Amigo leitor (a)

Amigo leitor (a). Quando lemos um livro, ou qualquer texto, publicados ou não, que são sinônimos do prazer, por mais simples que forem, sejam reais ou surreais, nos permite exercitar a nossa memória, ampliar nossos conhecimentos e nos faz sentir as mais diversas emoções, por isso, sensibilizado, agradeço a sua visita ao meu Blog, na esperança de que tenha gostado pelos menos de um ou que alguns tenha tocado o seu coração. Noutros, espero que tenha sido um personagem principal e encontrado alguma história que se identificasse com a sua. PARA ABRIR QUALQUER CRÔNICA OU ARTIGO ABAIXO É SÓ CLICAR SOBRE O TÍTULO OU NA PALAVRA "MAIS INFORMAÇÕES. Abraço,Vanderlan

Onde está a sombra de minha luz?

domingo, 31 de janeiro de 2016

Não é de hoje que fico encabulado quando vejo à inexistência de sombra da luz. Desde menino era curioso quando via a luz de uma vela não se refletir na parede, mas hoje, que já passei da idade dos contrários, chegando à idade do complementar, assim como, de entender essas coisas e olhá-las de outro modo é que, momentaneamente, comecei a lembrar dos tempos idos quando via alguém acender uma vela ou lamparina, olhava rumo à parede para constatar se a sombra da luz nela se refletia, mas nada acontecia deixando-me confuso. Recordei que aquela pessoa dizia algo contrário ao que eu pensava, no entanto, já era capaz de entender aquele contrário como complementar e ver crescer em mim consciência e compreensão, além da razão da não existência de sombra da luz. Todavia, hoje, sei que ao invés de rejeitar ou negar alguns elementos obscuros, ainda desconhecidos por mim, sou capaz de acolhê-los porque só assim tornar-me-ei mais inteiro.

Nem é questionável ir por outros caminhos, pois sabemos que é a sombra que dá relevo à luz. Acenda-se uma pequena vela num quarto escuro e verás. Quanto maior a vela, maior é o relevo. Quando amamos alguém, um dos sinais de amor verdadeiro é que amamos os seus defeitos, relevantes ou não. É fácil amar os defeitos de nossos de nossos filhos, netos ou entes queridos. O difícil é amar os defeitos de estranhos, principalmente se adultos.

A luz do amor não tem sombra a não ser que você o construa de outra maneira e o faça ser diferente. Dar a ela um enorme alicerce e o direito de experimentar de sua sombra a liberdade, isso seria bom, assim como, de experimentar a capacidade de amar o que é amável e de amar também, o que não é amável, porque essa luz pode estar sendo refletida na parede de sua vida. Dessa maneira passará de uma vida submissa para uma vida escolhida.

A luz que ilumina a nossa vida, pode não ter sombra e nem refletir-se na parede, mas vale pelo olhar benevolente que pomos sobre nela. Por exemplo: O olhar sisudo de um chefe nos enche de culpa, mas dependendo da sua decisão em relação a nós, podemos receber dele esse olhar benevolente, misericordioso e ao mesmo tempo, justo. Não precisamos de sombras, mas de luz sim, assim como, precisamos também desse olhar justo, porque todos nós temos necessidade de sentir esta luz verdadeira e de sermos amados. Por vezes, alguns olhares que encontramos são muito amorosos, muito doces, mas falta a eles a luz que tanto procuramos que pode até serem sombreados, mas verdadeiros.

Existem olhares que se colocam sobre nós que são plenos de verdade e justiça, mas sombreados, faltam-lhes a luz, a misericórdia e o amor. Existe um olhar integral do qual temos necessidade de nos enxergarmos tal e qual somos, porque a inexistência de luz é uma verdade sem amor, é inquisição, e o amor sem verdade, é permissividade.

Quando intitulei esta crônica: “Onde está a sombra de minha luz” o fiz com o propósito de abrir uma discussão, pois a luz pode ser você sendo refletido na parede e cada um que a ler, poderá formatar sua luz e entrar em particularidades que lhes são próprias, sentindo se existe em sua vida, em primeiro plano, a luz, ou alguém que pode suportar sua sombra sem julgá-la, apesar de não se mostrar complacente com ela. Eu acredito que todos nós temos a necessidade, pelo menos uma vez em nossas vidas dessa luz com o poder de refletir-se ou do tal olhar iluminado pousando sobre nós.

Com essa reflexão podemos mostrar nossa verdadeira face, nosso verdadeiro corpo, nossos desejos e medos. Podemos mostrar nossa verdadeira inteligência acoplada com nossos conhecimentos e nossas ignorâncias. Sob este olhar sem sombras, a nossa vida pode crescer e nos indicar onde está a sombra de nossa luz. Porque o olhar que nos julga e nos aprisiona diante de gestos que se refletem na parede, faz-nos ficar inertes, enquanto que o outro olhar nos impulsiona, diante das imagens, a dar um passo adiante e saber o que os outros têm de nós.




Calou-se uma voz e um som de viola.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Acordei. Dei uma espreguiçada para colocar os músculos no lugar e depois levantei devagarzinho. Era uma daquelas segundas-feiras bruta, mas para mim, um dia como tantos outros, onde a gente costuma achar que a vida simplesmente seguirá sem nenhum esforço. E também como de costume, tomei o gole de água e depois uma chuveirada. Escutei um assovio vindo da cozinha. Era um sinal que recebia todos os dias me alertando que o café da manhã estava pronto. Tomei o meu café com leite acompanhado de pão francês e saboroso pão de queijo. Calcei meu tênis, coloquei agasalhos apropriados e saí para dar minha caminhada diária no Bosque Vaca Brava,

Naquele dia o céu estava nublado, mas tudo me parecia no seu devido lugar e, como de rotina, desejava que meu dia tivesse mais de vinte e quatro horas. E é assim, estamos sempre querendo que o tempo se adéque ao nosso tempo, ao nosso modo de viver, no fundo mesmo, sempre pedindo que fosse possível realizar o que traçamos para aquele dia, livres e desembaraçados de qualquer culpa. 

Meu Deus! Quanta prepotência! Não somos senhores do tempo, aliás, somos incapazes de prever o que irá nos acontecer no dia seguinte. A vida tem seu próprio modus operandi, ela não estica as horas, apenas passa depressa, e nós, humanos, insistimos fingir não saber disso. Não sei se era pressentimento, mas naquele dia, a cada passo, o meu coração batia descompassado no peito, e, de repente, ao passar por uma banca de revistas um silêncio literalmente mortal me deixou de sobressalto. Na Capa de um jornal estampava em letras garrafais a notícia sobre a morte do meu querido amigo João Batista da Costa Meireles, o cantor sertanejo, mais conhecido como Jataí, de 54 anos, que fazia dupla com seu irmão Avaré. Fiquei atônito, mas naquele instante entendi que a morte não pede licença, ela chega, atravessa o nosso caminho e nos impede de seguir em frente, todavia, por instantes, o meu pensamento também ficara interrompido, e com o corpo paralisado, engoli seco e senti alguma coisa ficar entalada na minha garganta, que me sufocava e parecia sentir que tudo mudara de lugar. 

Quando sentimos esse silêncio fúnebre somos obrigados a aceitar que não temos o poder de controlar nada e que, por isso mesmo, podemos e devemos nos permitir seguir outros rumos, nos doar por inteiro e não pela metade, declarar nossa amizade várias vezes até que não sejamos mais capazes de cantar, tocar, sorrir com a alma, não adiar as coisas, pensar antes de agir ou falar para não magoar, libertamos dos extremos e valorizarmos o que é importante, mas sempre com a consciência tranquila de que tudo aquilo que nos importa de verdade é possível de aceitar, de se medir, de se usar... 

Cotidianamente a vida nos impõe suas próprias regras e nos coloca à prova. Surgem novas perguntas e somos obrigados a formular novas respostas. E ali, diante de um amigo que se foi para outra dimensão, querendo ou não, teremos que entender os desígnios de Deus e aprender a lidar com essa ida repentina, aceitar que a vida, e se não nos tornarmos responsáveis, passaremos por um fio muito tênue e que o amanhã pode nunca chegar. 


Muitas homenagens póstumas foram feitas, mas eu quero deixar registrado aqui meus sinceros agradecimentos ao Jataí e ao seu irmão Avaré por terem participado de alguns eventos meus, inclusive de um Encontro de Família, onde abrilhantaram com suas presenças cantando afinadamente e tocando magistralmente suas violas. Desde o princípio, durante e até no fim, a diferença estava na sua fé e na intimidade que tinha com Deus e porque cria nesse Deus de misericórdia, de amor e paz, e independentemente das circunstâncias, as trevas jamais serão capazes de sobrepujar a luz que iluminará o caminho de Jataí rumo aos céus, e a vida, na verdade, não chegará ao fim quando esse fio se partir, apenas se transformará para ganhar a eternidade.

O poeta que contou um causo de um caso ocorrido por acaso durante um ocaso.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Escutar de tudo na vida a gente já escutou e ainda continuamos escutando. Pessoas usam os meios de comunicação para dizer meias "verdades" ou inteiras mentiras com a mesma desenvoltura. Por mais que prestemos atenção na fala ou textos escritos geralmente não sabemos quem é que está falando sério. Neste mundo real as verdades são pedras preciosas entre nós, então, temos que observar o semblante do falante, aguçar o ouvido, prestar bastante atenção e tentar discernir o porquê e aonde o autor do texto quer chegar. Certo dia um poeta amigo me contou uma história que me deixou boquiaberto, e quanto a esse causo contado por ele quero cada um que tire as suas próprias conclusões... Como comprei um detector de mentiras no Paraguai acabei me tornando um caçador, por isso, particularmente, acho que o causo contado por ele é interessante, bem rimado, poético, mas pode ser uma grande mentira, no entanto, vamos ao ocorrido.

Certo dia, como de costume estava sempre no mesmo lugar e desta vez era mais um causo que ele contava de um caso ocorrido por acaso num final de tarde, quando ocorreu um belo ocaso no Vale dos Ipês. Disse ele que estava deitado numa rede manuseando seu laptop e de vez em quando voltava seus os olhos para o ocaso. Conversa vai, conversa vem, num repente, ouviu alguém que estava numa rede ao lado, contar um causo de uma mulher que teve um caso amoroso com um viajante que passou por aquela região por acaso. O caso podia ter acontecido com ou sem o ocaso, como também, com qualquer pessoa, mesmo considerando a impossibilidade do sol se pôr no horizonte, de circunstâncias que não precedesse à noite poente ou apenas uma aventura amorosa, desconcertante, indecente. Por acaso, disse-lhe que a mulher veio da região fria do ártico e o jovem viajante do quente oriente. Quando contava o causo parecia estar esperando o aparecimento de um crepúsculo como aquele que outrora tinha apreciado no Antártico e de outros causos amorosos pensados por ele premeditadamente.

Eu, um simples cronista, nunca tinha ouvido em falar do caso, mas, com um sorriso sarcástico aceitei ele continuar contando: Caro amigo seja como eu, minta, e se puder invente. Inclua qualquer fato no seu causo e não será mero acidente, mesmo se não conseguir ver o sol se pôr no oriente, ou o nascer da lua, no mesmo instante, no ocidente, mesmo assim, minta, invente. O causo do caso que eu ouvi foi por acaso e aconteceu diante de um lindo ocaso. Pode ser que a história não seja verdade e ser apenas uma estória. O causo sempre precede à noite e aí menos mal porque da minha rede podia enxergar o ponto cardeal. Você sabe dependendo do que a natureza nos oferece o ocaso pode ocorrer tanto no ocidente, no oeste, leste ou no poente, e se no seu inverso não existir pontos cardeais, invente. O contrário do ocaso é a linda alvorada, e ela nos traz a manhã, linda e incandescente, e com ela vai a nossa majestosa madrugada. O causo acontecido durante o ocaso pode significar decadência, fim ou um período que antecede esse fim, ou fim de um romance, ocorrido em Berlin ou na pequena Bom Jardim. O conto ou queda de algo importante é para nós, a indicação de um norte, além de nos mostrar que ele é sinônimo de ruína ou falta de sorte. Mas, antes que ele finalizasse o causo, recolhi minha rede e desviei minha visão do ocaso e procurei esquecer aquele caso. Deixei de ouvir outros causos contados por aquele poeta que falava de lindas mulheres e do viajante vendedor de vasos, e nada mais é do que causos de casos amorosos ocorridos lá por acaso.

Outro causo segundo assistiu o poeta, antes do ocaso, ele e seu tio montavam barraca à beira do lago em ponto estratégico no Vale dos Ipês, pois de lá costumavam ver cenas amorosas, anotavam tudo e prontas para se tornaram mais um causo. E não era por acaso que anotava em seu laptop as cenas inusitadas e o encanto que circundava aquele pedaço de chão. O local não podia ser vulnerável, pois era perigoso e poderiam ter surpresas desagradáveis, principalmente caso errassem na estratégia de bisbilhotar cenas alheias. Como ele e o tio eram caçadores de primeira viagem, por acaso nada lhe foram informados e nenhuma tática foi adotada antes do ocaso, deixando por conta do tio, o mais experiente, a incumbência da escolha do local mais apropriado para descrever as cenas que iria fazer parte de mais um romance ou apenas mais um causo a ser contado. E não era por acaso que o tio tinha a mania de inventar coisas, contar causos e lorotas, pois sabia que essa era a única maneira de informar ao poeta sobre as cenas que via à beira do lago. E também não foi por acaso que escolheu do outro lado uma árvore bem alta, cheia de galhos e teoricamente segura para ser o olheiro do poeta. E foi assim que, para contar mais um causo de amor, armaram o acampamento entre as forquilhas de uma torta e frondosa árvore milenar. O ocaso veio e a noite correu lenta, vez por outra o vento assobiava assustador, as folhas das árvores balançavam soltando sons estranhos e caiam sobre o capim seco que circundava o lago. O silêncio entre os dois era total, não se ouviu qualquer palavra; a respiração, antes ofegante, passou a quase nula, tal a preocupação em não fazerem barulho para não assustar o casal de namorados que se silenciaram dentro de uma pequena barraca iluminada apenas por um fraco lampião a gás.

Passou-se o ocaso e meu amigo poeta, caçador de primeiríssima viagem, ao ver gestos de um vai vem erótico que se refletia de dentro da barraca, estabanado que era, pulou da árvore, pegou um caderninho, sua máquina fotográfica e saiu correndo feito maluco em direção a ela, atravessando o lago num nado sem sincronismo e sem olhar para trás. A ansiedade era tanta que quando chegou perto da barraca, vendo que estava molhado e trêmulo, pisou em galhos secos e repentinamente parou. O casal, ao ouvir o barulho, olhou por uma pequena brecha na lona e perguntou: Que você quer cara? Ele, na maior cara-de-pau disse que estava correndo de uma onça, e como não a acertou, pulou da árvore e saiu correndo atrás dela até pular no lago.

É história de poeta ou de um poeta caçador de história. Ainda bem que não sou caçador de onças, apenas de mentiras e aquele causo, como os outros, foi demais!... Esse negócio de mentira não é comigo, mesmo sabendo que ao poeta ou romancista tudo pode. Agora, sou eu que vou contar um pequeno causo: Certa vez fui pescar e o motor do barco caiu lá no meio rio. Procurei incansavelmente, horas e horas até aparecer o ocaso... Não sei se foi sorte ou por um acaso, três dias depois o encontrei e minha maior surpresa foi verificar que o motor ainda estava funcionando! É verdade Té! Esses e outros causos são apenas histórias de caçador, às vezes medroso, às vezes valente, às vezes verdadeiro, às vezes mentiroso, no entanto, mais uma vez, ficou provado que mentira tem pernas curtas e, se não fosse o lago esse meu amigo poeta ainda estaria correndo ou sido devorado pela onça e eu, me vangloriando da potência do motor de meu barco.


É hora de escrever: Atenção! Claquete!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Sentei-me diante do computador. Fiquei pensando... Mentalmente fingi que estava escrevendo, mas de repente, acendeu uma lampadinha sobre a minha cabeça e depois ouvi: claquete! E qual a minha surpresa? Não apareceu diante de meus olhos aquele instrumento de identificação de tomada de cena, nem o título de minha crônica, número ou plano de ação, apenas uma voz que parecia vir de outra dimensão. E não devia aparecer mesmo porque até aquele momento fingia escrever, e com o pensamento alhures fingia um pouquinho, mas fingia. Esqueci da claquete, puxei o teclado, comecei a digitar e lançar no monitor um amontoado de letras. Nem inspiração, nem tampouco transpiração, mas não era conveniente ficar sem o dito fingimento, mesmo sendo um fingir mental, pois, talvez, sem ele, não existisse literatura. Não esquentem a “moringa” se evoco de novo a magia das letras e volto a falar sobre o fazer literário. É que poucas são as coisas tão semelhantes neste mundo de infinitas crenças. Mas falo mesmo é do fingir, que se entremeia entre o real e a palavra. Pode até ser um vício real, mas se torna necessário ao nosso mundo literário. E onde a palavra criou o real, o fingimento precedeu a palavra. Mas acreditem, não é só a palavra, dele também procede ao pincel e à mão que amolda. Podem me questionar à vontade, dizer o que quiserem, mas de certa forma o fingimento é imprescindível à arte e isto é fato. Para escrever ou fazer qualquer tipo de arte, é necessário fingir que se faz, ou fazer, fingindo. É preciso transfigurar a realidade, é preciso torná-la mais que essencial.

Quando começamos a criar alguma coisa à primeira atitude é de fingimento. Não, eu não sei se poderia chamar de atitude porque procuro me despir desta palavra quando estou escrevendo. Mas, pensando bem, o fingimento, em literatura, não é uma atitude. Embora ele exista contra nossa vontade, ou de nossa aceitação, não se dispõe ao nosso manejo. Quando a gente menos espera, ele já se instalou em nosso texto como a um posseiro. 

Aquilo que torna verdadeira a dor é pura verdade, pois a gente sente isso. Mas a verdade, na verdade, a gente não reconhece, não obstante encontramos mais verdade do que em si mesma. Dá pra entender? Complicado não! Para mim, sempre foi mais difícil entender o fingimento do que os cálculos dificílimos de alguns alquimistas. O que há em cima equivale ao que há em baixo e o que está em baixo é o mesmo de cima. Coisa de maluco não! Não se tratando de inspiração, nesse caso o fingimento não oprime como costuma acontecer com os que escrevem sob as bênçãos dos deuses da literatura ou mestres acadêmicos. Não sendo transpiração, o sentimento não nos confina, como atados ficam os que escrevem nas torres altas e inacessíveis das formas ideais. Eu prefiro ficar totalmente despido de fingimento e continuar como simples escriba.

Quando escrevo e reviso o texto, o meu sentir não está despido, está coberto, não com vestes suntuosas, mas com andrajos, talvez as mesmas de um escriba sentado em sua poltrona quase nu. É quem sabe... Mas não sou eu. No entanto, precisamente, aí pode estar atuando o fingimento. São os ornatos que desnudam e, talvez, na vida, também seja assim. Às vezes tenho que aceitar a opinião da maioria de que na literatura, que é uma vida mais real ou pelo menos mais densa do que ela, o fingimento é o germe da arte. Ou há fingimento sincero, ou não há arte. 

No mundo da literatura e ou mesmo das artes desdenha-se das exatidões da realidade, zomba-se da concreção do real, e só essa coisa fingida conhece o real e o concreto. Essa coisa interposta pode tomar várias formas: imagens e metáforas na literatura, talhos, fissuras e desmanches na pintura e na escultura, e a pior, descontinuidade no cinema. Pode assumir infinitas formas, mas será sempre uma espécie de desvio que não admite identidade absoluta entre arte e realidade.

Ah, ano passado quando escrevi a crônica: “O Escriba e a magia das letras e artes de Goiás”, descobri que era um simples andarilho no mundo literário, um iniciante das letras, um escriba. Descobri mais, agora sem nenhum fingimento, que o escritor é pertinente às suas ideias, ideais e maluquices. Ilustra os textos com coisas reais e surreais, cria sabores, faz até exalar aromas que extrai do improvável e transmiti imagens ao associar as palavras e nesse afã, procura ser original, contorna algumas regras impostas, como se estas fossem corredores imaginários, mas, notadamente, sem as desrespeitar, mas nunca deixando de ir mais longe, mesmo sem usar as asas da imaginação, alcançar o infinito. E quando as usa descreve o mundo de uma forma sutil e consegue transformar o ordinário em extraordinário e nesse ínterim, sem necessidade de se afirmar como intelectual gera empatia e faz com que todos vejam mundo de dentro para fora e depois de fora para dentro e por essas palavras, me sinto despido de fingimento.

O germe que rodeia a arte pode não ter nome, e nem sei se a corrói com o passar dos tempos, mas, para mim, ele se chama fingir ou se finge de corrosivo. A arte não é estritamente a dor ou a alegria do artista, nem se estreita no seu sentir. A arte não é o artista, e se o artista quiser fazer de si a sua arte, fatalmente a diminuirá. A arte, a arte mesmo, pressupõe a ação do fingimento e, porque se projeta, supera quem a criou. E como disse H. Pereira da Silva num provérbio: “A arte não mente, mas o artista sim, na maioria dos casos, é um grande mentiroso.”




Em 2016, por quem os sinos dobrarão?

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016


Já estamos em 2016, então é hora de revermos nossas falhas, os caminhos tortuosos que trilhamos, e até daquela palavra mal empregada que acabamos ferindo uma pessoa amiga, estragando um relacionamento que já duravam meses, dias ou quiçá, anos. Em 2016, vamos deixar de lado nossos guarda-roupas ou adquirir veículos novos; vamos direcionar nossas vidas para a renovação do nosso espírito; vamos pegar a vassoura da vida e dar uma faxina geral nela e conseqüentemente, ampliar a nossa fé em Cristo; vamos rever tudo que aconteceu de ruim e anotar na agenda de nossa existência, e as palavras amor, paz, fraternidade, solidariedade e justiça, sejam usadas de modo que tudo possa vir diferente. Deus ao criar o homem colocou em sua mente uma multiplicidade de sensações e emoções capazes de despertar sentimentos variados – desde o prazer proporcionado pela contemplação da beleza, da harmonia e equilíbrio naturais, até do terror e impotência gerados por aqueles que passam fome, doentes e daqueles que não têm condições de cuidar da sua própria sobrevivência. Vemos diariamente meninos e meninas cheirando cola para enganar a fome, se prostituírem, cometerem chacinas, roubos, parecendo coisa irreal, mas se alastram pelos becos da vida como se fosse uma cena comum, natural, característica da própria espécie humana, que a tudo vê e assiste complacente através de jornais e imagens geradas pela TV.

Quando intitulei este artigo: “Em 2016, por quem os sinos dobrarão”, tirei de um filme antigo que assisti ainda jovem, mas que jamais saiu de minha memória e o fiz com  o intuito de homenagear todos os amigos que compartilharam comigo no FACEBOOK e que juntos, a cada manuseio do teclado do computador, procuramos resgatar da memória do tempo os bons fluídos, o amor ao próximo, a prática da solidariedade, a volta das riquezas e criatividades cristãs, que criteriosas, podem fecundar em novas reflexões e ajudar a delinear e modelar novos conceitos de vida em face do momento atual que vivemos, de forma que, cada pessoa continue responsável pela sua própria história, pela sua própria libertação, transformando a sua realidade de forma que se efetive a justa liberdade e amor, ainda que de maneira rudimentar.

Findo o ano de 2015 e diante de 2016, lembrei-me das palavras de carinho que recebi durante todo o ano. Algumas lembranças, nem sei como e nem porque me vi caminhando pelas ruas da cidade, sem chutar as folhas secas como de costume ou bisbilhotar as belezas circundantes. Olhava apenas o vaivém dos veículos e a falta de respeito às leis de trânsito e ao próprio ser humano. Cada carro que passava perto de mim, sentia uma dor no coração ao imaginar que a vida de cada uma daquelas criaturas sequer tinha tempo de pensar que existe vida além da morte e que poderia ter que prestar contas em outra dimensão do que faz neste mundo de expiação e provas. Sequer tinham tempo de observar os pedintes amontoados nas calçadas e uma criança maltrapilha, esquelética, sugando o seio de sua mãe que parecia doente. Um quadro que jamais apagarei da memória. Pouco mais à frente, um vento quente soprou manso e logo deparei com alguns jovens descontraídos que usavam colares, brincos, tatuagens, cabelos pintados em cores variadas, dando-se a impressão de estarmos em outro planeta. Fumavam e soltavam baforadas de fumaça que cheirava a “baseados” e nos refrigerantes, misturavam diminutas pedras de crack no afã de contemplar melhor a vida e de se “chegar às nuvens”, talvez numa nave criada pelas suas imaginações, sem destino, desvalida, sem volta.

Em 2015, ao quebrar os laços familiares, deixar de ajudar aos infortunados, aos doentes e àqueles que passavam fome, o homem quebrou também o elo da cadeia que o liga a harmonia, ao amor, a fraternidade, a fé e equilíbrio de forças assentes nas Escrituras, motivos relevantes que se não exercitados tornarão implacáveis e difíceis a mantença da sobrevivência humana, e na forma em que está banalizada, indiferente, que nos leva  passividade, não pode continuar em 2016. Ao final, deverão estar fundamentadas precisamente no amor, na caridade, para não ficarem à deriva, sem referência, para saberem por quem os sinos dobrarão no momento de chegada ou de partida, isto se não perderem a visão familiar tão sonhada por Josué (24:15): “Eu e minha casa serviremos ao Senhor”.

Como disse no preâmbulo, já estamos em 2016, então é bom cada um agradeça a Deus por mais um ano vivido. No entanto, infelizmente, ainda observamos que o homem não se priva disso e nem se faz de rogado diante do que conquistou não cora de vergonha e nem vê  motivos para isso. A vergonha que não se aflora mais em seu rosto, mesmo diante do exibicionismo ou das declarações de intenções, compromissos político-sociais e promessas não cumpridas, sob a alegação de falta de tempo ou se fazendo de esquecido. Ao analisar as palavras ou promessas de algumas pessoas durante o ano de 2015, confesso que corei e sei que muitos que compartilharam comigo também coraram e sentiram cair sobre a sua cabeça à danada da carapuça. Eu, principalmente, por mais que me esforçasse ainda me senti em débito com a minha comunidade. Cheguei à conclusão também de que tinha fazer alguma coisa a mais em prol de nosso Planeta e fiz, viajando até para fora do País e o que não fiz, foi por mero capricho. A resposta a esse desafio que proponho a vocês está presa nos elos da imensa cadeia da vida, que se quebrados, deixarão todos em cárcere inseguro, e para saírem ilesos, difíceis serão as decisões que cada um terá de tomar.

Neste momento de reflexão, mesmo usufruindo das benesses de uma sombra e do sopro do vento que se desvencilha das árvores e acaricia meu rosto, comecei a entender realmente que não só a gente se encontra nessa maré de incertezas, como também a sociedade brasileira. A doença do egoísmo, da corrupção e a maldade humana dominam todo o sistema, onde, de forma excludente, não se consegue realçar a solidariedade como valor extremamente capaz de forjar um mundo mais humano e fraterno. É necessário que a perda progressiva do seu senso ético e o próprio individualismo como mal predominante possa ser retirada com a inserção do bisturi do amor, juntamente com a raiz da justiça, que está sendo corrompida dia a dia, possam tirar do sofrimento os mais fracos e indefesos. 

É possível que nestes últimos anos tenham aprendido com as pessoas mais experientes que se houver prazer em viver, que assim o faça, e que se fizeram o bem sem olharem a quem, então, vale à pena ter vivido. Pensando bem, esta é a mais pura verdade! Temos que tentar acompanhar a velocidade do vento, pois o tempo escorre entre dedos, passa tão rápido que ninguém consegue detê-lo. Ele nos ensina que devemos aproveitar o hoje e que ele deve ser mesmo o melhor de todos os dias, pleno, intenso, porque do amanhã pouco ou nada sabemos. Só Deus sabe! Podemos até programar este dia, mas, talvez, seja mais um compromisso que jamais poderemos cumprir. E é diante dos fatos narrados que chego à conclusão de que em 2016 os sinos dobrarão somente para aqueles que aprenderam a cuidar de si mesmos, de seus semelhantes e segurar o cajado espinhoso que carregamos em prol da defesa de nossas próprias vidas.


O idoso e o prazo de validade.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Quando ultrapassamos a casa dos sessenta anos de idade a primeira ideia que nos vem à mente é a aposentadoria. Mas, ontem, depois de retornar de um abrigo de idosos não gostaria de tocar neste pormenor, porque ao conversar com eles senti que não se consideravam idosos comuns, não aceitavam este rótulo e muito menos dizer que tinham prazo de validade. E sabem por quê? Alguns deles nasceram e cresceram na labuta da roça, algumas idosas diziam que lavavam roupas anos a fio e as penduravam no varal da vida, sem contabilizar os anos perdidos; outros diziam que massageavam barro para montar tijolos e adobes para construir moradias, e os mais afortunados, plantavam arroz e milho, possuíam cavalos, campeavam o gado, cuidavam de galinhas, hortaliças e pomares nos plantados nos fundos dos quintais e ainda, se deixassem, eles até faziam ordenha de vacas. Esses senhores e senhoras pagadores de impostos que trabalharam duramente a vida inteira, sabem que o desamor e o abandono destruíram seus dias e os que ainda lhes restam. Raramente, recebem visitas, e eles, inofensivos, acham normais. Hoje, se considerarmos o aspecto de convivência familiar de cada um, pode ser que alguns deles talvez tenha sido um desastre como pai, ou talvez, não compreendido que estamos vivendo num mundo moderno, que os tempos mudaram, o mundo evoluiu e que não se usa mais a varinha de marmelo para roçar as pernas e bundas dos jovens desobedientes e nem a palmatória para esquentar a palma de suas mãos. Hão de entender também que o tempo dos impacientes, implicantes, teimosos, mandões não existe mais, todavia, em razão do que vem acontecendo em relação à desobediência da juventude esses dois instrumentos “educacionais” citados, hoje fazem muita falta.

Sentado numa cadeira de descanso, com cachimbo e olhar perdido dentro de si mesmo, cabelos grisalhos, mãos calejadas e rosto carcomido pelas intempéries do tempo, o velho Manoel deu um longo suspiro, olhou-me meio desconfiado, mas querendo desabafar pediu-me que gravasse esta mensagem e a enviasse aos seus filhos, e sem pestanejar, foi logo dizendo:
- Caro amigo, por causa da idade, não quero que meus filhos se preocupem em me visitar todos os dias, ou qualquer dia, somente para cumprir uma obrigação. Quero que eles façam isso quando sentirem realmente saudade, vontade de me ver; quero que façam isso quando sentirem saudades daquele cheirinho de perfume misturado com suor que sempre carreguei e eles sabem que só eu tenho; quero que façam isso quando sentirem falta de um apoio moral, de uma orientação de pai, porque ajuda financeira não mais posso dar, pois já doei a eles tudo que tinha. Quero que sintam falta da forma que meus olhos olhavam pra eles, com aquela expressão de orgulho, amor e carinho.

Hoje, impossibilitado de andar com desenvoltura, por causa da idade e questões de saúde, não quero, se for visitar alguém, que eles venham aqui e me levem com má vontade, de uma casa para outra ou de uma cidade pra outra como se eu fosse um embrulho rotulado com um prazo de validade. Na realidade, o meu querer é ficar aqui, sossegado, neste recanto, curtir os amigos da mesma idade e lembrar-me do cântico dos pássaros, do latido do cão, do cantar do galo no poleiro, do gado pastando a relva molhada ou apreciar a ordenha do gado leiteiro, e se pudesse, usaria as asas da imaginação para voar, ir para bem longe, além de mais além, no entanto, é importante conscientizá-los o quanto eu valorizo as amizades aqui neste abrigo e a liberdade, não só a minha, mas, sobretudo, a de meus filhos e das pessoas que nos cercam e continuou...

- Caro amigo, por causa da idade, quero que meus filhos me olhem e sintam orgulho de mim, de tudo que tentei realizar profissionalmente em prol deles e de toda a minha luta pela sobrevivência e levar a vida com dignidade, conforme os princípios éticos e morais, conforme meus próprios princípios e a minha vontade. Não quero que pensem que fui egoísta a ponto de prejudicar alguém, que alguma vez falhei, ou que eu os amei de menos ou amei de mais, ou que amei um mais que o outro. Eu simplesmente optei: eu quero ser bom pai, bom avô e bisavô; eu quero amá-los muito e se pudesse cuidar de meus netos, bisnetos quando precisassem de mim, é claro que cuidaria com o maior prazer, cuidaria porque sei que em procedendo assim, estaria ajudando-os a se tornarem pessoas de bem, especiais e que este meu ato pudesse fazer a diferença em suas vidas e na vida dos que os cercam, mas hoje, infelizmente, não posso, porque alegaram que não podiam cuidar de mim e aqui me abrigaram.

- Caro amigo, por causa da idade, permita-me dizer-lhe que sinto uma vontade danada de curtir meus netos, bisnetos e mimá-los do meu jeito. Que eles me critiquem se eu exagerar nos carinhos ou que possa discordar de algum castigo dado por eles, talvez pesado demais. Exagero que um dia posso ter feito, então, queria que considerasse este meu ato de mimo apenas como um pedido de perdão e uma prova de amor, amor inconteste de um pai e avô.

- Caro amigo, por causa da idade e dos anos que ainda nem sei se vou emplacar, quero que não sintam pena de mim quando porventura ficar debilitado, estirado num leito e impossibilitado de andar por algum motivo qualquer; quero apenas que olhem para mim e digam: meu pai sempre foi um guerreiro, sempre foi, é forte, possuidor de muita fé em Cristo e cuidou da gente com amor, tornando-nos homens de bem, usando ou não a vara de marmelo.

E por fim, amigo, eu quero que meus queridos filhos, hoje ou amanhã, não se sintam responsáveis por mim, eu lhes tiro dessa obrigação. Eu os solto, eu os libero. Que vivam suas vidas, trilhe seus caminhos, procurem alcançar um status melhor na sociedade, mas jamais se esqueçam de amar as pessoas com as quais convivem. Quero que formem seus filhos, trabalhem, tenham êxito; quero os crie como eu os criei, mas, logicamente, se eles acharem que eu o fiz da melhor maneira. Quero que sejam corajosos, que sonhem muito, sonhem alto. Quero que sejam gentis, retribuam sorrisos, compartilhem bons momentos, cuidem de seus corpos, mas especialmente de suas almas. Jamais duvidem da existência de Jesus e de nosso Criador. Que não se prendam a dogmas, não julgue nada, não condenem ninguém, não acredite em tudo o que lhes disserem, procurem eles mesmos às respostas. Quero que usem o poder de discernimento que há dentro de deles. Mas, finalmente, quero que lembrem sempre disso: Eles podem tudo! O improvável pode até existir, mas o impossível não, então, é necessário que eles creiam piamente nisso. Eu apenas quero que sejam felizes, pois neste Natal, mesmo sem a presença deles neste abrigo, eu serei!




Entrevista com o mosquito.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

No mundo da imaginação ou do universo fantástico das fábulas, tudo aquilo que é contrário à razão, ao paradoxal e ao absurdo é possível e permitido. Quando alguém escreve usando esse estágio de pensamento ele desfigura o homem por completo para compor o enredo, onde o bicho se torna coadjuvante. Ele transforma a pessoa humana em bichos, os bichos em pessoas, fazem peixes voar, pássaros nadarem, cachorros relincharem, cavalo fazer cocoricó, pintinhos latirem, pedras falarem, bichos e homens conversarem entre si... E através da imaginação vão além de seus limites no tempo e no espaço, conhecendo assim um mundo inacreditavelmente real.

Através da sensibilidade da escrita, o escritor tem acesso à linguagem primordial, não somente do homem, mas também dos animais e das árvores. Quando homem solta os pensamentos eles voam sem rumo, carregando uma imaginação conturbada, distorcida, talvez por pertencer a uma sociedade hipócrita, onde não se sabe, quando termina ou começa a vida real, se é que ela existe. Distorcida ou não, a arte literária é uma manifestação de criatividade, de sensibilidade, de discernimento, de solidariedade, de simplicidade, mas não é, de maneira alguma, manifestação de conhecimento e nisso eu acredito e passo a régua.

Se colocar em discussão cientificamente a situação em comento, posso afirmar que a pedra não é um ser vivo e pronto! A água desliza sobre o leito, mas não é um ser vivo e ponto final! O cachorro é um animal irracional e se o homem deixar ela faz cocô na calçada, ponto e sem mais delongas. O homem não limpa a calçada, mas é um animal racional e ponto final! Mas a questão é que estamos falando do mundo imaginário, surreal. Veja o título desta crônica: “Entrevista com o mosquito” E não é um mosquito qualquer como aquele que pousa por cima de nossa comida, infesta os locais onde tem mau cheiro. Vou entrevistar é o chefe-mor dos mosquitos, o Aedes Aegypti, e mostrar que podemos conversar com ele, com os insetos, com as plantas, com as pedras, com as águas, com os ventos... Mas primeiro tive que me fantasiar de mosquito para me sentir mais a vontade. Antes de iniciar a conversa questionei: Por que tantas pessoas se afastam da natureza? Por que tantos tentam destruí-la para poder dominá-la? Não somos seres da natureza tanto quanto uma palmeira onde cantam canários e sabiás? Por que o povo não se une nos bairros para dialogar com esse mosquito transmissor da dengue? Tire-o do local sujo onde habita e lhe dê casa, água limpa e o alimente através de um banco de sangue. Vamos mostrar pra eles que somos ou não somos maiores pelo fato de sermos seres que pensam.

Mas o fato é que, de alguma maneira, esse famigerado inseto de pernas longas e magras já ansiava em ser entrevistado e eu era o cara que ele procurava. Nem repórter era, mas quando vi aquele menino febril na porta do CAIS com suspeita de dengue e não ser atendido pelo médico aceitei o desafio. Eu ou qualquer pessoa jamais podíamos imaginar que ele estava ali, balançado folgadamente no pneu, junto com suas amadas se reproduzindo.

Pois bem, todos sabem que o macho não transmite a famigerada dengue, febre chikungunya e agora tal de Zica vírus que causa microcefalia. Esse insetinho magricela dá suas picadinhas, respira como qualquer animal; ele morre, nasce e é um ser vivo que voa com o vento e brinca de esconde-esconde tendo ou não sol, tendo ou não chuva; reproduz em proporções gigantescas, ou seja, é um inseto de amor eterno, terno até demais com as fêmeas. Estas sim precisam de nosso sangue e transmitem a doença. Mas quem vai dizer isso não sou eu, é o próprio Aedes. Ta tudo combinado! Eu sou apenas um homem que se preocupou com a situação daquele menino, que naquele instante de agonia olhou e pensou, mas o que pensou o mosquito enquanto eu pensava sobre ele? O que estaria pensando naquele pneu enquanto eu descansava à sombra de uma árvore ali perto? O que estaria dizendo enquanto eu fazia um resumo do que ia perguntar. Será que perguntaria sobre sua magreza e impotência de transmissor? Por que deixa para a fêmea o trabalho de picar as pessoas que, infelizmente, não se preocupam em se desfazer do lixo que acumula no lote ao lado ou dentro de seu próprio habitat? Pensei: deixa a vida sexual e pregressa dele pra lá e vamos aos fatos, ou entrevista.

Aproximei-me devagarzinho, com umas anotações e olho no olho eu fiz várias perguntas:

- Há quanto tempo habita neste pneu?
- Tem vários anos, nunca fomos perturbados por qualquer ser humano. De vez em quando passa um carro soltando uma “fumacinha” fedida, mas de tão fraca não alcança nosso habitat.
- Por que o governo não consegue exterminá-los?
- Por mais que tente acho que ele não tem um projeto preventivo para eliminar os criadouros e combater nossas fêmeas transmissoras. A saúde pública brasileira está um caos e o povo não colaboram com a limpeza dos lotes baldios, dos vasos, pneus, garrafas, copos, tampinhas de garrafas, calhas, caixas d’água, piscinas, então, de nada valerá o trabalho da vigilância sanitária e nem apoio do exército. Procriamos até em tampinhas e todos sabem disso! A incompetência do governo e a falta de colaboração do povo, jamais vão conseguir quebrar o ciclo de vidas nossos e eliminar ovos e larvas. O governo está até criando em laboratório mosquitos geneticamente modificado, ou seja, mosquito infértil, mas tudo é forma de abrir um canal para mais corrupção no Brasil. Finalizou dando um sorriso sarcástico e bem bicudo. Fechado o sorriso, perguntei-lhe:

- Quem é aquela fêmea toda desengonçada sobrevoando perto daqueles meninos? 
- É a Dina Russefe. Ela ruim e mente demais! É uma verdadeira sanguessuga. Fala muita baboseira e virou piada na boco do povo. No criadouro dela têm os mosquitos Zenoinos de Castro, “os três em um” e o controlador, apelidado de Vaccari que tentou “picar” alguém importante e se deu mal. Dizem por aí que ele “meteu a mão” na rica mosquitinha Pietrabras, junto com tantos outros e se enrascaram de vez, ficando sem o pré-sal que “salgava” as mãos do pessoal daquele criadouro, que, por sinal, é cheio de melecas e larvas... Essas melecas estão esparramadas também no criadouro chamado de Congresso Nacional e lá quase não sobre ninguém. Tudo contaminado. É sujo falando do mal lavado. Aedes deu mais um sorriso, agora cheio de deboche, e antes de concluir, me perguntou: - Você realmente acha que está conversando comigo, um simples mosquito?

A pergunta me deixou encabulado, mas logo pensei: se sou escritor e viajo no mundo imaginação, então pode tudo. Usei uma resposta vaga como subterfúgio, mas pertinente, para que ele não chamasse sua amada para me aplicar os ferrões. Respondi-lhe que sim, que era sensitivo, que podia ficar tranqüilo e que não ia denunciá-lo para as autoridades sanitárias e nem indicar o local de seu criadouro. Deixei o local pensativo e o fato acontecido, para os leigos, creio que só restarão descobrirem nesta crônica onde estão as metáforas, mas para mim, a imaginação de minha conversa com o mosquito era uma coisa real que ia além da imaginação. Tropos para uma fábula ou um acalanto, desses que invento para orientar, levar minhas congratulações e elogios a todos àqueles que se cuidam, fazem a sua parte no combate a dengue, cuidando de seu lote, de sua saúde e de seus vizinhos.




Regras para pedaladas e impedimento

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Em razão do alvoroço ocorrido nas últimas sessões da Câmara dos Deputados, o jogador Tição, do Esporte Clube Mandruvá, anda dizendo por lá que está com receio de jogar bola, dar suas pedaladas e marcar gol em impedimento. Opto por escrever impedimento porque sou patriota, tenho ojeriza dessa palavra e não sou obrigado a escrever em inglês. Dizem naquela região que em face desse debate nacional a Câmara Municipal da cidade está propensa a criar uma nova regra para o jogador que se encontrar impedido, no caso, ele será apenado com um cartão vermelho, e mais ainda, os edis, que não podem legislar sobre tal assunto, queriam que fosse impresso no bojo do cartão faixas verde e amarela. Coitado do Tição! E não é que danado era membro do PT local! Todo esse alarde não só assustaram o Tição, como também, outros jogadores da região. Como a notícia sempre chega truncada no interior e a maioria não entende que o tal pedido de impedimento tão falado e debatido nas redes sociais, nada mais é que uma punição máxima que um Presidente pode levar no exercício do seu mandato. No entanto, o jogador, seja qual time ou partido for, deveria saber, assim como a Presidente, que essa palavra é o estado de pessoa impedida, por qualquer causa, de cumprir os deveres de seu cargo e no caso do jogador, impedido, marcar um gol de forma irregular, circunstâncias que tornam as ações ilícitas, tanto o seu intento, como ato de improbidade da Presidente de não cumprir as leis, como os de qualquer jogador de futebol, pois o gol fica anulado por irregularidade, ou seja, estava impedido de fazer o gol e pronto! Na lei esportiva, a posição do jogador por trás da linha da zaga do time adversário não lhe permite receber a bola arremessada pelos seus companheiros de equipe.

Com o jogador de futebol pode ocorrer durante o jogo vários impedimentos, e em alguns casos nada acontece e nem é punido pelo árbitro porque não cometeu nenhum ato de indisciplina, mas se reclamar acintosamente pode até levar um cartão amarelo. Ainda bem que para essa situação, na regra atual, o cartão não é vermelho e nem possui estrela. Quanto ao impedimento de um Presidente da República a coisa é mais séria, porque torna-se necessário que ele tenha cometido vários crimes, como os de responsabilidade, que são atos definidos pela Constituição e pela Lei dos Crimes de Responsabilidade, que representam um atentado às principais regras constitucionais e da democracia, como improbidade administrativa, corrupção, malversação do dinheiro público, impedir o direito de voto, receber apoio ou auxiliar País inimigo em guerra contra o Brasil, assim como, deixar de enviar dentro do prazo o Orçamento da União ao Congresso Nacional como fez a Presidente Dilma.

Argumentos são vários em favor do pedido de impedimento de um Presidente. O primeiro argumento para o impedimento são as pedaladas fiscais que caracteriza crime de responsabilidade contra a lei orçamentária. E como se constata a isso? O TCU – Tribunal de Contas da União, órgão fiscalizador, apontou no caso da Presidente Dilma, que o governo atrasou o repasse de dinheiro a bancos federais para o pagamento de subsídios e benefícios de programas sociais feitos por meio da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil e do BNDES. Como os bancos efetivamente realizaram os pagamentos dos programas, o atraso nos repasses proporcionou uma folga no caixa do governo. A prática ficou conhecida como pedaladas fiscais e, segundo o TCU, representa um tipo de "empréstimo" dos bancos ao governo, o que é proibido pela Lei de Responsabilidade Fiscal. O tribunal apontou que foram represados R$ 40 bilhões em 2014 referentes ao seguro-desemprego, programa Minha Casa, Minha Vida, Bolsa Família, Programa de Sustentação do Investimento (PSI) e crédito agrícola. O governo diz que a prática não é ilegal, e que os bancos foram remunerados com juros pelo atraso nos pagamentos. Mas os defensores do pedido de impedimento argumentam que as pedaladas, além de irem contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, configuram crime de responsabilidade contra a Lei Orçamentária, de acordo com o previsto no artigo 10 da lei que define esse tipo de conduta vedada (Lei 1.079/1950).

O segundo argumento ocorreu com a manobra fiscal em 2015, ou seja, no pedido de impedimento recentemente apresentado à Câmara, os juristas Hélio Bicudo e Miguel Reale Junior sustentaram que as pedaladas fiscais continuaram neste ano. O argumento tem por base representação do Ministério Público de Contas que apontou o uso da prática também em 2015, situação que levou à abertura de uma investigação pelo TCU. O Ministro Raimundo Carreiro, que será o relator do processo, determinou que a área técnica da Corte fizesse inspeção no Tesouro Nacional, no Banco Central e no Ministério das Cidades, além de três instituições financeiras controladas pela União (Caixa, BNDES e Banco do Brasil), para confirmar a repetição das irregularidades neste ano.

No terceiro argumento apresentado relataram que a Presidente Dilma foi omissa em relação a irregularidades na Petrobras e o que significa essa situação? Como advogado eu respondo: A Lei de Crimes de Responsabilidade lista entre os delitos contra a probidade na administração a conduta de "não tornar efetiva a responsabilidade dos seus subordinados, quando manifesta em delitos funcionais ou na prática de atos contrários à Constituição". Esse ponto da lei é usado pelos defensores do impedimento para sustentar que a presidente Dilma Rousseff teria sido omissa em relação às irregularidades envolvendo a Petrobras - revelada pela Operação Lava-Jato por não ter afastado do cargo pessoas investigadas pela operação. O ministro Edinho Silva da Secretaria de Comunicação também foi alvo de inquérito no STF e o ministro Aloizio Mercadante, do Ministério da Educação, foi citado em delação pelo dono da UTC, Ricardo Pessoa. Os partidários do pedido de impedimento também argumentam que a presidente Dilma era também presidente do Conselho de Administração da Petrobras quando ocorreu parte dos fatos sob investigação, como a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. De outra parte, a maioria dos juristas entende que a reeleição promove a continuidade da gestão presidencial e que argumentar o contrário seria abrir uma espécie de impunidade relativa às ações do primeiro mandato, situação que caracteriza, de certo modo, a intencionalidade da Presidente de não atender aos reclamos da legislação específica no que tange a não prestação de contas. São mandatos independentes, mas os crimes são continuados, principalmente em se falando de uma eleição fraudulenta e cuja vitória aconteceu sustentada pelas mentiras da Presidente durante a campanha eleitoral, onde, nos debates eleitorais e mensagens televisivas, ela escondia a real situação de sua administração e a do próprio País.


Parcerias fantasiosas num mundo sem escolhas.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Quando se trata de parceria em prol de uma sociedade mais justa, humana, fraterna ou para ajudar as pessoas com as quais convivo, eu não meço esforços, vou além das montanhas porque lá posso receber o sopro do vento, um local aprazível, onde os pássaros não se assustam, a noite é uma mansidão, o sol não queima o rosto e se acanha diante da gente. Se precisar, fantasiosa ou não, vou até a lua, e para iluminar o caminho do povo sofrido faço parceria com ela, como também, com as estrelas que cintilam na redoma celeste, e lá, posso ficar noites inteiras apreciando sem me preocupar em contabilizar as horas. Talvez seja inspiração, amizade, realidade, imaginação, parcialidade, atração, maturidade, penação e serenidade, junções que me levam a ser parceiro até do universo. A união dessas junções de acontecimentos eu relaciono em catálogos, cuja lista final sempre se desponta uma sociedade hipócrita, enquanto minha vida, cheia de sentimentos compostos, causa reações inesperadas, como se fosse uma mistura do que é real e surreal. Nesse mundo paralelo em que vivemos onde nada é tudo e tudo é nada, e do pouco que temos é perto do nada, para mim pode ser muito, mas o muito, diante do meu pouco se torna nada. Então, procuro sair dessa parceria fantasiosa, ir para além de mais além, flutuar, sentir, pensar, refletir. Volto a ser parceiro da monotonia e rotinas de vida que ora vivo, as quais se tornam para mim uma verdadeira festa, é como estar acordado, com os olhos vidrados na luz do firmamento e ouvidos aguçados nos sons que nem sei de onde vêm. Mas, após o fechar de olhos e não mais retornar ao meu mundo, talvez sem escolhas, o meu corpo poderá seguir por caminhos desconhecidos, cujo mistério, ao final, só eu poderei desvendar.

Há tempos, sem ser fantasioso, aprendi a ser parceiro, mas também que ninguém precisava saber por que estava triste ou o que fazia de minha vida. Aprendi, há décadas, seja lá qual era o problema, era minha responsabilidade, pertencia a mim e eu é que tinha que solucionar. Com o passar dos tempos aprendi guardar minhas dores e momentos difíceis só pra mim. E quantas dores e momentos difíceis eu tive. Aprendi também que os melhores textos que escrevia, seja lá qual padrão, saíam sempre dos momentos em que me trancava por dentro e como companhia, apenas o silêncio, a solidão e o barulho dos dedos batendo em cada tecla procurando escrever algo novo que pudesse alcançar o coração do meu povo. Às vezes, abatia tristeza, oriunda de um trabalho mal sucedido. Mas aprendi também à época que ninguém se importava como a gente se encontrava, e como era nosso dia. Aprendi que poucos valorizam o que nós fazemos por elas, e poucos valorizam a nossa companhia. Aprendi a não me importar com pessoas da mesma forma que agem comigo e a não guardar magoas no coração. Aprendi, ah, se aprendi... Aprendi tanto que hoje procuro trazer felicidade em meu sorriso.

Na sociedade consumista em que vivemos é claro que a beleza, em primeiro momento, chama a atenção, mas quando provida da realidade, sem fantasia e possuir qualidades como: a parceria, a amizade, a cumplicidade, o caráter, o companheirismo e a inteligência, são fundamentais para o amadurecimento de qualquer cidadão. Como disse Charles Chaplin: “Uma pessoa pode ter uma infância triste e mesmo assim chegar a ser muito feliz na maturidade... Da mesma forma pode nascer num berço de ouro e sentir-se enjaulada pelo resto da vida.”



Peraltices de um escriba.

sábado, 28 de novembro de 2015

Quando o tempo me sobra ou me sobra tempo, procuro o meu computador instalado naquele quartinho de empregada que transformei em escritório. Na parede, além do antigo retrato de meus pais, pintado a óleo, pendurei todos os diplomas, certificados e títulos recebidos, e neste mês, recebi mais três e o jeito foi procurar um espaço pra eles. Considero todos de grande importância, principalmente o último que recebi na Universidade de Santiago do Chile. Perto deles, e principalmente, quando estou bem desperto, produzo melhor meus escritos e às vezes nem noto que estou em plena selva de concreto e asfalto. Do meu pequeno escritório, no 13.º andar, pode-se ver o pôr do sol e o nascer da lua mesmo com as persianas semi-serradas. Na parede, à esquerda, diplomas de várias entidades e Academias de Letras se destacam e eles são incentivos para continuar escrevendo. Sem pestanejar, vou à janela, livro-me das persianas e a uso como um mirante para visualizar as ruas, prédios e o longínquo horizonte. Encho os olhos de paisagens e na retina, impregno os meus sonhos.

Do alto, vejo um cachorrinho preso a uma fina corda que, inocentemente, deposita os seus restos de lixo na calçada e uma senhora, que deve ser “mãezinha” dele, nem liga, pois a calçada não é a dela e nem mora perto. Eu tive que rir, ri muito daquela situação vexatória e do rosto ruborizado da mulher quando o danado do cãozinho defecou bem mole sobre a calçada. Como ela iria colocar no saquinho de plástico? Senti-me culpado, pois devia ter entrelaçado os dedos para prender o cocô no orifício do bichinho. Ao ver aquela cena meus pensamentos foram e voltaram na velocidade da luz trazendo o meu tempo de criancice. No que tange a aquele cachorrinho é claro que veio à minha mente cenas do passado: cachorros fazendo suas necessidades, e a gente, inocentemente, sem maldade, entrelaçava os dedos indicadores e num repente, os excrementos do animal não fluíam mais, ficavam como que congelados entre o orifício e o espaço. Quanto à lembrança que tive de certo cachorrinho, infelizmente, não tive tempo de entrelaçar os dedos. Sorte dele, mas não da dona. Mas naquele tempo situação como esta aconteceu com uma senhora educada, de fino trato, que apenas ficou observando sorrateiramente o meu ato e nem se importou quando descruzei os dedos e juntos escutamos o gemido do canino e sair do orifício um excremento e “plaft”: o sólido foi atraído pela gravidade e se espatifou no chão.

Do alto, o sol veraneado de uma manhã de domingo me animava a tirar os óculos de grau para captar de modo natural, sem anteparos, o mundo que me rodeava. Esparsas nuvens, raios de sol e um bando de pássaros que brincavam de esconde-esconde nos arvoredos, por isso é que tomei a decisão de descer com a máquina para fotografar a beleza celeste e aqueles pequenos pássaros, mas quando cheguei à calçada, eles não estavam mais lá e o jeito era fotografar os raios de sol que retalhavam os prédios e, com certo cuidado, esgueirei-me pelos muros, sorrateiro, caviloso, dissimulado, para conseguir chegar a uma distância que julguei suficiente para localizar os pássaros e produzir com a máquina uma obra de arte: prédios, raios de sol e os pássaros com seus vôos rasantes.

Quando retornei ao escritório fui conferir as imagens e descobri que em três fotos não tinham os pássaros e nem prédios, e em outras três, apenas uma distinguia duas aves e um prédio, tornado-se um exercício de adivinhação. Descobri que não era um bom fotógrafo. Um caso à parte, mas impediu-me de postar no PC. Ah, para não me descontrolar dentro de minha “caixa de fósforos”, que é meu escritório, e não esquentar a “moringa”, fui até a uma pia e joguei um pouco de água no meu couro cabeludo, depois liguei o ventilador, respirei fundo e disse: As fotos não saíram boas, mas também não pisei em nenhum excremento de animal.

Mas vamos esquecer esses restos de animais que ficam nas calçadas e ao invés de placa no jardim pedindo aos donos para recolher os excrementos, vamos entrelaçar os dedos. Mas, voltemos ao que interessa: o meu pequeno e “aconchegante” escritório. Neste ambiente cercado por uma estante cheia de livros é que componho as minhas escrituras, converso com as pessoas amigas através da internet e escrevo minhas malfadadas crônicas. Sentado diante do computador massageando o teclado até formar um emaranhado de letras, às vezes recolho de meu pensamento que está bem distante algumas frases há tempo impregnadas em meu subconsciente, que me embaralham, mas teimoso, escrevo.

Todavia, o espaço que me reserva o jornal Diário da Manhã é pequeno, mas à vezes, até abuso, como faço neste texto. Então, o jeito é parar de escrever porque não gosto muito de lamúrias e nem vivo ancorado no passado, assim como, não me apoquento e nem me deixo ancorar nos fundos rochosos ou arenosos de minha massa cefálica, caso algum livro ou texto meu não sejam publicados. Escrevo por escrever. Amo escrever e às vezes pergunto a mim mesmo: Onde estão os amigos confrades, acadêmicos que quase não se comunicam? Eu estou aqui dialogando com o mundo, um simples escriba ou aprendiz de escritor, nascido no interior e crescido na periferia da Capital, que andou de pés descalços, camisa surrada, calças curtas, mas, hoje, dotado de uma curiosidade enorme, cheio de esperança e que continua buscando sonhos ilimitados. Posso dizer que me tornei um homem moderno, ajustado, tolerante, sem preconceitos, todavia, diante da parafernália eletrônica, seja em tempo frio ou quente, este acadêmico ou confrade que ora escreve é, como dizem os argutos: sumidouro de memórias, ah, isso realmente sou... Então, caros amigos e amigas, cuidem-se!




 
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