Amigo leitor (a)

Amigo leitor (a). Quando lemos um livro, ou qualquer texto, publicados ou não, que são sinônimos do prazer, por mais simples que forem, sejam reais ou surreais, nos permite exercitar a nossa memória, ampliar nossos conhecimentos e nos faz sentir as mais diversas emoções, por isso, sensibilizado, agradeço a sua visita ao meu Blog, na esperança de que tenha gostado pelos menos de um ou que alguns tenha tocado o seu coração. Noutros, espero que tenha sido um personagem principal e encontrado alguma história que se identificasse com a sua. PARA ABRIR QUALQUER CRÔNICA OU ARTIGO ABAIXO É SÓ CLICAR SOBRE O TÍTULO OU NA PALAVRA "MAIS INFORMAÇÕES. Abraço,Vanderlan

Idas e vindas pelas ruas e metrôs de Santiago.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Como foi bom a gente conhecer outros países e lugares incríveis como a vinícola Undurraga, Pátio Bella Vista, Museu Pablo Neruda, subir no bondinho Funicular instalado no Serro San Cristobal e depois, o Restaurante Giratório. Como foi bom conhecer novas pessoas, sua forma de acolher, sua cultura. Como foi bom renovarmos e sentirmos o espírito se fortalecer com esses novos ares. Como foi bom absorver tudo ao redor, sonhar, poder refletir e sentir naquelas plagas de língua castelhana tamanha satisfação. Como foi bom o tour pelo Chile e Buenos Aires, ah, se foi... E não há coisa melhor de se fazer do que viajar, degustar com os olhos a beleza da natureza ou o universo em si, pois no ar ou na terra, a gente renasce, voltamos a ser criança e desfrutamos da alegria de todos aqueles que participaram do IV Encontro Internacional de Ciências, Tecnologias, Literatura e Meio Ambiente, tornando aquele momento, único.

No último dia quando fomos a Universidade de Santiago do Chile para pegar nossos certificados de participação naquele Encontro, na ida, pegamos um táxi e na volta, o metrô, cuja parada, ficava bem em frente à Universidade. Era uma quarta-feira, e nós tínhamos levantado bem cedo, já que, além de receber os Certificados, precisávamos entregar nosso material, resumo do trabalho, livros e DVD ao Coordenador Geral do Encontro, o professor chileno Eduardo Devés.

Deixamos a Universidade fomos direto a Estação Central para pegar o metrô. Como no Chile o povo usa muito este tipo de locomoção, logo à entrada vimos um aglomerado de pessoas descendo as escadas e andando rápido rumo às plataformas, mas duas cenas me chamaram à atenção, a primeira foi um grupo de jovens oriundas da Argentina, uma aparentava mais velha que as outras duas. A loira do grupo desceu da escada rapidamente deixando as outras para trás, bem no momento que um metrô passava, fazendo-a segurar o vestido para que não subisse com o vento. Ponderei e esperei para ver onde a história terminaria. Já havia demorado tanto, o que seriam mais alguns minutos? As outras duas jovens também desceram a escada, depois, uma parou frente à outra e se entreolharam. A loira exclamou “é o ultimo dia nosso aqui? Pergunta de loira. Ah, deixa pra lá. Respondeu a outra. Ela se afastou um pouco para dar privacidade para as amigas e transformar-se numa espécie de platéia, assim como eu, curioso que sou. Só as pessoas que me acompanhavam não observaram. Vi a troca de olhares entre as duas jovens, e, como se não houvesse mais ninguém ao redor, as duas se abraçaram, e de olhos fechados, ficaram ali, no meio da estação, enquanto as pessoas passavam. Parecia que o tempo não passava para elas, enquanto sussurravam algum tipo de promessa. Agucei o ouvido para ouvir o que elas urdiam, mas o vozerio e barulho do metrô roçando os trilhos me impediam de ouvir.

Quanto a despedidas, já estava bastante acostumado, mas aquela parecia diferente. Não, aparentemente era um abraço de duas pessoas que se gostavam muito, mas os olhares trocados antes queriam dizer algo a mais. Quando se soltaram do abraço, olharam nos olhos uma da outra, para selar a tal promessa. As duas tinham a boca trancada, talvez para segurar as lágrimas, talvez por que o momento não pedisse palavras. Uma delas se afastou e a loira deu um abraço na outra. Não, não era a mesma coisa, pude perceber. O trem passou inversamente do outro lado da estação. Um barulho infernal. A menina que havia se afastado deu uma última olhada para a outra, sorriu, virou-se e seguiu decidida para o vagão, seguida pela loira, que lhe dizia algo que também não pude ouvir, enquanto a outra ficava sozinha parada no meio da estação.

A porta do vagão fechou-se e o metrô saiu veloz, levando as amigas e promessas. A menina que havia ficado, virou-se e saiu caminhando desaparecendo no meio do povo que se aglomerava na plataforma. Dava para notar que seu rosto era uma mistura de alegria pelo encontro e tristeza pela despedida.

Pois bem. Eu disse no preâmbulo que duas cenas tinham me chamado à atenção. Então, vamos à segunda. As pessoas que estavam comigo nunca tinham se locomovido através desse sistema de transporte elétrico. Todavia, nem sempre pensamos do jeito que queremos, mas temos que saber como encontrar a alegria e aproveitar os momentos bons, e passear de metrô era um desses momentos. Mas não foi isso que eu percebi dentro dele. Além das argentinas que continuavam caladas, notei que uma das pessoas que me acompanhava e que me abstenho de dizer o nome, estava agarrada no suporte como se fossa um carrapato. O medo estava estampado em seu rosto e era visível uma palidez. Contava as plataformas com receio de a gente passar do lugar. Estávamos indo para a plataforma Sant-Leonis, a duas quadras onde a gente tinha se hospedado. Nesse momento, a porta do vagão se abre. Ufa! Disse ela. Saímos e com passos rápidos chegamos ao portal de saída. Coincidência ou não, quando subia eu vi novamente aquela loira, que minutos atrás, tinha se despedido de sua amiga na Plataforma Central, e com o pensamento alhures, ela subia os degraus parecendo contá-los um por um. Olhei para ela e para o rosto de minhas acompanhantes. Foi à última cena que vi, antes de chegar ao hotel e cansado, deleitei-me sobre a cama e em segundos dormi, mas esperançoso, no dia seguinte, voltar ao metrô e visitar outros pontos turísticos e conhecer novas estações.



O pequeno plantador de Mostarda. Je suis Mariana.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015


Antes de falar o meu personagem gostaria de mencionar um texto bíblico onde Jesus apresentou a parábola da semente de mostarda. Pois bem. O povo de Israel estava prisioneiro do poder romano e as profecias falavam da libertação do jugo romano. Os judeus esperavam o cumprimento da profecia, esperavam o Reino de Deus, mas ansiavam pela vinda de alguém muito especial para libertá-los, só que eles tinham um conceito errado de como o libertador apareceria. Eles esperavam um grande guerreiro dirigindo suas hostes militares para derrotar o Império Romano e estabelecer o Reino de Deus na terra. Eles esperavam um reino de luxo, de luzes, de glórias terrenas.

Quando Jesus apareceu, surpreendeu a todos, veio de modo completamente diferente do que eles imaginavam. Ele nasceu numa manjedoura, e é claro, uma criança indefesa, rejeitada e desprezada pelos dominadores. Não era esse o tipo de libertador que o povo judeu esperava. Mas para aquele humilde carpinteiro surpreendeu a todos e começou a chamar homens para fundar Seu reino na terra. O interessante é que além de chamar pescadores, convidava também publicanos, cobradores de impostos, formando um grupo de doze homens que começaram a seguir o Jesus, os quais, temerosos perguntavam-se: "Será que estamos tomando a decisão correta?" "Será que estamos acertando, deixando o nosso trabalho, que é a fonte do nosso sustento para arriscar o nosso futuro com alguém que prega o Reino de Deus, mas parece que não vai transformar nada?"

Jesus pressentiu que havia dúvida e que ela martelava o coração dos seus discípulos e como falava através de parábolas apresentou a da semente de mostarda. Nela queria dizer que o Reino de Deus podia parecer pequeno no início, mas que cresceria, e um dia, todas as aves do céu chegariam para fazer seus ninhos nessa árvore de semente tão pequena. Jesus apresentava Seu Reino, muitas vezes, de uma maneira completamente diferente e de como os homens esperavam que fosse. Ele dizia, por exemplo, que: "Mas o maior dentre vós será vosso servo." (Mateus 23:11)

O pequeno João ajudava o seu pai no plantio dessa semente na região de Mariana, Minas Gerais e suas mãos eram de pura magia. Bastava enterrá-las e todas nasciam fortes produzindo mostarda aos montões. Hoje, se analisarmos o trabalho dos jovens ninguém quer ter ou ser igual a este menor. Todos querem ser melhores que ele e a maioria sentem vergonha de serem plantadores de mostarda, uns, ligados a certo movimento popular, até preferem invadir terras, nada produzem e depois ainda as vendem. Jesus em sua parábola parecia prever esses e outros acontecimentos, colocou uma filosofia contrária à filosofia dos homens. "... o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve." (Lucas 22:26). O que quer dizer que, em nossos dias, ninguém quer ser servo, e quem quer participar do Reino de Deus, tem que estar disposto a servir pra poder ser o primeiro. Assim, aquele que quer encontrar a realização pessoal tem que renunciar a si mesmo. Vivemos em dias quando todo mundo quer tudo para si. Jesus vem e diz: "... Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue..." (Mateus 16:24).

Use como exemplo o pequeno plantador de mostarda se você quiser participar do Reino de Deus. Às vezes, temos que andar na contramão desta vida. E é verdade que os ensinamentos de Jesus jamais combinaram com a filosofia dos homens. Os homens, para vencer ou manter suas ideologias, matam. Cristo para vencer ou perdoar nossos pecados, morreu por nós. Os homens para se realizarem, pisam, humilham. Cristo para se realizar, renuncia a Si mesmo. O reino dos homens é feito de luzes, pompa, luxo, egoísmo, inveja, ódio e poder pelo poder. O Reino de Deus é como a semente de mostarda plantada pelo menino João, pequena, desprezada, rejeitada, mas gigante em suas ações.

O grão de mostarda tornou-se símbolo da certeza do Reino de Deus. E o menino enquanto plantava na região de Mariana sabia da importância do seu plantio. Quando ele enterrava a semente, esperava um dia, dois, três dias, semanas, mas para os leigos, parecia uma eternidade e que nada ia acontecer, parecia que tudo acabaria, mas não para João. Se o leigo porventura abrisse a terra iria encontrar a semente apodrecida, ia pensar: "acabou mesmo." Mas o que ele não sabia era que pra brotar nova vida era preciso que essa semente fosse enterrada e apodrecesse, para, então, de onde pudesse parecer que não havia mais esperança, brotasse uma nova planta com nova vida, e produzir muitos frutos. Todos sabem que Jesus Cristo morreu na cruz do Calvário, e quando Ele morreu, o diabo deu uma grande gargalhada. Pensou que tinha vencido: "Morreu, eu O matei!" Mas no terceiro dia, Jesus ressuscitou e estabeleceu para sempre o Seu Reino.

Caro leitor, os homens podem destroçar seus sonhos por um dia, dois dias talvez, mas ao terceiro dia seus sonhos ressuscitarão. Os homens podem te humilhar, até matar por causa de sua fé ou porque você não aceita outra religião, mas o seu dia chegará e você será glorificado no conceito do Reino de Deus. Alguém pode ferir o seu corpo por um dia, dois dias, mas no terceiro, você ficará curado. Esta é a promessa da semente da mostarda. E tem algo mais, quando você pensa que a mostarda desapareceu, acabou e que a semente apodreceu, ela lhe dá uma grande surpresa. A planta floresce novamente.

Dias atrás estive orando para o João e sua família, cujas terras foram destruídas com o rompimento de uma barragem. Ele se salvou e quase a toda a plantação de mostarda foi destruída, mas duas gigantescas árvores no pé da serra permaneceram firmes. Ao assistir o caos ocasionado pelo rompimento da barragem do município de Mariana, a primeira vila, cidade e Capital do Estado de Minas Gerais, que destruiu a natureza e prejudicará várias cidades de Minas Gerais, considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil, hoje, quando vejo também na TV ataque de terroristas islâmicos em Paris, não há como a gente não ficar estupefatos e apreensivos com tamanha barbárie. Fiquei olhando as imagens e meu pensamento alhures por segundos. Sentindo-me incapaz de ajudar, restou-me, no mínimo, orar para essas pessoas e para as que foram feridas. Sei que se trata de tragédias distintas, mas as dores iguais, então, não poderão esquecer também do Brasil, dos pequenos “plantadores de mostarda”, das pessoas que perderam suas vidas na tragédia da barragem, assim como, das pessoas enfermas, algumas abandonadas nos corredores de hospitais. Não podemos deixar de orar também para aquelas que estão tentando abandonar o vício, para as que estão desempregadas, para as que estão passando por dificuldades financeiras. Não podemos deixar orar pelas nossas amigas e amigos, filhos, netos, irmãos, irmãs, parentes, os quais, talvez, estejam precisando de nossa ajuda para alcançar seus objetivos, sonhos, novos caminhos e muitas vezes sequer percebemos, mas, para que isso aconteça, é necessário que plantemos em nosso coração sementes de mostarda para que elas possam nascer, florescer e nos estabelecer definitivamente no Reino de Deus. Então, hoje, dê uma pequena pausa em seu tempo e ore para essas pessoas também.


Sem voz, sem passo e compasso

quarta-feira, 11 de novembro de 2015


Sem forças, sentei à beira do fogão à lenha e calei-me. Apaguei as luzes, desliguei sons. Silêncio total. Guardei tudo por fora para dar voz ao que estava dentro. Eram sentimentos desencontrados que batiam desordenadamente as portas do coração. A lenha queimava, soltava faíscas e o feijão quase esturricava, mas não queria dar nenhum passo e nem usar instrumento ou compasso. Pensei em organizar os sentimentos em uma fila, mas eram tantos que tive que fazer um de cada vez. Às vezes é preciso bagunçar o nosso ser para encontrarmos o lugar das coisas e foi o que fiz. Aprendi que nada é tão grande como a gente pensa ou vê. Ainda bem! E foi assim que decidi descomplicar o simples, simplificar os dias e as noites. Planejei o que tinha delineado, fiz planilhas, roteiros, itinerários, mas aí veio o inesperado: os sentimentos desencontrados fizeram festa, usaram instrumentos de dois braços unidos por uma charneira na parte superior, mediu-se em compasso. Riram de meus projetos megalomaníacos, tentaram me ensinar que muita coisa depende da gente mesmo, mas que a vida é muito mais que uma voz, mais que um passo, mais que um bloco de notas e não precisa de compasso. A cada passo, sem descompasso, mostraram-me o inverso, que não existe receita pronta, palavra certa, escolhas erradas, pois a vida se apresenta diariamente diante de nós com uma nova roupa e cabe-nos tirá-la para festejar alguma coisa ou continuarmos sentados esperando a coragem chegar.

Durante minha existência reaprendi a construir caminhos sem me preocupar com a chegada, apenas usando cada passo da caminhada. Ora, sabia que sempre haveria a chance de me arriscar e de me superar, mesmo diante da possibilidade de fracasso. Para realizar essa caminhada sempre pensei que existia uma corda que me prendia em lugar. Essa corda é a perseverança de que eu nunca deveria desistir, e a determinação que me fazia continuar. Quedas poderiam até acontecer, mas jamais poria fim a minha aventura. Afinal, eu estou apenas no meio de um ensaio da vida, contradizendo o ditado popular que diz: estou na idade que já contornou o “cabo da boa esperança”. Mas, para mim, considero apenas treinos para a entrada, de vez, no mundo da concorrência.

A travessia começa quando a gente decide subir a lugares altos, sair da comodidade e se lançar em desafios que serão decisivos para a nossa carreira. Entrar em uma Universidade, por exemplo, é o começo da escalada que requer aperfeiçoamento constante. Mas depois de pegar o bastão, não será uma nova travessia? Uma nova labuta em nossa vida? Nessa caminhada pós-formutura virão muitas quedas, mas são elas que nos farão superar os medos e vencer os gigantes internos que insistem em nos paralisar com as incertezas durante esse outro trajeto. Esses pequenos ensaios são como roteiros para quem decide equilibrar sobre uma fita sem tirar os olhos do foco: viver os melhores anos da vida se arriscando.

Muitos formandos não conseguem, apesar de todo o esforço empreendido, passar num concurso público ou galgar um status melhor na sociedade, alguns têm dificuldades até de escrever uma simples correspondência, mas depois com algumas oficinas literárias, especialização, pós-graduação e mestrado já expõem melhor suas ideias, principalmente no tocante a arte de escrever. Alguns até conseguem escrever belos textos tornando-se verdadeiros cronistas, como eu, daqueles que anda à toa, à procura de um mote para escrever suas crônicas, com olhos atentos passeando pela cidade para captar cenas do cotidiano: é o simples transformado em iluminação poética.

Há relato que falar do lugar em que vivemos desencadeia nesses jovens  o compromisso com a própria cidade, alguns denunciando problemas, outros anunciando esperanças quanto ao futuro. Participar de uma olimpíada literária, de um congresso, por exemplo, significa muito mais do que competir com outros. Esse ato competitivo é muito mais do que partilhar as informações que tiveram antes, a partilha de valores, a flutuação por meio da leitura, e, vale dizer, o surgimento de novos escritores. Além disso, essas trilhas apontadas pelas olimpíadas, congressos, oficinas ou debates literários, enriquecem nossos textos, artigos e crônicas, como, também, ajudam na articulação de novas atividades de leitura e de produção escrita, e aí sim, passamos a ter voz, passos articulados, ora melodiosamente, ora no compasso



Depois da chuva

sábado, 7 de novembro de 2015


Lá se foram dias, meses e porque não dizer anos. Naquele pedaço de chão onde meu pai usava enxadas e enxadões para o plantio não existe mais. Virou terreno arenoso, seco, infértil. Uma tristeza infinda abateu sobre o meu coração. Adentrei ao casarão construído de puro adobe e assoalho de tábuas e afrouxei a tramela. A janela, obediente, abriu sem o mínimo manuseio de minhas mãos. Olhei rumo ao poente e nem vi árvores nenhuma importunar o pôr do sol. Os regos d’água não mais existiam. Nada à minha frente, apenas a natureza devastada. Da janela há muito tempo vazia de gente, nem sinal de gotas de chuva ou de orvalho que outrora molhavam as folhas e o vão quadriculado da madeira de angico. A secura do tempo não as permitiu voltar como não voltaram os meus pensamentos que jaziam num canto qualquer daquele casarão. Olhei mais uma vez para a imensidão que parecia regozijar diante de mim e viajei imaginariamente... Meus pensamentos voaram alto, foram longe, bem distante. Voltei aos tempos de criança e como a um flash, logo me vi brincando nas pradarias, subindo nas cercas feitas de lenha, nos pés de jabuticaba e das mangueiras floridas de verão. Sentia o passado se impregnar em minha pele, previa o futuro entrelaçado entre os meus dedos e a sintonia do universo pairando sobre minha essência e algo me dizia que um raio se abriria timidamente no afã de me mostrar no fim daquele resplendor alaranjado que toda a minha vida se passou e eu nem tinha percebido, todos os meus suspiros se ecoaram sucumbidos pelo vento e tudo que via era a figura de uma menina-moça que, timidamente, se aproximara de mim com um jeito acanhando, mas possuidora de um olhar penetrante, ora trazendo-me receios, ora ansiedade, que depois se misturaram com a sensação de bem estar. Daquela janela via minha vida passar veloz como a luminosidade solar, mas algo novamente veio me dizer o porquê daquela menina fazer brilhar meus olhos, o meu coração bater sem compasso e suspirar...

Debrucei-me sobre o vão e agucei meu pensamento. Eles iam e voltavam na velocidade da luz e num repente, senti sobre o rosto sutis gotas de chuva que escorriam levemente sobre a madeira da janela. Vi uma translúcida luz que vinha do céu despertando-me para a vida e o belo anoitecer surgir. Escancarei um sorriso repleto de mim mesmo, daqueles autênticos vindos da alma e sai terreno afora. Sai em busca daquilo que sempre sonhei, sai em busca de mim. Meus olhos brilhavam, o tempo passava lentamente, a noite parecia que seria gigantesca e a lua mais que depressa veio para me acalentar. Os sons eram suaves, o entardecer mais bonito e a brisa refrescante, que ingenuamente, acariciava meu rosto. Quando amamos a vida ela nos ama de volta, quando fazemos o bem, ela nos traz o bem, quando preenchemos o vazio, a vida afasta a solidão. Por isso, amem-se, tenha ou não prenúncio de gotas. Seja o tempo frio ou chuvoso, amem-se. Sendo quente ou abafado, amem-se. Pois um dia de tanto se amar as pessoas também aprenderão, assim é a vida, viva o bem, pois que mal tem?

Depois da chuva, pegue as gotas de orvalho que se agasalham nas folhas e façam delas pequenos diamantes, e com esses diamantes, brincos e colares e os usem para enfeitar sua amada, mas não as deixe cair. Pegue um copo e enche-o de gotas e verás que não tem cheiro algum, beba uma gota e perceba que seu sabor não remete a nada, a não ser a própria água, pois em copo transparente ela é translúcida e diante do horizonte pode ser percebido por entre esse conjunto de verdades, então, me permita levar o seu dedo indicador até a superfície desse líquido para que sinta o frescor e sua pureza. Se puder, procure perceber essa transformação surreal e se você tiver a capacidade transformar-se, verás que, tudo se faz em tom mais escuro o sabor é de aceitável amargor, mas, mirando-o rumo ao horizonte, não se verá mais que um copo meio taça, como aquele vinho que a gente toma para engolir mentiras ou tirar da alma o vil metal que passa cortando bem profundo a espinha das inverdades que nos incomoda. Se um dia voltar a descansar no parapeito da janela como eu fiz, lembre-se que: aquelas gotas de chuva que pousavam nas folhagens como se fossem regras, para elas bastava apenas uma palavra, apenas um "balançar na folha", para tudo vir à tona, e cair...!


Maledicência, ódio, desamor e inveja, são cárceres da alma.

domingo, 1 de novembro de 2015

Maledicência é o ato de falar mal das pessoas. Isto é fato. Esta definição parece ser bem amena para um dos maiores flagelos que assola a humanidade. Falar mal das pessoas está se tornando uma arma perigosa e está sempre ao alcance de qualquer pessoa, em qualquer idade, e para os bons entendedores, é fácil usá-la: basta ter um pouco de maldade no coração. Para mim, que sou advogado, considero este ato como a um tribunal corrupto, pois nele o réu está, invariavelmente, ausente. Nele também não é aplicada a soberania dos veredictos, a pessoa é acusada, julgada e condenada, sem direito de defesa, sem contestação, sem misericórdia.

Atento às mensagens postadas é comum ver pessoas falando mal de outras sem as identificar, mas quem está do outro lado do monitor sabe que aquela frase maldosa se refere a ela, e às vezes, são de “baixo calão”, agressivas. Então, como não considerá-la como uma palavra devastadora, e convenhamos, não há nenhuma implicação ou compromisso para quem a emprega, porque quem escreve, não cita nome, faz de forma evasiva, ardilosa, para alcançar seu objetivo. Em outras situações a pessoa tem dificuldade de encontrar o autor de um boato maldoso ou de uma "fofoca” comprometedora. O maledicente sempre "vende" o que "comprou", mas é importante salientar que ninguém está livre dele, nem mesmo os que se destacam na vida social pela sua capacidade de realização no setor de suas atividades. Estes são os mais visados, talvez, porque geram invejas pelo sucesso e vitórias alcançadas. Nada mais gratificante para o maledicente do que mostrar que a pessoa de quem fala, (fofoca), seja verbalmente ou através da escrita, tão boa ou competente como todos pensam.

Será que a maledicência nasceu de um ódio ou inveja gratuita? E o que causa o desamor entre as pessoas? Será a inveja? O que será? Se voltarmos aos tempos de Cristo sabe-se que nem mesmo ELE, que era inspiração suprema desses ideais, esteve livre disso. Um exemplo típico de seu poder infernal foi o comportamento da multidão que O reverenciou na entrada triunfal, em Jerusalém; no entanto, poucos dias depois, instigada pela maledicência dos sacerdotes judeus, festejou sua crucificação, cercando a cruz de impropérios e zombarias.

O mal que certas pessoas carregam no coração é prejudicial a outras, é coisa ruim que passa a habitar na mente e no coração delas. Tem pessoas que não vê as qualidades de outras ou fingem, e ainda, se acham melhor que elas, gostam de aparecer e não vê que a sua “cegueira” ou ambição desmedida voltada para alcançar um status, sei lá, pode estar prejudicando um relacionamento de amizade duradoura. Entendo, porém, que dependendo do acontecido, não devemos conservar ressentimentos no coração, pois sabemos que a pessoa amiga que nos decepcionou ou decepciona, pode estar vencida pelos seus próprios conflitos. As pessoas virtuosas, de sentimentos nobres, são incapazes de enxergar maldade no próximo. No entanto, é preciso, treinar a capacidade de enxergar o que as pessoas têm de bom, para que o bem cresça em nós. O primeiro passo pode ser difícil, mas o indispensável é "minar” todo esse mal.

Antes de começar a escrever confesso que tinha como objetivo reportar, ou melhor, comentar sobre algumas maledicências, ou a troca de “gentilezas” ocorridas no mundo virtual ou não, e por isso intitulei o texto assim, propositadamente, como se elas e tantas outras palavras nefastas são os cárceres da alma, mas resumi apenas nestas. Hão de se convir que o resultado do adoecimento das relações humanas são as maledicências, o desamor que vem ocorrendo entre as pessoas e principalmente, a inveja. Esses sentimentos maldosos se instalam no solo do coração e lançam suas raízes trazendo perturbação para a alma e contaminação aos que vivem ao redor.

A maledicência, o ódio, o desamor, a inveja e a ambição desmedida são mal que se congelam no coração. Todas elas vêm armazenadas do ressentimento. Todas elas entulham mágoa no coração e o enchem de rancor. Todas elas se alimentam do absinto do ranço; todas elas afogam-se no lodo que se acumulam nas massas cefálicas; todas elas vivem prisioneiras na armadilha da vingança; todas elas são uma prisão; todas elas são, realmente, o cárcere da alma, e mais que isso, o calabouço, a masmorra escura de um palácio medieval, onde os prisioneiros eram atormentados pelos algozes da consciência.



Nas asas da imaginação.

sábado, 24 de outubro de 2015

Encostado no parapeito da varanda eu agucei meus olhos rumo ao horizonte, procurando desviá-los da selva de pedra que me impedia de enxergar o belo anoitecer. Aos poucos o brilho do sol foi desaparecendo, encerrando-se o espetáculo que o dia me oferecera, mas o céu não querendo estragar aqueles momentos inusitados, agiu rápido, oferecendo-me a lua, que já nascia soberba detrás dos montes. E foi ali naquela sacada do 4.º andar, bairro Suíça em Aracaju que voltei a recordar do voo que fiz a Santiago do Chile e logicamente, dos momentos de turbulências ocorridas devida à instabilidade do tempo. Mas, eu estava acostumado com as maluquices do tempo, e naquele recanto, era hora rir, rir de uma amiga e de muitas pessoas que se assustaram durante os voos; era hora de gargalhar, de rir até de mim mesmo, mas me contive, enfim, eu queria era, além de festejar minha ida a um país estrangeiro, também curtir o que tinha visto lá das alturas... Naquele momento de nostalgia, de recordações, é claro, já estava em piso firme, ou seja, na varanda de um prédio recebendo o sopro do vento que acariciava o meu rosto imberbe, e sem querer, indicava que a brisa fresca vinha do mar a poucas quadras dali.  Sabia que a brisa vinha de plagas distantes, mas poderia a qualquer momento retornar com o vento, então, não poderia ficar ali sem fazer nada, só sentindo-o, sem pensar em nada, sem pensar no amanhã, sem pensar na estrada que ainda tinha que percorrer. E foi aí que dei uma pausa e antes que meus olhos abrissem em flash para fotografar o mundo, agucei-os novamente, alcei um voo e deixei o vento me levar. Com o coração em júbilo, abri a janela de minha alma e fui roçando com meus pensamentos as relvas úmidas da vida sem precisar me privar de admirar os últimos resquícios do pôr sol ou o nascer da lua. A beleza que vislumbrava era um colírio para os meus olhos e um bálsamo para o meu espírito inquieto, mas transparente como a uma bolha de sabão, que muitas vezes levou meus sonhos certos e incertos, imagináveis e inimagináveis, como se fosse uma nave espacial desgovernada e sem plano de voo.

Ali na bela cidade de Aracaju, quantas lembranças brotaram de minha mente fértil. Quantos tempos idos eu contabilizei e num deles, apareceu uma casinha construída de puro adobe à beira do Rio São Domingos. Abateu-me uma saudade inevitável sobre o meu coração, mas fazia parte. Naquela casa, ainda menino, aprendi vislumbrar o bonito que a natureza oferecia. À noite, não tinha medo da escuridão e ainda contemplava o céu para ver a penumbra esvair-se e ser tomada por estrelas que reluzia universo afora. E o dia, como era belo! Ele se despedia da noite soltando raios de sol que iam retalhando pequenas nuvens brancas que mais pareciam flocos de lã ou carneirinhos espalhados pelo céu. Quando elas se tornavam escuras prestes a desabarem em temporais, nem me importava, pois tudo me ensinava que beleza existia em qualquer desses céus.  Muitas vezes o tempo passava veloz sem a gente perceber, mas, Deus percebia e estava presente em todos os momentos de dificuldades, fraquezas, sucesso ou insucesso. É Ele que faz o sol brilhar, faz a noite cobrir de estrelas o céu, dá frio ao inverno e calor ao verão; faz as folhas secas de outono cair, e a fascinante primavera encher-se de flores e despedirem-se deixando saudade nos primeiros solstícios de verão.

Hoje, caro leitor, eu quero que você abra a janela de sua alma, quero que construa seu mundo interior, quero que olhe para o horizonte, quero que pare, pense e reflita sobre si mesmo. Quem sabe pode até existir um poeta dentro de você, basta querer. Os poetas têm alguma coisa em comum: têm os pés na terra, mas seu olhar, seu coração, seu pensamento estão cravados no céu, e assim, não pense duas vezes, crave o seu e mire o azul do céu, olhe a natureza, ouça os cânticos dos pássaros, aprecie a lua e todo o seu esplendor e aí escreva o que sentiu e o que fluiu em seu pensamento e assim, terás a certeza de que sua alma renascerá e começará a viver o bonito e sentir o prazer que vem das palavras. Todos te entenderão. Não tenha preguiça física ou mental. Fale coisas que possamos entender, sejam reais ou imaginárias. Quando ler meus escritos, mesmo quando falo de tempos idos e as páginas já estejam amareladas pelo tempo, podem até parecer que foram escritos dias atrás, mas não foram, porque aquilo que imaginamos será atualizado pelo próprio tempo e os manterão vivos e reais.

Insisto com assertiva acima. Se ler, não importa sejam livros, revistas ou não, apenas leia; se tiver vontade de escrever, escreva, pois suas fontes de inspiração jamais se dissiparão. Ao devorar livros, deguste-os como se suas páginas tivessem mel; saboreie toda a escrita que sua mente percebeu e que possa vitaminar o seu saber. Tenha a absoluta certeza de que aos poucos, sua ânsia por coisas novas crescerá a ponto de todos os livros te encantarem, despertarem em você sensações que outrora não passavam sequer de dez páginas, enquanto outras pessoas manuseiam várias. Ao ler, faça compassadamente, não tenha pressa, marque a página onde parou e depois prossiga. Seu pensamento voará às alturas e absorverá o néctar da sapiência e aí, tudo se tornará mais fácil e a inspiração poética fluirá naturalmente.  Quando você começar uma frase mesmo sem nexo, pode ter a certeza que, ao final, revisando cada palavra, você finalizará com sucesso o seu texto, portanto, não se apoquente, pegue uma folha de papel ou sente-se à frente do seu computador, use o teclado e digite. Pense no mundo que o rodeia, pense naquela beleza inspiradora que destaquei no preâmbulo, e fazendo isso, notará que seus dedos correrão a uma velocidade incrível e martelarão as teclas com desenvoltura e no monitor, aparecerá automaticamente um amontoado de palavras e nelas, brotarão sentimentos que só um cronista, poeta ou aprendiz são capazes de sentir e ter a inspiração necessária, que certamente, jorrará aos borbotões e que serão gravadas em sua memória para sempre.

Dias atrás voei num pássaro de aço que encurtou distâncias, mas dentro dele não consegui beijar a lua e nem sentir o calor do sol, entretanto, hoje, usando as asas da minha imaginação sei que posso ir até ela e beijá-la, sei que posso contar as estrelas, sei que posso fazer sombra no meu sol, sei que posso chegar ao infinito e que jamais sentirei as turbulências ou qualquer tipo de instabilidade nas asas de minha imaginação, mas sei também, que as usando sem temor, posso ir onde quiser e alcançar coisas impossíveis e até inimagináveis. E podes ter a certeza que é através dessa viajem imaginária que você será capaz de observar os erros e acertos que cometeu durante sua existência. Se não chegar a uma conclusão fática em relação a ti, ao seu modo de agir, a responsabilidade cabe somente a você. É fato que quem escreve deve informar bem aos que leem para que eles possam encontrar ao longo do texto uma orientação plausível, segura, capaz de mostrar-lhes o caminho da retidão e a forma de como viver a vida dentro dos princípios éticos, morais e religiosos. Às vezes, temos que nos sujeitar a pagar pesados  pedágios para alcançar sonhos não realizados, todavia, como no mundo imaginário tudo é possível, faça essa “viajem”, pois quem sabe você usando as asas de sua imaginação possa encontrar o seu ponto final.

Voando nas turbulentas alturas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Através da pequena janela podia se observar na torre de controle alguém autorizar a decolagem. Autorizado, o piloto liga a turbina e o avião desliza pela pista numa velocidade considerável soltando sobre o asfalto uma fumaça esbranquiçada, mas, no momento certo, sustentado pela força da gravidade, levanta seu bico rumo ao céu, naquele instante, parcialmente nublado. A poucos mil pés de altura, pequenas gotas de chuva deslizam sobre a pequenina à janela e logo, dado a velocidade e altura, o pássaro de aço deixou para trás os respingos de chuva, enquanto, sentado confortavelmente na poltrona, observava atentamente a terra e a amplitude do universo que nem sabemos ter fim. As nuvens não assustavam mais esse objeto composto por turbinas e fuselagem em forma de charuto, sustentado por um par de asas que transportam em seu interior pessoas de todas as idades e regiões brasileiras e quiçá, alguns, até outros países, todos quietos, concentrados em alguma coisa, e olhando em seus semblantes, notava que cada uma delas carregava consigo, esperanças, desilusões, mágoas, ansiedade e medo. Algumas pareciam voar pela primeira vez, pois via nos seus rostos certa apreensão e, principalmente, quando apareciam pequenas turbulências que dava um pequeno, mas diferente cadenciado ao voo da imensa aeronave.

Ela seguia calmamente rumo à Argentina, pousando calmamente, e horas depois, pegamos outra aeronave e seguimos rumo ao Chile, cujas rotas já estavam traçadas na minha planilha de voo. A aeronave não balançava quando fazia o trajeto sul, permanecia firme, nem sei a quantos mil pés de altura, pois só enxergada através da minúscula janela, nuvens, ora negras, ora brancas, algumas delas mais pareciam algodão. Dentro, os passageiros ainda se ajeitam nas poltronas, inquietos, alguns tensos, outros com os olhos parados no tempo e um sono por quebrar. Um homem de cabelos grisalhos, com o rosto já carcomido pelas intempéries do tempo rezava em silêncio manuseando a Bíblia, enquanto lá embaixo, mesmo ainda no Brasil, podia-se ver a terra sendo devastada por queimadas, desmatamentos, mostrando sua face minúscula cicatrizada, mas ainda podíamos ver lindas serras, milhares de meandros, savanas, lagos e dezenas de rios que iam ficando para trás, algumas vezes, desapareciam debaixo de imensas nuvens, ficando totalmente diminutos, lagos, represas e rios, alguns sem volume d’água, tornando-se apenas pequenos riscos sinuosos em face da altura do avião. “A coincidência é que eu estava indo participar de um Congresso na Universidade do Chile e justamente o meu tema era meio ambiente, coincidência ou não, o livreto e vídeo intitulado: “O Grito Silencioso da Mãe Natureza” que tinha produzido e levava em mãos, falava justamente sobre o que estava observando lá do alto.

O pássaro de aço seguiu seu rumo e durante alguns segundos uma turbulência, explicada pelo piloto que se tratava apenas de mudança de altitude. Um simples barulho bastava para deixar alguns tensos, mesmo diante do silêncio que pairava no ar. A cada instabilidade da aeronave olhos se abriam e faces empalideciam. Mas, logo, veio a calmaria a 37mil pés, e sorridente, veio uma jovem, comissária de bordo, empurrando um carrinho com habilidade e sem nenhum medo no olhar; depois escutou alguém reclamar de alguma coisa e nem percebeu ou se fez de indiferente quando jovens trocavam carícias nas últimas poltronas. Nem pareciam sentir os problemas que afligiam cada um.

Vejam só caros leitores: O homem construiu máquinas incríveis, inimagináveis, bem como esses pássaros de aço que encurtam distâncias e suavizam nossos sofrimentos algumas vezes maltratados por uma longa viajem numa estrada de chão. O tempo passou sem que fosse notado e logo ouvimos a voz do piloto anunciando a chegada, e poucos minutos depois, a torre de controle autoriza a aterrissagem. A nave desce bruscamente rangendo os freios sobre o asfalto e depois segue lento rumo ao portão de chegada. Antes de descer, ainda olhei pela janela embaçada pelas gotas produzidas pela neblina que cortava o céu. Tudo era belo e a obscuridade de antes, era interrompida pelas luzes que delineavam a pista do aeroporto e por pequenas aeronaves que desciam e levantavam voos.

No saguão do aeroporto, menos aflitos estavam os rostos daqueles que ainda iam seguir rumos diferentes. Sai caminhando lentamente e deixei para trás aquelas pessoas que qualquer dia poderia encontrá-las novamente no mesmo trajeto e escutar as mesmas lamentações, as mesmas aflições e aquele medinho de viajar de avião. E entendível que faz parte do ser humano e muitos deles não conseguirão despistar o seu medo, por mais que acreditam em Deus. A mente e o coração da pessoa humana são frágeis e incapazes de seguir essa barra e carrear com fervor a emoções vividas de forma que não mais venha sentir medo. E não adianta fugir da realidade, pois todas as sensações, ansiedades aflições, fenômenos físicos e mentais que ouvi e assisti durante a viajem foram importantes para que possamos entender a existência do homem no universo e, por outro lado, se realmente ele acredita na existência de Deus. As atitudes demonstradas por cada uma delas, por mais que acreditassem em Deus, considero que essa demonstração de fé, caso não seja rejuvenescida ante o Criador, continuará sendo apenas uma gota de orvalho que não tem mãos para levantar aos céus e pedir ajuda, pois sabemos que rapidamente se evapora sob os raios de sol.

O literato e as pedras no caminho.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

É difícil o fazer literário. Mais difícil ainda é depois de delineado o tempo, saber conduzir a palavra pelos meandros do texto e o jogo que se deve ter para viajar no contexto, para que um artigo ou crônica não sejam apenas mais um ou uma entre tantos ou tantas que se publicam diariamente em revistas e jornais. Escrever é como andar sobre pedras pontiagudas esquecidas em terrenos íngremes sem senti-las. Hão de se convir que existam pedras que dificultam e impedem a nossa passagem de um estágio a outro e não importa o momento. Vencendo-as, no entanto, e ultrapassando-as, deslocando-as do caminho, haverá inevitavelmente a descoberta da realidade da vida, por mais cruel que seja.

Geralmente quando começamos a escrever procuramos em primeiro plano concentrar, procuramos pensar em tema e o escolhemos, e mesmo sendo uma história comum, real ou surreal, criamos alternativas, inventamos modos, peripécias, ouvimos o canto dos pássaros e quando olhamos o horizonte, vemos o sol se por e a lua assumir o seu lugar. De certo modo, até sentimos as dores que nos mesmos criamos para os nossos personagens. Tudo ao seu tempo ajuda e se inebria em cada frase, fazendo surgir diversos personagens. Indiscutivelmente bastam poucas palavras e a mente generosa que tem o literato, nada lhe prende em sua cabeça pensante. À vezes, pode descuidar-se, mas na ânsia de escrever o óbvio, pesquisa, lê tudo sobre o tema a que se propõe e prossegui, levando a palavra a todos aqueles que estão, talvez, na mesma situação do próprio literato, afinal, pedras podem, de repente, ser pisadas em qualquer lugar ou cair sobre todos. Pesquisar e trazer informações precisas sobre qualquer estigma que assola a humanidade nos dias de hoje, nada mais é que uma obrigação de quem escreve, pois em qualquer parte do universo pode uma pessoa incauta, despreparada, estar lendo o texto e aí as informações servirá como um alerta não só para ela, mas também para todos nós.

Certo dia ao ler uma carta esta me reportou a outra que tinha quase com o mesmo sentido, uma carta de despedida, de uma amiga extraordinária, limpa, sincera, honesta, que enfrentou uma doença terrível, incurável, por sinal, a mesma situação da outra amiga, e ela, sobre pedras, também pisou... A carta dizia assim: “Vá me perdoando pela aspereza do trato, porque me irrito fácil com você. Tu és uma pessoa boa e excelente amiga que tenho acompanhado há anos. Como eu, você não quis “aparecer” publicando livros fracos como eu fiz. Só estou com essa irritação por que algum “vírus” maligno fez isso comigo. Perdoa-me! Para que fiquemos bem, é melhor a gente se evitar, de oferecer nossos préstimos. Sei que posso contar com todos e principalmente com você nos momentos difíceis. Então, deixo-lhe como lembrança, o poema que fiz e sei que você gostou”. Poucos dias depois ela partiu para sempre.

Atabalhoado, pela tamanha coincidência, confrontei as cartas e esta outra dizia: “Amiga, hoje com o corpo quase desfalecido, fui para a cama. Para variar não conseguia dormir e ainda, de madrugada, caiu uma tempestade como nunca vista. Ao fechar a janela que estava semi-aberta, ouvi um trovão ensurdecedor que rasgava o céu. Lembranças vieram à minha mente mostrando vívidos detalhes de uma vida mal vivida e de projetos não realizados. No meu quarto, paira um cheiro mofo, fétido. Minhas mãos estão geladas, o corpo suando e mal consigo respirar. Se você amiga me perguntar quantas lágrimas desceram pela minha face, não sei! Só sei que me encontro resignada e estes últimos momentos de minha vida quero que me perdoe se algumas vezes lhe tratei de forma áspera. Você nunca escreveu livros fracos e para mim és best seller. Sabe que um dia  rezei e pedi ao nosso Pai Celestial para amenizar a minha dor. Pedi tanto que momentos depois me senti aliviada. A dor desapareceu, não sei explicar, mas desapareceu...”

Verdadeiramente, pelo que elas realizaram somente podemos entender que vieram ao mundo para dar-nos exemplos de honradez, amizade, dignidade, pois enquanto viveram, mesmo depois da doença de que foram acometidas, elas continuaram amigas e leais. Esta pequena crônica pode ser uma lição de vida. Vida em todos os sentidos. E por mais simples que seja este texto ele nos repassa respeito à amizade, o amor, amor à natureza, e principalmente, amor à vida. Todos os literatos, mesmo caminhando sobre pedras, procuram de alguma forma explicar, seja no meio ou no final de cada texto, o significado do que é Ser neste mundo de Deus.

O grito silencioso da mãe natureza

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Trabalho apresentado durante o IV Congresso Internacional  de Ciências, Tecnologias, Cultura, Literatura e Meio Ambiente, evento realizado na Universidade de Santiago - Chile, durante os dias 9 a 12 de outubro de 2015; Meu tema: Meio Ambiente.





Eram apenas gestos e nada mais...

domingo, 4 de outubro de 2015


Preguiçosamente apertei lâmpada do abajur que perscrutava as sombras dos gestos refletidos nas paredes, parecendo seres vivos saltitantes extraídos de filmes de animação, vivos como nunca, imagens que jamais refletira. O velho abajur geralmente iluminava debilmente o quarto fazendo a luz branda tornar todos os meus gestos romanticamente surreais. Todavia, de repente, a luz que a muito não acendia tão intensamente, surpreendeu-me com seu poder de claridade. Alguém deve ter substituído a velha lâmpada por uma de 60 volts. Os movimentos sombreados na parede começaram a acontecer como a um desenho animado filmado em câmera lenta e em formato de preto e branco. A imagem refletida na parede era febril e frenética, mas também estática, bastava ficar quieto. Os gestos de minhas idas e vindas retesavam-se na branca parede do quarto e lutavam para se libertar de um corpo estranho que se movia de um lado para outro e insistia em não liberar meus gestos ora embutidos naquela cena surreal, mas, fortificados com a presença da forte luz, escaparam do peso daquelas sombras e rejuvenesceu o meu coração que de tanto lutar já gesticulava incólume.

A luz brilhou mais forte e pensei que nunca acabaria. Olhei para um canto vi uma cama e berço vazios e sobre a cama e travesseiro, faltava alguém. Com os olhos ainda travados pelo sono, cabelos desalinhados, mãos calejadas em face da lida rotineira fiquei pasmo e uma saudade abateu-me sobre o peito. Faltava realmente alguém naquele espaço, alguém que me ajudou a curar as minhas dores e feridas; alguém que não reclamava de nada, nem das dores desconfortantes dos pés, dos joelhos, das pernas e braços, esfolados por quedas e estripulias que a própria vida gerou; alguém que naquela noite inusitada não pode ver o meu rosto ser iluminado pela nova e potente lâmpada do abajur. Alguém que se estivesse ali certeza teria de que a luz mostraria a face e o dom de sempre me envolver com a calmaria que a vida tantas vezes insistiu em roubar-me.

Gestos surreais, cenas realmente inusitadas, refletidas na parede, que naquela noite somente eu tive o privilégio de assistir: um corpo de mulher em movimento coberto por um lençol cheio de contrastes e cores, cabelos loiros, lisos, amparados por um travesseiro de espumas macias que, mesmo deleitando-se numa cama despida de macios lençóis, sobre ela afigurava a imagem de uma mulher guerreira e forte. Os gestos só podiam ser surreais mesmo, pois há dias não acendia aquele velho abajur e jamais pensava assistir cenas tão preciosas que minha mente jamais esquecerá. Mas, quanto á saudade é difícil imaginar mesmo quando se vê apenas gestos refletirem numa mísera parede. É uma coisa estranha que toma conta da gente, chega sem pedir licença e acontece quando menos imaginamos e aí vem saudade do seu cheiro, saudade de uma melodia que curtíamos que nos trazia boas recordações, saudade de uma simples palavra ou manifestação de amor; saudade daquelas imagens que foram se acoplando dia a dia na região recôndita de meu cérebro, mas, eis que a máquina do tempo surgiu e me envolveu, convidou-me a voltar a ser criança.

A mulher que se gesticulava nas sombras refletidas na parede pode ter costurado a vida de muitos entes queridos, usando a linha da verdade para que pudessem construir suas vidas com sobriedade. Mulher, esse alguém, que deixou a saudade invadir o meu peito e se transformou numa ponte de concreto e me fez retornar a mim mesmo; uma travessia moldurada de sabedoria, sem empecilhos, onde se vê bordada uma identidade muitas vezes esquecida, perdida na pressa que me levou ou que me deixa levar.

Hoje, ao olhar para os gestos e falar em saudade dela é dizer o óbvio, é devolução, é ato que restitui o que se parte; é luz que sinaliza o local de nosso porto seguro, é voz mansa no ouvido que nos acalma nas madrugadas de desespero e solidão.  Mas, naquela noite, ao acender a lâmpada do abajur e ver aquelas cenas refletidas na parede não me restou alternativa senão em finalizar este artigo em uma única frase: O poeta tem diante de si vários sentimentos: o real, o palpável, o prático, o surreal, o imaginário, visões fantasiosas, e quando escreve, muitas vezes objetiva levar ao leitor uma mensagem de amor, esperança, fé, e intencionalmente, deixa de dedilhar o teclado do computador e o substitui pela caneta-tinteiro injetando nela a ruborizada tinta de um coração ferido pelo tempo no afã de aferir a sensibilidade de cada um, mormente quando virem perscrutadas as sombras da pessoa amada refletidas na parede.


 
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