Amigo leitor (a)

Amigo leitor (a). Quando lemos um livro, ou qualquer texto, publicados ou não, que são sinônimos do prazer, por mais simples que forem, sejam reais ou surreais, nos permite exercitar a nossa memória, ampliar nossos conhecimentos e nos faz sentir as mais diversas emoções, por isso, sensibilizado, agradeço a sua visita ao meu Blog, na esperança de que tenha gostado pelos menos de um ou que alguns tenha tocado o seu coração. Noutros, espero que tenha sido um personagem principal e encontrado alguma história que se identificasse com a sua. PARA ABRIR QUALQUER CRÔNICA OU ARTIGO ABAIXO É SÓ CLICAR SOBRE O TÍTULO OU NA PALAVRA "MAIS INFORMAÇÕES. Abraço,Vanderlan

Nas asas da imaginação.

sábado, 24 de outubro de 2015

Encostado no parapeito da varanda eu agucei meus olhos rumo ao horizonte, procurando desviá-los da selva de pedra que me impedia de enxergar o belo anoitecer. Aos poucos o brilho do sol foi desaparecendo, encerrando-se o espetáculo que o dia me oferecera, mas o céu não querendo estragar aqueles momentos inusitados, agiu rápido, oferecendo-me a lua, que já nascia soberba detrás dos montes. E foi ali naquela sacada do 4.º andar, bairro Suíça em Aracaju que voltei a recordar do voo que fiz a Santiago do Chile e logicamente, dos momentos de turbulências ocorridas devida à instabilidade do tempo. Mas, eu estava acostumado com as maluquices do tempo, e naquele recanto, era hora rir, rir de uma amiga e de muitas pessoas que se assustaram durante os voos; era hora de gargalhar, de rir até de mim mesmo, mas me contive, enfim, eu queria era, além de festejar minha ida a um país estrangeiro, também curtir o que tinha visto lá das alturas... Naquele momento de nostalgia, de recordações, é claro, já estava em piso firme, ou seja, na varanda de um prédio recebendo o sopro do vento que acariciava o meu rosto imberbe, e sem querer, indicava que a brisa fresca vinha do mar a poucas quadras dali.  Sabia que a brisa vinha de plagas distantes, mas poderia a qualquer momento retornar com o vento, então, não poderia ficar ali sem fazer nada, só sentindo-o, sem pensar em nada, sem pensar no amanhã, sem pensar na estrada que ainda tinha que percorrer. E foi aí que dei uma pausa e antes que meus olhos abrissem em flash para fotografar o mundo, agucei-os novamente, alcei um voo e deixei o vento me levar. Com o coração em júbilo, abri a janela de minha alma e fui roçando com meus pensamentos as relvas úmidas da vida sem precisar me privar de admirar os últimos resquícios do pôr sol ou o nascer da lua. A beleza que vislumbrava era um colírio para os meus olhos e um bálsamo para o meu espírito inquieto, mas transparente como a uma bolha de sabão, que muitas vezes levou meus sonhos certos e incertos, imagináveis e inimagináveis, como se fosse uma nave espacial desgovernada e sem plano de voo.

Ali na bela cidade de Aracaju, quantas lembranças brotaram de minha mente fértil. Quantos tempos idos eu contabilizei e num deles, apareceu uma casinha construída de puro adobe à beira do Rio São Domingos. Abateu-me uma saudade inevitável sobre o meu coração, mas fazia parte. Naquela casa, ainda menino, aprendi vislumbrar o bonito que a natureza oferecia. À noite, não tinha medo da escuridão e ainda contemplava o céu para ver a penumbra esvair-se e ser tomada por estrelas que reluzia universo afora. E o dia, como era belo! Ele se despedia da noite soltando raios de sol que iam retalhando pequenas nuvens brancas que mais pareciam flocos de lã ou carneirinhos espalhados pelo céu. Quando elas se tornavam escuras prestes a desabarem em temporais, nem me importava, pois tudo me ensinava que beleza existia em qualquer desses céus.  Muitas vezes o tempo passava veloz sem a gente perceber, mas, Deus percebia e estava presente em todos os momentos de dificuldades, fraquezas, sucesso ou insucesso. É Ele que faz o sol brilhar, faz a noite cobrir de estrelas o céu, dá frio ao inverno e calor ao verão; faz as folhas secas de outono cair, e a fascinante primavera encher-se de flores e despedirem-se deixando saudade nos primeiros solstícios de verão.

Hoje, caro leitor, eu quero que você abra a janela de sua alma, quero que construa seu mundo interior, quero que olhe para o horizonte, quero que pare, pense e reflita sobre si mesmo. Quem sabe pode até existir um poeta dentro de você, basta querer. Os poetas têm alguma coisa em comum: têm os pés na terra, mas seu olhar, seu coração, seu pensamento estão cravados no céu, e assim, não pense duas vezes, crave o seu e mire o azul do céu, olhe a natureza, ouça os cânticos dos pássaros, aprecie a lua e todo o seu esplendor e aí escreva o que sentiu e o que fluiu em seu pensamento e assim, terás a certeza de que sua alma renascerá e começará a viver o bonito e sentir o prazer que vem das palavras. Todos te entenderão. Não tenha preguiça física ou mental. Fale coisas que possamos entender, sejam reais ou imaginárias. Quando ler meus escritos, mesmo quando falo de tempos idos e as páginas já estejam amareladas pelo tempo, podem até parecer que foram escritos dias atrás, mas não foram, porque aquilo que imaginamos será atualizado pelo próprio tempo e os manterão vivos e reais.

Insisto com assertiva acima. Se ler, não importa sejam livros, revistas ou não, apenas leia; se tiver vontade de escrever, escreva, pois suas fontes de inspiração jamais se dissiparão. Ao devorar livros, deguste-os como se suas páginas tivessem mel; saboreie toda a escrita que sua mente percebeu e que possa vitaminar o seu saber. Tenha a absoluta certeza de que aos poucos, sua ânsia por coisas novas crescerá a ponto de todos os livros te encantarem, despertarem em você sensações que outrora não passavam sequer de dez páginas, enquanto outras pessoas manuseiam várias. Ao ler, faça compassadamente, não tenha pressa, marque a página onde parou e depois prossiga. Seu pensamento voará às alturas e absorverá o néctar da sapiência e aí, tudo se tornará mais fácil e a inspiração poética fluirá naturalmente.  Quando você começar uma frase mesmo sem nexo, pode ter a certeza que, ao final, revisando cada palavra, você finalizará com sucesso o seu texto, portanto, não se apoquente, pegue uma folha de papel ou sente-se à frente do seu computador, use o teclado e digite. Pense no mundo que o rodeia, pense naquela beleza inspiradora que destaquei no preâmbulo, e fazendo isso, notará que seus dedos correrão a uma velocidade incrível e martelarão as teclas com desenvoltura e no monitor, aparecerá automaticamente um amontoado de palavras e nelas, brotarão sentimentos que só um cronista, poeta ou aprendiz são capazes de sentir e ter a inspiração necessária, que certamente, jorrará aos borbotões e que serão gravadas em sua memória para sempre.

Dias atrás voei num pássaro de aço que encurtou distâncias, mas dentro dele não consegui beijar a lua e nem sentir o calor do sol, entretanto, hoje, usando as asas da minha imaginação sei que posso ir até ela e beijá-la, sei que posso contar as estrelas, sei que posso fazer sombra no meu sol, sei que posso chegar ao infinito e que jamais sentirei as turbulências ou qualquer tipo de instabilidade nas asas de minha imaginação, mas sei também, que as usando sem temor, posso ir onde quiser e alcançar coisas impossíveis e até inimagináveis. E podes ter a certeza que é através dessa viajem imaginária que você será capaz de observar os erros e acertos que cometeu durante sua existência. Se não chegar a uma conclusão fática em relação a ti, ao seu modo de agir, a responsabilidade cabe somente a você. É fato que quem escreve deve informar bem aos que leem para que eles possam encontrar ao longo do texto uma orientação plausível, segura, capaz de mostrar-lhes o caminho da retidão e a forma de como viver a vida dentro dos princípios éticos, morais e religiosos. Às vezes, temos que nos sujeitar a pagar pesados  pedágios para alcançar sonhos não realizados, todavia, como no mundo imaginário tudo é possível, faça essa “viajem”, pois quem sabe você usando as asas de sua imaginação possa encontrar o seu ponto final.

Voando nas turbulentas alturas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Através da pequena janela podia se observar na torre de controle alguém autorizar a decolagem. Autorizado, o piloto liga a turbina e o avião desliza pela pista numa velocidade considerável soltando sobre o asfalto uma fumaça esbranquiçada, mas, no momento certo, sustentado pela força da gravidade, levanta seu bico rumo ao céu, naquele instante, parcialmente nublado. A poucos mil pés de altura, pequenas gotas de chuva deslizam sobre a pequenina à janela e logo, dado a velocidade e altura, o pássaro de aço deixou para trás os respingos de chuva, enquanto, sentado confortavelmente na poltrona, observava atentamente a terra e a amplitude do universo que nem sabemos ter fim. As nuvens não assustavam mais esse objeto composto por turbinas e fuselagem em forma de charuto, sustentado por um par de asas que transportam em seu interior pessoas de todas as idades e regiões brasileiras e quiçá, alguns, até outros países, todos quietos, concentrados em alguma coisa, e olhando em seus semblantes, notava que cada uma delas carregava consigo, esperanças, desilusões, mágoas, ansiedade e medo. Algumas pareciam voar pela primeira vez, pois via nos seus rostos certa apreensão e, principalmente, quando apareciam pequenas turbulências que dava um pequeno, mas diferente cadenciado ao voo da imensa aeronave.

Ela seguia calmamente rumo à Argentina, pousando calmamente, e horas depois, pegamos outra aeronave e seguimos rumo ao Chile, cujas rotas já estavam traçadas na minha planilha de voo. A aeronave não balançava quando fazia o trajeto sul, permanecia firme, nem sei a quantos mil pés de altura, pois só enxergada através da minúscula janela, nuvens, ora negras, ora brancas, algumas delas mais pareciam algodão. Dentro, os passageiros ainda se ajeitam nas poltronas, inquietos, alguns tensos, outros com os olhos parados no tempo e um sono por quebrar. Um homem de cabelos grisalhos, com o rosto já carcomido pelas intempéries do tempo rezava em silêncio manuseando a Bíblia, enquanto lá embaixo, mesmo ainda no Brasil, podia-se ver a terra sendo devastada por queimadas, desmatamentos, mostrando sua face minúscula cicatrizada, mas ainda podíamos ver lindas serras, milhares de meandros, savanas, lagos e dezenas de rios que iam ficando para trás, algumas vezes, desapareciam debaixo de imensas nuvens, ficando totalmente diminutos, lagos, represas e rios, alguns sem volume d’água, tornando-se apenas pequenos riscos sinuosos em face da altura do avião. “A coincidência é que eu estava indo participar de um Congresso na Universidade do Chile e justamente o meu tema era meio ambiente, coincidência ou não, o livreto e vídeo intitulado: “O Grito Silencioso da Mãe Natureza” que tinha produzido e levava em mãos, falava justamente sobre o que estava observando lá do alto.

O pássaro de aço seguiu seu rumo e durante alguns segundos uma turbulência, explicada pelo piloto que se tratava apenas de mudança de altitude. Um simples barulho bastava para deixar alguns tensos, mesmo diante do silêncio que pairava no ar. A cada instabilidade da aeronave olhos se abriam e faces empalideciam. Mas, logo, veio a calmaria a 37mil pés, e sorridente, veio uma jovem, comissária de bordo, empurrando um carrinho com habilidade e sem nenhum medo no olhar; depois escutou alguém reclamar de alguma coisa e nem percebeu ou se fez de indiferente quando jovens trocavam carícias nas últimas poltronas. Nem pareciam sentir os problemas que afligiam cada um.

Vejam só caros leitores: O homem construiu máquinas incríveis, inimagináveis, bem como esses pássaros de aço que encurtam distâncias e suavizam nossos sofrimentos algumas vezes maltratados por uma longa viajem numa estrada de chão. O tempo passou sem que fosse notado e logo ouvimos a voz do piloto anunciando a chegada, e poucos minutos depois, a torre de controle autoriza a aterrissagem. A nave desce bruscamente rangendo os freios sobre o asfalto e depois segue lento rumo ao portão de chegada. Antes de descer, ainda olhei pela janela embaçada pelas gotas produzidas pela neblina que cortava o céu. Tudo era belo e a obscuridade de antes, era interrompida pelas luzes que delineavam a pista do aeroporto e por pequenas aeronaves que desciam e levantavam voos.

No saguão do aeroporto, menos aflitos estavam os rostos daqueles que ainda iam seguir rumos diferentes. Sai caminhando lentamente e deixei para trás aquelas pessoas que qualquer dia poderia encontrá-las novamente no mesmo trajeto e escutar as mesmas lamentações, as mesmas aflições e aquele medinho de viajar de avião. E entendível que faz parte do ser humano e muitos deles não conseguirão despistar o seu medo, por mais que acreditam em Deus. A mente e o coração da pessoa humana são frágeis e incapazes de seguir essa barra e carrear com fervor a emoções vividas de forma que não mais venha sentir medo. E não adianta fugir da realidade, pois todas as sensações, ansiedades aflições, fenômenos físicos e mentais que ouvi e assisti durante a viajem foram importantes para que possamos entender a existência do homem no universo e, por outro lado, se realmente ele acredita na existência de Deus. As atitudes demonstradas por cada uma delas, por mais que acreditassem em Deus, considero que essa demonstração de fé, caso não seja rejuvenescida ante o Criador, continuará sendo apenas uma gota de orvalho que não tem mãos para levantar aos céus e pedir ajuda, pois sabemos que rapidamente se evapora sob os raios de sol.

O literato e as pedras no caminho.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

É difícil o fazer literário. Mais difícil ainda é depois de delineado o tempo, saber conduzir a palavra pelos meandros do texto e o jogo que se deve ter para viajar no contexto, para que um artigo ou crônica não sejam apenas mais um ou uma entre tantos ou tantas que se publicam diariamente em revistas e jornais. Escrever é como andar sobre pedras pontiagudas esquecidas em terrenos íngremes sem senti-las. Hão de se convir que existam pedras que dificultam e impedem a nossa passagem de um estágio a outro e não importa o momento. Vencendo-as, no entanto, e ultrapassando-as, deslocando-as do caminho, haverá inevitavelmente a descoberta da realidade da vida, por mais cruel que seja.

Geralmente quando começamos a escrever procuramos em primeiro plano concentrar, procuramos pensar em tema e o escolhemos, e mesmo sendo uma história comum, real ou surreal, criamos alternativas, inventamos modos, peripécias, ouvimos o canto dos pássaros e quando olhamos o horizonte, vemos o sol se por e a lua assumir o seu lugar. De certo modo, até sentimos as dores que nos mesmos criamos para os nossos personagens. Tudo ao seu tempo ajuda e se inebria em cada frase, fazendo surgir diversos personagens. Indiscutivelmente bastam poucas palavras e a mente generosa que tem o literato, nada lhe prende em sua cabeça pensante. À vezes, pode descuidar-se, mas na ânsia de escrever o óbvio, pesquisa, lê tudo sobre o tema a que se propõe e prossegui, levando a palavra a todos aqueles que estão, talvez, na mesma situação do próprio literato, afinal, pedras podem, de repente, ser pisadas em qualquer lugar ou cair sobre todos. Pesquisar e trazer informações precisas sobre qualquer estigma que assola a humanidade nos dias de hoje, nada mais é que uma obrigação de quem escreve, pois em qualquer parte do universo pode uma pessoa incauta, despreparada, estar lendo o texto e aí as informações servirá como um alerta não só para ela, mas também para todos nós.

Certo dia ao ler uma carta esta me reportou a outra que tinha quase com o mesmo sentido, uma carta de despedida, de uma amiga extraordinária, limpa, sincera, honesta, que enfrentou uma doença terrível, incurável, por sinal, a mesma situação da outra amiga, e ela, sobre pedras, também pisou... A carta dizia assim: “Vá me perdoando pela aspereza do trato, porque me irrito fácil com você. Tu és uma pessoa boa e excelente amiga que tenho acompanhado há anos. Como eu, você não quis “aparecer” publicando livros fracos como eu fiz. Só estou com essa irritação por que algum “vírus” maligno fez isso comigo. Perdoa-me! Para que fiquemos bem, é melhor a gente se evitar, de oferecer nossos préstimos. Sei que posso contar com todos e principalmente com você nos momentos difíceis. Então, deixo-lhe como lembrança, o poema que fiz e sei que você gostou”. Poucos dias depois ela partiu para sempre.

Atabalhoado, pela tamanha coincidência, confrontei as cartas e esta outra dizia: “Amiga, hoje com o corpo quase desfalecido, fui para a cama. Para variar não conseguia dormir e ainda, de madrugada, caiu uma tempestade como nunca vista. Ao fechar a janela que estava semi-aberta, ouvi um trovão ensurdecedor que rasgava o céu. Lembranças vieram à minha mente mostrando vívidos detalhes de uma vida mal vivida e de projetos não realizados. No meu quarto, paira um cheiro mofo, fétido. Minhas mãos estão geladas, o corpo suando e mal consigo respirar. Se você amiga me perguntar quantas lágrimas desceram pela minha face, não sei! Só sei que me encontro resignada e estes últimos momentos de minha vida quero que me perdoe se algumas vezes lhe tratei de forma áspera. Você nunca escreveu livros fracos e para mim és best seller. Sabe que um dia  rezei e pedi ao nosso Pai Celestial para amenizar a minha dor. Pedi tanto que momentos depois me senti aliviada. A dor desapareceu, não sei explicar, mas desapareceu...”

Verdadeiramente, pelo que elas realizaram somente podemos entender que vieram ao mundo para dar-nos exemplos de honradez, amizade, dignidade, pois enquanto viveram, mesmo depois da doença de que foram acometidas, elas continuaram amigas e leais. Esta pequena crônica pode ser uma lição de vida. Vida em todos os sentidos. E por mais simples que seja este texto ele nos repassa respeito à amizade, o amor, amor à natureza, e principalmente, amor à vida. Todos os literatos, mesmo caminhando sobre pedras, procuram de alguma forma explicar, seja no meio ou no final de cada texto, o significado do que é Ser neste mundo de Deus.

O grito silencioso da mãe natureza

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Trabalho apresentado durante o IV Congresso Internacional  de Ciências, Tecnologias, Cultura, Literatura e Meio Ambiente, evento realizado na Universidade de Santiago - Chile, durante os dias 9 a 12 de outubro de 2015; Meu tema: Meio Ambiente.





Eram apenas gestos e nada mais...

domingo, 4 de outubro de 2015


Preguiçosamente apertei lâmpada do abajur que perscrutava as sombras dos gestos refletidos nas paredes, parecendo seres vivos saltitantes extraídos de filmes de animação, vivos como nunca, imagens que jamais refletira. O velho abajur geralmente iluminava debilmente o quarto fazendo a luz branda tornar todos os meus gestos romanticamente surreais. Todavia, de repente, a luz que a muito não acendia tão intensamente, surpreendeu-me com seu poder de claridade. Alguém deve ter substituído a velha lâmpada por uma de 60 volts. Os movimentos sombreados na parede começaram a acontecer como a um desenho animado filmado em câmera lenta e em formato de preto e branco. A imagem refletida na parede era febril e frenética, mas também estática, bastava ficar quieto. Os gestos de minhas idas e vindas retesavam-se na branca parede do quarto e lutavam para se libertar de um corpo estranho que se movia de um lado para outro e insistia em não liberar meus gestos ora embutidos naquela cena surreal, mas, fortificados com a presença da forte luz, escaparam do peso daquelas sombras e rejuvenesceu o meu coração que de tanto lutar já gesticulava incólume.

A luz brilhou mais forte e pensei que nunca acabaria. Olhei para um canto vi uma cama e berço vazios e sobre a cama e travesseiro, faltava alguém. Com os olhos ainda travados pelo sono, cabelos desalinhados, mãos calejadas em face da lida rotineira fiquei pasmo e uma saudade abateu-me sobre o peito. Faltava realmente alguém naquele espaço, alguém que me ajudou a curar as minhas dores e feridas; alguém que não reclamava de nada, nem das dores desconfortantes dos pés, dos joelhos, das pernas e braços, esfolados por quedas e estripulias que a própria vida gerou; alguém que naquela noite inusitada não pode ver o meu rosto ser iluminado pela nova e potente lâmpada do abajur. Alguém que se estivesse ali certeza teria de que a luz mostraria a face e o dom de sempre me envolver com a calmaria que a vida tantas vezes insistiu em roubar-me.

Gestos surreais, cenas realmente inusitadas, refletidas na parede, que naquela noite somente eu tive o privilégio de assistir: um corpo de mulher em movimento coberto por um lençol cheio de contrastes e cores, cabelos loiros, lisos, amparados por um travesseiro de espumas macias que, mesmo deleitando-se numa cama despida de macios lençóis, sobre ela afigurava a imagem de uma mulher guerreira e forte. Os gestos só podiam ser surreais mesmo, pois há dias não acendia aquele velho abajur e jamais pensava assistir cenas tão preciosas que minha mente jamais esquecerá. Mas, quanto á saudade é difícil imaginar mesmo quando se vê apenas gestos refletirem numa mísera parede. É uma coisa estranha que toma conta da gente, chega sem pedir licença e acontece quando menos imaginamos e aí vem saudade do seu cheiro, saudade de uma melodia que curtíamos que nos trazia boas recordações, saudade de uma simples palavra ou manifestação de amor; saudade daquelas imagens que foram se acoplando dia a dia na região recôndita de meu cérebro, mas, eis que a máquina do tempo surgiu e me envolveu, convidou-me a voltar a ser criança.

A mulher que se gesticulava nas sombras refletidas na parede pode ter costurado a vida de muitos entes queridos, usando a linha da verdade para que pudessem construir suas vidas com sobriedade. Mulher, esse alguém, que deixou a saudade invadir o meu peito e se transformou numa ponte de concreto e me fez retornar a mim mesmo; uma travessia moldurada de sabedoria, sem empecilhos, onde se vê bordada uma identidade muitas vezes esquecida, perdida na pressa que me levou ou que me deixa levar.

Hoje, ao olhar para os gestos e falar em saudade dela é dizer o óbvio, é devolução, é ato que restitui o que se parte; é luz que sinaliza o local de nosso porto seguro, é voz mansa no ouvido que nos acalma nas madrugadas de desespero e solidão.  Mas, naquela noite, ao acender a lâmpada do abajur e ver aquelas cenas refletidas na parede não me restou alternativa senão em finalizar este artigo em uma única frase: O poeta tem diante de si vários sentimentos: o real, o palpável, o prático, o surreal, o imaginário, visões fantasiosas, e quando escreve, muitas vezes objetiva levar ao leitor uma mensagem de amor, esperança, fé, e intencionalmente, deixa de dedilhar o teclado do computador e o substitui pela caneta-tinteiro injetando nela a ruborizada tinta de um coração ferido pelo tempo no afã de aferir a sensibilidade de cada um, mormente quando virem perscrutadas as sombras da pessoa amada refletidas na parede.


Calou-se uma voz

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Certo dia eu fui conversar com o amigo Matusalém, fumante inveterado, que bebia em demasia e conversava tanto que até espumava o canto da boca, esse fato nos fazia lembrar de certo político goiano. Era uma pessoa boníssima, alegre, cantava, tocava violão e era realmente bastante comunicativo, mas não posso negar que tinha dificuldade de conversar com ele, pois além do cheiro do cigarro, ele realmente falava demais. Eu o conhecia desde os tempos da jovem guarda, então, o que eu podia fazer? Conselho já tinha dado tantos! O jeito era continuar aguentando, a escutá-lo e nada mais. Podia-se dizer que ele era uma pessoa que "falava por mim" ao invés de se envolver com o meu curto palavreado. 

Como não sou de conversar muito, apenas o suficiente para o bom entendimento, esses tipos de pessoas parecem ter uma capacidade infalível para me encontrar, estando sozinho ou não. Posso estar relaxado num canto qualquer, conversando tranquilamente com as pessoas, mas em segundos, quando aparece esse tipo de gente mais pareço um animal assustado. É como estivesse diante de faróis de um carro. Fico embaraçado e perplexo diante do impecável monólogo dele ou deles, e preso, como se estivesse numa armadilha, incapaz de escapar e buscar a minha liberdade perdida.

Difícil é o tagarela entrar no ritmo meu, mas ocorre, visto que ele não se incomoda com preliminares sociais e ainda exibe uma incrível habilidade de escutar, mas quando volta a falar, o faz sem hesitação e até mesmo sem respirar. E isso às vezes a gente suporta em razão de um vasto estoque de informações que carrega e que contém muitas vezes temas favoritos nossos, principalmente, literatura, artes e até futebol. Interrompe-los ou conseguir um aparte jamais nós devemos fazer isso, pois eles têm suas estratégias. Não resistem momentaneamente, olham pra gente sorrateiramente enquanto murmuramos nossas tolices, e no momento em que vacilamos, eles continuam de onde pararam - como se a gente não tivesse falado nada. E o pior é que não falamos mesmo! O tagarela incessante não se distrai com tais irrelevâncias. Tudo que importa é transmitir o que está em sua mente.

Quando estou diante desses indivíduos gosto de observar com atenção a sua fala no afã de descobrir não apenas o que eles pensam e fazem, mas porque pensam e fazem. Para o tagarela uma coisa é certa, ele não é motivado pelo incentivo. Longe de incentivá-lo, eu e os meus leitores/vítimas tentamos é evitá-lo.

Alguns indivíduos estão envolvidos em seu próprio mundo - egocêntricos, simplesmente não estão interessados em nós ou em nossos sentimentos. Eles nunca aprenderam que o diálogo sadio e comunicação entre pessoas é uma troca de ideias, sentimentos e informações mútuas, todavia, durante minha observação descobri que essas pessoas são tímidas e até certo ponto nervosas e que suas conversas também bloqueiam o seu próprio diálogo, trazendo o medo da interação e a sua forma de tagarelice, nada mais é do que manter-nos à distância. Eles acham que são interessantes e que os outros gostam de ouvi-los. Eles acreditam que comunicação é entreter pessoas ou de lhes fornecer informações, nos deixam hipnotizados, sobrecarregando a nossa mente, inibindo o nosso pensamento, confundindo-nos com suas falas monotonamente compassadas.

Mas voltemos ao meu amigo Matusalém. Naquele dia observei que se encontrava bastante calado, para mim, anormal. Eu puxava conversa e nada. Notei que alguma coisa tinha acontecido. O seu semblante estava triste e os olhos avermelhados. Cabisbaixo, soltou um sorriso pálido, deixando de lado suas habilidades tradicionais de um grande comunicador, esvaiu-se a sua simpatia e como bom ator, escondia o que se passava com ele. Procurei fazer umas graças, contei piadinhas, mesmo sem graça, mas contei. Tentei ser tagarela igual a ele, mas nada funcionou. Pensava comigo mesmo: Será que naquele dia queria em que fui visitá-lo queria jogar um jogo diferente ou queria que eu o notasse de verdade. Percebi sim, mas apenas diferenças no seu modo olhar, de como se cuidava ou como fazia para escapar, de como passar-se por ofendido, magoar-se ou até, em certos momentos, recusar-se a perder o seu tempo com a gente. Mas a minha obrigação de amigo era lembrar-lhe de nossa amizade e que podia confiar, todavia, qual foi minha surpresa quando ao ler um diagnóstico jogado sobre uma mesa, simplesmente constatei que às vezes pertencemos a um bando de calados, que às vezes fingimos de cegos ou de surdos diante de certas situações. Então, sem ele perceber, eu peguei a pequena anotação médica e comecei a ler: “O câncer da língua, garganta e pulmão não são o mais frequente de todos, no entanto costuma manifestar-se em fumadores ativos e em pessoas que bebem bastante, e que com o passar dos anos, a sua presença dentro das estatísticas vão aumentando. É mais comum nos homens do que em mulheres, esta doença conta com um bom prognóstico de recuperação se for detectada a tempo, por isso torna-se importante saber quais são os primeiros sintomas de câncer da língua, especialmente se encontrar no grupo de risco.” Fiquei perplexo!

Sabemos que viver muito é somar perdas, é ficar inchado de coisas que nos vão deixando pelo caminho. Raramente, os que morrem assim, são os preferidos de Deus. Morrer assim é como um ícone romântico que deixa hígida, festiva a imagem do morto, de toda sua vida e do que poderia ter ocorrido durante sua existência. Todos os sonhos e realizações. No álbum de fotos do amigo era fácil observar o permanente sorriso celebrando a vida e a juventude. Era fácil ver no seu jeito alegre e a forma de como enfrentava o dia a dia, de como enfrentava tardes sem pôr do sol, ou de crepúsculos opacos, avermelhados ou cinzentos. Mas naquele instante além do seu álbum, observava mais que tudo, as defecções, as fugas e a crescente solidão de ver grupos de pessoas amigas nos deixando, assim como ele, indo para outra dimensão, enquanto outros, aqui na terra, se encolhendo a cada dia, como aconteceu com Matusalém, dias depois, num leito de hospital, onde ficamos sabendo de sua grave doença. Atônitos, ouvimos ali o último suspiro, calar-se uma voz e vimos o grande amigo tagarela deixar este mundo para sempre.


Quando fazemos nossas escolhas será que sabemos das consequências?

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

 Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências”. Frase de Pablo Neruda, poeta chileno, nascido em 12 de julho de 1904, um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX. Foi cônsul do Chile na Espanha e no México. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1971.


As escolhas podem ser feitas por mim,  por você, ou por qualquer pessoa, mas temos que ter o máximo de cuidado, pois as consequências podem atingir muita gente. (Eu).
O poeta realmente estava correto. Certas escolhas que fazemos em nosso dia a dia podem realmente determinar o rumo de nossa história. São de extrema importância e muitas delas precisam de cautela antes de ser tomadas, pois podem determinar o caminho para a felicidade ou para tristeza ao longo de uma vida. Nós, literalmente falando, colhemos as consequência pelas escolhas que plantamos. De alguns conceitos que procurei extrair no tocante a escolha e suas consequência, embora não tivesse contato com nenhuma pessoa ligada à área, alguma das opiniões que coloquei aqui creio que, com o passar dos tempos, mudaram. Entendo que certas afirmações foram um tanto quanto radicais, mas não discordei taxativamente de alguns pontos de vista até que me convencer e poder publicá-lo no Diário da Manhã. Na verdade, podia ter lido sobre o assunto nalgum lugar, num livro qualquer, mas a memória falhava. Esquecia de lembrar ou esquecia-se de esquecer. Em certas circunstâncias, era vantagem ter péssima memória, pois me divertia com a situação, voltava ao lugar onde achava que tinha lido ou perdido, mas não me lembrava do que ia procurar, dava um “branco”, uma pane momentânea na memória. Sabia que podia ser coisa importante, mas infelizmente, não era a primeira vez que acontecia. 

Viver, queira ou não queira, é uma escolha. Ambos os sentidos dessa frase são verdadeiros: pode-se acabar com a vida morrendo, do nascimento à morte, surgindo situações em que duas ou mais escolhas nos são apresentadas: os novos caminhos que você deverá seguir. As circunstâncias dessas escolhas são as mais variadas, algumas têm consequências mais simples enquanto outras são mais complexas. A partir das consequências é que deve se tomar a real decisão, todavia, hão de se convir que esse seja o problema que está levando o mundo ao caos. Não é simples levar em conta no que culminará numa decisão precipitada ou não. Nota-se que quanto maior o grau de instrução de uma pessoa, maior a chance da decisão tomada ser a melhor possível. Como o grau de instrução da maior parte da população brasileira é baixo, as pessoas tomam decisões precipitadas e sem levar em conta as consequência.

Além das situações em que a escolha é responsabilidade da pessoa, existem situações que fogem do controle opcional. O indivíduo que não tem oportunidade de ter educação, o que é de direito de qualquer cidadão e falta aos brasileiros, tende a não tomar as decisões mais corretas, podendo arriscar sua vida por isso. Considerando o derrotismo e o sofrimento de uma falta de emprego e de não poder dar o melhor para os filhos, o pai pode desesperar-se e passar a praticar crimes para conseguir dinheiro. Enfim, todas más escolhas dependem de uma série de acontecimentos precedentes na vida e que muitas vezes a culpa não se deve aplicar a esses indivíduos. Se os acordos que existem entre os seres humanos fossem cumpridos, principalmente no que diz respeito aos governantes, a situação sem dúvida melhoraria.

Outro fator que interfere ultimamente nas escolhas é a transformação do que é cultural em natural. As coisas consideradas erradas passam a ser aceitas como certas. A busca desenfreada de estar à frente das outras pessoas monetariamente, o racismo, os preconceitos e outras situações foi criada pela cultura e são consideradas naturais. É interessante perceber como, atualmente, a maioria das pessoas tem uma grande dificuldade para lidar com as consequências de suas escolhas, alguns, consciente ou inconscientemente, procuram culpados para justificar seus próprios sofrimentos. Sim, vivemos uma concreta crise no senso de responsabilidade, em que muito se escolhe e pouco se quer arcar com as consequências do que se escolhe.

Urge, mais do que nunca, aprendermos a arcar com as consequências de nossas escolhas, sabendo que somos os reais protagonistas de nossa existência e que esta só poderá acontecer com qualidade, se por ela (qualidade) decidirmos em cada fragmento que compõe o nosso todo. De outra parte, temos de resgatar a capacidade de escolher com clareza, tendo diante de si a consciência concreta das consequências do que vamos acolher. Nossa vontade precisa ser forte, pois só assim ela poderá acontecer com liberdade e segurança, sem ser condicionada a vícios ou paixões que a deixe opaca e fragmentada.

Diante disso, acredito que todos, indistintamente, precisam permitir aos seus entes queridos e pessoas de seu convívio a enfrentarem todos os sofrimentos causados por suas más escolhas, pois, se eles se ausentarem disso nunca conseguirão crescer e acabarão aprisionados dentro de si mesmos, sem uma reta consciência das consequências daquilo que na vida um dia eles terão o ofício de escolher. De outra parte, é extremamente necessária esta compreensão: Muito em nossa história dependerá dos outros e principalmente de Deus, contudo, muitos dependem somente de nós e das escolhas que fizermos e, culpar esses outros porque nossa vida não é tão boa, não eliminará definitivamente as dores e problemas que configuram nossos dias.

Será que o medo é real? Como vencê-lo?

domingo, 13 de setembro de 2015

O tempo vai passando sem pedir licença e quando a gente menos espera visualizamos no espelho da vida algumas escolhas que deixamos de fazer, tudo isso em razão do medo de recomeçar, do medo da mudança, do medo da desconfiança, do medo da recessão, do medo da ingratidão, do medo da fome, do medo da doença, do medo da dor, do medo da morte, do medo de trocar o certo pelo duvidoso, do medo de largar aquilo que nos parece “melhor” ou mais correto; do medo de buscar algo que nos instiga por dentro, esse algo que ainda não é concreto, mas que vive e respira em nossa mente. Mas diante do medo, se ficar acomodados, é como ver a vida passar como a uma folha seca que, ao se desprender do galho, é levada pelo vento, sai planando no ar, sem rumo, sem escolha alguma, simplesmente deixando-se levar. Igual a ela, às vezes, fazemos de nossas vidas assim e como não podemos ser carregadas pelo vento, deixamos nossas escolhas nas mãos do próximo, e nessas mãos, uma carga bastante pesada e aí, passamos a viver na inércia, acomodados, voltados mais para nossos desejos e sonhos, talvez seja por medo de ter medo.

Hoje o que nos estaciona no tempo é o medo, medo de realmente encarar a realidade, medo de enfrentar desafios, medo de encarar o próprio tempo que ainda nos resta, medo de nossos próprios semelhantes. Sabemos que ele não nos leva nem pra frente, nem pra trás, aliás, ninguém regride na escada da vida, tanto pessoal, profissional, espiritual e que estão sempre em evolução, mas acomodam-se, e muitas vezes, estacionam-se num mundinho que criaram, ficando anos e anos assim, tudo graças ao medo que toma conta de nossa alma. Não podemos aceitar isso, não podemos deixar que nossas escolhas fiquem presas nas grades do aleatório. O que nos garante que muitas vezes aquilo que tememos vai acontecer? Nada nos garante, mas o nosso pensamento faz-nos crer que o que tememos vai mesmo acontecer. Então pergunto: Quer desafiar a sua cabeça e experimentar? Sabemos que ninguém veio a este planeta terra por acaso e além do mais, Deus nos deu o livre arbítrio para agir, viver a vida, mas temos que saber que ela vai querer mais da gente. Então, resta-me dizer: saiamos da inércia que não nos leva a nada, levantemos nossa cabeça, enchamos nossa alma de valores éticos, morais, espirituais e creiamos num mundo melhor, sigamos em frente com caminho escolhido, pois o medo servirá apenas como um alerta e fará com que a gente repense tudo, que não devemos parar quando a estrada for incerta. Devemos abrir os olhos do nosso coração, sentir a magia que é a vida, vivê-la intensamente e aproveitar cada momento. Quando sairmos da inércia e dermos o primeiro passo, o outro já estará dado.

Sentimentos eu tenho, você tem, todos têm, mas dentro de mim ele quer crescer, mas quando começa a crescer basta ver uma foto pendurada na parede, de um ente querido especial que já se foi para outra dimensão; basta ver sobre a escrivaninha uma frase de amor, fé e esperança escrita numa pequena folha de papel, frase que faz com que eu me escondo dentro de mim mesmo, frase que fortalece e que me faz ir mais além, frase que indica onde encontrar pessoas de bem, ainda mais sabendo que elas são seres inocentes, frase que se um dia ler em qualquer lugar e conseguir interpretar entenderá o porquê dos meus sentimentos. Frase que me libertou e que dá o poder de libertar, de crescer, ou simplesmente sair da inércia e ir para a luta, pois, caso contrário, não conseguiria ir mais além por conta dessa barreira imposta pelo medo. Eu sei e você sabe muito bem o que representa essa pequena palavra medo. Nela reconhecemos o estado de alerta que sentimos num momento de risco (real ou imaginário): O coração, sem aviso prévio, começa a pulsar descompassado,  as mãos tremulam frias e suam, as pernas bambeiam, perdem o chão, a voz começa a travar, vem uma zonzeira e um sufoco no peito que toma conta da gente. Esses descompassos em nosso corpo são simplesmente momentos de reativação, acionados, ora por associações emocionais negativas, ora por registros primários, instalados no nosso centro instintivo. Esses últimos como soldados de nosso instinto de sobrevivência, se prontificam a nos dar respaldo em situações reais de alerta.

O medo de encarar a vida faz-nos estagnar no tempo, faz-nos voltar á estaca zero, confiança zero e tudo o que falarmos será em vão... Não sabemos mais como agir, falta-nos argumentos, fogem-nos as palavras, o medo vem e nos domina, mas não quero descrever aqui nesta pequena folha de papel o meu medo, apenas, junto com você, aprender a dominá-lo.

Deveríamos agradecer aos problemas que surgem diariamente, porque são eles que nos movem nas áreas em que estamos paralisados. Às vezes estamos tão acostumados a essa inércia que nem percebemos como poderíamos melhorar. Mas daí vem um problema que nos obriga a mover toda nossa energia para um deslocamento na situação, uma melhoria em nossa vida. Isso pode ser uma mudança de hábitos, uma nova postura em relação às pessoas, um novo curso ou o final de um ciclo de coisas já esgotadas, que se dependesse da gente não moveríamos por encontramos em situação confortável. Só perceberemos bem essa mudança depois de sabermos o quanto aquele problema foi útil e a transformação interior que veio mansa nos envolveu. Se tivéssemos uma visão crítica, de reconhecermos a nossa inércia perante a sociedade em que vivemos, de conseguirmos observar as áreas paralisadas da nossa vida, de deixarmos de ter medo de tudo e do próprio medo, podem ter a certeza que problemas não existiriam. Por outro lado, a vida é como uma continuidade em movimento e não como uma série de  rupturas. Cada medo que você reconhece ter e o enfrenta nada mais é que uma oportunidade que tens de se superar e crescer. Mais que um adversário, ele pode ser um mensageiro de novos tempos, indicando que melhores horizontes estão à sua espera. Então o que posso lhe dizer para vencer o medo: Contate-o, enfrente-o e siga adiante. (Leia Salmo 146). Paz e bem.



Sabrina, uma morena de periferia.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

                  (Crédito ilustração: Akeno Kurokawa/Aline França).
Sabrina era uma menina de periferia que queria viver bem, ter uma família, e quando sair, receber uma bênção da mãe, uma bênção do pai. Queria através da janela do casebre onde morava ver o pôr do sol, o nascer da lua, ter tempo para contar as estrelas... Mas como era difícil ficar lá ou sair de lá a pé, descer as escadarias construídas milimetricamente sobre um morro íngreme. Seguir em frente até onde os olhos pudessem enxergar e quando chegasse lá embaixo saber que dificilmente enxergaria mais adiante. Os olhos seriam dominados e encobertos pela selva de pedra. O jeito era driblar todos os desafios porque só longe da periferia sentiria o gosto de um beijo, o abraço de um homem de bem e descobriria como o mundo era e como as pessoas seriam. Ela era apenas Nina, uma menina, que queria conhecer o melhor de cada um, fazer amizades, descobrir inimizades e sob uma canção de ninar, fazer amor. Desse amor, poder comprar sapatos, vestidos, saias, lingeries, tudo novo e ao seu estilo. E Sabrina preenchia os olhos dos amantes com sua beleza e sensualidade descomunal. Ela se sentia bem do jeito que era, mas não a felicidade de ter uma família, receber durante sua chegada ou saída, uma benção dos pais. Em certos momentos achava que devia ter morrido durante o parto, mas a vontade de viver, de descobrir o prazer da carne e o amor era muito maior do que os problemas que a envolvia, daquele lugar que odiava e que todos chamavam de periferia, onde, infelizmente, seu mundo nascia todo santo dia.

Sabrina, mais conhecida como Nina não tinha pela branca, mas sua cor negra, cabelos anelados, olhos verdes, nariz fino, que traziam a feição de um pai branco de cabelo liso, ou de uma mãe negra de cabelos ondulados. Eles passaram a vida toda tentando convencê-la que a sua pele era parda, de tom claro, fazia dela uma menina branca, mas ela nunca aceitou isso. Odiava a ideia de ser branca e na realidade, não era. Nunca teve crise de identidade e chegou também a ser chamada de racista e diziam: “Aquela louca ali odeia branco”. Que nada seus amantes encontrados na selva de pedra todos eram brancos. Que blefem os vizinhos! Ouvia isso de muita gente, tanto dentro de sua casa quanto em qualquer outro lugar por onde passava. Pra eles, tudo bem, riam, mas ela não levava a sério.

Foi muito difícil entender por que ela às vezes não se sentia à vontade com a cor da sua pele. Parecia não fazer parte daquilo que ela era. Queria ser preta, mas era morena, queria olhar no espelho e ver sua pele mais escura, não conseguia ver, pois sua beleza transcendia diante dos reflexos do espelho, que se curvava diante de sua beleza, enquanto uma voz dizia: “Ninguém é mais bela que você”. Mas, mesmo assim, prendia seu cabelo pra esconder no volume dos seus cachos a maior marca da sua raiz: a negritude.

Entendia  que o tom claro da sua pele não poderia determinar tudo o que sentia e acreditava, defendia e nem podia esconder sua história e da sua família. Seria mais fácil alisar seu cabelo, clareá-lo e aceitar o rótulo de branca, mas agora ela tinha escolhido soltar seus cachos e dizer “eu tenho sangue negro e como eu me orgulho disso”. Conseguiu encontrar a negritude que tanto lhe negaram principalmente quando entendeu que isso passava pelas suas escolhas e a de ser negra sempre foi à maior delas.

Escolheu amar seu cabelo cacheado, escolheu cultuar sua ancestralidade africana, escolheu respeitar o sagrado do seu lar, escolheu ter um discurso de mulher negra que reconhece a dívida histórica que a sociedade brasileira precisa pagar, escolheu ser mais uma voz que grita contra o racismo e o genocídio da população negra. Então, assim, ao finalizar, dou um tempo para aqueles que ainda quiseram defini-la por uma cor, mas antecipo que ela oferece a cor da sua alma, porque entende ser indiscutivelmente negra!



Será que nossas atitudes vão continuar vazias?

quarta-feira, 2 de setembro de 2015


Domingo, na Paróquia Santa Terezinha do Menino Jesus em Aparecida de Goiânia, durante a celebração da santa missa, assistimos a um vídeo onde o missionário Eugênio Jorge mostrava o trabalho social desenvolvido pela Paróquia, principalmente no tocante aos abrigos: Casa Mateus 25 que acolhe pessoas doentes que necessitam de tratamento médico especial, cujas famílias não podem arcar com as despesas, e a Casa de Nossos Pais, que acolhe idosos que também não têm assistência de suas famílias. Ao final, o missionário disse que “essas e outras obras sociais dirigidas pelo Padre Luiz Augusto precisam da ajuda de todos os fiéis e da sociedade como um todo para que ele possa cumprir a sua função de cuidar com zelo dessas pessoas, que sabemos ser, na realidade, uma obrigação do governo”. A doação de cada um, por mínima que for, será bem vinda e de suma importância para a manutenção delas. Entretanto, aquele que porventura não puder fazer doações que faça pelo menos uma visita e converse com os enfermos e idosos, pois, às vezes eles se satisfazem apenas com a sua presença e um mero carinho. O seu sorriso e uma simples oração também podem fazer a graça acontecer, mas, todavia, é necessário que a obra permaneça mediante ajuda financeira, material e o trabalho participativo voluntário de cada um. Os beneficiados podem ter a certeza, ficarão eternamente agradecidos. No pequeno livreto Um Minuto de Sabedoria, encontrei esta frase escrita por C. Torres Pastorino: "A cada um de nós compete uma tarefa específica, na difusão do bem. Erga-se, para trabalhar, porque as tarefas são muitas e importantes, e poucos são os que têm consciência delas. Ajude o mundo, para que o mundo possa ajudá-lo. Estenda seus braços eficientes no cultivo do Bem, para que, quando os recolher, os traga cheios dos frutos abençoados da felicidade e do amor.

Findo o vídeo e após as palavras finais do missionário, observei que muitos fiéis ficaram emocionados e boquiabertos com tão bela obra assistencial. Quanto a mim, naquele instante, coube-me recordar de um pensamento bíblico que carrego sempre comigo: “Minhas mãos vão continuar vazias de pedras, mas o meu coração cheio de solidariedade e amor”. Sei o quanto é difícil, mas procuro fazer o bem sem olhar a quem; sei o quanto é difícil em face da situação financeira de cada um, estender as mãos aos mais necessitados. Eu, dentro de minhas limitadas condições financeiras, procuro fazer minha parte, principalmente no tocante a Casa Mateus 25 (enfermos) e a Casa de Nossos Pais (idosos). Durante a minha caminhada podem ter ocorridos vacilo, mas quem nunca vacilou durante caminhadas pela estrada da vida, principalmente nós seres humanos, possuidores de corações generosos, mormente quando nos encontramos diante de tantas atrocidades humanas; quando estamos diante da fome, das doenças; quando estamos diante de pessoas maltrapilhas, enfermas, sem condições financeiras de se cuidarem, e de tantas outras espalhadas nos corredores de hospitais públicos. Quem não vacilaria diante de tudo isso e de tantas pessoas deficientes e idosas que estão sem lar e alimentos para sobreviverem... Diante de..., quem não vacilaria? Mas o vacilo de que falo é quando nos esquecemos de tudo isso, de ajudar nas obras sociais de nossa comunidade ou não, seja até despercebidamente.

Não atiro pedras mesmo se minhas mãos estivessem cheias, porque não posso julgar as atitudes de quem não se dispõe a ajudar. Não posso prejulgar quem me critica ou daqueles falam mal, chegando a insinuar de que a gente só quer aparecer, na verdade apenas esquivam-se da responsabilidade sabendo que um dia essa verdade virá à tona, e virá porque eu me conheço assim como as obras sociais que ajudo. Conheço tantas outras pessoas que também ajudam e sei que seus atos são nobres. Não sei por que existe tanta mágoa, “cegueira”, inveja e ódio envolvendo o ser humano.

Tanto problema que surge na terra que dá vontade de voar até aos céus. Falar com Jesus, dizer-lhe que também não sou perfeito, fazê-lo entender que o meu defeito é gostar tanto do que faço em prol do ser humano. Mas sou apenas um grão de areia neste mundo, mas, como cristão, sei que não preciso voar até ELE. Sei que me basta orar, e orando, sei que virá a justiça, e se ela não vir dos homens, sei que virá de Deus. Disso tenho a absoluta certeza, como a certeza de meu respeito a todas as pessoas de bem, como você e tantas outras que continuarão impregnados em meu coração. Paz e bem a todos!


 
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