Amigo leitor (a)

Amigo leitor (a). Quando lemos um livro, ou qualquer texto, publicados ou não, que são sinônimos do prazer, por mais simples que forem, sejam reais ou surreais, nos permite exercitar a nossa memória, ampliar nossos conhecimentos e nos faz sentir as mais diversas emoções, por isso, sensibilizado, agradeço a sua visita ao meu Blog, na esperança de que tenha gostado pelos menos de um ou que alguns tenha tocado o seu coração. Noutros, espero que tenha sido um personagem principal e encontrado alguma história que se identificasse com a sua. PARA ABRIR QUALQUER CRÔNICA OU ARTIGO ABAIXO É SÓ CLICAR SOBRE O TÍTULO OU NA PALAVRA "MAIS INFORMAÇÕES. Abraço,Vanderlan

Eram apenas gestos e nada mais...

domingo, 4 de outubro de 2015


Preguiçosamente apertei lâmpada do abajur que perscrutava as sombras dos gestos refletidos nas paredes, parecendo seres vivos saltitantes extraídos de filmes de animação, vivos como nunca, imagens que jamais refletira. O velho abajur geralmente iluminava debilmente o quarto fazendo a luz branda tornar todos os meus gestos romanticamente surreais. Todavia, de repente, a luz que a muito não acendia tão intensamente, surpreendeu-me com seu poder de claridade. Alguém deve ter substituído a velha lâmpada por uma de 60 volts. Os movimentos sombreados na parede começaram a acontecer como a um desenho animado filmado em câmera lenta e em formato de preto e branco. A imagem refletida na parede era febril e frenética, mas também estática, bastava ficar quieto. Os gestos de minhas idas e vindas retesavam-se na branca parede do quarto e lutavam para se libertar de um corpo estranho que se movia de um lado para outro e insistia em não liberar meus gestos ora embutidos naquela cena surreal, mas, fortificados com a presença da forte luz, escaparam do peso daquelas sombras e rejuvenesceu o meu coração que de tanto lutar já gesticulava incólume.

A luz brilhou mais forte e pensei que nunca acabaria. Olhei para um canto vi uma cama e berço vazios e sobre a cama e travesseiro, faltava alguém. Com os olhos ainda travados pelo sono, cabelos desalinhados, mãos calejadas em face da lida rotineira fiquei pasmo e uma saudade abateu-me sobre o peito. Faltava realmente alguém naquele espaço, alguém que me ajudou a curar as minhas dores e feridas; alguém que não reclamava de nada, nem das dores desconfortantes dos pés, dos joelhos, das pernas e braços, esfolados por quedas e estripulias que a própria vida gerou; alguém que naquela noite inusitada não pode ver o meu rosto ser iluminado pela nova e potente lâmpada do abajur. Alguém que se estivesse ali certeza teria de que a luz mostraria a face e o dom de sempre me envolver com a calmaria que a vida tantas vezes insistiu em roubar-me.

Gestos surreais, cenas realmente inusitadas, refletidas na parede, que naquela noite somente eu tive o privilégio de assistir: um corpo de mulher em movimento coberto por um lençol cheio de contrastes e cores, cabelos loiros, lisos, amparados por um travesseiro de espumas macias que, mesmo deleitando-se numa cama despida de macios lençóis, sobre ela afigurava a imagem de uma mulher guerreira e forte. Os gestos só podiam ser surreais mesmo, pois há dias não acendia aquele velho abajur e jamais pensava assistir cenas tão preciosas que minha mente jamais esquecerá. Mas, quanto á saudade é difícil imaginar mesmo quando se vê apenas gestos refletirem numa mísera parede. É uma coisa estranha que toma conta da gente, chega sem pedir licença e acontece quando menos imaginamos e aí vem saudade do seu cheiro, saudade de uma melodia que curtíamos que nos trazia boas recordações, saudade de uma simples palavra ou manifestação de amor; saudade daquelas imagens que foram se acoplando dia a dia na região recôndita de meu cérebro, mas, eis que a máquina do tempo surgiu e me envolveu, convidou-me a voltar a ser criança.

A mulher que se gesticulava nas sombras refletidas na parede pode ter costurado a vida de muitos entes queridos, usando a linha da verdade para que pudessem construir suas vidas com sobriedade. Mulher, esse alguém, que deixou a saudade invadir o meu peito e se transformou numa ponte de concreto e me fez retornar a mim mesmo; uma travessia moldurada de sabedoria, sem empecilhos, onde se vê bordada uma identidade muitas vezes esquecida, perdida na pressa que me levou ou que me deixa levar.

Hoje, ao olhar para os gestos e falar em saudade dela é dizer o óbvio, é devolução, é ato que restitui o que se parte; é luz que sinaliza o local de nosso porto seguro, é voz mansa no ouvido que nos acalma nas madrugadas de desespero e solidão.  Mas, naquela noite, ao acender a lâmpada do abajur e ver aquelas cenas refletidas na parede não me restou alternativa senão em finalizar este artigo em uma única frase: O poeta tem diante de si vários sentimentos: o real, o palpável, o prático, o surreal, o imaginário, visões fantasiosas, e quando escreve, muitas vezes objetiva levar ao leitor uma mensagem de amor, esperança, fé, e intencionalmente, deixa de dedilhar o teclado do computador e o substitui pela caneta-tinteiro injetando nela a ruborizada tinta de um coração ferido pelo tempo no afã de aferir a sensibilidade de cada um, mormente quando virem perscrutadas as sombras da pessoa amada refletidas na parede.


Calou-se uma voz

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Certo dia eu fui conversar com o amigo Matusalém, fumante inveterado, que bebia em demasia e conversava tanto que até espumava o canto da boca, esse fato nos fazia lembrar de certo político goiano. Era uma pessoa boníssima, alegre, cantava, tocava violão e era realmente bastante comunicativo, mas não posso negar que tinha dificuldade de conversar com ele, pois além do cheiro do cigarro, ele realmente falava demais. Eu o conhecia desde os tempos da jovem guarda, então, o que eu podia fazer? Conselho já tinha dado tantos! O jeito era continuar aguentando, a escutá-lo e nada mais. Podia-se dizer que ele era uma pessoa que "falava por mim" ao invés de se envolver com o meu curto palavreado. 

Como não sou de conversar muito, apenas o suficiente para o bom entendimento, esses tipos de pessoas parecem ter uma capacidade infalível para me encontrar, estando sozinho ou não. Posso estar relaxado num canto qualquer, conversando tranquilamente com as pessoas, mas em segundos, quando aparece esse tipo de gente mais pareço um animal assustado. É como estivesse diante de faróis de um carro. Fico embaraçado e perplexo diante do impecável monólogo dele ou deles, e preso, como se estivesse numa armadilha, incapaz de escapar e buscar a minha liberdade perdida.

Difícil é o tagarela entrar no ritmo meu, mas ocorre, visto que ele não se incomoda com preliminares sociais e ainda exibe uma incrível habilidade de escutar, mas quando volta a falar, o faz sem hesitação e até mesmo sem respirar. E isso às vezes a gente suporta em razão de um vasto estoque de informações que carrega e que contém muitas vezes temas favoritos nossos, principalmente, literatura, artes e até futebol. Interrompe-los ou conseguir um aparte jamais nós devemos fazer isso, pois eles têm suas estratégias. Não resistem momentaneamente, olham pra gente sorrateiramente enquanto murmuramos nossas tolices, e no momento em que vacilamos, eles continuam de onde pararam - como se a gente não tivesse falado nada. E o pior é que não falamos mesmo! O tagarela incessante não se distrai com tais irrelevâncias. Tudo que importa é transmitir o que está em sua mente.

Quando estou diante desses indivíduos gosto de observar com atenção a sua fala no afã de descobrir não apenas o que eles pensam e fazem, mas porque pensam e fazem. Para o tagarela uma coisa é certa, ele não é motivado pelo incentivo. Longe de incentivá-lo, eu e os meus leitores/vítimas tentamos é evitá-lo.

Alguns indivíduos estão envolvidos em seu próprio mundo - egocêntricos, simplesmente não estão interessados em nós ou em nossos sentimentos. Eles nunca aprenderam que o diálogo sadio e comunicação entre pessoas é uma troca de ideias, sentimentos e informações mútuas, todavia, durante minha observação descobri que essas pessoas são tímidas e até certo ponto nervosas e que suas conversas também bloqueiam o seu próprio diálogo, trazendo o medo da interação e a sua forma de tagarelice, nada mais é do que manter-nos à distância. Eles acham que são interessantes e que os outros gostam de ouvi-los. Eles acreditam que comunicação é entreter pessoas ou de lhes fornecer informações, nos deixam hipnotizados, sobrecarregando a nossa mente, inibindo o nosso pensamento, confundindo-nos com suas falas monotonamente compassadas.

Mas voltemos ao meu amigo Matusalém. Naquele dia observei que se encontrava bastante calado, para mim, anormal. Eu puxava conversa e nada. Notei que alguma coisa tinha acontecido. O seu semblante estava triste e os olhos avermelhados. Cabisbaixo, soltou um sorriso pálido, deixando de lado suas habilidades tradicionais de um grande comunicador, esvaiu-se a sua simpatia e como bom ator, escondia o que se passava com ele. Procurei fazer umas graças, contei piadinhas, mesmo sem graça, mas contei. Tentei ser tagarela igual a ele, mas nada funcionou. Pensava comigo mesmo: Será que naquele dia queria em que fui visitá-lo queria jogar um jogo diferente ou queria que eu o notasse de verdade. Percebi sim, mas apenas diferenças no seu modo olhar, de como se cuidava ou como fazia para escapar, de como passar-se por ofendido, magoar-se ou até, em certos momentos, recusar-se a perder o seu tempo com a gente. Mas a minha obrigação de amigo era lembrar-lhe de nossa amizade e que podia confiar, todavia, qual foi minha surpresa quando ao ler um diagnóstico jogado sobre uma mesa, simplesmente constatei que às vezes pertencemos a um bando de calados, que às vezes fingimos de cegos ou de surdos diante de certas situações. Então, sem ele perceber, eu peguei a pequena anotação médica e comecei a ler: “O câncer da língua, garganta e pulmão não são o mais frequente de todos, no entanto costuma manifestar-se em fumadores ativos e em pessoas que bebem bastante, e que com o passar dos anos, a sua presença dentro das estatísticas vão aumentando. É mais comum nos homens do que em mulheres, esta doença conta com um bom prognóstico de recuperação se for detectada a tempo, por isso torna-se importante saber quais são os primeiros sintomas de câncer da língua, especialmente se encontrar no grupo de risco.” Fiquei perplexo!

Sabemos que viver muito é somar perdas, é ficar inchado de coisas que nos vão deixando pelo caminho. Raramente, os que morrem assim, são os preferidos de Deus. Morrer assim é como um ícone romântico que deixa hígida, festiva a imagem do morto, de toda sua vida e do que poderia ter ocorrido durante sua existência. Todos os sonhos e realizações. No álbum de fotos do amigo era fácil observar o permanente sorriso celebrando a vida e a juventude. Era fácil ver no seu jeito alegre e a forma de como enfrentava o dia a dia, de como enfrentava tardes sem pôr do sol, ou de crepúsculos opacos, avermelhados ou cinzentos. Mas naquele instante além do seu álbum, observava mais que tudo, as defecções, as fugas e a crescente solidão de ver grupos de pessoas amigas nos deixando, assim como ele, indo para outra dimensão, enquanto outros, aqui na terra, se encolhendo a cada dia, como aconteceu com Matusalém, dias depois, num leito de hospital, onde ficamos sabendo de sua grave doença. Atônitos, ouvimos ali o último suspiro, calar-se uma voz e vimos o grande amigo tagarela deixar este mundo para sempre.


Quando fazemos nossas escolhas será que sabemos das consequências?

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

 Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências”. Frase de Pablo Neruda, poeta chileno, nascido em 12 de julho de 1904, um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX. Foi cônsul do Chile na Espanha e no México. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1971.


As escolhas podem ser feitas por mim,  por você, ou por qualquer pessoa, mas temos que ter o máximo de cuidado, pois as consequências podem atingir muita gente. (Eu).
O poeta realmente estava correto. Certas escolhas que fazemos em nosso dia a dia podem realmente determinar o rumo de nossa história. São de extrema importância e muitas delas precisam de cautela antes de ser tomadas, pois podem determinar o caminho para a felicidade ou para tristeza ao longo de uma vida. Nós, literalmente falando, colhemos as consequência pelas escolhas que plantamos. De alguns conceitos que procurei extrair no tocante a escolha e suas consequência, embora não tivesse contato com nenhuma pessoa ligada à área, alguma das opiniões que coloquei aqui creio que, com o passar dos tempos, mudaram. Entendo que certas afirmações foram um tanto quanto radicais, mas não discordei taxativamente de alguns pontos de vista até que me convencer e poder publicá-lo no Diário da Manhã. Na verdade, podia ter lido sobre o assunto nalgum lugar, num livro qualquer, mas a memória falhava. Esquecia de lembrar ou esquecia-se de esquecer. Em certas circunstâncias, era vantagem ter péssima memória, pois me divertia com a situação, voltava ao lugar onde achava que tinha lido ou perdido, mas não me lembrava do que ia procurar, dava um “branco”, uma pane momentânea na memória. Sabia que podia ser coisa importante, mas infelizmente, não era a primeira vez que acontecia. 

Viver, queira ou não queira, é uma escolha. Ambos os sentidos dessa frase são verdadeiros: pode-se acabar com a vida morrendo, do nascimento à morte, surgindo situações em que duas ou mais escolhas nos são apresentadas: os novos caminhos que você deverá seguir. As circunstâncias dessas escolhas são as mais variadas, algumas têm consequências mais simples enquanto outras são mais complexas. A partir das consequências é que deve se tomar a real decisão, todavia, hão de se convir que esse seja o problema que está levando o mundo ao caos. Não é simples levar em conta no que culminará numa decisão precipitada ou não. Nota-se que quanto maior o grau de instrução de uma pessoa, maior a chance da decisão tomada ser a melhor possível. Como o grau de instrução da maior parte da população brasileira é baixo, as pessoas tomam decisões precipitadas e sem levar em conta as consequência.

Além das situações em que a escolha é responsabilidade da pessoa, existem situações que fogem do controle opcional. O indivíduo que não tem oportunidade de ter educação, o que é de direito de qualquer cidadão e falta aos brasileiros, tende a não tomar as decisões mais corretas, podendo arriscar sua vida por isso. Considerando o derrotismo e o sofrimento de uma falta de emprego e de não poder dar o melhor para os filhos, o pai pode desesperar-se e passar a praticar crimes para conseguir dinheiro. Enfim, todas más escolhas dependem de uma série de acontecimentos precedentes na vida e que muitas vezes a culpa não se deve aplicar a esses indivíduos. Se os acordos que existem entre os seres humanos fossem cumpridos, principalmente no que diz respeito aos governantes, a situação sem dúvida melhoraria.

Outro fator que interfere ultimamente nas escolhas é a transformação do que é cultural em natural. As coisas consideradas erradas passam a ser aceitas como certas. A busca desenfreada de estar à frente das outras pessoas monetariamente, o racismo, os preconceitos e outras situações foi criada pela cultura e são consideradas naturais. É interessante perceber como, atualmente, a maioria das pessoas tem uma grande dificuldade para lidar com as consequências de suas escolhas, alguns, consciente ou inconscientemente, procuram culpados para justificar seus próprios sofrimentos. Sim, vivemos uma concreta crise no senso de responsabilidade, em que muito se escolhe e pouco se quer arcar com as consequências do que se escolhe.

Urge, mais do que nunca, aprendermos a arcar com as consequências de nossas escolhas, sabendo que somos os reais protagonistas de nossa existência e que esta só poderá acontecer com qualidade, se por ela (qualidade) decidirmos em cada fragmento que compõe o nosso todo. De outra parte, temos de resgatar a capacidade de escolher com clareza, tendo diante de si a consciência concreta das consequências do que vamos acolher. Nossa vontade precisa ser forte, pois só assim ela poderá acontecer com liberdade e segurança, sem ser condicionada a vícios ou paixões que a deixe opaca e fragmentada.

Diante disso, acredito que todos, indistintamente, precisam permitir aos seus entes queridos e pessoas de seu convívio a enfrentarem todos os sofrimentos causados por suas más escolhas, pois, se eles se ausentarem disso nunca conseguirão crescer e acabarão aprisionados dentro de si mesmos, sem uma reta consciência das consequências daquilo que na vida um dia eles terão o ofício de escolher. De outra parte, é extremamente necessária esta compreensão: Muito em nossa história dependerá dos outros e principalmente de Deus, contudo, muitos dependem somente de nós e das escolhas que fizermos e, culpar esses outros porque nossa vida não é tão boa, não eliminará definitivamente as dores e problemas que configuram nossos dias.

Será que o medo é real? Como vencê-lo?

domingo, 13 de setembro de 2015

O tempo vai passando sem pedir licença e quando a gente menos espera visualizamos no espelho da vida algumas escolhas que deixamos de fazer, tudo isso em razão do medo de recomeçar, do medo da mudança, do medo da desconfiança, do medo da recessão, do medo da ingratidão, do medo da fome, do medo da doença, do medo da dor, do medo da morte, do medo de trocar o certo pelo duvidoso, do medo de largar aquilo que nos parece “melhor” ou mais correto; do medo de buscar algo que nos instiga por dentro, esse algo que ainda não é concreto, mas que vive e respira em nossa mente. Mas diante do medo, se ficar acomodados, é como ver a vida passar como a uma folha seca que, ao se desprender do galho, é levada pelo vento, sai planando no ar, sem rumo, sem escolha alguma, simplesmente deixando-se levar. Igual a ela, às vezes, fazemos de nossas vidas assim e como não podemos ser carregadas pelo vento, deixamos nossas escolhas nas mãos do próximo, e nessas mãos, uma carga bastante pesada e aí, passamos a viver na inércia, acomodados, voltados mais para nossos desejos e sonhos, talvez seja por medo de ter medo.

Hoje o que nos estaciona no tempo é o medo, medo de realmente encarar a realidade, medo de enfrentar desafios, medo de encarar o próprio tempo que ainda nos resta, medo de nossos próprios semelhantes. Sabemos que ele não nos leva nem pra frente, nem pra trás, aliás, ninguém regride na escada da vida, tanto pessoal, profissional, espiritual e que estão sempre em evolução, mas acomodam-se, e muitas vezes, estacionam-se num mundinho que criaram, ficando anos e anos assim, tudo graças ao medo que toma conta de nossa alma. Não podemos aceitar isso, não podemos deixar que nossas escolhas fiquem presas nas grades do aleatório. O que nos garante que muitas vezes aquilo que tememos vai acontecer? Nada nos garante, mas o nosso pensamento faz-nos crer que o que tememos vai mesmo acontecer. Então pergunto: Quer desafiar a sua cabeça e experimentar? Sabemos que ninguém veio a este planeta terra por acaso e além do mais, Deus nos deu o livre arbítrio para agir, viver a vida, mas temos que saber que ela vai querer mais da gente. Então, resta-me dizer: saiamos da inércia que não nos leva a nada, levantemos nossa cabeça, enchamos nossa alma de valores éticos, morais, espirituais e creiamos num mundo melhor, sigamos em frente com caminho escolhido, pois o medo servirá apenas como um alerta e fará com que a gente repense tudo, que não devemos parar quando a estrada for incerta. Devemos abrir os olhos do nosso coração, sentir a magia que é a vida, vivê-la intensamente e aproveitar cada momento. Quando sairmos da inércia e dermos o primeiro passo, o outro já estará dado.

Sentimentos eu tenho, você tem, todos têm, mas dentro de mim ele quer crescer, mas quando começa a crescer basta ver uma foto pendurada na parede, de um ente querido especial que já se foi para outra dimensão; basta ver sobre a escrivaninha uma frase de amor, fé e esperança escrita numa pequena folha de papel, frase que faz com que eu me escondo dentro de mim mesmo, frase que fortalece e que me faz ir mais além, frase que indica onde encontrar pessoas de bem, ainda mais sabendo que elas são seres inocentes, frase que se um dia ler em qualquer lugar e conseguir interpretar entenderá o porquê dos meus sentimentos. Frase que me libertou e que dá o poder de libertar, de crescer, ou simplesmente sair da inércia e ir para a luta, pois, caso contrário, não conseguiria ir mais além por conta dessa barreira imposta pelo medo. Eu sei e você sabe muito bem o que representa essa pequena palavra medo. Nela reconhecemos o estado de alerta que sentimos num momento de risco (real ou imaginário): O coração, sem aviso prévio, começa a pulsar descompassado,  as mãos tremulam frias e suam, as pernas bambeiam, perdem o chão, a voz começa a travar, vem uma zonzeira e um sufoco no peito que toma conta da gente. Esses descompassos em nosso corpo são simplesmente momentos de reativação, acionados, ora por associações emocionais negativas, ora por registros primários, instalados no nosso centro instintivo. Esses últimos como soldados de nosso instinto de sobrevivência, se prontificam a nos dar respaldo em situações reais de alerta.

O medo de encarar a vida faz-nos estagnar no tempo, faz-nos voltar á estaca zero, confiança zero e tudo o que falarmos será em vão... Não sabemos mais como agir, falta-nos argumentos, fogem-nos as palavras, o medo vem e nos domina, mas não quero descrever aqui nesta pequena folha de papel o meu medo, apenas, junto com você, aprender a dominá-lo.

Deveríamos agradecer aos problemas que surgem diariamente, porque são eles que nos movem nas áreas em que estamos paralisados. Às vezes estamos tão acostumados a essa inércia que nem percebemos como poderíamos melhorar. Mas daí vem um problema que nos obriga a mover toda nossa energia para um deslocamento na situação, uma melhoria em nossa vida. Isso pode ser uma mudança de hábitos, uma nova postura em relação às pessoas, um novo curso ou o final de um ciclo de coisas já esgotadas, que se dependesse da gente não moveríamos por encontramos em situação confortável. Só perceberemos bem essa mudança depois de sabermos o quanto aquele problema foi útil e a transformação interior que veio mansa nos envolveu. Se tivéssemos uma visão crítica, de reconhecermos a nossa inércia perante a sociedade em que vivemos, de conseguirmos observar as áreas paralisadas da nossa vida, de deixarmos de ter medo de tudo e do próprio medo, podem ter a certeza que problemas não existiriam. Por outro lado, a vida é como uma continuidade em movimento e não como uma série de  rupturas. Cada medo que você reconhece ter e o enfrenta nada mais é que uma oportunidade que tens de se superar e crescer. Mais que um adversário, ele pode ser um mensageiro de novos tempos, indicando que melhores horizontes estão à sua espera. Então o que posso lhe dizer para vencer o medo: Contate-o, enfrente-o e siga adiante. (Leia Salmo 146). Paz e bem.



Sabrina, uma morena de periferia.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

                  (Crédito ilustração: Akeno Kurokawa/Aline França).
Sabrina era uma menina de periferia que queria viver bem, ter uma família, e quando sair, receber uma bênção da mãe, uma bênção do pai. Queria através da janela do casebre onde morava ver o pôr do sol, o nascer da lua, ter tempo para contar as estrelas... Mas como era difícil ficar lá ou sair de lá a pé, descer as escadarias construídas milimetricamente sobre um morro íngreme. Seguir em frente até onde os olhos pudessem enxergar e quando chegasse lá embaixo saber que dificilmente enxergaria mais adiante. Os olhos seriam dominados e encobertos pela selva de pedra. O jeito era driblar todos os desafios porque só longe da periferia sentiria o gosto de um beijo, o abraço de um homem de bem e descobriria como o mundo era e como as pessoas seriam. Ela era apenas Nina, uma menina, que queria conhecer o melhor de cada um, fazer amizades, descobrir inimizades e sob uma canção de ninar, fazer amor. Desse amor, poder comprar sapatos, vestidos, saias, lingeries, tudo novo e ao seu estilo. E Sabrina preenchia os olhos dos amantes com sua beleza e sensualidade descomunal. Ela se sentia bem do jeito que era, mas não a felicidade de ter uma família, receber durante sua chegada ou saída, uma benção dos pais. Em certos momentos achava que devia ter morrido durante o parto, mas a vontade de viver, de descobrir o prazer da carne e o amor era muito maior do que os problemas que a envolvia, daquele lugar que odiava e que todos chamavam de periferia, onde, infelizmente, seu mundo nascia todo santo dia.

Sabrina, mais conhecida como Nina não tinha pela branca, mas sua cor negra, cabelos anelados, olhos verdes, nariz fino, que traziam a feição de um pai branco de cabelo liso, ou de uma mãe negra de cabelos ondulados. Eles passaram a vida toda tentando convencê-la que a sua pele era parda, de tom claro, fazia dela uma menina branca, mas ela nunca aceitou isso. Odiava a ideia de ser branca e na realidade, não era. Nunca teve crise de identidade e chegou também a ser chamada de racista e diziam: “Aquela louca ali odeia branco”. Que nada seus amantes encontrados na selva de pedra todos eram brancos. Que blefem os vizinhos! Ouvia isso de muita gente, tanto dentro de sua casa quanto em qualquer outro lugar por onde passava. Pra eles, tudo bem, riam, mas ela não levava a sério.

Foi muito difícil entender por que ela às vezes não se sentia à vontade com a cor da sua pele. Parecia não fazer parte daquilo que ela era. Queria ser preta, mas era morena, queria olhar no espelho e ver sua pele mais escura, não conseguia ver, pois sua beleza transcendia diante dos reflexos do espelho, que se curvava diante de sua beleza, enquanto uma voz dizia: “Ninguém é mais bela que você”. Mas, mesmo assim, prendia seu cabelo pra esconder no volume dos seus cachos a maior marca da sua raiz: a negritude.

Entendia  que o tom claro da sua pele não poderia determinar tudo o que sentia e acreditava, defendia e nem podia esconder sua história e da sua família. Seria mais fácil alisar seu cabelo, clareá-lo e aceitar o rótulo de branca, mas agora ela tinha escolhido soltar seus cachos e dizer “eu tenho sangue negro e como eu me orgulho disso”. Conseguiu encontrar a negritude que tanto lhe negaram principalmente quando entendeu que isso passava pelas suas escolhas e a de ser negra sempre foi à maior delas.

Escolheu amar seu cabelo cacheado, escolheu cultuar sua ancestralidade africana, escolheu respeitar o sagrado do seu lar, escolheu ter um discurso de mulher negra que reconhece a dívida histórica que a sociedade brasileira precisa pagar, escolheu ser mais uma voz que grita contra o racismo e o genocídio da população negra. Então, assim, ao finalizar, dou um tempo para aqueles que ainda quiseram defini-la por uma cor, mas antecipo que ela oferece a cor da sua alma, porque entende ser indiscutivelmente negra!



Será que nossas atitudes vão continuar vazias?

quarta-feira, 2 de setembro de 2015


Domingo, na Paróquia Santa Terezinha do Menino Jesus em Aparecida de Goiânia, durante a celebração da santa missa, assistimos a um vídeo onde o missionário Eugênio Jorge mostrava o trabalho social desenvolvido pela Paróquia, principalmente no tocante aos abrigos: Casa Mateus 25 que acolhe pessoas doentes que necessitam de tratamento médico especial, cujas famílias não podem arcar com as despesas, e a Casa de Nossos Pais, que acolhe idosos que também não têm assistência de suas famílias. Ao final, o missionário disse que “essas e outras obras sociais dirigidas pelo Padre Luiz Augusto precisam da ajuda de todos os fiéis e da sociedade como um todo para que ele possa cumprir a sua função de cuidar com zelo dessas pessoas, que sabemos ser, na realidade, uma obrigação do governo”. A doação de cada um, por mínima que for, será bem vinda e de suma importância para a manutenção delas. Entretanto, aquele que porventura não puder fazer doações que faça pelo menos uma visita e converse com os enfermos e idosos, pois, às vezes eles se satisfazem apenas com a sua presença e um mero carinho. O seu sorriso e uma simples oração também podem fazer a graça acontecer, mas, todavia, é necessário que a obra permaneça mediante ajuda financeira, material e o trabalho participativo voluntário de cada um. Os beneficiados podem ter a certeza, ficarão eternamente agradecidos. No pequeno livreto Um Minuto de Sabedoria, encontrei esta frase escrita por C. Torres Pastorino: "A cada um de nós compete uma tarefa específica, na difusão do bem. Erga-se, para trabalhar, porque as tarefas são muitas e importantes, e poucos são os que têm consciência delas. Ajude o mundo, para que o mundo possa ajudá-lo. Estenda seus braços eficientes no cultivo do Bem, para que, quando os recolher, os traga cheios dos frutos abençoados da felicidade e do amor.

Findo o vídeo e após as palavras finais do missionário, observei que muitos fiéis ficaram emocionados e boquiabertos com tão bela obra assistencial. Quanto a mim, naquele instante, coube-me recordar de um pensamento bíblico que carrego sempre comigo: “Minhas mãos vão continuar vazias de pedras, mas o meu coração cheio de solidariedade e amor”. Sei o quanto é difícil, mas procuro fazer o bem sem olhar a quem; sei o quanto é difícil em face da situação financeira de cada um, estender as mãos aos mais necessitados. Eu, dentro de minhas limitadas condições financeiras, procuro fazer minha parte, principalmente no tocante a Casa Mateus 25 (enfermos) e a Casa de Nossos Pais (idosos). Durante a minha caminhada podem ter ocorridos vacilo, mas quem nunca vacilou durante caminhadas pela estrada da vida, principalmente nós seres humanos, possuidores de corações generosos, mormente quando nos encontramos diante de tantas atrocidades humanas; quando estamos diante da fome, das doenças; quando estamos diante de pessoas maltrapilhas, enfermas, sem condições financeiras de se cuidarem, e de tantas outras espalhadas nos corredores de hospitais públicos. Quem não vacilaria diante de tudo isso e de tantas pessoas deficientes e idosas que estão sem lar e alimentos para sobreviverem... Diante de..., quem não vacilaria? Mas o vacilo de que falo é quando nos esquecemos de tudo isso, de ajudar nas obras sociais de nossa comunidade ou não, seja até despercebidamente.

Não atiro pedras mesmo se minhas mãos estivessem cheias, porque não posso julgar as atitudes de quem não se dispõe a ajudar. Não posso prejulgar quem me critica ou daqueles falam mal, chegando a insinuar de que a gente só quer aparecer, na verdade apenas esquivam-se da responsabilidade sabendo que um dia essa verdade virá à tona, e virá porque eu me conheço assim como as obras sociais que ajudo. Conheço tantas outras pessoas que também ajudam e sei que seus atos são nobres. Não sei por que existe tanta mágoa, “cegueira”, inveja e ódio envolvendo o ser humano.

Tanto problema que surge na terra que dá vontade de voar até aos céus. Falar com Jesus, dizer-lhe que também não sou perfeito, fazê-lo entender que o meu defeito é gostar tanto do que faço em prol do ser humano. Mas sou apenas um grão de areia neste mundo, mas, como cristão, sei que não preciso voar até ELE. Sei que me basta orar, e orando, sei que virá a justiça, e se ela não vir dos homens, sei que virá de Deus. Disso tenho a absoluta certeza, como a certeza de meu respeito a todas as pessoas de bem, como você e tantas outras que continuarão impregnados em meu coração. Paz e bem a todos!


Em busca do improvável

domingo, 23 de agosto de 2015


Sentimento em qualquer circunstância é impossível ser descrito, mesmo usando e abusando das mais belas palavras, mesmo que a gente pense e pense... Podemos ver em lugares mais improváveis nascerem flores, nascerem amizades entre animais, para nós irracionais, mas sabemos que eles têm sentimentos. Acredito piamente que os sentimentos nascem ora das situações loucas, ora dos sentimentos mais improváveis. Todavia, torna-se realmente impossível a busca desses sentimentos, seja ele pessoal ou não. Se eu matei algum sentimento meu ou de alguém, pode ter a certeza de que foi em legítima defesa. Então, qual seria a melhor forma de descrever isto ou aquilo? Que palavra eu devo usar? De que forma devo colocá-las? Como através de simples palavras vou conseguir transmitir o que eu sinto e o que eu vivo? Tem momentos que chego a pensar que eu poderia ficar horas e horas matutando, que teria forças para parar o tempo e aqui, no meu recanto, ser feliz, sabe-se lá até quando. E quando eu estou nesse bom momento, na hora que eu o vivo, aqui mesmo, parafraseando diante de um computador, eu penso e sério junto com “meus botões”? Como descrever este momento? Como passá-lo pra forma de um texto compreensível, provável? Como expressá-lo através de palavras? Como fazer entender aqueles que lêem e depois poder compartilhar com outros possíveis leitores esperançosos em dias melhores que estão do outro lado do monitor? Mas algumas vezes, algumas não, várias, eu paro e penso... É preciso tentar escrever o que sinto, assim como, o que eu vivo e da forma que vivo? Você não é a única pessoa que precisa saber, têm outras do lado de cá, ao meu lado, saboreando cada palavra digitada. E se o que eu sinto você também sente então para mim está tudo bem, tudo bem mesmo! E nada melhor do que o sentimento, dos gestos vindos de alguém, de uma pessoa amiga, de um local ou região qualquer, para demonstrar, dizer e entender o que escrevo. Palavras devem ser lindas e explícitas sim, mas polidas diariamente, senão elas ficam no tempo, no esquecimento e podem até se tornar em mentiras. Como meras palavras eu poderia simplesmente, ao dedilhar no teclado ou manusear o mouse, apenas descrever o clima, o sorriso, o cheiro, a pele, o toque, o olhar, o fechar dos olhos, ou indo até mais longe: o beijo. Do lado de lá da telinha talvez não pudessem, porque é muito mais do que podem oferecer. Não existe palavra no mundo para descrever tudo que a gente sente e nenhuma chegaria ao finito que imaginamos ser, porque sabemos que em certos momentos não estamos em busca não do impossível, mas do improvável entendendo, porém, que o nosso saber, por mais que usemos nosso intelecto, não somos tão capacitados assim. Mas é através da escrita que eu tento chegar o mais perto possível do improvável, procuro não me perder nas letras, nas orações, nas frases, nas estrofes... Teimoso que sou, coloquei como título a palavra improvável e aí quando comecei a escrever, senti que poderia me perder no texto. Senti que poderia me confundir com o emaranhado de letras e em certos momentos, nem saber onde queria chegar. Seria isso mais uma prova de que é realmente impossível descrever e alcançar o improvável? Acho que sim. Por isso tentei sentir mais, aproveitar mais, valorizar cada momento, porque são únicos, insubstituíveis, e quando terminar, feliz eu permaneça no meu pequeno recanto. E ao lerem, hão de se convir da existência deste momento que eu o vivi, que o fiz de modo especial, memorável.

Procuro sempre fazer o possível para agradar, aceito o improvável e duvido da certeza. Mas insisto... Em nossa vida, na vida das pessoas, no mundo em que vivemos, algumas vezes é necessário inventar, mas desde que seja para o bem. Então invento minha história, vou vivendo, aprendendo, crescendo, mas extraio de fatos reais por mim vividos. Aprendi que quando se perde se ganha, que pra rir tem que chorar, que a vida tem dessas coisas e que viver é mesmo isso! Sou precisamente educado e prestativo, mas tenho lá minhas impertinências, emoções e lágrimas. Sou ser humano. Às vezes, olho a imensidão do universo, dialogo com sol, às vezes com a lua, com as estrelas, certo de receber a luminosidade necessária para iluminar-me dentro de mim mesmo! Sou um aspirante à vida e minha alma nem sei que cor tem, mas isto não importa. 

Quando comecei a escrever este texto pode ter a certeza de que eu não caibo aqui, ou talvez, nem caibo em mim... Tem pessoas que já conseguiram o impossível, mas perderam o sono à busca improvável, no entanto, sonhos improváveis são para os fracos, para os que dormem e não para os que passam as noites em claro pensando em concretizá-los. Então, caros leitor e leitora, neste pequeno espaço eu fiz dele o meu mundinho imaginário, então, só eu e vocês, depois de eliminarmos o impossível, sei que juntos chegaremos ao improvável, onde, talvez, possamos encontrar aqueles objetivos que jamais imaginamos alcançar. Mas será que não somos o próprio improvável e que somente Deus poderá nos mostrar o caminho para alcançá-lo? Nos dias de hoje tem muita gente querendo fazer muitas coisas, participar de tudo, só não quer ser discípulo de Jesus, ter um coração apascentado e obediente, então, antes de procuramos o improvável, de procurarmos FAZER qualquer coisa além do impossível precisamos SER. Se para Deus nada é impossível, buscar com ELE o improvável, longe de tudo e todos, como se não houvesse mais ninguém, como se nada importasse é vitória, é uma conquista. Viver buscando o possível, mas alcançar com a proteção de Deus o impossível e o improvável é gratificante. No impossível ou no improvável pode estar as nossas melhores decisões. Então, devemos apostar, acreditar, confiar.



Umbelina Frota, uma poetisa antenada.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015


Mulher de sorriso radiante, inquieta, que adora ler, escrever e ligar para os amigos com a atenção que lhe é peculiar. Quem a conhece reconhece que ela tem seu próprio modo de ver e viver a vida. Parece demonstrar com a sua inquietude que nunca tem tempo, mas tem a capacidade de fazer o tempo parar e realizar seus intentos, sonhos, escrever poesias que nos encantam. Faz-nos afogar em seus versos sutis, leves e soltos, aliás, como poetisa, sabe muito bem o que quer. Seus versos são precisos, ritmados, melodiosos, de uma métrica poética surpreendente, cuja mente sempre tranquila, põe-se a rir das mentiras que a fama lhe traz, enquanto os seus belos olhos que parecem feitos de água, fazem refletir sobre as letras, variadas cores, rima e ritmos, formas e proporções exatas, mesmo das coisas que um letrado desconhece.

Umbelina tem um olhar forte, vibrante, um sorriso encantador que vira aos avessos aqueles que a conhece, assim como aos incautos, aqueles desprevenidos, desprovidos de cautelas, ingênuos, que se tornam meros opostos, mas os que a conhece de perto, sejam avessos ou opostos, sabem que ela é determinada a ponto de tempos idos sacar um revolver e intimidar uma desafeta, como ocorreu na cidade de Sítio D’Abadia, mas por outro lado, sabem ser ela possuidora de um coração generoso, cheio de sonhos, sonhos de poetisa, sonhos de mulher antenada que vive olhando sempre pra frente, atuante, inteligente, dinâmica. E quando entardece, creio que, no entremeio do pôr do sol e do nascer da lua, ela libera o seu dom especial, deve versejar silenciosa em seu canto, deve compor e até escutar canções que marcaram a sua juventude e a sua própria vida, misturando-se nesse refúgio não coloquial, o amor e o carinho tão profundos como se ela estivesse vivendo em tempos primaveris. É simples, é forte, uma mulher cujo rosto o maldoso tempo tentou carcomer, mas, esperta, safou-se dele e manteve-se sempre altiva, vivaz. Mulher dos anos 30, mas de idéia contemporânea, jeito moderno e que sabe viver a modernidade.

Ela sempre teve, tem e mantém um ar sapeca, mas pose de mulher, olhar penetrante pra quem agüenta, porque muitos por aí não conseguem encará-la, olhar olho no olho, dado o seu semblante sempre alegre, educação peculiar e encantamento. No coração dela acho que sempre coube e caberão sempre mais e mais amigos, mas imporá respeito pelo seu jeito firme de falar e decidir; respeito logo nas primeiras palavras, pois nunca se atrapalha nos passos, mesmo não tendo mais tenra idade. Enche nossos olhos e ouvidos com sua alegria, tem o dom da amabilidade, que é pra poucos. Cuidadosa e elegante ao extremo e cá entre nós, eu acho um charme! Nasceu em 21 de agosto de 1935, na cidade de Januária, Estado de Minas Gerais, é funcionária aposentada dos Correios, ex-vereadora na cidade de Sítio D’Abadia, poetisa premiada, consagrada e reconhecida em cinco continentes, cujas obras, homenagens e títulos são tantos que abstenho de relacionar aqui, pois não caberá neste pequeno espaço de jornal. Mãe, avó, bisavó e sonhadora, durante o seu lapso de tempo viu tudo se juntar de uma maneira misteriosa aos olhos de quem não pode ver as maravilhas ocultas desse seu universo, e hoje, como mero escriba, apenas resumo um pouco do que sei desses seus oitenta anos de vida, bem vividos.

Acredito que a fase dos 80 anos de Umbelina Linhares Pimenta Frota Bastos é infinita dentro de seus finitos, fase que há possibilidade de falar e escrever abertamente sobre tudo que acontece no seu e em nosso dia a dia; fase de falar dos sonhos, das fantasias, das realizações e do intenso trabalho cultural e intelectual que desenvolve, não só na cidade Inhumas, mas também em outras cidades. Além da Academia de Letras, Ciência e Artes de Inhumas - ALCAI, onde exerce a Presidência, ela é membro de outras entidades culturais de Goiânia e do interior de Goiás. Suas obras poéticas publicadas, são, entre outras: “Apenas uma Lembrança”; “As sombras do Jatobá”; “Loucuras de Poeta”; “Caminhos de Pedras” e o famoso poema“ The Roses She did no have”, editado na Mangólia e publicado na revista The Words Poets, Quarterly, na China, obra que recebeu o prêmio de Honra ao Mérito Dennis Kann – OEA – AOHNA, pela Associação Internacional de Escritores e Artistas Buffon College – Toledo – USA. Então, para que ela continue no auge da fama e antenada, finalizo citando uma frase do grande Charles Chaplin, apenas acrescentado mais estas palavras: escreva e faça poesia: ”A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, escreva e faça poesia, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.” Feliz aniversário!

Pedaladas Fiscais

terça-feira, 11 de agosto de 2015

De repente me vi pedalando uma bicicleta. Estava fazendo parte de uma comitiva de ciclistas que sensibilizavam as pessoas a se exercitarem e cuidarem da saúde. Um cinegrafista nos acompanhava. Durante a caminhada, encostado de uma porteira,  notei que alguém esbravejava, mas não em razão do tempo abafado, mas sim, ele queria saber o que queria dizer a palavra “pedalada fiscal” e nada melhor do que perguntar pra quem estava pedalando. E não é que o danado tinha acabado de ouvir no seu radinho de pilha a notícia sobre essa palavra estranha. Encostei a bicicleta na cerca de arame, aproximei dele e disse-lhe: As palavras “pedaladas fiscais”, usadas pelo repórter são manobras governamentais, atos contábeis que envolvem o uso de recursos públicos de bancos federais para “maquiar” o orçamento federal. Como exemplo, é mais ou menos assim senhor: Sempre que alguém busca seu seguro-desemprego na Caixa Econômica Federal ou consegue um financiamento no BNDES, usa dinheiro repassado pelo governo federal. Outros programas cujas verbas o governo repassa pelos bancos são as aplicadas em Minha Casa, Minha Vida, o Bolsa Família, Programa de Sustentação do Investimento (PSI) e o crédito agrícola. O ritmo desse repasse é constante, conforme a procura da população e das empresas. Corretamente, ou melhor, sem o uso da malfadada pedalada fiscal, a coisa funciona assim: O Tesouro Nacional normalmente repassa para bancos públicos e privados as verbas usadas em benefícios sociais e subsídios. Entendeu? Complicado não é? Olhei o semblante dele e notei que não entendeu bulhufas!

Sendo uma pessoa letrada e que guarda na memória elementos que me ajudaram e ajuda no embasamento, continuei falando: Amigo, o TCU – Tribunal de Contas da União é responsável pela fiscalização dos gastos do governo. Esse órgão precisa dar seu parecer sobre as contas do ano findo e em face do que foi descoberto, inclinou-se a recomendar uma rejeição das contas em função das “pedaladas” e de outras manobras para camuflar despesas governamentais. Já tinha sido aberto um processo anterior para investigar exclusivamente as ditas pedaladas e o TCU também já tinha emitido um parecer defendendo que o governo cometera "crime de responsabilidade" com as tais manobras fiscais. Há muitas expectativas de uma rejeição dessas contas públicas, rejeição apoiada pelo Ministério Público Federal e isso no acalenta. Quando terminei observei que o semblante dele já demonstrava certa insatisfação com o governo.

O sol era causticante e com a língua em forma de gravata, tentava usar a torneira do tempo para beber uma água imaginária. Sem medo de procrastinar em lume porque o calor era insuportável que fazia latejar meu cérebro, pedi licença ao indivíduo e subi na bicicleta e silenciosamente continuei a minha pedalada. Não sei qual o propósito daquele passeio ciclístico e porque aquele grupo o denominou de “Pedaladas Fiscais” se ninguém era fiscal, ora! No final do tour, encostei-me à sombra de uma árvore de jatobá que ficava à beira de uma pequena praça. Nem me assustei porque naqueles dias de calor cardíaco e tempo seco a gente não conseguia se aquietar nem por segundos, pois o calor era provocado pela poluição desvairada que me deixava sufocado e exausto.

O vento que acariciava o meu rosto jogava ao ar as gotículas de suor que se evaporavam rapidamente. Durante o trajeto a pergunta daquele senhor não saía de minha cabeça e até dava vontade de retornar para lhe explicar melhor sobre o assunto. Tinha que ter dito a ele que as manobras contábeis têm como objetivo melhorar o resultado das contas públicas - ou seja, ajudar o governo a fazer parecer que haveria um equilíbrio maior entre seus gastos e suas despesas. No caso em tela, devia ter dito também a ele que o governo Dilma é acusado de atrasar o repasse de recursos para benefícios sociais e subsídios pagos por meio da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil e do BNDES passando a impressão de que as contas públicas estariam melhores do que realmente estavam. Ledo engano.

Teriam sido "segurados" cerca de R$ 40 bilhões do seguro-desemprego, programa Minha Casa, Minha Vida, Bolsa Família, Programa de Sustentação do Investimento (PSI) e crédito agrícola, segundo o TCU, mas como os desembolsos não foram efetuados, as contas do governo pareceram temporariamente mais equilibradas. A questão a ser analisadas é que não houve atrasos no pagamento desses bilhões de reais em benefícios e subsídios para seus beneficiários, porque os bancos públicos cobriram esse valor - cobrando juros do governo pelo uso de tais recursos, ficando, que tais manobras, configuradas como operações de financiamento, ou “empréstimos” desses bancos para o Tesouro, situação que é proibida pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Os meus pensamentos iam e voltavam na velocidade da luz e diante de tantas informações captadas na região recôndita do meu cérebro não vi alternativa senão em moldá-los assertivamente de forma que as ações governamentais fossem formadas por um conjunto de procedimentos capazes de assegurar, desde o início, uma prestação de contas condizentes com o exigido pela lei e no caso em tela, um exame minucioso e sistemático das contas rejeitadas, capazes de provocar resultados satisfatórios e apresentadas corretamente ao povo brasileiro, dentro da legalidade, uma vez que, se não solucionadas e provadas à ilicitude do ato das “pedaladas fiscais”, este fato continuará sendo o alvo que motivou ou poderão motiva o pedido de impeachment da presidente.

 Descansado, prossegui com as pedaladas, mas agora de volta pra casa. De repente a poucos metros à frente me deparei com uma camioneta da Receita Federal. Inteligentemente, desvie-me dela, entrei num beco e continuei. Uma vontade danada de fazer xixi me fez com eu me escondesse detrás de um muro num lote baldio. Mas, por incrível que pareça, os outros ciclistas se desviram também e me seguiram, ficaram me olhando e eu não conseguia escapar dos olhares deles e o pior, delas, por mais que tentasse. Mas, a vontade de urinar era tanta que me fez acordar. Preocupado, olhei entre as pernas e notei que a minha cama estava enxuta. Disse: Graças a Deus! Ao lado, na escrivaninha, um jornal estampando uma frase: “TCU pede explicações a Dilma sobre “Pedaladas Fiscais”. Era apenas um sonho.



Será que fazemos parte de um reality show?

segunda-feira, 3 de agosto de 2015


Às vezes fico constrangido quando ao entrar no elevador do meu prédio, passar frente às lojas, entrar no supermercado, passar por um posto de gasolina, sentar numa mesa de restaurante ou de num mero boteco, vejo à minha frente um pequeno adesivo e a seguinte frase: "Sorria, você está sendo filmado". Posso ser sincero? Já olhei fixamente pra câmara e mostrei sorrisos amarelos, sarcásticos e outras vezes, de forma mais educada, a mão, e fiz sinais de “positivo”. Não cheguei a mostrar a língua para quem estava me observando atrás dela porque sou uma pessoa educada, mas que constrange, constrange.

Quando entramos num Shopping, então é um horror! Quantas câmeras espalhadas pelos corredores e lojas que seguem os meus passos. E o pior é que algumas seguem mesmo! Parece que o corpo da gente tem um ímã. Ela vira, vira... Pensei: "Será que elas estão reparando o meu jeito de trajar, a minha beleza, o meu porte físico ou os meus cabelos grisalhos"? A verdade é que a gente fica sem saber como agir e acabamos ficando meio sem jeito ao ver a nossa imagem exposta nas telinhas que ficam numa enorme sala, no último pavimento. Certo dia, por curiosidade, fui lá confirmar e me deu arrepios!

No meu entendimento essa mania de participar demais da vida dos outros, de querer fazer as pessoas viverem como se estivéssemos em um Big Brother, está fazendo com que a gente deixe de viver nossas próprias vidas e percamos alguns valores. Será que estou exagerando? Eu, pelo menos, evito assistir a reality shows, no entanto, me sinto dentro de um, vigiado quase vinte horas por dia, todos os dias da semana. Ainda bem que nos banheiros não existem câmeras. Ou existe?

Quando saio para a minha caminhada matinal, entro no elevador e lá está a mesma frase e câmera de formato arredondada, mas não ligo, eu desço com um sorriso no rosto e até canto uma música para relaxar, canto baixinho, mas canto. O meu sorriso é para atender o desenho que está colado dentro do elevador que pede: “Sorria, você está sendo filmado”. Olho para a câmara e escancaro... Um sorriso. O porteiro do prédio acompanha o movimento dos meus lábios pela câmera, e quando passo por ele na portaria ele diz: “Tá feliz hoje, hein patrão!? Sorrindo e cantando em plena crise? Respondo calmamente: “Estava apenas massageando a face". É demais, não caro leitor?

A única diferença entre eu os participantes de um programa onde indivíduos ficam confinados numa casa chique sem fazer nada o dia inteiro é que, além da gozação do porteiro, não ganho nada, no entanto, eles podem sair da frente das câmeras e se tornarem milionários, e os que não ficam lá até o final do programa ganham carro, viagem e até apartamento... E eu ganho o quê? Ganho sim! Uma gozaçãozinha do porteiro, e no bolso, o mesmo surrado dinheiro. A mim ninguém pede autorização para participar do Big Brother do dia a dia, e ainda tenho que sorrir cada vez que leio a frase que me persegue sem ganhar nenhum trocadinho.

Entretanto, quero dizer aqui que não sou totalmente contrário a esses métodos modernos quando se trata de garantir a segurança pública, mas entendo, porém, que deviam existir mais policiais bem remunerados e bem treinados, e em quantidade suficiente para monitorar as ruas. Mas fanatismo não é comigo. Ultimamente tenho me constrangido com um procedimento que está se tornando comum nos "prédios inteligentes", todos eles compostos de escritórios e consultórios médicos. Falo dessa mania irritante de nos ficharem na recepção. É tanta a burocracia que deixei de ir a certo médico, pois antes do elevador existe uma catraca e antes dela, as recepcionistas que, se não bastasse me pedir documentos, também nos fotografam usando uma pequenina máquina digital e olha que meu nome já tinha sido cadastrado no computador do prédio várias vezes. Não deve ser muito diferente de entrar num presídio, só que eu não estava visitando uma penitenciária de segurança máxima, queria apenas ir ao consultório médico.
   
Não tenho nada contra as recepcionistas, pois sei que estavam ali apenas cumprindo ordens, não obstante existir em mim resquício de espírito selvagem, que cada pessoa humana tem, pudesse aflorar-se em mim cada vez que adentrasse naquele prédio e ainda ver a bendita placa avisando: “sorria, você está sendo filmado”! Lá não sorria mais, apenas ria de mim mesmo. Eu não era e nem sou grosseiro, fazia e faço de tudo para me manter calmo principalmente quando passava nas catracas daquele prédio onde tinha que enfiar um cartão senão ela não se movia, sem falar, é claro, das portas giratórias e intimidatórias dos bancos, onde aquela câmara à entrada vasculha até a alma da gente. Aquela danada não perdoa nem se você tiver um clipe no bolso e muito menos marca-passo. Sei que vivemos em tempos difíceis e paranoicos, sei que todo esse aparato serve para identificar criminosos, mas cá entre nós: é uma praga essa histeria com segurança. Daqui a alguns anos essa vigilância insana vai se tornar mais desconfortável do que ser gentilmente assaltado por um bandido. Paz e bem.


 
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