
Peito nu, calça caindo sobre a bunda e diante de um frio intenso, olhou para aquele prédio abandonado pensou: é só subir e pular do 5.º andar e pronto! Logo estarei com Amarília. A queda é curta; sei que a dor é surda, mas é inevitável. Imaginou seu corpo estirado na calçada entre os transeuntes que em suas pressas rotineiras, talvez, nem se importariam por tratar-se um delinqüente, uma vez que a ferrugem que alimenta a solidão tende a engasgar a garganta rouca das pessoas com palavras insolentes. A sua voz já fraca insistia em ecoar-se no beco enquanto a cidade devorava as almas em cicatrizes escondidas nas confusões urbanas e sequer sentiu que Pimpolho estava à beira do abismo prestes a despencar. Desabar ou deixar-se cair; era apenas mais um passo à frente, uma questão de segundos para despedir-se da vida e deixar que aquele transe profundo, dominado pela droga, o levasse de volta ao começo de tudo: o paraíso.
As luzes piscavam freneticamente diante de seus olhos enquanto reinventava desatinos costumeiros para desencorajar os que teimavam em consumir drogas que certamente, como ele, ficarão perdidos, abandonados pela família, pela sociedade e não terão respaldo para atravessar o longo corredor da solidão e escapar da dependência química. De alma vazia, deixa tudo espalhado pelo chão úmido dos becos da vida e nem se importa em perder a memória como quem esquece um papel importante, mas, sempre sabendo que a solidão rondará seus passos que se abrem diante do firmamento sem luz ou esperança de uma clarividência; antes que o sangue estanque, que o dia amanheça e possa dormir enquanto o mundo explode em centenas de manifestações desencontradas.
Pimpolho fugindo dos seus erros, mas, com o sorriso estampado em seu rosto, deu um passo para frente. Olhou para as estrelas que brilhavam intensamente no céu; lembrou-se do conselho sua amada Amarília, hesitou e deu dois para trás. Naquele 5.º andar um tiro de revólver cortou a escuridão. Uma bala perfura o coração de Pimpolho e o seu corpo cai lá das alturas tendo apenas a noite como testemunha. A marquise daquele prédio abandonado que lhe servira de abrigo por muitos anos agora jaz o seu corpo franzino.
VANDERLAN DOMINGOS DE SOUZA. É advogado e escritor – Membro da União Brasileira dos Escritores. E-mail: vdelon@hotmail.com Autor dos Livros: Uma Pedra no Caminho; O Mistério do Morro do Além; e Espelho das Águas.
VANDERLAN DOMINGOS DE SOUZA. É advogado e escritor – Membro da União Brasileira dos Escritores. E-mail: vdelon@hotmail.com Autor dos Livros: Uma Pedra no Caminho; O Mistério do Morro do Além; e Espelho das Águas.
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