Amigo leitor (a)

Amigo leitor (a). Quando lemos um livro, ou qualquer texto, publicados ou não, que são sinônimos do prazer, por mais simples que forem, sejam reais ou surreais, nos permite exercitar a nossa memória, ampliar nossos conhecimentos e nos faz sentir as mais diversas emoções, por isso, sensibilizado, agradeço a sua visita ao meu Blog, na esperança de que tenha gostado pelos menos de um ou que alguns tenha tocado o seu coração. Noutros, espero que tenha sido um personagem principal e encontrado alguma história que se identificasse com a sua. PARA ABRIR QUALQUER CRÔNICA OU ARTIGO ABAIXO É SÓ CLICAR SOBRE O TÍTULO OU NA PALAVRA "MAIS INFORMAÇÕES. Abraço,Vanderlan

E o mundo não acabou...

domingo, 30 de dezembro de 2012


Muitos estavam esperando pelo fim do mundo que teoricamente, poderia ter acontecido no dia 21 de dezembro de 2012. Até eu que me encontrava de férias e teria que voltar no dia 21, me deixou confuso e aí perguntei a mim mesmo: será que terei que trabalhar somente até às 11 horas? E como vou receber meu salário se o mundo acabar? E minha conta bancária? O mundo da economia girou em minha mente e enxerguei muitas perdas. Lembrei-me do meu amigo que comprou um carro a prazo. Será que vai ficar livre das prestações? E uma amiga que marcou a data do casamento para o dia 22, será que terá que comemorar sua lua de mel antes do dia 21. E o Papai Noel receberá seu salário no dia 25? E a nossa “semaninha” como ficará? E a chefa, será que vai tirar suas férias em janeiro? E o Breno não vai precisar distribuir processos para a alegria dos Doutores Jorge, Antônio, Joaquim e Isa? É complicado lembrar-se de fim do mundo. Mas está escrito no calendário Maia. Ah, então, quão felizes deveriam estar os presos que iam receber o indulto de Natal e saber que não mais voltariam às celas. Ah, quão felizes deveriam estar os condenados pelo STF que ficariam livres das penas impostas, pois não as cumpririam se o mundo acabasse. Ah, quantas pessoas que ficariam livres das dívidas e hoje choram pela farsa do fim do mundo. Ah, quantas outras situações pessoais, espirituais, amorosas, hipocrisias, seriam resolvidas com o fim do mundo. Felizmente, para essas pessoas, existe uma série de fatores que passaram despercebidos até mesmo pelos olhos mais críticos e céticos do planeta. Uma imagem começou a circular por blogs e redes sociais, mostrando que, se fôssemos levar em consideração o calendário maia, o mundo já teria acabado. Parece que ocorreu um erro de cálculo, não acrescentaram os anos bissextos. Não obstante isso, se você achava que o mundo ia acabar,  bom, provavelmente poderia estar certo.  Afinal, um dia, tudo acaba. E, se não cuidarmos da natureza, se nenhum grande asteroide gigantesco atingir a terra antes, como mostram os filmes, ou se não acabarmos nós mesmos com o planeta em guerras nucleares, ou em alguns milhões de anos o Sol se distanciar da Terra e esfriar, é claro que todos os seres vivos morrerão e não mais existirá vida na Terra. Com ela ficará depois de tudo isso, só Deus sabe.

De acordo com o discutido calendário Maia, o dia 21 de dezembro de 2012 marca o fim de um ciclo de 5.125 anos e está ligado a desastres naturais. Alguns estudiosos afirmam que o encerramento do período pode significar o fim do mundo, com terremotos, tsunamis e enchentes em diversos locais da Terra, mas isto já vem acontecendo há milhares de anos. Em face do tão propalado fim do mundo em 2012, a questão que se colocava é se teria algum fundamento ou não as afirmações de alguns que anunciavam através da mídia, “o juízo final”, o “Apocalipse”, o “Armagedom”, o fim de um ciclo ou o fim de uma era, como quiser chamar. Até eu, preocupado com a devastação e poluição atmosférica, escrevi dois artigos intitulados de “Começo do Apocalipse I e II”, todavia, me baseava nos desastres naturais que a terra vinha e vem sofrendo. Mas falava em começo e não fim. Entendia que, embora alguns não conseguirem voltar atrás nas suas decisões prejudiciais a natureza, o importante é saber que eles ainda têm tempo para consertar o estrago, de tentar um novo começo e delinear um novo fim. Não o fim do mundo anunciado para o dia 21 que levou em conta as crenças de diversas civilizações como os Maias, os Celtas, os Egípcios e profetas como Nostradamus que fizeram alguns chegarem à conclusão de que o fim estava próximo, ou pelo menos o mundo da forma como o conhecemos. 

É certo que já por várias vezes se apontou esta ou aquela data como a do Juízo final. Lembro, por exemplo, da crença quase generalizada de que o mundo iria ou acabar ou sofrer uma enorme transformação quando da entrada em 2000. Ia dar uma pane geral. Pois bem, nada aconteceram, a não ser o aumento da criminalidade aqui e ali, a perda de valores humanos crescentes e os atentados terroristas de 11 de Setembro e de 11 de Março, assim como a da forma desumana e aviltante com que alguns terroristas ceifaram centenas de vidas, denominados de “homens bomba” que nos fazem pensar no quão perigoso é o extremismo religioso e esse ódio exagerado principalmente entre Estados Unidos e o Islamismo. E a criminalidade no Brasil que é estarrecedora?

Voltemos ao assunto em pauta. Afinal o que aconteceu no dia 21 de dezembro de 2012?  Nada. Não é curioso que civilizações tão distintas, separadas cultural e geograficamente, apontem no mesmo sentido?  Sabemos, e isso é certo, que nunca vivemos tão graves crises como vivemos agora quer políticas, quer econômicas, naturais ou ambientais. Se pararmos para pensar facilmente dará conta que estamos perto da insustentabilidade. Dia após dia os recursos naturais se esgotam. Realmente, nada aconteceu nada no dia 21, tampouco sei que não acontecerá de fato alguma coisa, mas sei que é urgente uma transformação da mentalidade humana. Talvez o mundo que achavam que ia acabar se torne um exemplo de superação de ânimo e seja injetada no mundo uma nova tomada de consciência.

...eram apenas gestos refletidos na parede.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012


Preguiçosamente apertei a frouxa lâmpada do abajur que perscrutava as sombras dos gestos refletidos nas paredes, mais parecendo seres vivos extraídos de um filme de animação, mais vivos do que jamais refletira. O velho abajur geralmente iluminava debilmente o quarto fazendo a luz branda tornar todos os meus gestos romanticamente surreais. Todavia, de repente, a luz que a muito não acendia tão intensamente, surpreendeu-me com seu poder de claridade. Alguém deve ter substituído à lâmpada de 30 wolts. Os movimentos sombreados na parede começaram a acontecer como a um desenho animado filmado em câmera lenta e em formato de preto e branco. A ação refletida na parede era febril e frenética, mas também estática, bastava ficar quieto. Os gestos de minhas idas e vindas retesavam-se na branca parede do quarto e lutavam para se libertar de um corpo estranho que se movia de um lado para outro e insistia em não liberar meus gestos embutidos naquela cena surreal, mas, fortificados com a presença da luz escaparam do peso daquelas sombras e rejuvenesceu o meu coração que de tanto lutar já gesticulava incólume.

A luz brilhou mais forte e pensei que nunca acabaria. Olhei para um canto vi a cama e berço vazios e sobre a cama e abraçada a um travesseiro, faltava alguém. Com os olhos ainda travados pelo sono, cabelos desalinhados, mãos calejadas de lida rotineira fiquei pasmo e uma saudade abateu-me sobre o peito. Faltava realmente alguém naquele espaço, alguém que ajudou a curar as minhas dores e feridas. Alguém que não reclamava de nada, nem das dores desconfortantes dos seus pés ou dos joelhos, pernas e braços esfoladas de quedas e estripulias que a própria vida gerou Alguém que naquela noite inusitada não pode ver seu rosto ser iluminado pela nova e potente lâmpada do abajur. Esse alguém que se estivesse ali tenho certeza de que a luz mostraria na sua face o dom de me devolver à calma que a vida tantas vezes insistiu em me roubar. Cenas surreais de gestos realmente inusitados refletidos na parede que somente eu tive o privilégio de assistir: um corpo de mulher em movimento coberto por um lençol cheio de contrastes e cores, amparado por um travesseiro de espumas macias que protegia a imagem de uma guerreira. Só podia ser surreal, pois há dias não acendia aquele velho abajur e jamais pensava assistir cenas tão preciosas que minha mente não esquecera e jamais esquecerá. Mas, a saudade é difícil de imaginar mesmo quando se vê apenas gestos. É uma coisa estranha que toma conta da gente, chega sem pedir licença e acontece quando menos imaginamos: saudade do seu cheiro, de uma melodia que curtimos, que nos trás boas recordações, saudade de uma simples palavra, de uma manifestação de amor; saudade daquelas imagens que foram acopladas cotidianamente na região recôndita de meu cérebro, mas, eis que a máquina do tempo surgiu me envolveu e convidou-me a voltar a ser criança. A mulher que se gesticulava nas sombras refletidas na parede soube costurar a vida usando a linha da verdade para que os filhos pudessem construir suas vidas com sobriedade. Alguém que deixou a saudade invadir o meu peito e se transformou numa ponte de concreto e me fez retornar a mim mesmo; uma travessia moldurada de sabedoria, sem empecilhos, onde se vê bordada uma identidade muitas vezes esquecida, perdida na pressa que me levou ou me que deixa levar. Ao olhar para os gestos e falar em saudade dela é dizer o óbvio, é devolução, é ato que restitui o que se parte; é luz que sinaliza o local de nosso porto seguro, é voz mansa no ouvido que nos acalma nas madrugadas de desespero e solidão.  Mas, naquela noite, ao acender a lâmpada do abajur e ver aquelas cenas refletidas na parede não me restou alternativa senão em finalizar este artigo em uma única frase: O poeta tem diante de si vários sentimentos: o real, o palpável, o prático, o surreal, o imaginário, visões fantasiosas, e quando escreve, muitas vezes objetiva levar ao leitor uma mensagem de amor, esperança, fé, e intencionalmente, deixa de dedilhar o teclado do computador e o substitui pela caneta-tinteiro injetando nela a ruborizada tinta de um coração ferido pelo tempo no afã de aferir a sensibilidade de cada um, mormente quando virem perscrutadas as sombras de sua amada e suas refletidas na parede.

Feliz Natal e Próspero Ano Novo.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

video

São os votos de Vanderlan Domingos e Família.




O Carapina e o Pica-Pau

terça-feira, 11 de dezembro de 2012


Torquato era uma pessoa afável, inquieto, criativo, e extremamente curioso. Não tinha dificuldades para se concentrar. Gostava de compartilhar tudo com os outros e não conseguia guardar suas ideias só para si. Começava a tagarelar e nem se importava quem era o ouvinte. De bom astral, parecia querer competir com um inquieto e barulhento pica-pau que vivia circundando a sua carpintaria, o qual, de vez em quando, tentava com seu bico afiado furar as madeiras que ficavam amontoadas no canto do galpão. Torquato era tão tagarelo que exagerava. Tentava colocar sua vida numa realidade que não existia. As palavras que saíam de sua boca eram levadas pelo vento, sem nenhum sentido. Dizia o indizível e não conseguia controlá-las. Falava tanto que até escumava o canto da boca. 

Com exceção a de ser tagarelo, na sua vida não havia excesso e consagrava-a a Deus. Durante muitos anos trabalhou com afinco na sua carpintaria; beneficiava a madeira com paciência, cortava-a e lavrava em peças com esmero, e a maioria era utilizada nas coberturas, soalhos e forros. Era costume, antes de manusear a madeira, ler a Bíblia e louvar ao Senhor. Fazia orações todos os dias, mas apesar de toda essa dedicação nada parecia dar certo em sua vida e a situação financeira aumentava a cada dia. Mas, numa bela tarde, o pica-pau sobrevoou o galpão, desta vez assentou-se comportadamente sobre um pedaço de madeira e com os olhos lânguidos, parecia se compadecer da situação difícil daquele carapina. Torquato ficou observando o bichinho imponente de topete vermelho e achou estranha a quietude daquele pássaro, justamente depois de uma estilingada que lhe dera ao amanhecer para se livrar do barulho que fazia no quintal. Como resolvera se tornar um homem temente a Deus não o molestou, mas, continuou observando.  Aquela pequena ave parecia admirá-lo, queria ajudá-lo e fortalecer sua fé, mas apesar de ser um bom profissional e crer no mundo espiritual até aquele dia não sentira uma melhora financeira, vivia de minguados serviços.

Torquato ficou observando atentamente e a ave permanecia quieta. De repente levantou outro voo e acomodou-se sobre uma linda cruz de madeira. Queria lhe chamar a atenção, dar-lhe um sinal que estranhamente parecia moldar-se sobre a cruz. Procurando entender o que estava acontecendo abriu novamente a Bíblia que estava sobre uma mesinha e leu o primeiro texto que apareceu diante de seus olhos. Compassadamente foi absorvendo cada palavra e aí começou a compreender que Deus tem propósitos para tudo e que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que o ama. E Torquato desconfiou que aquela ave estivesse sendo usada para lhe trazer uma mensagem e passou a olhá-la com admiração, não a molestou e assim ela permanecia firme. Então, vendo a oportunidade começou a conversar com o pica-pau: “Amigo você deve ter vindo de um reino encantado e sempre o recebi nesta oficina com muita raiva, talvez pelo barulho que você faz, mas hoje, dou a mão à palmatória e até entendo que queiras me imitar, pois de certo modo, trabalhamos com madeira. Perdoa-me, haja vista que, sem piedade, lhe atirava pedras com aquele estilingue, talvez até não desejando, ato que me doía o coração. Hoje passei a entender que a oficina inteira era só barulho e comparativamente ao seu, é insignificante. Mas, hoje quero mudar meu comportamento, fechar a boca e construir uma nova vida, pois você me fez ver isso e para mim já é suficiente.”.

Torquato, pela primeira vez deu uma pausa, pensou e concluiu: “Sei que Deus está me colocando no fogo das aflições. Então, vou procurar aceitar as “bicadas” que a vida me dá. Às vezes sinto-me tão frio e insensível como o pó ou a lasca que sai da madeira. Não é fácil, mas a única coisa que peço a Deus é que não desista até que eu seja o que Ele espera de mim. Que leve o tempo que precisar, mas jamais quero ser um lixo como aquela serragem, ou as migalhas de ferros retorcidos e restos de madeira que só servirão para ser derretidos em fornos ou queimadas num fogão de lenha”.

Cabisbaixo, abriu novamente a Bíblica e leu em voz alta para que a pequena ave ouvisse e até servisse como um pedido de perdão: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.” (Coríntios 12.9:10). Nem bem terminou de fazer a leitura uma antiga cliente adentrou ao galpão, encomendando-lhe muitos móveis rústicos e peças ornamentais dizendo que sempre elogiou seu belo trabalho de carapina aos amigos. O pica-pau ao ouvir ficou em júbilo, bicou suavemente a cruz três vezes e levantou um voo rasante atravessando o quadriculado da janela. Em poucos segundos desapareceu no horizonte e a partir daquele dia a clientela de Torquato se multiplicou.

Elesbão, o jardineiro de Deus.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012


Elesbão sempre teve uma vontade danada de ser jardineiro. Desde pequeno gostava de trabalhar com a terra. Era um exímio oleiro e construtor. Fazia tijolinhos usando o quadriculado das caixinhas de fósforos, construía pequenos castelos com jardins floridos; afundava as mãos no barro, nem sentia a meleca que vinha da terra e nem o calor causticante do sol que lhe queimava as costas franzinas. Quando o tempo era frio, sentia os dedos adormecerem, mas, mesmo assim, se inebriava com os cheiros vindos dos quintais e contemplava cada estação do ano como se fossem uma só, e o mesmo fazia em relação ao sol e a chuva, enquanto o pai lançava sementes no jardim. Regava-as nas horas apropriadas. Ele conversava com as plantas, suas mãos eram pura magia e bastava encostar os dedos para elas nascerem vistosas. E pacientemente esperava a lenta maturação da vida... E cultivar flores era seu sonho. E Elesbão, com os olhos vidrados no trabalho, com os dedos em riste apontava para o seu pai e dizia: Um dia serei jardineiro como o senhor e para o Senhor!

Sem dúvida que ele seria um bom jardineiro, nascera e crescera ajudando a manusear aquele imenso jardim. Suas mãos sabiam massagear o barro e separar a terra preta, boa para o plantio. Sabia admirar as plantas que se erguiam do solo e produziam botões que se abriam em pétalas de diferentes cores e tonalidades, mas, também, entendia que se não fossem regadas diariamente, murchariam, secariam e os caules dobrariam sobre a grama inerte. Como bom observador sentia a voluptuosidade com que elas buscavam o céu azul, a luz solar e o ar livre, e depois, se não regadas, curvariam encarquilhadas sobre o chão, morreriam e cairiam no esquecimento. Mas, mesmo assim, deixariam sobre a terra as sementes, que cedo ou tarde, haveriam de romper a superfície e se reerguerem para a vida.

Mas, o pai de Elesbão, o cultivador de flores, lhe transmitia outros segredos. Sabia que cada uma delas era única, incomparável e insubstituível. Inútil perguntar a ele qual a mais bonita, a mais sedutora, a mais cheirosa. Todas o são, embora distintas. Ou melhor, todas são belas justamente porque distintas! É a diversidade de formas e aromas, cores e tons que torna encantado o jardim e o senhor do jardim sabe, ainda, que cultivar flores não é tomar posse delas. Aprende-se que somente há de colher as flores que cultiva com o toque mágico de suas mãos, rudes e ternas a um só tempo. O bom jardineiro rega com as lágrimas, colhe com o olhar, acalenta-as com a voz, com o deslumbramento da alma, pois, prendê-las, simplesmente seria uma forma de condená-las à morte.

Unidas ao sorriso de Elesbão diante de seu pequeno castelo, ao monte de terra boa, fertilizada, ao murmúrio ou ao rugido da água, à luz longínqua das estrelas, ao sol e a lua que chegam ou que partem ao olhar de quem ama ou à lágrima de quem ainda é capaz de chorar, aos corações sedentos de justiça ou às mãos que combatem pelos direitos humanos - as flores integram a grande orquestra da criação. Instrumentos distintos, que tocam notas diferentes, mas exprimem a beleza de uma sinfonia comum.

Elesbão realmente cresceu junto a aquele jardim. Ajudou a plantar, zelou e viu flores crescerem, murcharem, secarem-se. Mas, certo dia ao enfiar as mãos debaixo de um feixe de galhos podados já ressequidos de um roseiral foi picado por uma cascavel. Estava só naquele instante, não foi socorrido e nem houve tempo de lhe aplicar o antídoto. Quedou-se diante do mundo colorido em que vivia, morrendo no limiar daquele dia. De repente, como por encanto, sentiu seu corpo subir ao céu e diminutamente via as flores desaparecendo diante dos seus olhos e nem compreendia o que estava acontecendo. Montou num cavalo alado e este começou a galopar sobre as nuvens brancas e uma paz incomum abateu-lhe sobre o peito, enquanto o céu escurecia e milhares de meteoritos passavam como que querendo saudá-lo naquele espaço sem fim. Um túnel iluminado em forma de cone se abriu e logo desceu sobre um imenso jardim cheio de flores variadas. Ao tocá-las com as mãos sentia que elas nem precisavam de jardineiro e um sorriso alargou em seu rosto e o seu coração ficou em júbilo. Ainda atônito, percebeu alguma coisa à sua frente, alguém sentado numa pequena nuvem branca, cercado de uma luminosidade que lhe ofuscava olhos. Era a oportunidade de perguntar e saber quem era o dono daquele lugar aprazível, encantador. Nem foi preciso. Uma voz branda, que lhe causou arrepios, disse-lhe: Elesbão meu filho, a partir de hoje você cuidarás do paraíso! A única palavra que saiu de sua boca foi: Sim Senhor! E logo apareceu do lado direito um imenso castelo, o mesmo que construíra usando pequenos tijolinhos feitos de caixinhas de fósforos. 

Na sua simplicidade, nem poderia entender que a sua frente estava à imagem de Deus. O trono de nuvens era apenas o retrato humanizado do pensamento de uma época que Elesbão sequer chegou a conhecer, pois sempre vivera tomando conta de um jardim, fato que faço questão de citar neste artigo para que cada um leve em conta e faça uma reflexão mais profunda sobre o nosso Pai celestial. Ele é o amor infinito, a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas, é aquele que não tem começo nem fim, e não pode ser conhecido através dos esforços intelectuais de uma mente humana que, por mais avançada ou capaz que for, está sujeita a limitações. Deus, portanto, é uma força que não pode ser analisada ou mensurada, só podendo ser sentida e contemplada através daqueles que têm coração puro. 

Como parte final, quero sublinhar, talvez em forma de parábolas, a lição deixada por Elesbão: plante, regue e cuide de sua da flor, porque é bela, fugaz e frágil, porque ela é como a luz que brilha e se apaga, porque ela é como a noite ou o dia, que se revela e se esconde, porque ela é como as estrelas que aparecem e desaparecem com o nascer e o pôr do sol, porque elas à noite se acendem para tirar o medo que ela tem da escuridão, ou ela é como você que se oculta para estimular a busca e nutrir um amor fiel e persistente como o deixado por Elesbão, o jardineiro de Deus.

 
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