Amigo leitor (a)

Amigo leitor (a). Quando lemos um livro, ou qualquer texto, publicados ou não, que são sinônimos do prazer, por mais simples que forem, sejam reais ou surreais, nos permite exercitar a nossa memória, ampliar nossos conhecimentos e nos faz sentir as mais diversas emoções, por isso, sensibilizado, agradeço a sua visita ao meu Blog, na esperança de que tenha gostado pelos menos de um ou que alguns tenha tocado o seu coração. Noutros, espero que tenha sido um personagem principal e encontrado alguma história que se identificasse com a sua. PARA ABRIR QUALQUER CRÔNICA OU ARTIGO ABAIXO É SÓ CLICAR SOBRE O TÍTULO OU NA PALAVRA "MAIS INFORMAÇÕES. Abraço,Vanderlan

Dê a seta o que é de seta

sábado, 6 de junho de 2015

Para intitular este artigo assim “Dê a seta o que é de seta” busquei no texto bíblico a famosa frase “Dê a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus”. Intitulei dessa maneira mais para chamar à atenção dos leitores motoristas que trafegam por nossa Capital. Essa frase foi de suma importância para definir o raciocínio de Jesus Cristo já que todos os imperadores romanos tinham o titulo de Cesar. Portanto ao proferir essa frase Jesus queria dizer que não era contra e nem queria peitar o império romano. O raciocínio Dele era assim: Dê a Cesar os impostos, as contribuições, que as leis exigiam e dê a Deus as orações, as adorações. Isso ele repassou aos seus discípulos, somente com a intenção de não misturar estado e religião. E é assim que eu entendo, mas no caso em tela, “dê seta o que é de seta”, dê mesmo principalmente quando for virar à esquerda ou à direita, porque Deus não quer misturar as coisas e deixar tudo ao seu livre arbítrio.

E foi nessa intenção de não querer peitar ninguém, apenas orientar e sensibilizar aos motoristas que não dão a mínima para a danada da setinha. Quando viajam por esse Brasil afora muitos deveriam fazer alguma coisa para melhorar a sua saúde, mas não fazem, ou seja, não procuram dormir bem e nem se alimentam melhor, não avisam aos familiares que vão chegar atrasados. Quanto ao sono, este é um assassino que não tem arma, mas se descuidarem, ele mata. No que se refere ao trânsito dentro de uma bela cidade como Goiânia, por exemplo, o sono não tem arma, mas o usuário de bebida alcoólica tem e mata, assim como, a danada da seta se não for usada pode causar acidente sério e matar. Não dar seta se tornou uma rotina e os motoristas sabem que não custa nada subir ou descer a alavanquinha. Para quem não sabe o que é seta, digo sem medo de errar que é aquela alavanquinha logo ao lado do volante, que, quando a gente aciona pra cima ou pra baixo acende uma luzinha do lado de fora do carro, sinalizando para quem vem atrás alertar que você vai virar à direita ou à esquerda. Pois bem, mas aqui em Goiânia a maioria não usa, tem preguiça de usar ou é imperícia mesmo. Além dessa alavanquinha tem um monte de outras coisas que as pessoas por aqui fazem, deixam de fazer e não deviam no trânsito. A seta é item de fábrica, vem em todo carro, sem exceção, está ali ao alcance da mão, é só esticar os dedos para movê-la de um lado pra outro, não desgasta por excesso de uso, não faz barulho e nem requer nenhuma habilidade especial para seu correto manuseio. No entanto, alguns motoristas de Goiânia simplesmente preferem ignorar sua existência. Será que querem transformar a experiência de dirigir no trânsito caótico desta cidade em algo inusitado, lúdico e surpreendente, tipo: ‘Para onde será que a seta vai agora?

Quando você está ao volante à coisa funciona mais ou menos assim: alguém está à sua frente, ameaça mudar de pista, fazer uma conversão qualquer; ameaça encostar, sair da vaga, entrar na vaga, o sujeito fica indeciso, esquece da seta, cabendo a você, e tão somente você, adivinhar qual a intenção dele. Nem adianta meter a mão na buzina, piscar o farol ou lembrar-se carinhosamente da mãe dele, pois não vai se abalar por conta disso. Você que vem atrás é que se vire ou se preocupe a tomar as devidas precauções.

Mas seria extremamente injusto de minha parte insinuar que os motoristas de Goiânia nunca dão seta. Essa seria uma generalização muito perigosa e, além disso, falsa. Claro que os motoristas daqui sinalizam de vez em quando como acontece com outras cidades. Por exemplo, aqui na Capital sempre avisam quando vão fazer alguma coisa que é proibida ou mal feita, ou seja, quando vão parar em fila dupla, frente a uma escola ou na porta da garagem. Ligam o pisca - alerta, como se avisando “vou ali rapidinho e logo estou de volta, agüenta aí colega”! E pra fazer uma conversão proibida. Aí não se esquece da seta e ainda usa as mãos pra fora para reforçar a sinalização que sabe proibida. O pior é quando vão encostar pra pegar um passageiro na calçada que não possui acostamento. É uma pista à direita e logo atrás estão muitos carros que precisam frear bruscamente pra não encher a traseira do sem-noção.

Quando você não é um sem-noção, um daqueles alienígenas esquisitos que sinalizam regularmente e o que vão fazer obedecem ao que é proibido, aí ninguém leva muita fé, acham que você está fazendo hora com a cara dos outros. Colam no seu pára-choque (seu não, digo, o do carro) porque não é possível que aquela seta pra direita signifique que você vai virar à direita de verdade, vêm a mil por hora porque não acreditam que você esteja realmente reduzindo a velocidade. E ainda passam metendo a mão na buzina dizendo: ô roda dura! Então você me pergunta: mas onde estão os valorosos agentes do trânsito, que deveriam ver essas coisas e botar ordem no boteco? Estão multando carros estacionados sem talão de Faixa Azul, porque multar carro em movimento dá uma trabalheira danada. Sim, esta é uma cidade que fechou a praça cívica onde estacionavam mais de dois mil veículos causando um transtorno danado no centro. Caro leitor, eu simplesmente cansei. Cansei de tudo, do mundo real, do palpável, do prático, do imaginário, do surreal. Cansei da visão fantasiosa sempre contrária ao mundo real. Cansei do trabalho maçante e de tudo aquilo que estressa; cansei de reclamar do errado e das coisas erradas, cansei daqueles que fazem denúncias vazias, caluniosas, difamatórias e não enxergam o seu próprio umbigo. Cansei da escada tortuosa construída até aquele andar onde esperava alguém descer, apenas descer. Cansei de passar pelo mesmo trajeto onde passam os imprudentes que irresponsavelmente fazem ziguezague com seus veículos na avenida. Cansei do bonito que a natureza mostra, mas sempre é desrespeitada; cansei da ilusão de beleza que se vê em cada rosto. Cansei, cansei mesmo! Então, o jeito é mudar para o interior, onde deva existir apenas uma rua, sem sinalização, sem cruzamento ou acostamento proibido, e lá, com meu possante, serei rei, mas não como os Césares Romanos



Lixos Humanos.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Raimundo Nonato vivia com sua família num casebre iluminado apenas por uma pequena lâmpada. Um amontoado de fios atravessava o teto coberto por restos de telhas alumínio que conseguira junto à construção civil. As paredes eram de puro adobe e a única porta possuía uma pequena tramela. Quando se adentrava ao pequeno barracão logo se deparava com um fogão à lenha soltando labaredas que se misturavam com o vapor que saía de duas panelas de ferro e dentro delas, minguados arroz e caldo de feijão. O calor era insuportável. No quarto, crianças desnutridas se amontoavam em pequenos colchões e silenciosas, ficavam olhando a figura angustiada do pai que debruçado no vão da janela olhava o nascer do sol, parecendo esperar por dias melhores e ver realizado o seu sonho maior possuir casa própria.

Anestesiados pela dor que pune as paredes estomacais pela falta ingestão de alimentos, aquele trabalhador e seus três filhos, desnutridos, peles corroídas  pelas intempéries do tempo, mesmo sentindo o mau cheiro que vinha do esgoto que corria a céu aberto, ainda conseguiam ouvir no pequeno radinho de pilha, os  sussurros, maledicências e descrições  metafóricas das sandices humanas. Ouviam estupefatos, comentaristas falando das ações de governadores e prefeitos que deixam o Estado e Município em penúria, que para eles, mais  pareciam cenas de filmes de ficção, e em tom conspiratório, eles abandonam os mais incautos, transforma-os em lixos humanos e nem dão a mínima para aqueles que os elegeram, mostrando uma desfaçatez absurda e curiosa que não se limitam a própria esfera de seus infortúnios políticos.

Não mais suportando estas decepções que a vida prega em todos nós pessoas de bem, tento corroborar na tentativa fajuta de escape de minha circunstância natural refutada pela aversão ontológica daqueles que mentem descaradamente para assumir e se perpetuar no poder, escarnecem-se do eleitor, do humilde trabalhador, do professor, do honrado, do honesto, de tudo... Falo daqueles que se esbravejam diante das minhas minúcias; falo daqueles inescrupulosos desguarnecidos em seu próprio habitat, que fugidamente retroagem aos gêneses dos ritmos das marchas fúnebres. Falo desses “seres” políticos que parecem posar na personagem maculada dos observadores mais atento que vêem neles figuras de  rostos-preguiças sentados em poltronas de anos de maledicências, apresentando silhuetas caricatas dispostas ao ridículo.

Os rostos desguarnecidos de qualquer compostura, demonstrando falta de zelo e respeito com a coisa pública, prática do exercício da improbidade administrativa, falta de consideração com o povo e aos órgãos públicos ou entidades que administram essas figuras políticas nefastas, felizmente, não chegavam aos olhos do Raimundo e seus filhos porque eles não tinham TV. Somente através dos comentaristas podiam absorver de cada palavra a profunda decepção em forma de pintura de escárnio, tal como aquela dor que sobe por nosso estômago e que muitas vezes nos levam ao vômito.

Ainda bem que o povo acordou. Ainda bem que começaram a respirar liberdade e extrair a dor que contraíram seus músculos de moralidade. Ainda bem que estamos começando a recuperar o tempo perdido. Ainda bem que voltamos a acreditar em dias melhores, na volta da ética e da moralidade pública, na felicidade do povo brasileiro, assim como, certos estão de que um dia não mais voltaremos a visualizar lixos humanos, como se eles, amontoados em seus casebres, fizessem parte de um teatro de horror, cujos personagens parecem ter saído de filmes que protagonizam cenas inenarráveis que estão lotando de infelizes os palcos da vida urbana. Se os olhos desses políticos por mais embaçados, marejados e míopes não verem; se os ouvidos deles não escutarem o clamor que vem das ruas; se todos os responsáveis continuarem empurrando com a barriga pode ter a certeza que a pobreza tende a aumentar e vai ocorrer uma revolta geral e em razão disso, o aumento da criminalidade como já vem acontecendo em todo País e também vai proliferar de uma maneira assustadora, incontrolável e destruir vidas, famílias e como conseqüência, aumentar os lixos humanos, todavia, espero que essa revolução social que todos almejam com a derrocada dos políticos lesa-pátria, dos corruptos, dos que subjugam e enganam o povo, dos que compram, dos que escravizam, do que fraudam eleições para permanecer no Poder aconteçam antes que estas linhas sejam denotadas de melancolia e decepção.




Se eu viajasse amanhã.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Se eu viajasse amanhã levaria na mala do meu coração a bolinhas de gude azul que numa tacada só, usando o dedão da mão direita, colocava-as uma a uma nas cinco covinhas feitas no chão batido; levaria as fincas pontiagudas que fincavam o chão rente às linhas imaginárias do terreno úmido do quintal; lavaria a minha bola de meia que recheava de palha de arroz; levaria minha tabuinha de pirulitos; levaria comigo a minha caixa engraxar que juntos, fizemos muitos sapatos brilharem; levaria comigo o som da fanfarra, dos trombones, dos toques das cornetas que alegravam os desfiles militares e estudantis ocorridos no Dia da Independência; levaria comigo o som gostoso da velha locomotiva, os sorrisos dos passageiros, os acenos de adeus e o apito sonoro do trem ao fazer a última curva da estrada despedindo-se das pessoas ribeirinhas; lavaria do jardim de minha existência as gotas de orvalho, o néctar das flores, as lindas manhãs primaveris, e longe dos holofotes, dos olhares humanos e burburinhos, levaria o silêncio do monjolo, o cântico dos pássaros, o cocoricó rouco do galo Barnabé anunciado um novo dia e a suavidade da água límpida que descia mansa sobre o rego d’água.

Se eu viajasse amanhã levaria na mala do meu coração o amor, a dedicação e virtuosidade de minha mulher; a disciplina e carinho de minha filha e filhos; a paz e amor de meu genro e noras, a pureza de minhas netas e netos, o sorriso angelical de minha saudosa mãe, o carinho desmedido de meus irmãos, irmãs, primos, primas, sobrinhos, sobrinhas, cunhados, cunhadas, sogro e sogra e as amabilidades dos meus vizinhos, da zeladora e porteiros do edifício onde moro.

Se eu viajasse amanhã levaria de minhas amigas e amigos editores, escritores, romancistas, poetas e articulistas os seus neurônios porque sei que de lá saem seus escritos, prosas e versos, dotados de ritmos e rimas que se extravasam em cada prolongamento das células e as quais me fazem cair em deleite e levam-me ao êxtase mesmo em noites mal dormidas. Levaria comigo a cantoria e o toque de viola do doutor Juarez, dos violeiros, sanfoneiros e percursionistas da Folia de Reis do Malhador. Sei que são muitos os amigos intelectuais e artistas, os quais, não caberiam aqui nesta pequena folha de papel, por isso me abstenho de relacioná-los. Se fosse possível, até rasgaria esta folha, relacionaria os nomes prazerosamente e jogaria o rascunho fora. Viraria a página, e do início ao fim, riscaria, rabiscaria e escreveria tudo novamente porque sei que estaria levando na mala de meu coração, além dos seus escritos, porções e mais porções de histórias inacabadas.

Se eu viajasse amanhã levaria a amizade sincera dos amigos e amigas da Casa Legislativa, do Ministério Público, das lides forenses, do Paço Municipal, das ONGs ambientais e Entidades Culturais, e da SEMARH, cujos colegas de trabalho sofreram comigo; levaria o carinho dos Brenos, do Antônio, da Taís, da Isa, do Jorge, da Giovana, do Joaquim, da Lia, da Alessandra, do Joaci, do Roberto, do Augusto, da Sandra, do Índio e seu arco e flecha imaginário, do Lívio, do Gerson, da Luiza, da Junia, da Marcela, do Chico, do Leonardo, dos Josés, das Tânias, das Jacks e de tantos outros e outras que guardo a sete chaves no solo fértil da minha existência e que se fosse possível relacionar um a um ou uma a uma, não caberia também nesta folha de papel.

Se eu viajasse amanhã levaria o carisma, o amor, a fé e a perseverança do Padre Luiz; levaria dos amigos e amigas dele, o companheirismo, a amizade e a fé inconteste em Deus, de cujo rol eu tenho a alegria e satisfação de fazer parte; levaria as mensagens das amigas e amigos blogueiros e internautas que muitas vezes viajam no mundo da imaginação na tentativa de levar esperanças àqueles que têm dificuldades para subir os degraus da vida; levaria àqueles que trazem no peito o choro sufocado e as injustiças que não conseguiram se safar; levaria, seja qual for o degrau ou estrada da vida a ser percorrida, seja qual a for dor a ser curada, seja enfrentando nebulosas ventanias, chuvas torrenciais, o sol quente queimando o rosto, noites e dias frios, pedras pontiagudas e espinhos, porque a mala do meu coração vai ser entregue numa dimensão onde todos poderão ser felizes e realizar seus sonhos.

Se eu viajasse amanhã levaria na mala de meu coração o intelecto, os dotes de espírito e inteligência do Batista Custódio, a meiguice e simpatia de Meyrithânia Michele, o intemerato e o jeitão revolucionário do Ulisses Aesse, a inteligência e a capacidade de Hélmiton Prateado, a simpatia e educação do Arthur, a competência e educação de Julio Nasser, do Taquinho e de toda equipe do DM, e todas essas benevolências humanas retiraria de minha mala, colocaria numa bandeja de ouro e entregaria ao querido e saudoso Fabio Nasser, não me importando em qual dimensão ele esteja, assim como, nessa mesma bandeja, com todo o meu apreço, juntaria o carinho e a singeleza da amiga Sabrina Richely, ex-integrante do Diário da Manhã.

Se eu viajasse amanhã levaria do Hospital Santa Helena as mãos firmes e abençoadas do Dr. Flávio, a competência e conhecimento medicinal do Dr. José Gilson e toda sua equipe; levaria o carinho e a prestimosa atenção das enfermeiras e auxiliares: Mayara, Nayane, Clarise, Lourdes, Silvânia, Lucely, Walkíria, Elaine, Antônia, Maria José e tantas outras dedicadas atendentes, conhecidas como as meninas de jalecos azuis; levaria tudo de bom que existe neste mundo porque a mala de meu coração é grande, todavia, naquele dia 8 e 9 de agosto de 2012, antes de o sol beijar o vão da janela e a lua se esconder no horizonte, fui surpreendido por uma chuva de preces e orações que inundaram a UTI do hospital e foi aí que entendi que não era minha hora partir. E assim, amigos e amigas, me desculpem por ter guardado esta crônica na mala do meu coração e reprisá-la novamente, para, nesse ínterim, alertá-los de que vocês vão ter que continuar me aturando por mais tempo, porque a minha vida pertence a Deus e depois daquele dia fatídico entendi que só ELE sabe o momento de enviar a “passagem” a cada um de nós. 



Fortunato e a pinguela.

terça-feira, 19 de maio de 2015


Fortunato era um pequeno agricultor, filho único, solteirão, trabalhador incansável, de boa estatura, olhos azuis, cabelos castanhos emaranhados até os ombros e morava com os pais à beira do Rio Corrente num longínquo rincão do mato grosso goiano. Certo dia, cansado das desventuras, começou meditar sobre como atravessar o rio, já que a única ponte de madeira ficava a cinco quilômetros de sua casa, então, sentou-se à beira de um barranco e começou a pensar... A solução era construir uma pinguela para encurtar o caminho. Do lado de lá, depois de atravessar a densa mata, chegaria mais rápido a igrejinha que em razão da distância participava pouco, e a construção dessa travessia era a solução, pois sabia que encontraria lá a linda jovem, professora, que faziam seus olhos brilharem e o coração bater mais forte. Ela possuía uma silhueta muito elegante, pernas torneadas, cabelos loiros, compridos, e quando a via andar pela estrada de chão sacudindo os cabelos ao vento, esta cena o deixava encantado. E não era miragem. Avexado, nem se atrevia a acenar com as mãos quando deixava a igrejinha, ou mesmo quando passava perto da escola onde ela ministrava aula às crianças do pequeno povoado. Aqueles momentos inusitados mais pareciam um sonho e a construção da pinguela era a única forma de se aproximar mais amiúde dela, de alcançar um sonho, ou talvez, acordar para a vida.

Sabendo que a travessia era insegura e a sensação de não conseguir alcançar a outra margem poderia ser sentida a cada passo, mesmo assim não titubeou, cortou uma enorme árvore que ficava às margens do rio e a ponta cheia de galhos caiu do outro lado. Foi até lá, equilibrando-se no tronco tal qual a um macaco, conseguiu aparar os galhos, tirar as lascas como faz um escultor e ainda amarrar nela umas varas de bambu para ajudar no equilíbrio. Pronto! Estava construída a formosa pinguela. Ficou observando a sua arte, chegou bem perto do barranco, olhou para baixo e sentiu-se como se estivesse num prédio de dois andares e depois, lembrou-se que além do medo de altura sofria de labirintite e ao podar os galhos sentiu isso. Entretanto, para quem sentia medo e não tendo alternativa, se viu obrigado a enfrentar a sensação da travessia, até porque precisava se encontrar com aquela mulher.

Passados alguns anos visitei Fortunato e numa tarde quente de verão, enquanto o sol se escondia no horizonte, fiquei observando atentamente aquela pinguela e aí me veio à mente que a nossa vida está repleta de momentos semelhantes. Muitas vezes somos forçados a atravessar situações difíceis, sem  nenhuma    segurança e equilíbrio. Muitas vezes pensamos até em retroceder ou sentar a margem daquilo que achamos impossível construir. O impossível no mundo de hoje é sobreviver ou viver em linha reta, avançar e superar obstáculos. A menos que a opção seja por não amadurecer e não crescer, mas sabendo que ultrapassar obstáculos faz parte do itinerário de qualquer ser humano. Chegará o dia em que será necessário que levantemos nossos próprios voos e experimentemos novos ares, pois somente consegue sucesso quem  avança independentemente da situação em que se encontram como foi o caso de Fortunato Simão Filho que enfrentou o seu medo e pode alcançar na outra margem o seu grande amor.

Vivemos num mundo de altos e baixos, mesmo para aqueles que se dizem seguros quando chegam ao ponto final.  Na estrada da vida muitas vezes somos quase que obrigados a passar por algumas “pinguelas” que balançam nossa estrutura interior. Damos alguns passos, chegamos a vacilar e muitas vezes nem damos  conta de que não há consistência quanto à direção a ser seguida, não obstante sabermos da necessidade de ir adiante mesmo não tendo toda a certeza e segurança necessárias para alcançar o que almejamos. Quando conseguimos passar pela pinguela da vida e pisar em solo firme é sinal que vencemos os obstáculos, superamos nossas limitações e sentimos mais leves e fortalecidos. A nossa vida é cheia de “pinguelas” e não adianta a gente querer se desviar delas, pois elas surgirão ao seu tempo e quando surgirem, nada de receio e ansiedade, pois, depois do esforço empreendido, vem à alegria de termos conseguido alcançar do lado de lá pessoas que ansiávamos encontrar e hoje a felicidade de tê-las com a gente do lado de cá, como aconteceu com Fortunato.


III ECHTEC: Um encontro de intelectuais em Goiânia para integração da América Latina e Caribe.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Ainda bem que fiz parte do grupo de curadores do III ECHTEC realizado no CRECI. Ainda bem, porque tive a oportunidade de conhecer pessoas importantes, artistas e escritores renomados e intelectuais que vieram de várias partes do Brasil e da América Latina. Ainda bem... Eu estava com um artigo já engatilhado para ser enviado ao Diário da Manhã, cujo conteúdo era falar da política atual, mas resolvi guardá-lo para a próxima edição, deixar de lado a imundice da corrupção, que, infelizmente, é a tônica das conversas em nosso país, e voltar para algo mais importante e construtivo para Goiás: escrever sobre o Encontro de Ciências Humanas e Tecnológicas para a Integração da América Latina, trazido para Goiânia com muito esforço pelo professor Jean Jardim, idealizador, cujo evento foi realizado no aconchegante auditório e hall do Conselho Regional de Corretores de imóveis – CRECI.

Esse encontro teve o objetivo de colocar Goiânia e o Estado de Goiás no cenário dos grandes pensadores, assim como, incentivarem os participantes a atravessar fronteiras e divulgar cultura local em outros rincões brasileiros e quiçá, em todo mundo, para, num futuro próximo, como primeiro passo, gerar uma eficaz e profícua integração intelectual latino-americana. O trabalho apresentado pelos expositores presentes ao Encontro, como o conceituado prof. Levy Emanuel Magno, promotor de justiça de São Paulo; professora Dra. Mercedes Alejandrina Alarcon, da Universidade Cesar Vallejo – Chiclayo, Peru; que tiveram como tema principal falar sobre: Redes Acadêmicas Latino-Americanas – Pontos de Interação, e as pessoas que participaram, seja através de palestras ou simpósios realizados na Faculdade Padrão, onde estiveram renomados debatedores como os professores Carlos Túlio da Silva Medeiros; Eduardo Devés do Chile; Dr. Carlos Roberto da Silveira, da Faculdade Católica de Porto Alegre; Francisco Giraldo, da Colômbia e tantos outros, que, de alguma forma, tornaram-se agentes construtores no processo de integração entre o conhecimento e a sociedade de um modo geral. Um dito muito comum dá conta que o brasileiro não gosta de ler. Tenho cá minhas dúvidas a respeito da veracidade de tal informação. Afinal, generalizar é algo perigoso e prefiro crer que o preço dos livros algumas vezes extrapola os limites financeiros do leitor e a forma de sua divulgação também ainda é precária e ineficaz. Mas o que dizer do escrever? Uma rápida passagem por instituições de nível superior basta para verificarmos que são muitos os alunos (mesmo daqueles cursos nos quais a boa redação é essencial) que deixam clara sua incapacidade para colocar no papel cinco linhas com coerência e correção, não é verdade?

É evidente que existe um abismo temporal que pode estar se refletindo na interpretação de cada um deles. Será que é a falta de leitura ou preguiça mesmo? De outra parte, a incapacidade de colocar no papel um texto bem escrito pode momentaneamente estar retratando o inconformismo desses alunos frente ao mundo caótico e sem perspectiva em que vivemos. Às vezes, ao ler uma pequena mensagem de alguém na internet observo que nem sempre são metricamente perfeitas, mas que trazem a marca de alguém que já encara o mundo com olhos de quem viveu o bastante para poder criticar, com certo humor e fina ironia, os tempos e os costumes, as voltas e reviravoltas que a vida dá, e isso é bom.

Eu sei que, pelo menos neste momento, é fundamental que todo meio acadêmico, de cultura e conhecimentos participe de todos esses Encontros, pois quem os traz para Goiás vêm com a tentativa de deixar Goiás com referência em pensar a América Latina e Caribe, assim como desejar o melhor desempenho da área de artes plásticas, da escultura, tecnológica, educacional e literária. Destarte, a sociedade da qual fazem partes esses intelectuais necessita de um evento como o que foi realizado nos dia 7, 8 e 9 de maio findo que os permitiram dialogar em todas as áreas do conhecimento, mormente com o tema que foi apresentado com muito sucesso pela conferencista cubana prof. Dra. Maria Tereza Ferrer Madrazo, bastante elogiada pelo público presente, assim como, os trabalhos expostos pelos artistas plásticos e pela Intellectus – através da Feira do Livro.

Muitos escritores goianos deixaram de participar, mas o importante é que os que compareceram se sentiram beneficiados com tantas informações trazidas por intelectuais de outros países, seja mostrando uma nova face da cultura em geral, da escrita que, por vezes, parecia quase incomum. E, permitam-me a aparente falta de modéstia, posso falar de cátedra. Há muito tempo dedico-me não apenas ao escrever, mas também, a despertar, nos meus leitores, a consciência da importância e da necessidade ter além do gosto pela leitura, redigir bem. E não tem sido uma tarefa fácil. Os exemplos são muitos e o espaço que uso é pequeno para o que eu gostaria de escrever. E não me interessam as opiniões dos críticos que podem apontar, do alto de seu conhecimento baseado nas técnicas e métricas do texto poético, as eventuais falhas nos meus artigos ou crônicas. Interessa-me saber que ainda há aqueles que, independentemente da idade, ainda se dedicam à difícil arte de transformar sentimentos em palavras e registrá-los no papel como procuro fazer, e no III Encontro, vi muitos intelectuais fazerem. Valor ou resultado não se sabe ainda. O tempo dirá, e se nada disser, não faz mal. Quem participou do evento fez sua parte, mérito, pois, para ele.



Bate papo com um mosquito.

terça-feira, 5 de maio de 2015


No mundo da imaginação ou do universo fantástico das fábulas todo absurdo é possível e permitido. O homem desfigura-se para compor o enredo, onde o bicho é coadjuvante. Homens se transformam em bichos, bichos se transformam em pessoas humanas, peixes voam, pássaros nadam, cachorro relincha, cavalo faz cocoricó, o pintinho pinta, pedras falam, bichos e homens conversam... E através da imaginação, podemos ir além dos nossos limites no tempo e no espaço, conhecendo assim um mundo inacreditavelmente real.

Através da sensibilidade da escrita, o escritor tem acesso à linguagem primordial, não somente do homem, mas também dos animais e das árvores. Quando homem solta os pensamentos eles voam sem rumo, carregando uma imaginação surreal, às vezes distorcida, talvez por pertencer a uma sociedade hipócrita, e já não se sabe, onde e quando termina ou começa a vida real, se é que existe. Distorcida ou não, a arte literária é uma manifestação de criatividade, de sensibilidade, de discernimento, de solidariedade, de simplicidade, mas não é, de maneira alguma, manifestação de conhecimento e nisso eu acredito e passo a régua.

Se colocarmos em discussão cientificamente a situação em comento, podemos afirmar que a pedra não é um ser vivo e pronto! A água desliza sobre o leito, mas não é um ser vivo e ponto final! O cachorro é um animal irracional, ponto e sem mais delongas. O homem é um animal racional e ponto final! Mas a questão é que estamos falando do mundo imaginário, surreal. Veja o título desta crônica: “Bate papo com um mosquito” E não é um mosquito qualquer. É com o chefe mor dos mosquitos, o Osama Aedes Aegypti Bin Laden e mostrar que podemos conversar com eles, com os insetos, com as plantas, com as pedras, com as águas, com os ventos... Então pergunto: Por que tantas pessoas se afastam da natureza? Por tantos tentam destruí-la para poder dominá-la? Não somos seres da natureza tanto quanto uma palmeira onde cantam canários e sabiás? Por que o povo não se une nos bairros para combater esse mosquito transmissor da dengue? Somos ou não somos maiores pelo fato de sermos seres que pensam.

Talvez, se não fosse à pergunta feita por aquele menino pobre estirado sobre um banco à entrada de um CAIS, bastante febril e com suspeita de dengue, eu nunca teria pensado em conversar com aquele famoso mosquito, acomodado há bastante tempo num pneu de trator, bem folgado, logo ali, num lote baldio. Mas o fato é que, de alguma maneira, esse famigerado inseto de pernas longas e magras já pensava em dialogar comigo. Eu ou qualquer pessoa jamais podíamos imaginar que ele estava ali junto com suas amadas se reproduzindo dentro daquele pneu.

Pois bem, todos sabem que o macho não transmite a famigerada dengue, mas dá suas picadinhas, respira como qualquer animal; ele morre e nasce e é um vivo ser que voa com o vento e brinca de esconde-esconde tendo ou não sol, tendo ou não chuva; reproduz em proporções gigantescas, ou seja, é um inseto de amor eterno, terno até demais com as fêmeas. Estas sim precisam de nosso sangue e transmitem a doença. Mas quem vai falar isso não sou eu, é o próprio Aedes. Eu sou apenas um homem que se preocupou com a situação daquele menino, que olhou e pensou, mas o que pensou o mosquito enquanto eu pensava sobre ele? O que estaria pensando enquanto eu descansava à sombra de uma árvore logo ao lado daquele lote baldio? O que estaria dizendo enquanto eu descrevia sobre sua magreza e impotência de transmissor? Por que deixa para a fêmea o trabalho de picar as pessoas que, infelizmente, não se preocupam em se desfazer do lixo que acumula no lote ao lado ou dentro de seu próprio habitat.

Estava observando demais a vida pregressa dele e quase me esqueci do bate-papo. Aproximei-me devagarzinho, e olho no olho, fiz a primeira pergunta:

- Há quanto tempo reside neste pneu?
- Tem vários anos, nunca fomos perturbados por qualquer ser humano. De vez em quando passa um carro soltando uma “fumacinha” fedida, mas de tão fraca não alcança nosso habitat.
- Por que o governo não consegue exterminá-los?
- Acho que ele não tem um projeto preventivo para eliminar os criadouros e combater nossas fêmeas transmissoras. A saúde pública brasileira está um caos e o povo não colaboram com a limpeza dos lotes baldios, dos vasos, pneus, garrafas, copos, tampinhas de garrafas, calhas, caixas d’água, piscinas, então, de nada valerá o trabalho da vigilância sanitária. Procriamos até em tampinhas e todos sabem disso! A incompetência do governo e a falta de colaboração do povo, jamais vão conseguir quebrar o ciclo de vidas dos mosquitos e eliminar ovos e larvas. O governo está até criando em laboratório mosquitos geneticamente modificado, mas tudo é forma de abrir canal para mais corrupção no Brasil. Finalizou dando um sorriso sarcástico bicudo.
- Quem é aquela fêmea toda desengonçada sobrevoando perto daqueles meninos? - Perguntei-lhe.
- É a Dina Russefe. Ela ruim e mente demais! É uma verdadeira sanguessuga. No criadouro dela têm os mosquitos Zenoinos de Castro, “os três em um” e o controlador, apelidado de Vaccari que tentou “picar” alguém importante e se deu mal. Dizem por aí que ele “meteu a mão” na rica mosquitinha Pietrabras, muita querida e respeitada por todos e se enrascou de vez, ficando sem o pré-sal que “salgava” as mãos do pessoal daquele criadouro, que, por sinal, é cheio de melecas e larvas... Aedes deu mais um sorriso, agora cheio de deboche, e antes de concluir, me perguntou: - Você realmente acha que está conversando comigo, um simples mosquito?

A pergunta me deixou encabulado, mas logo pensei: se sou escritor e viajo no mundo imaginação, então pode tudo. Como subterfúgio para que ele não mandasse sua amada se aproximar de mim com aqueles ferrões, respondi-lhe que sim e que podia ficar tranquilo que não ia denunciá-lo para as autoridades sanitárias e nem indicar o local de seu criadouro. Deixei o local pensativo e o fato acontecido, para os leigos, creio que só restarão descobrirem nesta crônica onde estão as metáforas, mas para mim, a imaginação de minha conversa com o mosquito era uma coisa real que ia além da imaginação. Tropos para uma fábula ou um acalanto, desses que invento para orientar, levar minhas congratulações e elogios a todos àqueles que se cuidam, fazem a sua parte no combate a dengue, cuidando de seu lote, de sua saúde e de seus vizinhos.
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A dor, o sonho e o repentista

terça-feira, 28 de abril de 2015


Em certos momentos não é fácil constatar se a dor é apenas de um fato fisiológico ou oriundo de nossa própria existência. No caso em tela, falo de pessoas que pensam, falam e sentem. Optei por falar do corpo humano, pois ele sofre quando se vê diante da dor que não pode ser considerada apenas a medida de uma lesão (infarto) ou de uma afecção (angina), mas o encontro íntimo entre uma situação potencialmente penosa, e uma pessoa humana imersa com sua própria situação dolorosa. Com efeito, inserimos na dor, crônica ou não, toda a nossa personalidade, todo o nosso sentimento e junto com ela, um antídoto que nos dá força e vontade de viver. A dor crônica é uma experiência aflitiva, intensa, persistente, invade nosso corpo sem pedir licença e se aninha nos órgãos vitais, nos ossos, nos músculos, tonando-os dolorosos e o medo da dor ampliam os efeitos colaterais como: fraqueza, imobilidade de articular e encurtamento de músculos e tendões. E como dói a danada da gota! Esse conjunto de dificuldades afeta a estabilidade emocional dos indivíduos, interfere em sua vida familiar e social e compromete suas atividades profissionais. Entre as crônicas existe a dor do parto onde um ser ou seres inocentes se despedem do útero que o protegia para receber o sopro da vida, mas também, existem as prazerosas como: a dor da saudade, do amor, do carinho.... Entretanto, não importa em que parte do corpo incomoda e permanece, tornando-se um mistério, se ela, prazerosa ou não, nos despedaça e abala todas as nossas referências afetivas, não obstante tentarmos viver em paz, em harmonia e fugir dos estresses e depressões diárias, para, no momento certo, sabermos de onde ela vem, se ela é verdadeira, psíquica, espiritual, que muitas vezes nos leva a perda de nossa auto-estima, da autocrítica e nos traz a tristeza, a melancolia, distúrbio do sono e a sensação de que a vida perdeu a graça.
  
Mas hoje eu e você vamos esquecer-nos da dor seja ela qual for e falar de sonhos, porque sem eles não somos nada, nunca seremos nada. Só posso dizer, quanto a mim, que tenho todos os sonhos do mundo. Pois bem. Numa certa manhã, durante um tour que fiz pelo nordeste, parei numa barraca montada à beira de uma linda praia, e descalço, sai caminhando a esmo deixando rastros indecisos sobre ela. O vento, sem pedir licença, trazido pelo mar revolto, serpenteava meu rosto sem pedir licença, alvoroçava meus cabelos, talvez, no intuito de querer fazer-me lembrar de coisas guardadas na região recôndita de meu cérebro e quiçá, também, das dores lá impregnadas. As ondas que vinham do oceano se esparramavam sobre a areia branca despoluída e não mais retornavam ao seu habitat e quando algumas insistiam, outras as empurravam de volta, num vai e vem de confrontos de forças que só a natureza é capaz de decifrar. Meus sonhos iam e voltavam com as ondas, mas alguns se esvaiam ao colidir com meu corpo já carcomido pelas intempéries do tempo, mas imunizado por uma força Divina sei seguiam outros rumos, certo de que, num dia qualquer retornaria a mim, talvez, com a com intenção de proteger-me do mundo profano.

Encarei várias ondas no afã de restabelecer os sonhos que se perdiam na areia ou eram levados pelo vento, e no calor de cada desabafo, restou-me retornar à barraca para continuar ouvindo vozes, o som  melancólico do mar e ainda, pouco depois, a voz rouca de um repentista.

A manhã quente avançava sobre os coqueiros que circundavam a barraca enquanto a viola do cantador soava desafios improvisados. Voltei os meus olhos para o lado cujos caminhos estavam embaçados pelo mormaço embevecido com a destreza daquele repentista que, na ligeireza de seus dedos calejados,  articulava rimas e construía cadências, enquanto outros visitantes ouviam forró vindo de uma caixa de som. Era uma disputa infernal, mas o poeta de cordel, mais conhecido como Carlito Alagoano, precisava ganhar o seu quinhão. Ao ver a sua insistência, lembrei-me de minha adolescência e das modas de viola e da grande admiração pela espontânea inteligência dos cantores sertanejos que montados em cavalos baios ou viajando em velhos ônibus, percorriam cidades do interior de Goiás para fazer suas apresentações, promovendo nos palcos da vida uma verdadeira batalha pela sobrevivência e, dessa forma, receberem como retorno, a fama e tornar-se e um lídimo representante da música sertaneja de sua região. O toque da viola do repentista e a lembrança de minhas raízes me fizeram voltar ao passado.

Quanto a aquele repentista procurei distinguir se naquele no momento não era um problema, pois, sem mais delongas, ponteava a viola e ia soltando versos no afã de persuadir-me, assim como aos burocratas freqüentadores daquelas barracas, todavia, sabíamos qual era a sua intenção. No final e muitas vezes no meio da entoação recitava versos rimando com o pedido: colabore com este cantador com R$ 20. Caí como a um bobo da corte naquele rincão nordestino. Esqueci de levantar o dedo indicativo e em riste balançá-lo negativamente. Perguntei a mim mesmo: Como não cair numa armadilha quando se recebe uma cantoria que está sendo destinada ao coração da gente? Ele queria ver a nossa reação, e olho no olho, colocar-nos diante de um espelho imaginário para mostrar o radiar de uma felicidade duradoura. Esta tática que o cantador repentista usou para receber um sorriso nosso, a compreensão e paciência, era, para, no final, me pedir para contribuir com uma “grana” a qual, para evitar alguma dúvida, já antecipava no teor de seus versos.  Meus dedos não sinalizaram o “não” para negar o início daquela apresentação e olha que o repentista rimou elogiando a minha postura, o meu peito peludo, os meus olhos castanhos, o meu jeito galã, comparando-me até com o ator global Antônio Fagundes. Abestalhado e não querendo ser grosseiro com aquele repentista que entoava versos espontâneos, acabei por desembolsar R$20. Recebeu a grana com um largo sorriso, foi embora caminhando lentamente entre as barracas à procura de outros incautos. Num repente ou piscar de olhos, não mais o vi, nem sua voz ou som de sua viola ecoar naquele recanto nostálgico. 

Por fim, a tarde caiu, ela veio sem nenhum aviso e estava tão bom que nem a vimos chegar, tal como o sol que já descia soberbo no horizonte beijando com seus raios multicoloridos as águas oceânicas. Foi um pôr de sol inesquecível! Extasiados, deixamos a praia ainda apinhada de gente e de pequenos pássaros que bicavam minúsculos alimentos trazidos pelas ondas, todavia, a emoção ao ver minha filha e genro felizes pela concretização de um sonho me bastava, me fazia esquecer tudo, dos momentos difíceis que passei e por fim, poder reviver somente sentimentos positivos que alimentam a vida e motivam sensações prazerosas.

À espera de um novo amanhã.

terça-feira, 14 de abril de 2015


Caminhando o capim seco doía em meus pés descalços, mas a curiosidade de menino era tanta que morria de vontade de ver lá de cima da serra o pôr do sol. A subida ou escalada, era sobre terreno íngreme, cheio galhos secos, pedras pontiagudas, e quando olhava para baixo, dava até arrepios. Hoje percebo que era muito mais além daquilo que enchia meus olhos e a minha curiosidade — a Serra da Urtiga. O sol visto de lá era diferente, ora pintado de amarelo, ora avermelhado que só um final de tarde no sertão tinha e ainda tem tal plenitude de beleza. Olhava deslumbrado, como se estivesse marcando no horizonte a distância de minha saudade que só meus olhos podiam calcular. Queria enxergar além da luminosidade e das tintas vermelhas que se esparramavam no horizonte. Mas eu era apenas um menino sonhador e lá de cima da Serra da Urtiga os meus olhos infantis brilhavam de forma utópica, talvez, esperando por um novo amanhecer. Quando ele chegasse é claro, o receberia de braços abertos, depois fecharia os olhos, trancaria a janela da alma para não ofuscar o sonho colorido que nela entraria e que mais tarde, talvez, como aprendiz de poeta, poderia transcrever tais cenas, certo de que elas ainda estariam impregnadas nas minhas retinas digitais.

Não sei se é defeito, mas tenho uma paixão pela natureza e principalmente, ver o pôr ou nascer do sol ou da lua. A grandeza do universo redimensiona minha pequenez diante da natureza. Lá de cima observava que ela é maior do que eu pensava. Ao mesmo tempo, ante os colossais elementos do universo, seja fitando as estrelas ou olhando para o cosmos, podia sentir a grandeza do mundo que pulsa e que é latente no universo da minha consciência. Somos grãos de areia em relação a ele, como nossas emoções o são, como são todas as características do nosso atual estágio de ser humano. Como a pedra bruta, a natureza em mim, dorme como a um anjo, assim como, a sua beleza estética que aguarda o esmerilhar dos séculos, nascendo do aperfeiçoamento do caráter.  

Lá de cima sentia a brisa ondulada acariciar meu rosto e deixava-me envolver por ela que não me dizia de onde vinha e nem para onde ia, mas isto não importava. Olhava as pradarias, as densas pastagens, o pequeno rio que a circundava, tudo era belo, magnífico! Era como se estivesse remoendo alguma coisa, não distante, com reflexões importantíssimas para a minha tenra idade diante da grande e futura jornada. Sim, o futuro também se imiscuía, fazendo-me sentir fora de uma realidade que já se forjava a partir de todas as experiências por mim vividas. Se fosse o meu olhar e usando a janela de minha alma, jamais conseguiria direcionar corretamente rumo à linha de horizonte, assim como, esta singela crônica não teria sido escrita. Mas foi e a usei como recurso da vida para que o tesouro possa ser extraído de um novo amanhã e seja mais valorizado. Meditar, refletir sempre, é o cinzel que manuseamos, é o fogo que molda o ferro, é a bigorna que bate no aparar das arestas.

Procurando olhar para além de mais além do horizonte, à espera de um novo amanhã, sabia que tudo desse mais além que imaginava era um mistério. Quem somos nós para dizer o contrário! Então, como falar de fim do universo ou do seu infinito, de sua intensidade e de seus segredos... Lá do alto da Serra da Urtiga a olho nu, só podia ver a beleza da natureza envolvida por densas pastagens, matas e terrenos férteis. Passei as mãos no rosto, não era mais imberbe. A vontade de rever aquele pedaço de chão me fez retornar ao topo da serra e sentar na mesma pedra. Tornei-me adulto e muito chão pisei durante minhas andanças longe dali, mas ao retornar a aquele local, voltei a ser criança, eu e o tempo voltamos a curtir daquelas alturas o lindo visual, sem nos preocuparmos se existiam ou não o fim do mundo ou infinito. Com o corpo são e mente sã, com alegria e tristeza disputando espaço em meu coração, com o mal e o bem se digladiando, mas o bem sempre vencendo, eu ali estava para me despedir de vez, com um definitivo adeus, sabendo que a única dor que me doeu mais que dizer adeus foi a de não ter tido a oportunidade naquele local aprazível de alcançar, sem atropelos, o infinito, onde, talvez, poderia me distanciar da terra e alimentar os meus sonhos em outras dimensões ou ir para além de mais além em busca de um novo amanhã. 


Em busca de sonhos perdidos...

domingo, 5 de abril de 2015


Luto tanto em busca de um ideal, de um direito de viver, de um direito de pensar, de um direito de falar, e quando tiver vontade, até de um direito de sorrir, então por que não me alimentar do direito de sonhar e buscar os sonhos que perdi?... Afinal, sonhar sonhos que me acalentavam vai muito além do meu viver, do meu pensar, do meu falar, do meu sorrir e não há lei que mensurem esses sonhos, ou sonhos meus. Tem gente que diz que não sonha – dormindo. O meu sonho, que é sonho real, me mantém acordado, deixa-me desperto à vida que passa por mim. Pelo menos sonho muito mais acordado que dormindo, assim penso eu.

Não vou apelar aos livros de autoajuda e nem de postagens que procuram definir sobre sonhos, por que acho que não preciso deles e nem neles terão definição, mesmo os que se foram ou se esconderam na região recôndita de meu cérebro. Quem procura livros que tentam definir sonhos é por que, ao que parece, não entende a mensagem subliminar deles que é o ápice de sinceridade ou da tentativa do autor querer defini-los, mas os meus não estão lá paginados. Eles são somente meus. Acho que para compreender o conteúdo de um sonho é preciso, antes de qualquer coisa, perceber o esforço de quem elabora uma autoajuda para pessoas que nem sonham, e quando acham as que sonham, não elencam os pormenores e nem catalogam de forma decifráveis os sonhos delas. Se o leitor aprender isso, entendo que é o básico, pode conseguir, talvez uma graninha, faturando com o lançamento de um livrinho da mesma espécie – aí, sim, a autoajuda ao leitor pode ser concretizada. Não acredito em outra forma, pois ninguém sonha igual.

Também penso que não preciso de permissão para sonhar meus sonhos, sejam sonhos reais ou imaginários, seja dormindo, ou acordado. Nasci com o direito de sonhar e pronto. A escolha é minha. Claro que, às vezes, não consigo controlar meus sonhos sonhados, enquanto durmo. Por isso tenho pesadelos, talvez sejam os mesmos que tiram o sono de tanta gente por aí, por aqui, em todo ou qualquer lugar. Mas, acordado, tenho o direito de sonhar todos os sonhos que almejo alcançar e recuperar os que já se perderam durante minha existência. O direito de reprisar sonhos é porque tenho a certeza que eles sempre estarão no mesmo lugar, fato que me dá direito de sonhá-los e reprisar aqueles que me fizeram bem.

Penso mais. Penso que sonhar é exercitar o máximo a minha liberdade. Ninguém tem nada a ver com isso, direta ou diretamente, para querer me “guiar”, ou proibir-me. Sonho o que bem entendo e o que almejo sim. Fim de papo. Há quem busque concretizar os sonhos sonhados. Isso já resulta em trabalho, obviamente, mas não é impossível, seja que sonho for. Outros preferem continuar refugiando-se nos sonhos sonhados, como se houvesse jeito de mantê-los distanciados da realidade vivida. Estão apenas fugindo do real.

Se o brilho do olhar denuncia os sonhadores e não há como esconder este fato e de exercer o direito de sonhar, então os meus olhos brilham. Quem sonha, sonha adiante do que vive e quando o sonho é bom, reprisa ou tenta reprisar. Isso é realidade. Certo dia, isto há bastante tempo, estava eu diante de alguém que verbalizava uma lista infindável do que me era proibido. Escutei tudo, em silêncio, enquanto eu pensava: Você pode me proibir de tudo ou quase tudo, mas eu vou continuar sonhando os meus sonhos, dormindo ou acordado. Sonhar para mim passou a ser vital. Mas o pior é que tem gente que não se acha no direito de sonhar e isto é lamentável. Já ouvi muita gente, envergonhada, contar que teve um sonho lindo com alguém, até meio íntimo, num lugar aprazível. Que bobagem se era apenas um sonho! Os sonhos, em geral, são uma experiência individual, abrindo um caminho para o interior de cada um. Quando você tem alguma pendência que precisa ser solucionada ele se repete, não importa qual noite, mas repete. O sonho se repetirá sempre que o problema estiver em evidência na sua vida. É um mecanismo da própria mente, que processa e assimila experiências da própria vida e cada um tem a sua, por isso os sonhos não são iguais.

Mas é claro que cada pessoa sonha de um modo diferente, próprio. Não existe um modo "normal" de sonhar. Tem gente que sonha um sonho bom com pessoas que sequer conheceu. Eu mesmo tenho sonhos repetidos, ora alçando um voo, ora passando por um mesmo caminho, ora subindo um muro, parede ou montanha cheia de obstáculos que não consigo vencê-los, mas quando realizo aqueles sonhos na vida real, eles não mais se repetem. É incrível isso! Às vezes sonho um sonho tão gostoso que não gostaria de acordar, mas se acordado, jamais desistiria de concretizar esse sonho. Há os sonhos reais, com pessoas reais..., mas acho que o sonho dormido ainda é pouco para alimentar a vida acordada. Vou mais longe. Se há interpretações quanto a sonhos, às vezes até inimagináveis, enquanto dormimos somente nós mesmos sabemos, “na íntegra”, o significado deles e da forma que os escolhemos sonhar. Nem sonhando, outras pessoas conseguem imaginar o que sonhamos. Isto é salutar, pois tudo isso é vida, mas é importante frisar que a vida também se acaba, assim como o sonho não alimentado ou vivido. Os sonhos que não forem buscados, assim como, se seus sonhadores ficarem ineptos pode envelhecer, principalmente, quando os abandonarem. Bons sonhos a todos, mas, por favor, não interfiram porque estou em busca dos meus!


 
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