Augusto Matraca e o Reino da Utopia.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Não sei se é minha imaginação criativa ou vivo num mundo que parece não ter existência real, ou qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade. Será que vivo realmente no Reino da Utopia? Parece que sim, pois de repente vejo que tudo vai ficando tão complicado que me assusta. Assusta porque o povo vai perdendo as necessidades; vai reduzindo a bagagem e aí vem à desesperança e a falta de dinheiro nem se fala. Escutamos as opiniões dos outros, mas não combinam com as nossas, são realmente dos outros, e mesmo que seja sobre a gente, não damos a mínima importância. O Reino vai se despedaçando e nós vamos abrindo mão das certezas, pois já não temos certeza de nada. E isso faz falta e muito, principalmente quando paramos de lutar por ele, quando não sabemos o que é certo e o que é errado ou se realmente existe a palavra certa ou errada. Será que é esta vida que cada um escolheu para experimentar neste Reino da utopia ou fantasioso. Todavia, entendemos que tudo o que importa é lutar por dias melhores, vivermos paz, sem medo de expressar a verdade, de lutar por aquilo que sonhamos, de fazer aquilo que é certo e que nos alegra, de realizar tudo aquilo que nos faz bem e que nos deixa feliz.
 
Ao lerem esta crônica peço para não confundirem o nome Augusto Matraca com personagem de um filme brasileiro “A hora e a vez de Augusto Matraga” que passou nas telas de cinema há décadas, ou mesmo com um instrumento de percussão formado por tabuinhas movediças, ou argolas de ferro que, ao serem agitadas, percutem a prancheta em que se acham presas e produzem uma séria de estalos secos; não confundir também com aquela ave passeriforme da família formicarídeos que tem o seu maior habitat nas regiões tropicais. Esta crônica também não foi escrita para falar sobre a matraca, aquele instrumento muito usado na roça para o plantio de sementes, entretanto, esta peça de quem falo foi usado por várias gerações, e hoje, o povo o usa como forma pejorativa e até cômica como meio de separar as pessoas educadas, responsáveis e éticas, das tagarelas, das falantes, mais conhecidas como “matracas”.

A história que vou contar, de forma ficcional parece fantasiosa, utópica, mas foi extraída de fatos reais que pessoas vêem e lêem diariamente nos jornais, rádio e televisão; notícias que mostram e falam de coisas espalhafatosas, escabrosas, horripilantes; notícias que falam de crimes do colarinho branco, seqüestros, pedofilias, assaltos, roubos, malversação do dinheiro público, peculato e ainda, sobre a corrupção generalizada e tantos outros males que infestam o nosso Reino, que, se tivesse que descrevê-los um a um, o editor do jornal teria que me ceder uma página inteira ou duas páginas para concluir esta crônica.

Bem caro leitor, o Augusto, personagem desta história, representa aquelas pessoas que diziam ou se dizem respeitados, venerados, magníficos, magnânimos, os maiores dos maiores... Pessoas que se achavam ou ainda se acham intocáveis e ninguém os deve contrariar ou subjugá-los porque se isso vir a acontecer, esse alguém poderia considerar-se “perdido”... Mas, perdidos estão eles, e sozinhos...

Certo dia, com o sol bastante escaldante no Reino da Utopia, eu adentrei num restaurante central, perto da Casa Legislativa, para degustar uma saborosa pizza quando ouvi um grupo de pequenos agricultores comentando sobre a corrupção que assola o Reino. Falavam também sobre a falta de segurança, a precariedade da saúde pública e tantos outros crimes e mazelas praticadas por autoridades públicas, alguns sequer tinham sido eleitos pelo povo, mas tinham lá seus padrinhos políticos.

Ajeitei uma mesa e fiquei atento naquele debate popular, até certo ponto caloroso, pois notei que tinham opiniões diferentes, todavia, como cronista não poderia passar para o papel os erros de pronúncia daqueles matutos agricultores, então resolvi usar as regras estabelecidas pela gramática normativa que ensina a grafia ou uso correto das palavras e o fiz para que a conversa entre eles ficasse entendível. Então segue parte da prosa:

- Compadre Zeca, eu já não agüento mais ouvir falar em política. Logo de manhã ligo a televisão e só escuto falação, é gente graúda querendo se livrar da prisão iminente, pois dizem que em razão de uma delação premiada e Acordo de Leniência firmada por membros de uma grande empreiteira com a justiça, dizem que quase duzentas autoridades públicas estarão “enroladas” com a dita delação. Vi, não só um, mas vários políticos tentando safar-se de suas próprias falcatruas aprovando na calada da noite uma mudança na Lei Anticorrupção para se beneficiarem, e o pior, é que participaram daquela discussão na Casa de Leis até Ministro do Supremo Tribunal Federal concordando com a alteração da mencionada, cujo ato se aprovado pelo Senado representará ao Reino um retrocesso em relação às conquistas obtidas por toda a sociedade e que vão contra a própria iniciativa popular, cuja propositura foi assinada por mais de dois milhões de pessoas. Logo ele, um Ministro, que devia dar bons exemplos para as novas gerações parecia concordar com as alterações. Na alteração dos dispositivos da lei anticorrupção se destacou o Presidente do Senado, Romão Galheiros, que no mesmo dia da primeira votação tornou-se réu no Supremo Tribunal de nosso Reino. Comenta-se também o alcance dela em relação a um ex-presidente do Reino, Senhor Gula Pietro Brás da Silva, indiciado no processo denominado Operação Lava-Rato, indivíduo que poderia ter se tornado um estadista respeitado e o seu nome gravado de forma honrosa na memória do povo, mas o único legado que deixou foi extremamente negativo: um Reino endividado, empresas falidas e com o patamar de mais de vinte milhões de desempregados e uma inflação galopante. Coisa de louco!

- Compadre, o tal ex-presidente ainda se acha santo e o mais honesto do Reino. Ainda bem que moramos no Reino da Utopia que nada mais é do que uma ideia de civilização ideal, fantástica, imaginária. Um sistema ou plano que parece irrealizável, uma fantasia, um devaneio, uma ilusão, um sonho. O tal ex-presidente quando discursava parecia que o povo é que era o culpado, e hoje, continua acusando todo mundo pela situação caótica em que vive o nosso Reino. Ele esbraveja contra tudo e contra todos, renega os companheiros presos, acusa imprensa, o governo atual e até a própria justiça. Ligo a TV vêm mais notícias... A “coisa” está preta, fora do prumo, compadre Neca! Ontem à noite quando eu voltava do trabalho assisti a um noticiário televisivo apresentado pelo jornalista Jota Luz da Pena onde mostrava assaltos, assassinatos, prisões de traficantes, crimes de pedofilia, mortes de policiais ocorridos em várias partes do Reino, tudo de forma repetitiva e cansativa. Mudo de canal e me aparece o barbudo que vocês todos conhecem, suando igual gambá, falando baboseiras desconexas e um grupinho de gente aplaudindo o discurso de uma pessoa com ares de esclerosada. Passo para outro canal e sabe o que me aparece? Um pica-pau inquieto, enjoado, de voz fina que há tempos vem dando trabalho para o seu dublador, o qual deve sofrer com suas espertezas. - Finalizou.

- É compadre Joaquim, depois de te ouvir chego à conclusão que o nosso Reino está fora do prumo mesmo! Além de tudo isso, tem muito político falando demais, mas tudo pra esconder as suas “maracutaias”. Esses sim são denominados de “matracas” que falam até escumar o canto da boca, não enxerga o próprio umbigo e nada produzem para o nosso Reino. Não apresentam propostas concretas para estabelecer a ordem social, muito pelo contrário... Tem administrador público e ou mesmo políticos que os apóiam não querem que projetos de interesse do povo sejam aprovados no Legislativo, mas se for, tem que ser do jeito que eles planejam, ou seja, desde que em beneficio próprio. Mas ultimamente as carapuças estão se enfiando, mesmo devagar, nas cabeças daqueles que se acham maior que a lei e acima da vontade popular.

- Concordo com você Toninho! Carapuça neles! Muitos desses que já nem ligam em usar a carapuça, continuam aproveitando da pobreza para angariar votos, dando-lhes míseras ajuda, mas esqueceram que todos querem é dignidade, emprego decente para sustentar a família.

- Toninho, você tem razão. Esses caras enganadores têm que ser punidos pela justiça ou serem excluídos através do voto – é a única arma que povo tem. Um dia eles vão cair na real, como já aconteceu com muitos que foram derrotados nas últimas eleições, vão ter que respeitar o povo e não continuarem dizendo de forma acintosa e desrespeitosa: “Estou me lixando para a imprensa e para o que o povo pensa”. Complementou Joaquim.

Enquanto eles discutiam, imagens e situações vividas no mundo político vinham à minha mente e de algum modo ao ver a maneira simples e até caipira de se dialogarem senti que tinham razão. Olhei para o lado, talvez aqueles pequenos agricultores nem tivessem percebido, estava bem pertinho de nós um dos nossos maiores personagens: O Augusto Matraca. Ele fazia parte dos esquemas, era um político astuto, corrupto ao extremo, que se considerava um ser superior, o maior de todos, “manda chuva”, mas, naquele momento estava cabisbaixo, com o olhar absorto, pensativo. Observei que ele se escondia atrás de óculos escuros e um boné enfiado no couro cabeludo, mas ouvia atentamente o bate papo daqueles humildes trabalhadores e ele parecia reconhecer de que havia muita filosofia de vida, conhecimento e discernimento político em seus comentários por mais que o português não fosse pronunciado corretamente.

Com certo receio de ser reconhecido, pediu a conta, pagou com cheque, talvez em formato de bumerangue e saiu de mansinho. Com o semblante preocupado aquele dito personagem, que eu o denominei de Augusto, passou rente à mesa de cabeça baixa e foi fácil observar que naquele momento as palavras dos trabalhadores tinham lhe tocado a consciência e talvez, colocado sobre sua cabeça, uma imensa carapuça, afinal, até pouco tempo detinha o poder, mas, agora, estava ali, sozinho numa mesa de bar, com receio de ser reconhecido ou até ser expulso de lá como vem acontecendo com outros políticos corruptos em restaurantes e aeroportos do Reino. Eu tinha a absoluta certeza de que o que lhe doía e muito era falta de atenção e os despercebidos olhares daqueles que o elegeu, que outrora o bajulava, os quais, muitas vezes, através de suas ações, boas ou ruins, dependiam da falta de escrúpulos e astúcia dele.

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