais, que guardava com carinho nos currais da vida que construía a cada sonho. Tinha certas noites que contava de três em três dada à quantidade que se acumulava nas minhas insônias. Quando conseguia dormir, doía, assim como a vida. Demorei a gostar de viver e tinha uma tristeza que me visitava até mesmo nos dias de alegria. Por conta disso, aprendi a sorrir com economia, mas quando me permitia sorrir, sorria com vontade. Era pequeno demais para entender a vida e compreensível os fantasmas não me perseguirem e não quererem me adotar.

Ainda pequeno já morando em Goiânia, saía para trabalhar com uma caixa de engraxar sapatos. Morava no Setor Ferroviário e quantas vezes eu passei por caminhos rodeados por imensos matagais onde até fazia necessidades fisiológicas. Toda vez que passava pelo colchete de arame de minha casa ou na roleta da Estação da Estrada de Ferro, nem percebia a tristeza fazer sombra no meu sol. Ele, antes de entregar a noite à lua, me ensinava o valor da liberdade, da honradez e honestidade. Desde pequeno, era viciado em livros infantis, gibi, revistas em quadrinhos e em certos momentos eu parecia fugir das galés. Cada remada nas páginas da vida, mais gibis, mais livros, mais revistas. Em cada um ou uma, descobria continentes, astros, ídolos, atores, autores, heróis, gentes diferentes, importantes que me faziam sonhar. Aprendi a conhecer os oceanos, a amar o mundo e achar atalhos para o coração sem me tornar moleque ou escravo de ninguém. No meu primeiro livro hoje já corroído pelas intempéries do tempo, tentei construir nele um sonho, sem saber que tinha, em seguida, outros, que por mais singelos que foram, sei que ensinaram pessoas a gostarem de leitura e poesia. Eu gostava e gosto de escrever, divulgar e botar fogo no pavio para incendiar mentes preguiçosas. E escrevendo achei a fórmula de sonhar, de voltar a sorrir no lugar que me fazia chorar. Tem dia que tudo é poesia. Engraçado, de tanto escrever e tentar levar mensagens a cada um, indistintamente, acabo fazendo essas pessoas felizes. Certo dia estava sorrindo distraidamente e uma pessoa me perguntou por quê? Naquele dia fiquei sem entender, agora eu sei. O amor de minha mulher, dos filhos, noras, genro, netos e netas me deixam feliz. Dificilmente a gente se dá conta do sorriso de uma criança, do voo bisonho de uma garça ou da graça de uma borboleta, do perfume de uma flor, do canto de um pássaro, ou do doce de uma fruta qualquer; não percebemos a perfeição, o espírito revolucionário e aventureiro da juventude, quando todas as utopias eram possíveis assim como maravilhosas.
Poucos dias atrás, com uma caixa de engraxate pendurada no ombro, um jovem cruzou a rua e veio em minha direção dizendo:
- Não sei se o doutor lembra-se de mim, mas quando estive lá perto de sua casa e ouviram umas pessoas me chamarem “Ô da graxa, ô engravatado!”, para diferenciar de outro menino que não se vestia alinhado assim como eu, mesmo sendo também engraxate.

O engraxate era moreno, alto e forte. Para ser sincero, lembrava dele sim e como não se lembrar de sua forma alinhada de se vestir, pelo menos ficava claro de onde eu o conhecia. Lembrava também que o tinha tirado da prisão com um simples habeas corpus e pagamento de uma pequena fiança. Era réu primário. Na saída da Delegacia de Polícia um policial veio com um sorriso sisudo, lhe entregou uma caixa de engraxar como presente, mas o repreendeu, mas de forma carinhosa. E como valeu a repreensão!

Para refrescar a memória dele perguntei: Já visitou a cadeia novamente? Ele respondeu:
- Deus me livre, agora sou trabalhador com muito orgulho e graças ao senhor e aquele policial.
- E dá para viver engraxando sapato?
- Sim. Saio de casa bem de manhã e só retorno à noite e tenho muitos fregueses. Dá para tirar uma boa grana. Acho que depois que comecei a vestir assim e usando gravata o povo pega mais confiança. Ganho o suficiente para ajudar minha mãe nas despesas de casa e pagar o aluguel de um barraco no Setor Perim. Juquinha, com a caixa de engraxar pendurado nos ombros disse ainda percorria de dez a quinze quilômetros por dia no encalço da clientela:
- Procuro passar em lugar que tem homem parado: ponto de táxi, porta de bar, restaurante com fila de espera, praça com aglomeração de aposentado. Cobro de acordo com a aparência do cidadão.

 Pelo que fiquei sabendo, Juquinha foi aluno comportado até aos dez anos, mas infelizmente perdeu seu pai e aí tudo se desabou. Passou a distribuir panfletas nas ruas e avenidas de Goiânia, e foi aí que pegou gosto pelo dinheiro, mas também se “enrolar” com meliantes que infestavam as ruas da cidade, conhecendo a maconha, para desgosto da mãe que prestava serviços domésticos em residências. Um dia, o primo decidiu mudar de ramo e disse a Juquinha que não se conformava com aquela ninharia que ganhava com a distribuição de panfletos; tinha nascido para uma vida melhor. Levantou a camisa e exibiu o revólver no cinto. "Vem comigo, é apontar a arma e pegar o dinheiro."

Juquinha não tinha coragem, pois dois de seus amigos de infância que também eram engraxates haviam acabado de morrer num tiroteio na Vila Nova. Mas, outro menino mais velho insistiu:
- Eu enquadro as vítimas e você recolhe o dinheiro e os objetos de valor. É só ficar de cabisbaixo pra ninguém te reconhecer mais tarde. Não requer prática nem tampouco habilidade.
Na primeira vez, quando assaltaram uma loja na periferia da cidade, tudo se passou como o primo previra. Na partilha, couberam R$ 500 reais para cada um. Juquinha nunca tinha visto tanto dinheiro junto. O bolso inchou de notas. Comprou uma calça jeans, uma camisa gola pólo, e para sua mãe uma blusa. Num dia torrou todo o dinheiro roubado. Aos 12 anos foi capturado e lavado para a FEBEM. Fugiu, todavia, mais esperto e com novas amizades. Juntou-se ao inseparável primo e formaram uma quadrilha. Meses mais tarde, o primo foi morto por justiceiros a serviço dos comerciantes da Vila Concórdia.

Certa noite, Juquinha e dois comparsas assaltaram uma loja no centro da cidade e saíram em desabalada carreira, mas poucas horas depois foram cercados por duas viaturas de polícia. Os policiais gritaram para que jogassem as armas no chão e saíssem com as mãos na cabeça. Pensaram em reagir, mas prevaleceu o bom senso do finado primo Anselmo, mais conhecido como cabeção. Era o mais experiente da turma. Disse que se eles atirassem morriam no ato: eram três jovens contra oito policiais. Preso em flagrante Juquinha, que era menor de idade, foi levado para a Delegacia de Menores, mas acabou solto graças a minha experiência como advogado e que me responsabilizaria por ele. Nada mal para quem havia praticado mais de trinta assaltos, entretanto, na cadeia, adotou uma atitude humilde, estratégia à qual atribui a tal sobrevivência e o querer mudar de vida. Os outros que tinham fama de bandidos perigosos, sangue nos olhos, só um está vivo.

Com disso acima quando Juquinha foi libertado o policial lhe entregou a caixa de engraxar sapatos, senti que sua fisionomia realmente mudou para o bem e jurou pra mim nunca mais por os pés naquela Delegacia. Assim, dias depois, naquele encontro casual perto de minha residência perguntei-lhe se era mais feliz engraxando sapatos, e ele, com jeito maroto de quem sobreviveu ao mundo do crime, respondeu com um sorriso:
- Não tem nem comparação, doutor. Sabe o que é viver com medo? Hoje vivo sem ele. Qualquer veiculo policial imagino serem os justiceiros chegando! Imagino-me também entrando numa padaria para pedir uma média com pão e manteiga e não ter vergonha de sentar no banquinho e encarar as atendentes. Imagina-me doutor, agora de camisa branca e gravata. Estás diante de um campeão de vendas de uma loja de calçados... Posso dizer que eu venci e sobrevivi e sei também que o senhor foi engraxate como eu e venceu e sobreviveu a muitas batalhas durante sua existência... Olhei fixamente no rosto do elegante Juquinha cujos olhos já lacrimejavam, disse-lhe: Verdade, o ano de 2017 chegou e posso lhe afirmar que você me surpreendeu, tornou-se um vencedor como eu e sobreviveu aos percalços que a vida nos impôs.


Mundo desigual

domingo, 18 de dezembro de 2016


Voltar ao passado depois de viver décadas à procura do saber, de entender as pessoas é como decifrar sinais sem ter tido a sapiência necessária para, pelo menos, tentar saber o que querem da vida e o que pretendem enxergar no futuro. Voltar a ser de repente tão frágil como a uma criança seria como forçar a barra diante de Deus. Impossível! E é isso o que eu sinto neste momento de reflexão... E refletindo vou me enredando, conspirando, intrigando, juntando, ligando, maquinando, prendendo, tramando, unindo, urdindo diante do meu próprio universo. Em certos momentos, ao trazer de volta alguns pensamentos arquivados num mundo incógnito comecei a refletir: “Deus é isto. Deus é beleza que se ouve e se manifesta no silêncio”. E eu ali debruçado na janela pensando: Quanto mais desciam águas pelo vão quadriculado entendia o motivo daqueles minúsculos espelhos d’água se debater sobre ela. Tudo ali parecia orquestrado pela natureza que tentava me convencer que eu vivia num mundo desigual. Que vivia no planeta do absurdo, e o pior que é verdade. Mas o mundo tão belo e rico que se estampava diante de meus olhos era clarividente a desigualdade, infelizmente. Ele mostrava seu contraste longe ali, lá e acolá ou até onde meus olhos alcançava

Mundo desigual mesmo. Doenças que se alastram e algumas incuráveis, que deixam as pessoas desnorteadas tornando-as deficientes ou incapazes para o trabalho. Mas ali do alto da janela meus olhos desfrutavam de tanta beleza que jamais imaginaria outras coisas a nós impostas, e às vezes, achava serem apenas cenas represadas no meu subconsciente, mas não eram. Como contestar isso se os meios de comunicação mostram fatos novos todos os dias como: crianças e mulheres que se prostituem para sobreviverem; crimes de pedofilia, chacinas, roubos sequestros, corrupção, abuso do poder econômico que oprimem os menos favorecidos. Isto realmente não é irreal ou utopia, é pura realidade, uma realidade que se alastra como se fosse uma coisa natural característica da própria espécie humana. E é aí que tento refletir sobre isso, mas às vezes sinto os meus passos regredirem quando muitos outros avançam; vejo pássaros adentrarem em ninhos como o sangue faz em nossas veias, mas este, sempre com o rumo certo: o coração. Até mesmo as rédeas que nos amarra podem estar unindo também nossos destinos. É como se a gente fosse um diamante bem lapidado brilhando em almas serenas.

Como pode a gente ter sentimentos e não ter a capacidade de discernimento, nem o mais claro proceder ou amplitude do que pensamos de nós mesmos. Nem o mais claro proceder, nem o pensamento mais amplo é capaz de se firmar, tudo muda quando trata-se de mero assistente e não condescendente. Geralmente nos distanciamos dos rancores e da violência, pois acreditamos que só o amor como a ciência nos tornam tão inocentes. O amor é turbilhão de pureza original, assim como o animal que mesmo feroz sussurra adocicado. Deu um tempo raça humana! Liberta-te dos jugos, das arrogâncias, dos fingimentos e insensatez! Ainda há tempo de amar, usar suas dedicatórias para Deus e voltar a ser menino. Ainda há tempo... Sim, a ampla janela aberta, talvez como se fosse pura magia, Deus entrará por ela com o seu manto o protegerá das manhãs frias e das incertezas de um novo amanhã..

Ao ver a multidão perdida na escuridão da vida e sem a presença de Deus, preocupei-me sobremaneira de ver muitos deles perderem a sua ligação com a igreja na qual foram batizados. Outros, sentindo-se excluídos pela sociedade, violentados moralmente e impossibilitados de terem acesso aos bens necessários para a sua sobrevivência, ficam frustrados e se deixam tomar pelo desânimo, deturpam-se as mentes e deturpadas, partem para as formas mais fáceis de ganhar dinheiro, exemplificado no tráfico de drogas, que tem levado muitos jovens ao crime e à morte prematura. Alguns, sem a orientação eficaz, mudam de religião como se estivessem trocando de roupa ou sem esperança, tornam-se indiferente a tudo, fato que a igreja deve procurar saber para obter uma resposta mais adequada para combater os desafios aqui constatados.

Neste momento de reflexão, mesmo usufruindo das benesses de uma sombra e o sopro do vento que vem de um céu coberto por nuvens, comecei a entender realmente que não só a sociedade brasileira está na UTI, mas todo o planeta Terra. A doença do egoísmo e da maldade domina todo o sistema, onde, de forma excludente, não se consegue realçar a solidariedade como valor extremamente capaz de forjar um mundo mais humano e fraterno. È necessário que a perda progressiva do seu senso ético e o próprio individualismo como se fosse uma doença incurável, possa ser retirada com a inserção do bisturi do amor, juntamente com a raiz da justiça, que está sendo vilipendiada dia a dia possa se recuperar diante da opinião pública, deixar bons exemplos para que o povo sofrido, o indefeso, os mais fracos e os menos favorecidos possam enxergar uma luz no fim do túnel e quiçá, um dia, o mundo deixe de ser desigual.


Augusto Matraca e o Reino da Utopia.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Não sei se é minha imaginação criativa ou vivo num mundo que parece não ter existência real, ou qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade. Será que vivo realmente no Reino da Utopia? Parece que sim, pois de repente vejo que tudo vai ficando tão complicado que me assusta. Assusta porque o povo vai perdendo as necessidades; vai reduzindo a bagagem e aí vem à desesperança e a falta de dinheiro nem se fala. Escutamos as opiniões dos outros, mas não combinam com as nossas, são realmente dos outros, e mesmo que seja sobre a gente, não damos a mínima importância. O Reino vai se despedaçando e nós vamos abrindo mão das certezas, pois já não temos certeza de nada. E isso faz falta e muito, principalmente quando paramos de lutar por ele, quando não sabemos o que é certo e o que é errado ou se realmente existe a palavra certa ou errada. Será que é esta vida que cada um escolheu para experimentar neste Reino da utopia ou fantasioso. Todavia, entendemos que tudo o que importa é lutar por dias melhores, vivermos paz, sem medo de expressar a verdade, de lutar por aquilo que sonhamos, de fazer aquilo que é certo e que nos alegra, de realizar tudo aquilo que nos faz bem e que nos deixa feliz.
 
Ao lerem esta crônica peço para não confundirem o nome Augusto Matraca com personagem de um filme brasileiro “A hora e a vez de Augusto Matraga” que passou nas telas de cinema há décadas, ou mesmo com um instrumento de percussão formado por tabuinhas movediças, ou argolas de ferro que, ao serem agitadas, percutem a prancheta em que se acham presas e produzem uma séria de estalos secos; não confundir também com aquela ave passeriforme da família formicarídeos que tem o seu maior habitat nas regiões tropicais. Esta crônica também não foi escrita para falar sobre a matraca, aquele instrumento muito usado na roça para o plantio de sementes, entretanto, esta peça de quem falo foi usado por várias gerações, e hoje, o povo o usa como forma pejorativa e até cômica como meio de separar as pessoas educadas, responsáveis e éticas, das tagarelas, das falantes, mais conhecidas como “matracas”.

A história que vou contar, de forma ficcional parece fantasiosa, utópica, mas foi extraída de fatos reais que pessoas vêem e lêem diariamente nos jornais, rádio e televisão; notícias que mostram e falam de coisas espalhafatosas, escabrosas, horripilantes; notícias que falam de crimes do colarinho branco, seqüestros, pedofilias, assaltos, roubos, malversação do dinheiro público, peculato e ainda, sobre a corrupção generalizada e tantos outros males que infestam o nosso Reino, que, se tivesse que descrevê-los um a um, o editor do jornal teria que me ceder uma página inteira ou duas páginas para concluir esta crônica.

Bem caro leitor, o Augusto, personagem desta história, representa aquelas pessoas que diziam ou se dizem respeitados, venerados, magníficos, magnânimos, os maiores dos maiores... Pessoas que se achavam ou ainda se acham intocáveis e ninguém os deve contrariar ou subjugá-los porque se isso vir a acontecer, esse alguém poderia considerar-se “perdido”... Mas, perdidos estão eles, e sozinhos...

Certo dia, com o sol bastante escaldante no Reino da Utopia, eu adentrei num restaurante central, perto da Casa Legislativa, para degustar uma saborosa pizza quando ouvi um grupo de pequenos agricultores comentando sobre a corrupção que assola o Reino. Falavam também sobre a falta de segurança, a precariedade da saúde pública e tantos outros crimes e mazelas praticadas por autoridades públicas, alguns sequer tinham sido eleitos pelo povo, mas tinham lá seus padrinhos políticos.

Ajeitei uma mesa e fiquei atento naquele debate popular, até certo ponto caloroso, pois notei que tinham opiniões diferentes, todavia, como cronista não poderia passar para o papel os erros de pronúncia daqueles matutos agricultores, então resolvi usar as regras estabelecidas pela gramática normativa que ensina a grafia ou uso correto das palavras e o fiz para que a conversa entre eles ficasse entendível. Então segue parte da prosa:

- Compadre Zeca, eu já não agüento mais ouvir falar em política. Logo de manhã ligo a televisão e só escuto falação, é gente graúda querendo se livrar da prisão iminente, pois dizem que em razão de uma delação premiada e Acordo de Leniência firmada por membros de uma grande empreiteira com a justiça, dizem que quase duzentas autoridades públicas estarão “enroladas” com a dita delação. Vi, não só um, mas vários políticos tentando safar-se de suas próprias falcatruas aprovando na calada da noite uma mudança na Lei Anticorrupção para se beneficiarem, e o pior, é que participaram daquela discussão na Casa de Leis até Ministro do Supremo Tribunal Federal concordando com a alteração da mencionada, cujo ato se aprovado pelo Senado representará ao Reino um retrocesso em relação às conquistas obtidas por toda a sociedade e que vão contra a própria iniciativa popular, cuja propositura foi assinada por mais de dois milhões de pessoas. Logo ele, um Ministro, que devia dar bons exemplos para as novas gerações parecia concordar com as alterações. Na alteração dos dispositivos da lei anticorrupção se destacou o Presidente do Senado, Romão Galheiros, que no mesmo dia da primeira votação tornou-se réu no Supremo Tribunal de nosso Reino. Comenta-se também o alcance dela em relação a um ex-presidente do Reino, Senhor Gula Pietro Brás da Silva, indiciado no processo denominado Operação Lava-Rato, indivíduo que poderia ter se tornado um estadista respeitado e o seu nome gravado de forma honrosa na memória do povo, mas o único legado que deixou foi extremamente negativo: um Reino endividado, empresas falidas e com o patamar de mais de vinte milhões de desempregados e uma inflação galopante. Coisa de louco!

- Compadre, o tal ex-presidente ainda se acha santo e o mais honesto do Reino. Ainda bem que moramos no Reino da Utopia que nada mais é do que uma ideia de civilização ideal, fantástica, imaginária. Um sistema ou plano que parece irrealizável, uma fantasia, um devaneio, uma ilusão, um sonho. O tal ex-presidente quando discursava parecia que o povo é que era o culpado, e hoje, continua acusando todo mundo pela situação caótica em que vive o nosso Reino. Ele esbraveja contra tudo e contra todos, renega os companheiros presos, acusa imprensa, o governo atual e até a própria justiça. Ligo a TV vêm mais notícias... A “coisa” está preta, fora do prumo, compadre Neca! Ontem à noite quando eu voltava do trabalho assisti a um noticiário televisivo apresentado pelo jornalista Jota Luz da Pena onde mostrava assaltos, assassinatos, prisões de traficantes, crimes de pedofilia, mortes de policiais ocorridos em várias partes do Reino, tudo de forma repetitiva e cansativa. Mudo de canal e me aparece o barbudo que vocês todos conhecem, suando igual gambá, falando baboseiras desconexas e um grupinho de gente aplaudindo o discurso de uma pessoa com ares de esclerosada. Passo para outro canal e sabe o que me aparece? Um pica-pau inquieto, enjoado, de voz fina que há tempos vem dando trabalho para o seu dublador, o qual deve sofrer com suas espertezas. - Finalizou.

- É compadre Joaquim, depois de te ouvir chego à conclusão que o nosso Reino está fora do prumo mesmo! Além de tudo isso, tem muito político falando demais, mas tudo pra esconder as suas “maracutaias”. Esses sim são denominados de “matracas” que falam até escumar o canto da boca, não enxerga o próprio umbigo e nada produzem para o nosso Reino. Não apresentam propostas concretas para estabelecer a ordem social, muito pelo contrário... Tem administrador público e ou mesmo políticos que os apóiam não querem que projetos de interesse do povo sejam aprovados no Legislativo, mas se for, tem que ser do jeito que eles planejam, ou seja, desde que em beneficio próprio. Mas ultimamente as carapuças estão se enfiando, mesmo devagar, nas cabeças daqueles que se acham maior que a lei e acima da vontade popular.

- Concordo com você Toninho! Carapuça neles! Muitos desses que já nem ligam em usar a carapuça, continuam aproveitando da pobreza para angariar votos, dando-lhes míseras ajuda, mas esqueceram que todos querem é dignidade, emprego decente para sustentar a família.

- Toninho, você tem razão. Esses caras enganadores têm que ser punidos pela justiça ou serem excluídos através do voto – é a única arma que povo tem. Um dia eles vão cair na real, como já aconteceu com muitos que foram derrotados nas últimas eleições, vão ter que respeitar o povo e não continuarem dizendo de forma acintosa e desrespeitosa: “Estou me lixando para a imprensa e para o que o povo pensa”. Complementou Joaquim.

Enquanto eles discutiam, imagens e situações vividas no mundo político vinham à minha mente e de algum modo ao ver a maneira simples e até caipira de se dialogarem senti que tinham razão. Olhei para o lado, talvez aqueles pequenos agricultores nem tivessem percebido, estava bem pertinho de nós um dos nossos maiores personagens: O Augusto Matraca. Ele fazia parte dos esquemas, era um político astuto, corrupto ao extremo, que se considerava um ser superior, o maior de todos, “manda chuva”, mas, naquele momento estava cabisbaixo, com o olhar absorto, pensativo. Observei que ele se escondia atrás de óculos escuros e um boné enfiado no couro cabeludo, mas ouvia atentamente o bate papo daqueles humildes trabalhadores e ele parecia reconhecer de que havia muita filosofia de vida, conhecimento e discernimento político em seus comentários por mais que o português não fosse pronunciado corretamente.

Com certo receio de ser reconhecido, pediu a conta, pagou com cheque, talvez em formato de bumerangue e saiu de mansinho. Com o semblante preocupado aquele dito personagem, que eu o denominei de Augusto, passou rente à mesa de cabeça baixa e foi fácil observar que naquele momento as palavras dos trabalhadores tinham lhe tocado a consciência e talvez, colocado sobre sua cabeça, uma imensa carapuça, afinal, até pouco tempo detinha o poder, mas, agora, estava ali, sozinho numa mesa de bar, com receio de ser reconhecido ou até ser expulso de lá como vem acontecendo com outros políticos corruptos em restaurantes e aeroportos do Reino. Eu tinha a absoluta certeza de que o que lhe doía e muito era falta de atenção e os despercebidos olhares daqueles que o elegeu, que outrora o bajulava, os quais, muitas vezes, através de suas ações, boas ou ruins, dependiam da falta de escrúpulos e astúcia dele.

Flashes da vida em preto e branco

domingo, 27 de novembro de 2016


Se fosse descrever a minha vida ou mesmo tentar incluir a de vocês, eu diria que já vivemos momentos terríveis, alguns deles, têm-se a absoluta certeza de que foram fotografadas pela máquina do tempo em preto e branco, e na maioria das vezes, estas partículas ásperas retiradas da memória, revelaram alegrias, tristezas, encantos e desencantos insolúveis que foram repaginados para o futuro, em tons sépia com envelhecimento que se entranharam em nossa vida, às vezes, feitas realmente em preto e branco, porém, em razão da real situação momentânea que levamos, momentos estes retratados como se fossem uma coisa normal para quem não busca ou não consegue sair dessa anormalidade e quiçá, soltar as rédeas desse tempo e sair à procura do pincel da vida para colori-la de uma forma diferente, com amor, respeito, carinho e paz interior.

Em nossas vidas não existem tantas pedras preciosas. Existem pedras que são obstáculos naturais que se fazem retirar ou foram eternas imagens de alegria, onde a maioria procura receber tons alegres de lutas sucedidas de vitórias, realização de sonhos, símbolos muito difíceis, mas que angariam valores pelo resultado alcançado por cada um de nós. Toda pessoa sonha com um futuro melhor, ser bem sucedida em alguma coisa e isso é bom, pois todos vão alimentando de esperança o amanhã. Imagine o que seria de nossa existência sem ter com o que sonhar. Certamente ela não teria o mesmo sentido, visto que, às vezes, os sonhos nos levam a alcançar aquilo que parece impossível.

É certo que existem pessoas que vivem em preto e branco, desesperançado, desiludido. Todavia se pudessem ter um olhar mais simples sobre o seu modo de viver, poderia ser mais interessante, ou em ultimo estágio, procurar no Altar do Senhor Jesus o milagre tão esperado e o anjo da guarda para continuar enfrentando as labutas do dia a dia. Lendo a Bíblia, seja por inteiro ou não, sempre encontraremos palavras dizendo que Deus em sua infinita bondade, atribuiu a cada homem um Anjo, que acompanha todas as suas ações e passos; anjos que os protege contra os perigos do corpo e da alma, mas, infelizmente, a maioria deles parece que não se beneficia devidamente desse celeste protetor porque sequer se lembra que ele existe ou mesmo acredita nele. Os crédulos podem dizer que têm mais de um anjo. Quantas pessoas amigas nos protegem diariamente, sem contar aqueles que nos deixaram e se foram para outra dimensão, pelos quais oramos pra eles todos os dias. Podemos afirmar então que não temos anjos somente no mundo espiritual e ou mesmo no da imaginação, possuímos aqui na terra também, podem até serem poucos, mas valem quando vemos suas mãos estendidas quando mais precisamos.

Neste momento que escrevo, apago da minha memória o preto e branco para viver o colorido da vida. Sinto cair sobre mim um desejo ardente de agradecimento e até certo ponto inenarrável. Ao manusear o teclado do computador e passar para o monitor esta crônica, tive que me segurar o máximo para conter as lágrimas que ameaçavam sair de meus olhos, mas, como sempre faço nestes momentos, levanto a cabeça, olho pelo vão da janela e vejo o céu nublado com prenúncio de chuvas abundantes e aí respiro fundo tentando me controlar, afinal, eu não queria me parecer um fraco ou vitimizado perante essas pessoas que encheram minha vida de esperança e fé em dias melhores, haja vista que está longe o meu desejo que alguém fique decepcionado ou até sinta pena de mim. Quando ao papel de anjo que acho todos carregam dentro si, não posso nominá-los aqui, pois posso ferir alguém. Quantas pessoas especiais estão com a gente nos acompanhando de perto, diariamente, nos desejando muita alegria, saúde e paz? Quantas pessoas que nem precisam vestir-se de branco para ser nossos anjos da guarda? Quantas pessoas perambulam usando a máquina do tempo, sem os percalços impostos pelas curvas do destino? São seres sublimes que por meio de seus atos de bondade conseguem inserir em nossos corações durante toda a nossa existência a bondade, a perseverança, a dignidade e o amor ao próximo, fazendo com que seus exemplos nos façam agir também como anjos, todavia, para ajudar ou auxiliar alguém em um momento de necessidade, não precisamos ter asas, nem sermos anjos, basta apenas que tomemos a iniciativa de querer e poder ajudar. Pessoas amigas de verdade são raras, podem até não ter asas, mas se pedirmos para que sejam nossos anjos, elas reagem positivamente, deixam os flashes feitos em preto em branco, nos protegem e nos abrigam nas suas imaginárias e doces asas para que voltemos a viver o colorido da vida.


Bodas de "cabra macho".

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Diante do espelho de uma antiga penteadeira cuja moldura já estava corroída pelas traças Dona Francisca Cabribó observava seus cabelos compridos já grisalhos, às vezes os soltava ou os prendia no coque alto; rosto carcomido pelas intempéries do tempo, olhos cansados envoltos pela pele vincada por pequenas rugas; boca amarga travada para baixo, num desdém pelos sorrisos que já dera na vida, então pergunta a si mesmo se toda a sua vida é uma ilusão ou se é a corrosão de sua alma, do abandono de seus sonhos, do esquecimento de seus ideais ou de sua desistência da paixão? Evitava olhar no espelho e não mais importava ver como estava sua face que, talvez, quisesse esconder dela mesmo. Mas sabia ser difícil. Ela se lembrava sim, pois tudo fora diferente um dia e não tinha como esconder. Era cheia de energia, inquieta, transbordante, vivaz. Cabelos sempre bem penteados e por mais que ela vivesse em terra seca, árida e cercada por imensa caatinga, as maçãs do rosto estavam sempre coradas; os passos ágeis e os olhos arregalados, também estavam sempre prontos para absorver o mundo na sua totalidade. Num piscar de olhos vinha à sua mente aquela menina deslumbrada com a vida, correndo pela terra poeirenta de sol ardente como se estivesse carregando a tiracolo uma alma de criança. Sempre sonhou em morar numa cidade grande e viver de tear, confeccionar cobertas de puro algodão, bordar, tricotar, cujo ofício aprendera com a avó na Fazenda Serra do Cipó; casar-se com um príncipe encantado de cabelos loiros e montados num cavalo branco fossem para uma cidade grande e juntos, freqüentarem museus e ver obras maravilhosas, gente diferente e comerem guloseimas nos cafés oferecidos nos quiosques esparramados pela cidade, e à noite, se amarem no chão com loucura, sobre os tapetes bordados por suas mãos e pelas mãos angelicais de sua avó Ambrosina.

Quem não traz consigo um sonho não realizado? Quem não traz lembranças agradáveis de tempos de criança? Quem não se lembraria das brincadeiras de roda, amarelinha, passa anel, peteca, pata-choca, pular corda e tantas outras invenções, pois naquele tempo elas não tinham as dificuldades encontradas nos dias de hoje, pois tudo está colocado à disposição, mas havia outras opções para se divertirem? Pode ser saudosismo de dona Francisca, mas é importante voltar um pouco no tempo e recordar as horas em que se divertiam, inclusive, jogando conversa fora ou combinando traquinagem com as amigas.

Mas tudo tem o seu tempo e certo dia, contrariando todo um sonho, conheceu um jovem peão boiadeiro e logo se encantou com ele. Começaram a namorar. No começo mais parecia empolgação, depois se tornou sério e em pouco tempo, veio à aprovação da família. E, quando ela se deu conta já estava “amarrada” ao gajo, sentindo-se, talvez, que não era aquela vida que queria para si, mas de nada adiantava, pois já estava tudo consumado. Noivou-se. Sua família já olhava o casal com expectativa. Enquanto os sinos badalavam Francisca pensou em desistir e andou pela nave da igreja como o coração apertado. O jovem peão a esperava sorrindo e ela não resistiu ao seu encanto e se entregou. Casou. Teve doze filhos, netos e bisnetos. Grandes alegrias tiverem. Algumas tristezas também. Um amor ora era quente, ora morno. Rotinas de dona de casa eram o normal. Suas telas que foram trabalhadas pacientemente no tear iam se apinhando nas paredes da sala. Linhas de várias cores iam formando os desenhos imaginados e desenhados numa folha de papel. Os anos se passaram e certo dia, festivo, passou frente ao espelho ainda cheirando coisa nova, moldura mantendo resistência ao tempo, deu uma olhada de soslaio e se preparou para descer ao salão já ornamentado, onde encontraria toda a sua família e o marido, exceto a outra, a concubina, dia em que iria comemorar suas bodas de diamante, que ele insistia e até se vangloriava em chamar de “bodas de cabra macho.” Talvez fosse normal naquela região nordestina o homem convivesse com uma ou mais mulheres, cuja razão se desconhece.

Ele estava completando sessenta anos de casamento com Francisca Cabribó e noutra região não muito longe, a sua concubina Saturnina Fricó e seus doze filhos, mesmo sem sua presença, comemoravam também as bodas de diamante. Francisca Cabribó ficou sabendo da concubinagem poucos dias depois do seu casamento, mas mesmo assim, independentemente dessa famigerada convivência conjugal dupla de seu marido, procurou manter-se sóbria, feliz e suspirava todos os dias, pensando de como seria sua vida se tivesse feito outra escolha. Antes de descer a pequena escada do casarão feito de assoalho de tábuas e paredes de puro adobe olhou para um dos seus quadros pendurados na parede onde se via bordado uma paisagem primaveril, que ela extraíra de uma região que jamais conhecera e de outro lado, outro quadro, com uma foto, um peão, mas sem o cavalo branco, estava junto com um homem de olhos azuis, calvo, sentados num banco de madeira olhando os filhos brincar ao entardecer. Na foto tirada há décadas por um lambe-lambe, não era o tão sonhado príncipe encantado. Era o seu marido Manoel Justino. Todavia, como o amor falou mais alto, olhou mais uma vez e sua boca travou-se na emoção e no amargor que não vinha do café com açúcar que costumava adoçar todas as manhãs. Deu um leve sorriso e prosseguiu...

Sentado num confortável banco de madeira Manoel Justino jogava conversa fora com os filhos e amigos, mas os seus olhos não deixavam de contemplar o cair da tarde no pequeno sítio Mandruvá no interior do Ceará. Pela ribanceira um filete de água cristalina descia serpenteando entre os declives da mata nativa, cercada de pedregulhos, brejal e coqueiros, dando vida ao local e pouco adiante, cair em cachoeira, e por onde passava ia transformando em campos verdejantes, fazendo os ventos brincarem de montanha-russa e roçar os pés de mandioca e milho que se alastravam pela ribanceira até alcançar a parte do córrego Mandruvá, nome que deu origem ao sítio. Indiferente a tudo, as águas não viam as horas passar e tampouco tinha tempo para parar e ouvir as prosas contadas por Manoel Justino.



Carolina, a guerreira.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016


Ontem, 15 de novembro, comemoraram-se em todo o Brasil a Proclamação da República. Hoje, no entanto, mesmo sendo de suma importância essa data para os brasileiros, eu deixo de escrever aqui sobre este ato solene ocorrido há mais de cem anos. Se me permitem, quero é falar da saudosa Carolina que no dia 15 de novembro de 2011 se foi pra outra dimensão deixando além da saudade, uma história de vida exemplar, vivida nesta terra com muita honradez, humildade, garra e perseverança. A cada dia quando me lembro dela aprendo com meus erros ou acertos o quão é importante é saber que todo o dia vivo algo novo. Aprendo a vislumbrar o hoje e o dia de amanhã de uma forma diferente do de ontem e vivê-lo intensamente com muita paz e esperança, pois a vida é uma dádiva e cada momento vivido é uma bênção de Deus. Sei que ela passou dias difíceis naquele leito de hospital. Mas a vida é assim. Tem situações que parecem complicadas e custamos a entender. Pode ser incompreensível para muitos em se tratando de morte, não obstante sabermos que um dia ela virá com todo o seu mistério e que jamais será desvendado porque só Deus sabe o momento de subirmos ou descer os degraus da vida e nos mostrar o caminho da luz. Cercada de virtuosidades, dona Carolina deixou esta terra depois de uma luta intensa pela sobrevivência e ontem, quando se completou cinco anos de seu falecimento, senti-me novamente tocado pela dor e saudade restando-me a  reflexão e o desejo de lembrar-se do seu passado feito de muita garra, amor, sabedoria e virtude

Quais dos filhos não se lembrariam daquele pequeno ônibus onde ela, juntamente com eles, deixou a pequena cidade de Morrinhos, em busca de um novo lar, de uma vida melhor na Capital. Pela estrada de chão, esburacada, o ônibus seguia célere deixando para trás uma poeira fina que se esparramava com o auxílio do vento, apagando imagens de um passado como se nela tivesse sido impregnada a borracha do tempo, e lá dentro, sacudidos pela trepidação, outros passageiros também sonhavam com um mundo melhor, mas, receosos de não conseguirem alcançarem os seus intentos seguiam silenciosos. Pela fresta da janela passava o vento que acariciava o seu rosto triste, mas não impedia que sua mente contabilizasse os quilômetros emplacados estrada afora, e de forma sutil, seus olhos ainda tinham a sensibilidade de contemplar a natureza, cujos vales, serras e montes iam passando velozmente à medida que o veículo seguia rumo ao seu destino. O seu semblante jovem transpirava dor e saudade do esposo que falecera de forma trágica, no entanto, mesmo assim, soube manusear as rédeas do destino, frear e puxar  o cabresto que construiu usando cordas de ternura que acostava aos filhos, para, no momento certo, poder puxar, exigir ou se recusar, até de forma obstinada, qualquer coisa que lhe contrariasse ou entristecia seu coração.

Naquele ônibus, antes de afundar no seu mar de sonhos Carolina sabia que mais adiante, mesmo sem teto, não poderia se curvar diante das adversidades que surgiriam, pois teria que sustentar e agasalhar nove filhos,   talvez, fazendo faxinas em residências ou usando os carrinhos da vida para buscar peças de roupas em bairros distantes, lavá-las no tanque da integridade e pendurá-las no varal da vida sob um sol escaldante. Tempo em que talvez não tenha contabilizado; tempo que lhe consumiu o corpo e fez aparecer os     primeiros cabelos brancos protagonizados por este mesmo tempo.

Carolina viu os seus filhos crescerem imbuídos de responsabilidade, honestidade, dignidade e respeito ao ser humano. Carolina que mesmo doente se preocupava com tudo, cuidava de todos com esmero e carinho, servindo-se de modelo para seus filhos, netos, bisnetos e tataranetos, fazendo-os entender que o amor faz gerar sorrisos e que amar significava querer mais e mais de uma pessoa. Ela foi assim: sempre procurou ensinar corretamente, de forma que todos pudessem compreender os seus próprios sentimentos, quando na verdade, poucos compreendiam e, muitas vezes, lhe pedia aquilo que não podia dar.

Ontem, 15 de novembro, quando se completou cinco anos de sua “passagem” para outra dimensão, ela continua pulverizando sobre todos que a rodeavam, o amor e virtudes. Foi com ela o sorriso angelical; foi com ela o jeito simples de fazer crochê e tapetes que eram montados com retalhos de tecidos multicoloridos; foi com ela a vontade férrea de viver; foi com ela a batuta que regeu, como um maestro, a vida de cada um de seus filhos, tudo embalado pela sinfonia de sua própria vida. Mãe Carolina, seus filhos reconhecem que você deixou um legado de carinho, amor ao próximo e virtuosidade, por isso é que todos a consideram uma guerreira.  Mãe desculpe por escrever este texto como se eu fosse um escriba, todavia, o fiz assim para poder registrar nos anais da história a sua vida e ao final dizer-lhe: Mãe Carolina, você foi uma guerreira, amparou os seus filhos, me transformou num homem justo, ensinou-me o caminho da retidão e a defender os injustiçados. Caros leitores, ao finalizar, eu não poderia deixar colocar uma frase que vi num calendário: “Há muita dor que precisa ser curada, há muito choro  sufocado, há muita injustiça para ser vencida. Em tudo isso, a certeza de que só Deus é a resposta. Deus não explica a dor, mas, na cruz, ressuscita a esperança e o amor”


 
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